Quando o último lugar vale o ouro

Quando o último lugar vale o ouro

SÉRIE REVISTA ULTIMATO
Artigo: A igreja e a cidade, por Ed René Kivitz

Texto básico: Marcos 9.33-41 

Textos de apoio
– Números 11. 16-17, 24-30
– Provérbios 13. 10
– Salmo 131
– Lucas 22. 24-27
– 1 Coríntios 12.3
– Tiago 2. 1-10

Introdução

Não temos condições de prever, e muito menos controlar, a ação redentora e transformadora de Deus nesse mundo que Ele mesmo criou. Deus, muitas vezes, poderá utilizar agentes e protagonistas na expansão de seu Reino que não estão arrolados em nenhuma lista de membresia de nossas igrejas. Deus age onde, quando, como e com quem Ele achar melhor.

Obviamente, essa constatação não deve ser utilizada para desmerecer ou diminuir a importância de ser membro do Corpo de Cristo, que na Terra se manifesta nas congregações locais. Não, o que estamos sinalizando é que as fronteiras do Reino de Deus podem ser, e são, mais amplas do que pode ser contabilizado ou circunscrito por este ou aquele segmento religioso.

No nosso texto básico, os discípulos são confrontados por esta realidade. E quem chama a atenção deles e os ajuda a enfrentar este “choque” é o próprio Jesus. Como podemos entender nosso chamado e nosso papel no seguimento de Cristo, sem perdermos de vista que a missão é dele e não nossa, e, portanto, o processo de recrutamento e “empoderamento” para a ação é prerrogativa exclusiva dele? O que podemos aprender nesta passagem sobre as nossas atitudes e reações diante da constatação de que Deus trabalha com variadas estratégias, e por meio de muitos agentes?                                       

Para entender o que a Bíblia fala

  1. Lendo todo o trecho de Marcos 9. 33-41, você percebe alguma conexão entre as duas discussões, ou seja, entre a questão de “ser maior” e a dificuldade em aceitar quem não é “um dos nossos”?
  2. Ao ensinar o princípio do v. 35, Jesus não estava oferecendo uma “estratégia” para qualquer discípulo galgar os primeiros lugares! Que virtude interior ele tinha em mente?
  3. Por que a criança era tão apropriada para ilustrar aquele ensino de Jesus (v. 36-37)? O que significava, naquela época, receber e fazer uma criança se sentir bem-vinda? Qual era a promessa de Jesus para quem acolhesse as pessoas mais simples e insignificantes aos olhos da sociedade (v. 37)? Agora, à luz desta nova percepção, responda novamente a segunda pergunta.
  4. Por que João estava tão indignado com a pessoa que expulsava demônios, aparentemente com sucesso, em nome de Jesus (v. 38)? A experiência que eles tiveram há pouco tempo atrás, após descerem do monte da transfiguração (vv. 14-32) poderia ter alguma influência nisso?
  5. Novamente Jesus está preocupado com o crescimento interior dos discípulos. O que ele queria que os discípulos aprendessem a valorizar como mais importante (v. 40-41)? Por que a ação de outras pessoas, por menor que fossem, deveriam ser apreciadas (v. 41)?

Hora de Avançar

Abandonar a pretensão do protagonismo sectarista, abrir mão da necessidade de assinar as ações de solidariedade, atuar juntamente com os conselhos municipais, entidades de classe, movimentos sociais, coletivos diversos,… são possibilidades remotas para a maioria daqueles que pensam que a graça de Deus é monopólio religioso evangélico. Abrir os templos para a agenda cultural da cidade, colaborar na elaboração das políticas públicas, mobilizar as comunidades religiosas para as ações coletivas de interesse público são coisas próprias de igrejas com fé cidadã. O salto de ser igreja na cidade ou para a cidade a fim de ver surgir a igreja com a cidade exige o arrependimento da pretensão de controlar os agentes e atores da missio Dei.(Ed René Kivitz)

Para pensar

A preocupação principal de Jesus é com a transformação interior dos discípulos, com a mudança no coração deles. Na primeira parte do nosso texto, eles são desafiados a ser “o último, e servo de todos”. É interessante notar que no aramaico, a língua materna de Jesus, a mesma palavra é utilizada para designar “criança” e “servo”. E a criança não possuía nenhum “status” na hierarquia social, pois não era capaz de produzir nada e nem de oferecer nenhum retorno à sociedade. Receber uma criança e fazê-la se sentir bem-vinda não era algo desejado por quem ambicionava ser importante ou “o maior de todos”.

Na segunda parte, os discípulos são desafiados a ter uma compreensão mais ampla. O foco de seu coração deve ser a expansão do Reino de Deus, e não a “imagem” ou “sucesso” do seu círculo menor e particular (em nosso caso, nossa igreja ou denominação).

O que disseram

O orgulhoso se considera incomparável e único, despreza os outros e rejeita qualquer coisa que venha deles. O orgulho impede a confiança nos outros.(…) Só posso amar alguém se o aceito, e só a humildade possibilita a verdadeira aceitação. Na humildade eu vejo os outros como criações de Deus, amadas por Deus, criadas por Deus como boas e valorosas. Na humildade eu reconheço a boa essência dos outros e creio nela, ao passo que no orgulho só fico espreitando as falhas dos outros para me considerar melhor que eles. O orgulhoso não consegue observar os outros sem reservas e sem crítica. Ao observá-los, sempre os compara a si mesmo. A humildade não faz comparações. (Anselm Grun, monge beneditino, em Humildade e Experiência de Deus, Editora Vozes)

Para responder

  1. Quem são as “crianças” (pessoas simples e insignificantes aos olhos da sociedade) que você precisa acolher mais e abraçar em nome de Jesus? Como você pode ser mais intencional quanto a isto?
  2. Que indivíduos e/ou grupos você tem sido tentado a criticar, menosprezar ou evitar porque eles não são “um dos nossos”? É possível transformar esses sentimentos? Como?

Eu e Deus

Senhor, sondai-me, conhecei meu coração,

            examinai-me e provai meus pensamentos!

            Vede bem se não estou no mau caminho,

            e conduzi-me no caminho para a vida!

                                                                                  (Salmo 139. 23-24, tradução da CNBB)

Autor do estudo: Reinaldo Percinotto Júnior

Este estudo bíblico foi desenvolvido a partir do artigo “A igreja e a cidade”, do pastor Ed René Kivitz, publicado na edição 361 da revista Ultimato.

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