Por Ariane Gomes

John Stott, com binóculos em mão | Foto: Kieran Dodds

Um aspecto que merece ser destacado antes da seleção de trechos a seguir, é que John Stott falou sobre descanso como uma disciplina. Você já tinha pensado nisso?

O descanso é tão relevante e indispensável para manter saudáveis o corpo, a mente e o coração e também o vigor e o frescor espiritual que precisa ser planejado, exercitado e usufruído de maneira plena e com mais frequência que se costuma fazer.

Ao falar de desafios da vida cristã, especialmente na experiência do líder1, ele explica que o cansaço abate as pessoas de tal maneira que elas perdem a vontade de ler as Escrituras, de orar e de dar testemunho de Jesus Cristo. Por isso, tirar um tempo de descanso para si mesmo, eleger passatempos e dedicar tempo à família e amigos são disciplinas das quais o cristão não deve abrir mão. Estas são necessidades humanas e ninguém deve ter vergonha de admitir que as tem.

O dia “T”

“Fui nomeado reitor da All Souls Church na juventude dos meus 29 anos. Eu era jovem e inexperiente demais para uma responsabilidade tão pesada e logo me senti esmagado por tudo.

[…]

Então, um dia, no início dos anos de 1950 participei de uma conferência de um dia para clérigos. Um dos palestrantes era o Rev. L. F. E. Wilkinson, diretor da Oak Hill Theological College. Não me lembro de nada de sua mensagem, exceto um detalhe. Ele recomendava que cada pastor tirasse um dia tranquilo uma vez por mês para se afastar da igreja e da paróquia, para permitir que Deus o levasse ao que estava em seu coração e mente, para olhar as coisas da perspectiva divina, para concentrar-se no importante e para ajustar as prioridades de acordo com isso.

Esse conselho sábio chegou para mim como uma mensagem de Deus. Era exatamente o que eu estava precisando ouvir e coloquei em prática de imediato. Voltei para casa e peguei minha agenda para o restante do ano e escrevi “T” de “tranquilo” num dia todos os meses.

Então, quando chegava o dia “T”, eu saía cedo e ia para a casa de amigos. Eles colocavam um cômodo à minha disposição, traziam alguma coisa para eu comer na hora das refeições e me deixavam só. Minha secretária era a única que sabia onde eu estava, para o caso de alguma emergência. Tirava de dez a doze horas para mim.

Eu guardava para meu dia “T” mensal tudo que precisava de um tempo ininterrupto – tempo de preparo para as próximas semanas e meses; tempo para ver aonde eu ia e o que precisava preparar; tempo para orar por algum problema persistente; tempo para refletir sobre diretrizes e programas da igreja; tempo para rascunhar algumas cartas difíceis; tempo para rabiscar um esboço de uma série de sermões; tempo para escrever um artigo; e, em especial, tempo para me aquietar, buscar a mente de Deus e para discernir a perspectiva dele.

Tudo o que posso dizer é que essa medida providencial salvou minha vida e meu ministério. O peso da responsabilidade foi retirado. Embora ainda fosse desafiado pelo trabalho, não me sentia esmagado por ele. De fato, meu dia “T” mensal ficou tão valioso mais tarde, que quando ficava excepcionalmente ocupado eu tirava um dia “T” a cada quinze dias, e até mesmo um por semana”2.

Descanso e passatempo

Precisamos do sono adequado, e, sem dúvida, nossa necessidade varia de acordo com nosso temperamento. Também precisamos tirar um tempo para descansar durante o dia, como também à noite.

Deveríamos tirar um dia por semana para descansar. […] Ele nos fez de tal modo que precisamos do ritmo do descanso de um dia a cada sete.

Todo cristão deveria ter um passatempo. […] Não tenho vergonha de sugerir que vocês observem os pássaros. Que faz isso raramente tem um colapso nervoso. Esta atividade leva-nos para o ar livre e faz com que pratiquemos exercícios. Leva-nos para a solitude ou quase isso com um amigo, longe da agitação da cidade para o sossego no campo.

(Frases do livro Desafios da Liderança Cristã)

Pios ao amanhecer

“Talvez a maior paixão na vida de Stott além da Bíblia seja seu entusiasmo por pássaros. Em uma visita à Tailândia, ele começou três semanas movimentadas de ensino e pregação, acordando às 3h10 da manhã no primeiro dia para dirigir duas horas e meia até uma reserva de caça. Ele queria cumprimentar os pássaros da manhã ao nascer do sol.

Durante o restante dessa viagem, em meia dúzia de ocasiões distintas, ele organizou saídas especiais para contemplar as maravilhas da natureza, com binóculos em mão e olhos voltados para cima. Alguns podem ser tentados a ver esse tipo de devoção como fanatismo, outros, que conhecem o homem, veem isso pelo que é: adoração.

Risada, travessuras, trabalhos simples, e um amor pelo mundo natural; tudo isso forma o equilíbrio da vida disciplinada de Stott. O tanque está logo ali fora da janela de estudos, as louças sujas estão apenas a alguns cômodos de distância, e os pássaros estão em todo lugar.

Não há um segredo especial para o sucesso de Stott, ou uma característica que o faça ser quem é. Ao contrário, aqueles que têm a chance de entrar em sua vida, para ver e ouvir, passam a conhecer um homem de gentil humildade, oração regular e – para alguém tão diligente no trabalho – uma surpreendente vida equilibrada”3.

Notas
1. Desafios da Liderança Cristã, p. 26.
2. A Igreja Autêntica, p. 170.
3. Trecho extraído do artigo As primeiras coisas primeiro.

 

Pássaros observados em Viçosa, MG. Fotos de Janet Rogers.

 

Leia mais:

» A disciplina do descanso

» Descanso para sentir. Silêncio para ouvir

» Repouso sabático

» Doze motivos para descansar

» A devoção do descanso

» Estudo bíblico – Cansaço e esgotamento: para descansar é preciso crer

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