quartasSetembro e outubro deste ano serão meses nos quais daremos uma atenção especial à questões relacionadas à criança na igreja. Em outubro queremos que as igrejas se mobilizem para escutar as crianças perguntando a elas: “Somos uma igreja amiga de todas as crianças?” Mas por hora, gostaríamos de apresentar um artigo publicado na primeiríssima edição da Revista Mãos Dadas sobre o que fazer quando a violência sexual acontece nos lares de pessoas membros de nossa própria congregação!

 

por Carlos Grzybowski

O abuso sexual é uma das formas de violência doméstica mais difíceis de se combater, devido ao tabu e ao estigma que acompanham este assunto. Seus efeitos na vida da vítima são devastadores. Entretanto, a recomposição da criança ou do adolescente que sofreu abuso sexual é possível. A informação sobre o assunto nos mobilizará para ações preventivas e de proteção aos nossos menores. A primeira vez que me deparei com uma situação de abuso sexual foi quando trabalhava no Recanto da Paz, uma instituição cristã de ajuda a mulheres marginalizadas. O pastor Angus, diretor da instituição, chamou-me em seu escritório e informou-me que havia recebido um telefonema da Delegacia da Mulher, que solicitava sua presença para tratar de uma delicada questão desse tipo.

Mulher

E agora?

O caso era de um pai que mantinha relações sexuais com suas duas filhas, uma de 15 e outra de 13 anos na época, e as intimidava sob ameaças. A mãe das meninas tinha conhecimento do caso, mas temia a violência do marido caso ela o denunciasse. Ele era, na realidade, um homem desequilibrado e violento. A situação só havia sido revelada porque uma das filhas havia participado de um retiro espiritual dirigido por uma médica cristã que, falando sobre sexualidade, proporcionou um ambiente de confiança para a menina mais velha expor suas angústias. Toda a família frequentava regularmente uma igreja evangélica.

Lembro que nossa reação, minha e do pastor Angus, num primeiro momento, foi de uma tremenda revolta contra o pai das meninas. As palavras de Angus ainda ecoam em minha mente: “Esse pai precisa de um tratamento de borrachoterapia”, insinuando que uma boa surra poderia fazer com que o homem refletisse melhor. Todavia, quando chegamos à delegacia e olhamos para aquele homem, que a imprensa chamara de “monstro”, vimos um ser doente e acuado em um canto da cela. As filhas, pobres vítimas, estavam com medo até da própria sombra e a mãe, desesperada, completamente fora de si, só queria ir para casa. Era uma situação caótica, em que somente com muita graça e misericórdia foi possível trabalhar, a fim de que as feridas não aumentassem ainda mais.

Depois disso, tive contato com vários casos similares. Assim, gostaria de oferecer algumas orientações para conselheiros e pessoas em geral que se defrontam com situações desse tipo.

Em primeiro lugar alguns alertas, em nível preventivo, se fazem importantes. Você deve saber que: 1) toda criança ou adolescente, seja do sexo masculino seja do sexo feminino, pode ser abusado sexualmente; 2) os abusadores sexuais quase sempre foram abusados quando crianças; 3) pesquisas mostram que 30% das crianças em geral são abusadas sexualmente; 4) grande número de pessoas considera normal o contato sexual entre adultos e crianças; 5) qualquer contato sexual — não somente o coito — entre um adulto e uma criança ou adolescente é abuso sexual. (mesmo que não haja violência, como no caso de carícias sexuais, temos de proteger as crianças e adolescentes do abusador); 6) o abusador pode ser alguém da família ou alguém achegado a ela. Também é importante que toda a criança saiba que: 1) tem direito a uma família e a crescer sob a proteção de seus pais; 2) tem o direito de controlar o que ocorre com seu corpo e não permitir que ninguém toque suas partes íntimas, a não ser em situações específicas e com o acompanhamento dos pais, como no caso de um exame médico; 3) tem o direito de dizer não ao abusador, de correr, de gritar e avisar um adulto de confiança; 4) não deve guardar segredo, mesmo que o abusador seja seu pai, sua mãe, um parente ou “amigo” próximo; 5) nunca é culpada, nem responsável pelo abuso sexual cometido contra ela.

Para os educadores ou pessoas que têm contato direto e contínuo com crianças, existem alguns sinais de conduta indicadores de que um menor foi ou está sendo vítima de abuso sexual. Por isso, esteja atento quando: 1) a criança ou adolescente comunica direta ou indiretamente a atividade sexual; 2) a criança ou adolescente adota um comportamento de falsa maturidade, como vestir-se como adulto, usar maquiagens, usar roupas insinuantes; 3) a criança ou adolescente demonstra um conhecimento sexual avançado para sua idade; 4) a criança ou adolescente apresenta uma depressão crônica ou sentimentos suicidas; 5) a criança ou adolescente  passa a não assistir regularmente às aulas na escola; 6) nota-se uma queda geral no aproveitamento escolar ou uma incapacidade de concentração na escola; 7) observam-se condutas excessivamente sedutoras ou jogos sexuais persistentes e inapropriados para a idade da criança; 8) verifica-se uma agressividade ou docilidade excessivas; 9) a criança ou adolescente apresenta manchas de sangue nas roupas íntimas, manchas roxas na região glútea ou nos genitais; 10) a criança ou adolescente apresenta dificuldades de caminhar; 11) detecta-se a presença de doenças venéreas.

Se você se propõe a acompanhar psicológica ou pastoralmente uma vítima de abuso sexual, você deve, em primeiro lugar, estabelecer um vínculo de confiança com a pessoa. Deve também ter cuidado com toques físicos nos primeiros encontros. É preciso mostrar-se disponível para a vítima, mas é bom aguardar suas próprias iniciativas.

Trate do assunto com respeito e atenção e com toda a delicadeza possível, lembrando sempre que você está tocando em uma ferida aberta e muito sensível. Trabalhe com a auto-estima da criança ou adolescente. Geralmente, depois de ter sido abusado, ele se sente como um objeto, e não como uma pessoa.

Finalmente, fale das questões sexuais com naturalidade, demonstrando toda a beleza que há nessa parte da criação de Deus. Leve o menor a refletir que o que ocorreu com ele foi uma tragédia, e não o padrão normal e belo estabelecido por Deus para o uso da sexualidade. Fale também que o fato de ele ter sido vítima de abuso sexual não o torna “sujo”, impuro ou pecador, mas que ele tem um valor inestimável como criatura de Deus.

O que jamais podemos deixar de fazer é atender às vítimas de abuso sexual com compaixão e denunciar as estruturas sociais perversas que possibilitam e encobrem tais situações. Que Deus nos dê ousadia profética e ternura sacerdotal para servir às nossas crianças e aos nossos adolescentes em risco!

 

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Artigo publicado na Edição 0 da Revista Mãos Dadas em novembro de 2000.

downloadCarlos  Catito Grzybowski é psicólogo clínico com especialização em Terapia Familiar Sistêmica, professor e coordenador dos cursos de especialização em Terapia Familiar Sistêmica e de Aconselhamento Pastoral Familiar da Associação Brasileira de Assessoramento e Pastoral da Família – EIRENE do Brasil em parceria com a FLT (Faculdade Luterana de Teologia – São Bento do Sul/SC) e também do curso de pós-graduação em Dependência Química e Comunidade Terapêutica na mesma faculdade.

  1. O texto é bom e bem informativo. Discordo da aformação de que “quase sempre” o/a autor/a de violência sexual sofreu abuso quando criança. O que se verifica é que, em geral, pessoas que cometem abuso sexual experimentaram algum tipo de violência na infância, não necessariamente abuso sexual. Isso inclui violência física, psicológica, negligênca, exposição à violência de terceiros (como a mãe, por exemplo). Afirmar “quase sempre” para históricos de abuso sexual em autores/as desse tipo de violência é dizer que a maioria viveu essa experiência. Pesquisas dentro e fora do Brasil demonstram um quadro diferente.
    Outro ponto é que, apesar de considerar em geral, o texto muito bom, penso que ele não responde objetivamente à pergunta feita no título: como lidar com casos em que o/a autor/a de violência sexual e a criança vitimizada frequentam a mesma igreja. Penso que faltou recomendações pastorais quanto a essa questão, como por exemplo: caso o/a autor/a da violência não seja da família, ele/a devem continuar frequentando a mesma igreja que a criança vitimizada ou deve-se recomendar que não se encontrem? Caso haja relações familiares entre autores/as e vítimas, como tratar o caso na congregação? Em se tratando da legislação e da prioridade de proteção à criança, deve-se tratar o caso apenas pastoralmente ou realizar uma denúncia formal às autoridades? Como trabalhar o valor cristão do perdão aos/às autores/as de violência por parte de suas vítimas? Como instruir a congregação a lidar com pessoas que foram autoras de violência sexual? Como pensar a reintegração, quando possível, do/a autor/a de violência sexual na congregação e garantir a ele/a uma oportunidade de recomeço? Sei que não são perguntas fáceis, e que talvez minha expectativa ao ler o título do texto tenha me levado a pensar que eu encontraria ao menos algumas respostas. De qualquer forma, creio que o debate é necessário.

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