Por Jénerson Alves

Eu agradeço demais
Que a vida não me atrasa,
Por viver na mesma casa
Onde moraram meus pais.
Não tenho fogão a gás,
É de lenha o meu fogão,
E as chamas na brasa dão
À comida mais sabor
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.
 

Sou grato a Deus por falar
Nordestinês genuíno,
Que pixote é pequeninno,
Dar pra frente é desarnar,
Dar massada é demorar,
Repreender, dar carão,
Palavras que não estão
Na gramática do doutor
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.
Eu sou grato o tempo inteiro
Por conhecer uma matuta
Que para provar da ‘fruta’
Tive de casar primeiro.
É todo ano um herdeiro
Que vem desta relação,
Não penso em separação,
Pois só aumenta o amor.
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Eu ainda me derreto
Ouvindo som de viola,
Ao invés de Coca-cola
Tomo chá ou café preto.
Meu cinema é um folheto
De João Grilo ou do Pavão,
Sem anime do Japão
Nem filme de Vingador.
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Eu sei que a ciência trouxe
Cura, remédio e vacina,
Mas prefiro a medicina
Que na natura formou-se.
Eu tomo chá de erva doce
Que faz bem à digestão,
E o de folha de mamão
Elimina até tumor!
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Sou grato pela igrejinha
Com quatro bancos mofados
E os irmãos desafinados
Cantavam a noite todinha.
Aquela igreja não tinha
Programa em televisão,
Mas quem pregasse um sermão
Falava no Salvador
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Glorifico o Pai Eterno
Com cordel e com cantiga,
Mas quando a seca castiga
E eu quase me desgoverno,
Do Céu, Deus manda o inverno
E as nuvens, cor de algodão,
Curam as feridas do chão
E a minha fé no Senhor.
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

De TV nunca fui fã,
Celular nem notebook,
Não ligo pra Facebook,
WhatsApp ou Instagram.
Mas vejo o Sol da manhã
Raiando na imensidão
E a selfie da perfeição
No desabrochar da flor.
Agradeço ao Criador
Por ser filho do Sertão.

 

• Jénerson Alves é jornalista, membro da Igreja Batista Emanuel em Caruaru (PE) e presidente da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel (ACLC).

  1. Antonia Leonora van der Meer

    Linda poesia de cordel, que mostra a beleza e a poesia da vida simples do sertão. Que Deus continue abençoando nosso bravo povo sertanejo.

    Tonica

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