do Ultimato Online:

As histórias da criação nas Escrituras destacam a criação da humanidade. De todas as criaturas ela se destaca como criada “à imagem e à semelhança de Deus” (Gênesis 1.26-28) que é outra maneira de dizer “segundo a espécie” (oito vezes em Gênesis 1.11-25), no caso, a “espécie divina”. Nos primeiros dois capítulos de Gênesis, Deus se descreve explicitamente como criador, mas ao lermos com um pouco mais de cuidado as entrelinhas, Deus também aparece como dominador criando “reinados” em cada um dos primeiros três dias, “reis e rainhas” sobre estes mesmos domínios nos próximos três dias para finalmente descansar – a postura de um rei no seu trono – no sétimo dia. Finalmente, se Deus é o criador de toda a criação, ele está presente em todo lugar.

Estas três qualidades divinas (obviamente estas não esgotam os seus atributos) – dominação, criação e presença – também caracterizam a humanidade, mesmo em menor escala. O ser humano é incumbido de dominar a terra e o mundo animal (1.28) o que, por sua vez, necessita do poder criativo para a domesticação dos animais (a pecuária) e da terra (agricultura). Assim nasce a tecnologia mais antiga, característica necessária do ser humano criado à imagem e à semelhança de Deus e o que mais o distingue do resto da criação animal. Para cumprir a sua tarefa, obviamente o ser humano precisa estar presente. Por isso, a ordem de se multiplicar e ser fecundo, diferente de Deus que sem a limitação do corpo físico criado, está presente em todo lugar.

De outro jeito, a característica de criador aparece no segundo relato da criação em Gênesis 2. Lá, a incumbência humana se descreve como a de “cultivar” e “guardar a terra” (o jardim do Éden, v.15). Este relato define mais a incumbência humana de dominar, do capítulo anterior, e que gerou a tecnologia. Ou seja, a dominação visa o bem da terra, não é uma exploração depredadora. A tecnologia surge como característica (extensão) humana, nem tanto para seu próprio benefício apenas, e sim para o bem-estar do planeta, do qual, claro, a humanidade faz parte. Um pouco mais adiante em Gênesis 2, a humanidade recebe a tarefa de “dar nome” para as diversas partes da criação (v.15)… O que ajuda, mais uma vez, a qualificar a incumbência de dominar ou sujeitar. Ou seja, ao nomear cada parte da criação, o ser humano precisa conhecer e distinguir as partes. Nasce a ciência, pelo menos o primeiro passo da ciência, a taxonomia.

Outro detalhe de suma importância: tais “tarefas” de multiplicar-se, de dominar e sujeitar, de cultivar e guardar, e de nomear, ocorrem dentro do contexto explícito da bondade essencial da criação. O primeiro capítulo de Gênesis declara cinco vezes que o que Deus criou, Ele criou como sendo “bom”, e realça mais adiante que era “muito bom” (1.31). Assim, não é difícil deduzir que a ciência nascente pressupõe nem tanto a utilidade da criação e, por derivação, da tecnologia. Mas sim, pressupõe e sua beneficência. A tecnologia que devassa e dizima espécies, cada uma com o seu devido papel, está na contramão da intenção de Deus. Mas antes de prosseguir mais, vamos definir um pouco mais o que é a tecnologia.

A antropologia nos ensina que a parte da cultura que chamamos de “tecnologia” se compõe de ferramentas e de técnicas. As ferramentas são os objetos que criamos para estender a capacidade do corpo, por exemplo, de se locomover, se alimentar, se proteger, comunicar e se defender. As técnicas são as maneiras que maximizamos o uso destes objetos. Com o tempo e a aprendizagem a tecnologia se desenvolve em termos de eficiência, complexidade e grau de controle. Dito desta forma, é fácil entender que a tecnologia essencialmente é neutra. Entretanto, como já aludimos, o seu propósito biblicamente intencionado, é benéfica. Ela deverá auxiliar o ser humano a cumprir a sua tarefa de cuidar e ordenar a criação de Deus.

O problema é que os relatos da criação também nos contam do fracasso humano – a queda. E assim, as características humanas que refletem a própria imagem de Deus, inclusive a tecnologia, são tingidas. A tecnologia começa a se desenvolver (Gênesis 4.20-22) e logo aprendemos novamente que, mesmo em meio ao crescimento da maldade, o seu propósito era de guardar e cuidar toda a criação de Deus (Gênesis 6.14-16). Neste contexto, Deus estabelece com a nova humanidade de Noé a mesma incumbência estabelecida anteriormente com Adão: de popular e cuidar da sua criação. E como Noé executou esta incumbência? Pela tecnologia, no caso, a agricultura (Gênesis 7.20). E mais adiante a tecnologia se desenvolve mais, na área da caça (Gênesis 10.7) e da engenharia civil (Gênesis 10.11 e cap. 11). Vimos que a tecnologia é usada tanto para cumprir a tarefa de ocupar a terra (Gênesis 10.11) quanto para o auto engrandecimento (Gênesis 11).

E é assim que entendemos a tecnologia hoje. Como uma extensão da capacidade humana ela pode ser aliada tanto ao seu propósito maior de cuidar da criação rumo à nova criação, ou pode ser aliada aos valores humanos mais baixos de exploração, opressão, depredação e a injustiça.

Versão ampliada do artigo “A Reconciliação em Cristo – da Criação”, oferecido na edição #369 da revista Ultimato.

“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19 [NA17).

Antecipando a celebração de 50 anos da revista Ultimato em 2018 é apropriado refletir sobre o lema da revista que se encontra ao lado da sua logomarca: “Deus, em Cristo, reconciliando todas as coisas”. A frase faz parte da afirmação do apóstolo Paulo em 2 Coríntios 5:17-21. Vem do versículo 19. Esta é uma frase, como muitas outras no Novo Testamento, que resumem bem o papel de Cristo Jesus no cumprimento do projeto de Deus. Entre as mais conhecidas são João 3.16, Romanos 3.21-26 e Colossenses 1.13- 23. Estas passagens e ainda mais outras são fundamentais para o trabalho evangelístico e missionário.

Entretanto, a sua abrangência geralmente ou ignorada, ou subestimada, ou mal-entendida.

Isto por um lado é natural porque nós temos a tendência de ler as Escrituras pensando só em nós. Afinal de contas, as escrituras foram escritas para seres humanos.  Além disto, No Ocidente, onde a cultura é bastante individualista, imaginamos que as Escrituras são escritas simplesmente para MIM. E isso, mesmo que esteja escrito claramente que os destinatários de muitos dos livros da Bíblia são uma comunidade.  Portanto, o leitor normal no Ocidente lê a Bíblia procurando alguma orientação pessoal: alguma palavra de encorajamento, alguma exortação, ou algum conselho para resolver um problema pessoal. E é por isso que no Ocidente também somos menos propensos de ver as implicações sociais na mensagem da Bíblia mesmo quando estás são muito patentes. Por exemplo, Jesus falou que devemos amar o nosso Deus com tudo que somos e o nosso próximo como a nós mesmos. Entretanto, enquanto entendemos bem a importância da devoção espiritual a Deus, a nossa responsabilidade social permanece estranhamente um assunto controvertido no meio evangélico.

E se for difícil entender as implicações sociais do evangelho, mais difícil ainda entender suas implicações para a criação toda. Este é o assunto nossa passagem em 2 Coríntios, dentro do seu contexto imediato, dentro do contexto maior da perspectiva de Paulo, e dentro das Escrituras de modo geral. Veremos a seguir cada um destes três contextos para depois considerar a nossa parte—a nossa parte individualmente como discípulos de Cristo, nossa parte como povo de Deus, através das suas diversas expressões como igrejas e organizações missionárias como a Revista Ultimato.

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Quando se fala de “missões”, um dos problemas mais complexos, um verdadeiro quebra-cabeça para jovens que estão considerando um ministério transcultural é a questão de um chamamento missionário. Neste capítulo trataremos da necessidade e da natureza de tal chamamento, distinguiremos entre o chamamento e a direção de Deus e ainda daremos algumas sugestões de como receber este chamamento.

Primeiro, vale a pena logo advertir sobre duas posições extremas. Por um lado, alguns insistem que há um chamamento sobrenatural como o que Paulo experimentou para ir à Macedônia (At 16.9-10) e que este é o padrão para todo chamamento missionário. Geralmente se pensa em vozes, visões e acontecimentos misteriosos através dos quais Deus fala audivelmente. Outros alegam que não há nenhum tipo de chamamento exigido, já que a tarefa missionária cabe a todos os cristãos. Parecem duas posições extremamente contrárias. E para complicar mais, as duas demonstram um pouco a perspectiva bíblica, mas nenhuma a revela totalmente. Podemos desemaranhar esta questão? Continue lendo →

Data: 3/3/1527

Querido Senhor e Deus,
protege bondosamente os frutos nos campos e nas hortas.

Purifica o ar.

Dá chuva e bom tempo quando convém.

Permite que os frutos sejam bons.

Não deixa que sejam envenenados,
para que nós e os animais não fiquemos doentes,
nem soframos qualquer mal.

Muitas de nossas desgraças são causadas pelo ar envenenado
e, em consequência, os frutos, o vinho e o cereal estão contaminados.

Se deixares isto acontecer,
teremos que comer a nossa morte em nossos produtos e bebê-la.

Por isso, permite que os frutos sejam abençoados,
que cresçam para a nossa saúde e bem-estar.

Cuida para que não abusemos deles,
colocando a vida em perigo
ou provocando injustiça, voracidade ou malandragem.

Pois daí resultam falta de moderação, adultério, briga,
assassinato, guerra e muitas outras desgraças.

Muito antes concede-nos a graça,
para que usemos tuas dádivas em favor da melhoria de nossa vida,
para que os frutos mantenham nossa saúde,
e para que nós os usemos de maneira responsável diante de ti.

Amém.

(encaminhada pelo Pastor Werner Fuchs)

Nos últimos dois ou três anos o tema da vocação missionária voltou a ser bastante ventilado. Nunca ficou muito distante da preocupação e preparo missionários, mas o assunto recebe bem mais destaque recentemente. Em muitos dos estudos e palestras uma vocação “geral” é distinguida de uma “específica”, e por boas razões. Na ufania do desafio missionário pode se interessar muito mais em saber onde se deve “ir” (denominado frequentemente como “vocação específica”, mas que considero melhor denominado como “direção específica”) do que como se deve se conformar à imagem de Cristo e refletir as características de Cristo na própria vida (“vocação geral”). A distinção entre “geral” e “específica” trata disto e assim faz muito bem. Entretanto, há mais duas questões envolvidas no assunto da vocação que não recebem a atenção que merecem: primeiro, o lugar da “nossa” vocação dentro da vocação de Deus, e segundo, o desenvolvimento da nossa vocação ao longo da vida. Vamos considerar cada uma destas duas questões, a primeira nesta reflexão e a segunda posteriormente… Continue lendo →