Por Elsie Gilbert

Priscila mora na Ilha Grande (RJ) e é professora da escolinha da Praia Longa, uma escolinha que tem ao todo 23 alunos distribuídos em duas salas de aula. Uma sala acolhe crianças do maternal até o primeiro ano, e a outra do segundo ao quinto ano. Há alguns anos, ela estava sozinha na escola, responsável por tudo. Começou então a orar e jejuar, pedindo ao Senhor que enviasse ajuda, e mais, que a pessoa escolhida por ele, fosse também temente a Deus.

2016.02.29_Angra_dos_Reis_X-E2-2 (1)Suelen foi a pessoa escolhida. Todos os dias, ela e sua filha percorrem o trajeto que começa no bairro onde moram em Angra dos Reis até o cais, e de lá, de barco até a Praia Longa, na Ilha Grande, Angra dos Reis. O trabalho que realizam com as crianças (em geral, filhos de pescadores e pessoal envolvido nos serviços básicos do turismo local) é feito com profissionalismo e dedicação, mas acima de tudo com muito temor e confiança em Deus. Elas estão muito conscientes dos perigos que rondam as crianças, tanto os naturais como os relacionados à violência da exploração sexual presente na ilha por ser destino turístico muito procurado. Pensando nisto, querem se mobilizar para fazer uma segunda edição da Campanha de Vacinação1 antes do início das Olimpíadas, em agosto próximo.

Mulheres como Suelen e Priscila são pequeninas porque se fazem pequeninas como as crianças a quem buscam servir. Mas também são grandiosas porque conseguem ver além da vulnerabilidade de cada criança. Preferem focar na beleza e maravilha de cada ser, tecido pela própria mão de Deus, dotado de uma missão, conhecido por Ele em todos os detalhes de sua história. E é por isto que conseguem ver num menino, não o filho do alcóolatra mais arruaçeiro da praia, mas o próximo líder comunitário altruísta, capacitado e pronto para exercer sua liderança inata para o bem estar de todos.

Tenho o privilégio de conhecer muitas destas mulheres e de conviver de perto com elas. Costumo dizer para elas que, ao contrário de mim, vejo nelas tamanha confiança em Deus que quando acolher o sofrimento das pessoas se faz necessário, elas se dispõem a preencher esta brecha. Confesso que minha tolerância em relação ao sofrimento alheio é baixa. E, no entanto, para ser Jesus na vida das crianças, é preciso saber chorar com elas.

Em celebração ao Dia da Mulher de 2016 resolvi criar a minha própria lista de heroínas: três heroínas mundiais, que mudaram a história a despeito de suas circunstâncias e três com as quais me relaciono hoje. Meu principal critério: elas souberam chorar com as crianças e agir em seu favor.

 

DE LONGE:

Gladys Aylward

Gladys Aylward

Gladys Aylward, escocesa, (1902 – 1970) foi uma empregada doméstica com um chamado missionário. Aos 30 anos, após ser rejeitada pela agência missionária inglesa, China Inland Mission, e após muitos anos poupando seus recursos, ela conseguiu uma posição como empregada de uma missionária idosa que já trabalhava na China. Lá, as duas começaram uma pousada e após a morte da missionária mais velha, um orfanato. Em 1936, ela foi forçada a fugir dos japoneses que invadiam a China, de Yangchen com mais ou menos 100 crianças, a pé, pelas montanhas, numa jornada que durou 27 dias percorrendo 160 km para Sian. Ali ela chegou quase morta, mas não só salvou as crianças como continuou seu ministério, embora mais debilitada devido às sequelas que ficaram deste ato heróico.

Pandita

Pandita Ramabai

Pandita Ramabai, indiana, (1858 – 1922) foi educada por seu pai, um intelectual Brahma que, a partir do seu estudo de textos indus, chegou a conclusão que as mulheres deveriam ter direito à educação. Aos 12 anos de idade Pandita Ramabai tinha memorizado 18.000 versos em Sanscrito. Além de Sanscrito, ela aprendeu mais quatro linguas faladas na Índia. Na sua juventude se converteu ao Cristianismo. Foi a única mulher de que se tem notícia a traduzir sozinha toda a Bíblia para uma língua. Em outras palavras, ela foi uma mulher brilhante. Mas não é pela sua mente brilhante que eu a considero minha heroína, e sim por sua dedicação em acolher, educar e defender as meninas indianas, especialmente as viúvas adolescentes. Naquela época, as meninas na Índia eram forçadas a se casar ainda muito novas (a mãe de Pandita tinha se casado com apenas 9 anos de idade). Com as fomes que assoralam a Índia na segunda metade do Século XIX, muitas delas nem chegavam aos 15 anos e já estavam viúvas. E o resultado era o abandono por parte da família do marido. Pandita Ramabai lutou contra esta prática por toda a sua vida e fez um grande esforço no sentido de mudar a política pública do seu país em relação à educação das meninas. A Missão Mukti que começou como um refúgio para as viúvas adolescentes existe até hoje como instituição de acolhimento e educação de meninas. A lei que proibiu a prática do casamento de meninas foi aprovada no ano que se seguiu a sua morte!

Anne Sulivan

Anne Sulivan

Anne Sulivan, estados-unidense, (1866 –1936) foi a preceptora da famosa intelectual surda e cega Helen Keller. Um dos grandes feitos de Anne Sulivan foi a maneira como conseguiu se comunicar com Helen, quando esta tinha ainda 7 anos e vivia de forma totalmente indisciplinada. Mas o que mais me impressiona é que Anne Sulivan foi uma menina muito sofrida. Com 5 anos contraiu tracoma que quase a deixou cega e que causou muita dor por toda a sua vida, aos 7 perdeu a mãe e passou a ser maltratada pelo pai. Foi abandonada juntamente com seu irmão em um orfanato, onde ele veio a falecer no ano seguinte. E, no entanto, na sua fase adulta vemos uma mulher destemida, corajosa e ao mesmo tempo compreensiva e cheia de compaixão!

E como não lembrar da Corrie ten Boom, responsável por salvar pelo menos 800 judeus na Holanda nazista? E a jovem Malala Yousafzai hoje, que apesar dos enormes obstáculos e atentado contra sua vida continua lutando por educação para as crianças do mundo muçulmano?

 

 

DE PERTO:

Milka Santos

Milka Santos

Milka Santos atua em São Paulo, capital, com o Exército de Salvação. Por 11 anos esteve a frente do Projeto Três Corações. Seu trabalho era influir na vida das crianças em situação de rua e proporcionar uma oportunidade de reabilitação para adolescentes em conflito com a lei. Milka sabe falar a linguagem das ruas, não teme o confronto, sabe ouvir, sabe chorar com os que choram. Para mim, o mais especial é que ela também sabe rir e apreciar a beleza que está em todo lugar!

 

Ester Camilo

Ester Camilo Alves

Ester Camilo Alves atua em Santarém, PA, por meio das clínicas de saúde realizadas por Asas de Socorro em comunidades isoladas da região amazônica. Ela já atendeu a inúmeras crianças e suas famílias, sempre com uma mensagem de prevenção e atenção à saúde básica. Antes de trabalhar em Asas de Socorro, foi enfermeira em um hospital perto de uma grande reserva indígena no estado do Mato Grosso. Certo dia, ela recebeu de um funcionário da FUNAI, um embrulho feito com cobertor. Ao abri-lo, descobriu uma menina indígena de mais ou menos 9 anos, semi-morta. A menina tinha sido abusada violentamente e naquela mesma semana, faleceu. Ester fez o que Madre Tereza de Calcutá sempre aconselhava diante de um paciente em estado terminal: “Certifique-se que ela tenha sido amada ainda em vida!” Ester, além de cuidar o melhor possível da menina em seus últimos dias de vida, denunciou o ocorrido para a Polícia Federal. Poucos meses depois, a polícia desmantelou uma prática de leilão de meninas indígenas que acontecia na cidade com a participação de pessoas importantes da sociedade.

Simea

Siméa Meldrum

Siméa Meldrum atua em Olinda, PE, desde outubro de 1993 quando descobriu em torno de 50 famílias vivendo no lixão da grande Recife. De lá para cá ela estabeleceu uma paróquia da Igreja Anglicana em Aguazinha (município no qual o lixão estava localizado) e desenvolveu um trabalho nas proximidades do lixão.  Em 2008 eu recebi dela um e-mail pedindo orações urgentes por um grupo de crianças da comunidade que estavam marcadas para morrer. Um deles já tinha sido executado na porta da igreja. A aflição foi muito grande e ela fez o possível e o impossível para retirar as crianças para um lugar seguro longe dali. O que me impressiona da Pra. Simea é sua sensibilidade espiritual para entender que do ponto de vista de Deus, aquele lugar cheio de lixo, era na verdade “uma terra santa!”

São tantas outras mulheres pequeninas, porém grandiosas que eu poderia mencionar aqui! Mas agora é a sua vez. Por que não fazer este exercício de “trazer à memória aquilo que nos dá esperança” neste Dia da Mulher? Aproveite e faça você também a sua lista!

“Pequeninas, porém grandiosas” é também o tema do 21º Mutirão de Oração por Crianças e Adolescentes Socialmente Vulneráveis, que será realizado de 3 a 5 de junho.

 

Nota:
1. A Campanha de Vacinação é uma campanha originalmente criada pela Juventud para Cristo no Uruguai e tem como objetivo a conscientização de nossas comunidades para uma cultura de paz e bons tratos em relação às crianças. No Brasil, ela faz parte das ações da Campanha Bola na Rede.

  1. Conheci o trabalho de Siméia Meldrum, um exemplo que realmente inspira. Parabéns a Rede Mãos Dadas por verdadeiramente se importar com VIDAS, obrigada pela lembrança e pelo carinho com que trata nós as vulneráveis, PEQUENINAS, PORÉM GRANDIOSAS. Obrigada.

  2. Obrigada por nos apresentar estas mulheres que fazem diferença! Mulheres resilientes que transformaram a dor em compaixão e serviço ao próximo.
    Eu já escrevi na Ultimato sobre Dona Romilda, líder comunitária em Carapicuíba.
    Penso em Margaretha, à frente da AME.
    Ana Paula, uma jovem missionária, que deixou uma carreira promissora para atender necessitados na Ásia.
    Eu também admiro Marina Silva, que responde ao ódio com mansidão e promove mudança de paradigmas na política.
    Enfim, estas mulheres precisam ser lembradas para encorajar outras.

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