O poder do “não poder”

O poder do “não poder”

SÉRIE REVISTA ULTIMATO
Artigo: A arte do não poder, por Rubem Amorese

Texto básico: Marcos 4. 35-41

Textos de apoio
– Deuteronômio 8. 10-18
– Salmo 91
– Isaías 12. 1-2
– Mateus 14. 22-33
– João 15. 4-5
– 2 Coríntios 11.30 – 12.10

Introdução

As situações que nos colocam diante da experiência do “não controle” são desconfortáveis. Não gostamos delas. Queremos evitá-las. Mas elas são inevitáveis! Elas fazem parte do roteiro da vida humana. Mais cedo ou mais tarde, todos nós as enfrentaremos.

Embora desconfortáveis, estas experiências são necessárias para o nosso crescimento, como pessoas e como seguidores de Cristo. Elas nos ensinam que nós não nos bastamos. Precisamos do outro e, sobretudo, da graça de Deus. Precisamos confiar em algo que está acima de nossas forças, acima de nosso poder pessoal. Precisamos aprender a difícil arte de acreditarmos na imutável bondade de Deus.

No texto que estudaremos a seguir, os discípulos de Jesus enfrentam uma situação desesperadora de “não controle”. O aprendizado deles pode nos ajudar a lidar com situações igualmente amedrontadoras, em que a nossa segurança, a nossa saúde e até a nossa vida podem estar ameaçadas. Em que, ou em quem, vamos nos apegar? Como reagiremos diante da aparente “indiferença” de Jesus? O que podemos aprender sobre a identidade daquele que nunca “abandona o barco” onde estamos?                                            

Para entender o que a Bíblia fala

  1. Jesus convida seus discípulos para fazerem uma travessia (v. 35). Depois de passar o dia todo ensinando a multidão (4. 1-32), ele naturalmente estava muito cansado, e também querendo ficar a sós com seus seguidores mais próximos (v. 34). Ao mesmo tempo, depois de ensiná-los o dia todo sobre o Reino de Deus, será que Jesus queria “checar” o que isso havia provocado no coração dos discípulos, ao enfrentarem as “contingências” da vida? Será que esta travessia física possuía também alguma implicação espiritual para os discípulos?
  2. Alguns daqueles discípulos eram pescadores experientes, e conheciam bem o Lago de Genesaré (Mar da Galiléia). Provavelmente já haviam enfrentado outras tempestades de vento, comuns naquelas águas. Por que, então, ficaram tão amedrontados (vv. 37-38)? Essa não era “a praia deles”? Não poderiam até impressionar o mestre?
  3. Apesar de não entendermos bem como, o fato é que Jesus adormeceu durante aquela tormenta. Talvez o cansaço acumulado fosse muito grande (Marcos 3. 20). O que a pergunta do v. 38 revela sobre os sentimentos mais íntimos dos discípulos? Estavam irritados com a atitude de Jesus? Por que?
  4. Jesus acorda, se levanta, e mostra que a situação nunca saiu do controle (v. 39). E, agora, é a sua vez de fazer uma pergunta (v. 40). O que a pergunta de Jesus revela sobre sua verdadeira preocupação? Por que ele não se preocupa com o QUE eles estão temendo, mas com o POR QUE estão temendo?
  5. No v. 41, Marcos nos conta que os discípulos estão com mais medo agora do que antes! Por que? Segundo o conhecimento que eles tinham do Antigo Testamento, especialmente da história do Êxodo, qual era a única pessoa que poderia dizer ao mar o que fazer?

Hora de Avançar

Existem muitas palavras de sabedoria, nas Escrituras, para lidar com esse tema na infância, na vida adulta e na velhice. Sabendo que a anterior prepara para a posterior. De modo que a obediência da criança ou a honra ao pai e à mãe estão tratando da questão do poder. Essa sabedoria nos ensinará sobre o cultivo da arte do não poder; sobre devoção e entrega (Sl 37.5).(…) Sem essa sabedoria, jamais compreenderemos a graça de Deus; jamais usufruiremos de sua providência; jamais descansaremos em seu amor, como as aves do céu ou os lírios do campo. Sim, jamais nos fará sentido um poder que se aperfeiçoa na fraqueza.

(Rubem Amorese)

Para pensar

A ideia presente nas palavras de Jesus, “vamos para o outro lado” (v. 35), é bastante sugestiva. Implica uma “travessia”, a passagem de um ponto “A” para um ponto “B”. Podemos pensar em uma mudança de estado na vida dos discípulos, nesse caso espiritual, de fé.

Também podemos enxergar as situações difíceis em nossa vida como uma experiência de “travessia”, de passagem de um estado “x” para outro diferente, melhor. Na verdade, sem essas situações, nós ficamos estagnados. Mas é sempre importante cultivarmos a fé, a confiança de que Jesus não “abandona o barco”. Ele permanece, e transforma a situação, levando-nos a um estágio em nosso relacionamento com ele.

O que disseram

O que torna a tentação do poder aparentemente tão irresistível? Talvez seja porque o poder oferece um fácil substituto para a difícil tarefa do amor. Parece mais fácil ser Deus do que amar a Deus; mais fácil controlar as pessoas do que amar as pessoas; mais fácil possuir a vida do que amar a vida.

Henri Nouwen, “Leituras e Reflexões”, n. 92, Danprewan, 2003.

Para responder

  1. O que tem provocado medo em você neste momento? Em que área de sua vida é necessário “fazer-se completa bonança”?
  2. Você às vezes sente que Deus parece não se importar com as suas “tormentas”? Às vezes parece que Deus está “dormindo” demais diante das suas dificuldades? Você conversa com Ele sobre isso?
  3. POR QUE você está com este medo?

Eu e Deus

Senhor nosso Deus, faze que sejamos cheios de esperança à sombra de tuas asas, e dá-nos proteção e apoio. Tu nos sustentarás desde pequenos e até o tempo dos cabelos brancos, pois a nossa firmeza é firmeza quando se apoia em ti, mas é fraqueza quando se apoia em nós.

Santo Agostinho, “Confissões”, Livro IV, Paulus, 1984.

Autor do estudo: Reinaldo Percinotto Júnior

Este estudo bíblico foi desenvolvido a partir do artigo “A arte do não poder“, de Rubem Amorese, publicado na edição 362 da revista Ultimato.                                                                     

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Um comentário para “O poder do “não poder””

  1. Divar Heckert Barbosa Jùnior 10 de novembro de 2016 at 18:39 #

    Sobre as frases do texto: “De modo que a obediência da criança ou a honra ao pai e à mãe estão tratando de questão de poder”. E mais abaixo: “Parece mais fácil ser Deus do que amar a Deus; mais fácil controlar as pessoas do que amar as pessoas; mais fácil possuir a vida do que amar a vida.
    Meu comentário: Nas relações de poder entre pais e filhos, o poder pode ser exercido com ou sem amor; com ou sem violência; com ou sem justiça; com ou sem explicação do porque o poder está sendo aplicado para disciplina.
    Considerando que a imagem que temos de Deus é formada, principalmente a partir da figura paterna, não admira que tenhamos medo de Deus; que tenhamos dificuldade em amar a Deus. Essa aplicação arbitrária do poder é confirmada pelo ensino da igreja que dá mais ênfase a nosso pecado e às punições decorridas dele do que à graça e o amor de Deus.
    Com isso espero ter respondido a todas as perguntas do final do texto que gostei, mas considerei incompleto pelas razões acima..

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