segundas-1024x231Por Vanderlei Schach

Numa dimensão sociológica, segundo estudiosos do assunto, em poucas palavras podem-se descrever três estágios em que a família passou e está passando por modificações: primeiramente a família “tradicional”, regida pelo poder do pai; em segundo lugar a família “moderna”, o casal se escolhe sem a interferência dos pais e o poder sobre os filhos é dividido entre os pais/mães e o Estado e em terceiro a família contemporânea ou pós-moderna, na qual a transmissão da autoridade vai ficando cada vez mais complexa em virtude das rupturas [divórcio] e recomposições que a família sofre. É com base nesta configuração familiar que quero discorrer sobre algumas questões que afetam as crianças. A imagem de família tradicional é cada vez mais rara em nossa sociedade. Gary Collins observa que o que se vê atualmente na maioria das vezes são:

famílias que só têm um dos pais; instabilidade conjugal que gera divórcio, um novo casamento e a consequente formação de uma família composta dos filhos que os cônjuges trazem das antigas uniões; inversão dos papéis pai-filho, em que o jovem assume um comportamento paternal (proteger, apoiar e cuidar), enquanto o pai ou mãe procura agradar ou receber a sua aprovação; coalizões pai-filho, em que um dos genitores joga um ou dois filhos contra o outro genitor e seus aliados; ou envolvimento exagerado na vida dos filhos, quando os pais se intrometem demais nas atividades, trabalhos de casa e estilos de vida dos filhos. (COLLINS, Gary. Aconselhamento cristão. 2004, p. 517-518).

2013.03.26_Asas_de_Socorro_Sabina_PA_D800-174Collins também afirma, a partir de sua experiência profissional, que diante desta nova recomposição ou configuração familiar os filhos ainda pequenos sentem-se confusos a respeito de seus papéis dentro da família. Também ficam imobilizados quando numa situação de crise que cria pressões, ninguém sabe quem deve fazer o quê. Isso significa que, na perspectiva da família pós-moderna, os filhos já não têm mais noção de autoridade e, como a família está diretamente ligada à sociedade, acabam por transferir essa responsabilidade a ela.

Mesmo assim, afirma-se que as novas configurações familiares não são prejudiciais a criança, nas quais a família se adapta e readapta em novos relacionamentos afetivos, sendo possível manter as funções educativas, disciplinares e afetivas tão necessárias ao desenvolvimento amplo da criança que vai se adaptando às novas configurações familiares. Num primeiro momento poder-se-ia concordar com a tese de que os filhos vão se adaptando às novas configurações familiares. Porém, é preciso observar que esse é um ponto de vista adulto. Na maioria das vezes os adultos tomam decisões sem levar em conta a opinião das crianças. Na perspectiva delas, a ruptura do relacionamento dos pais e um novo relacionamento afetivo, provavelmente com mais crianças, não é muito bem aceito.

A família do rei Davi (2Sm 13.1-39), pode ser citado como exemplo para ilustrar alguns conflitos que podem surgir a partir das novas configurações familiares. Davi teve um casamento poligâmico e consequentemente juntou filhos de diversos novos relacionamentos afetivos. Esses filhos viviam como meio-irmãos, ou seja, filhos do mesmo pai, mas de mães diferentes. Um fato que se destaca na família de Davi é que os filhos viviam e se arranjavam como podiam. Tinham um pai que era considerado o melhor estrategista militar, definiu o território de Israel, lutou e obteve grandes vitórias e foi bem-sucedido em todos os empreendimentos nacionais. Contudo, não conseguiu conquistar sua família por ser um pai ausente, e quando presente não se sentiu investido da autoridade paternal que sua família demandava.

Como os filhos viviam sem a orientação paternal, Amnon apaixonou-se por sua meia- irmã Tamar, cometendo incesto com ela. Os padrões educacionais distintos passados a cada filho possibilitaram que Amnon visse em Tamar uma mulher com conotação erótica, e não a própria irmã. Como as fronteiras familiares eram confusas, a relação incestuosa não foi percebida como tal. Nesse sentido, filhos de novos relacionamentos com os de relacionamentos anteriores podem oferecer certo perigo entre si.

Outro episódio na família de Davi foi o assassinato de Amnon por parte de Absalão, seu meio-irmão. A forte ira pelo fato vergonhoso causado a Tamar e a falta de correção por parte do pai ocasionou a ruptura entre os irmãos e Absalão resolveu matá-lo numa festa em forma de crime premeditado. Assim como Amnon planejou perversamente o estupro da sua meia-irmã Tamar, Absalão arquitetou o assassinato de seu meio-irmão. Percebe-se, na história da família de Davi, que a ausência da autoridade paternal cria problemas (veja 1Re 1.6).

É notável nesta descrição a complexidade das novas formatações familiares. Diante do exposto acima, e resgatando a tese de que os indivíduos da família vão se adaptando, simplifica-se demais as questões complexas que envolvem relacionamento familiar, embora a situação seja real e perceptível nas famílias. Contudo, não é porque um problema existe que necessariamente tenha que se concordar com ele. Mas se deve ajudar as crianças que estão inseridas nas novas configurações de família a conseguir viver sadiamente e ser atendidas em todas as suas necessidades, ajudando-as a encontrar caminhos a partir da espiritualidade que possam auxiliá-las. Num mundo violento e conturbado, o relacionamento sem rupturas de um homem com uma mulher gera para os filhos segurança para viver neste mundo e formar famílias sólidas e que proporcionam segurança para os seus filhos.

  1. Por que o casamento monogâmico é útil para a criança?
  2. Como orientar crianças a partir das novas formatações familiares?

 

 

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