(Parte 2)

Por Dr. Samuel Escobar

logo_lausanne_40anos_medioO evangelista Billy Graham foi colocando em evidência em diferentes países e continentes um desejo de responder às necessidades espirituais da população. Sua prática de buscar a colaboração do maior número de igrejas em suas campanhas foi mostrando que tinha uma inquietude generalizada por obedecer à grande comissão de Jesus. O outro arquiteto de Lausanne, o pastor anglicano John Stott, percebeu a mesma inquietude no âmbito universitário e no qual evangelizava e em sua tarefa pastoral no centro da cidade de Londres. Quando ambos convocaram o Congresso de Lausanne, havia um número notável de evangélicos em diferentes partes do mundo que responderam com entusiasmo.

A inquietude estava também em outros âmbitos. Precisamente em 1974, o Sínodo dos bispos católicos de todo o mundo pediu ao Papa Paulo VI um documento sobre a evangelização e, no ano seguinte, a encíclica “Evangelii Nuntiandi”, documento surpreendente para um leitor evangélico. Por outro lado, na Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas em Nairobi, em 1975, os evangélicos insistiram em que se tratasse o tema da evangelização, e se desencadeou um processo que culminou em 1982, quando o Conselho publicou uma “afirmação ecumênica” sobre Missão e Evangelização. Para aqueles dentre nós que acompanharam de perto os processos de descobrimento mútuo, diálogo e consulta depois de Lausanne, estas similaridades não são casuais.

Um ponto de partida entusiasta, mas humilde
No Congresso de Lausanne, houve uma atmosfera de entusiasmo pela tarefa evangelizadora e de propostas para avançar nela, mas também de realismo e, até certo ponto, de humildade, a qual não costumava ser frequente no mundo dos executivos de organizações evangélicas, particularmente no mundo anglo-saxão. Repassando o Pacto de Lausanne, as várias notas de autocrítica e arrependimento que o matizam me surpreenderam de novo.  Não há espaço nem tempo para todas, mas cito aqui algumas:

A Introdução do Pacto diz: “Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos fracassos e desafiados pela tarefa inacabada da evangelização”. Tive o privilégio de ser parte do comitê que redigiu o Pacto e ainda lembro que havia participantes que não queriam que houvesse referência a “nossos fracassos”. Houve também debate sobre o parágrafo 1 que, no final, afirmava: “Confessamos, envergonhados, que muitas vezes negamos o nosso chamado e falhamos em nossa missão, em razão de nos termos conformado ao mundo ou nos termos isolado demasiadamente.”

A nota de humildade que torna a autocrítica missionária possível aparece também em aspectos específicos como os referentes à cultura, à falta de cooperação ou à acomodação da mensagem. Assim, no parágrafo 10, se afirma: “As missões muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras.” No parágrafo 7 se admite: “Confessamos que o nosso testemunho, algumas vezes, tem sido manchado por pecaminoso individualismo e desnecessária duplicação de esforço”. Depois, no parágrafo 12: “Reconhecemos que nós mesmos não somos imunes à aceitação do mundanismo em nossos atos e ações, ou seja, ao perigo de capitularmos ao secularismo. (…) na ânsia de conseguir resultados para o evangelho, temos comprometido a nossa mensagem, temos manipulado os nossos ouvintes com técnicas de pressão, e temos estado excessivamente preocupados com as estatísticas, e até mesmo utilizando-as de forma desonesta. Tudo isto é mundano”.

Um propósito desprovido de vontade de poder eclesiástico
Lausanne é um movimento, não uma instituição. A genialidade dos organizadores foi convocar as pessoas de todo o mundo que tivessem vocação evangelizadora, sem importar sua afiliação denominacional, nem sua posição em uma hierarquia eclesiástica. O evangelicalismo dos organizadores era teologicamente articulado e, ao mesmo tempo, aberto e realista, sabendo que o protestantismo mundial está dividido em setores muito diversos. Pode-se dizer dos patrocinadores e organizadores como Billy Graham, John Stott, Leighton Ford, o Bispo Jack Dain, o evangelista Paul Little, para mencionar uns poucos, que tinham convicção evangélica e abertura acima dos critérios denominacionais ou institucionais estreitos.

Tive o privilégio de participar na Comissão do programa e fui testemunha de tentativas de desqualificação de alguns participantes e expositores por pessoas cujo evangelismo era bem fechado, isolacionista e separatista, ou seja, mais próximo do fundamentalismo: “Se fulano participar, eu saio”1. A genialidade de Lausanne foi conseguir um consenso teológico amplo que foi bem expresso no Pacto.

Outro fator importante é que Lausanne não ameaça ninguém. Não é um grupo de poder interessado na política institucional eclesiástica. Não intenciona representatividade da maioria das igrejas ou pessoas. Procura, sobretudo, o consenso e a cooperação no que concerne à evangelização e à ação missionária, o estímulo mútuo e o apoio efetivo.
Nota
1. Eu tratei do Fundamentalismo em Maximo García Ruiz, Ed. Protestantismo en cien palabras, CEM, Madrid, 2005.

 

• Samuel Escobar trabalhou com estudantes universitários da América Latina e Canadá durante 26 anos. É professor na Faculdade de Teologia Protestante de Madri e autor de “Santiago: La Fe Viva que Impulsa a La Misión” (Tiago — a fé que impulsiona a missão).

(Traduzido por Wagner Guimarães)

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Leia na próxima semana a terceira e última parte do artigo “Movimento Lausanne: quatro décadas em missão”. Vamos falar sobre o cristocentrismo do Movimento Lausanne. Leia a primeira parte do artigo aqui.