Missão no dia a dia da igreja

Missão no dia a dia da igreja

Texto básico: Atos 3.11-26

Leitura diária
D – 1Tm 1.3-7 – Colocando tudo em ordem;
S – 1Tm 1.12-17 – Designado para o ministério;
T – 1Tm 2.1-7 – Que todos sejam salvos;
Q – 1Tm 4.6-10 – Piedade, para tudo é proveitosa;
Q – 1Tm 4.11-16 – Exemplo para os fiéis;
S – 1Tm 6.3-12 – O bom combate da fé;
S – 1Tm 6.20-21 – Guardando o que foi confiado

Introdução

Frequentemente a missão tem sido considerada como uma vocação dada por Deus a certos irmãos que se dispõem a deixar seu local de origem e partir para culturas estranhas onde pretendem desenvolver um ministério missionário muito especial. Esses irmãos sentem que a vocação missionária é um bem que lhes pertence e, portanto, a igreja tem o dever de apoiá-los de forma irrestrita, limitando-se a aprovar e financiar seus projetos missionários pessoais. Em nenhuma hipótese a igreja deve questionar sua vocação, pois a receberam diretamente de Deus; também não deve ter a audácia de mudar seus projetos missionários, pois foi Deus quem lhes deu a visão. Caso a igreja insista, mudamos de igreja ou deixamos nossa agência.

Mas a verdade é que a vocação missionária deve ser entendida e vivida prioritariamente como sendo uma vocação de todo o povo de Deus. É a igreja quem, de fato, foi convocada e enviada por Deus para levar adiante a proclamação de seu evangelho por todo o mundo. A igreja deve fazer isso tanto enviando suas equipes de missionários que darão visibilidade, por todo o mundo, à sua vocação antes que a deles, bem como exercendo essa sua vocação constante e diariamente ao longo de sua caminhada e vivência cristã na sociedade em que está inserida.

Em Atos 3.11-26 encontramos elementos que nos ajudam a visualizar essa vocação missionária da igreja em seu dia a dia, quando observamos as pessoas envolvidas na história. Vejamos:

I. Um homem curado

A cura no templo deu a Pedro e João a oportunidade de declarar abertamente que Jesus, crucificado e ressuscitado, é o tão esperado Messias que cumpriu todas as profecias anunciadas pelos profetas. Eles aproveitam a oportunida­de para testemunhar do seu Senhor.

O capítulo começa narrando a cura de um mendigo aleijado de nascença, um homem que estava limitado e preso tanto por sua deficiência física como pela sistemática imposição de “ser ali colocado todos os dias para pedir esmolas” (3.2) e por sua expectativa última de vida que se resumia em “esperar receber deles alguma coisa” (3.5).

Esse homem foi alvo da graça de Deus, que se manifestou em sua vida por meio da ação dos apóstolos (consequentemente da igreja) que, simplesmente, poderiam haver parado o seu discurso na tão contemporânea afirmação de que “não tenho prata nem ouro” (3.6). Ele acabara de receber o que nunca ninguém lhe havia oferecido, uma “saúde perfeita” derivada da fé que vem de Jesus Cristo (3.16), que literalmente o curou e o fortaleceu. Essa transformadora experiência de fé em Cristo o pôs de pé e o fez andar, bem como entrar com os apóstolos no pátio do templo saltando e louvando a Deus (3.8-9).

Tal mendigo, jogado à porta do templo, fora alvo da ação graciosa de Deus manifestada por meio do olhar atencioso e misericordioso da igreja (3.4), que “segurando-o pela mão direita, ajudou-o a levantar-se” (3.7). Não resta a menor dúvida de que esse homem, e tudo o que ele possa representar, é campo missionário para uma igreja sensível à manifestação da graça

II. Um povo incrédulo

O chamado divino para que o incrédulo se arrependa, voltando-se a Deus com fé, continua sendo parte essencial da mensagem do evan­gelho. A esse respeito a Confissão de Fé de Westminster declara: “O arrependimento para a vida é uma graça evangélica, doutrina esta que deve ser pregada por todo ministro do evangelho, tanto quanto a da fé em Cristo” (XV.1).

A população local ficou perplexa e muito admirada com o exercício de uma genuína fé no Deus que restaura integralmente a vida humana (3.10). A população local não esperava por isso. Esperava, sim, que os apóstolos satisfizessem a expectativa religiosa comum, dessem uma esmola ao mendigo e seguissem o seu caminho de autojustificação para dentro do templo.

Esse povo incrédulo “correu até eles” (3.11) para ver o que estava acontecendo, imaginando que Pedro e João (a igreja) tivessem em si mesmos algum tipo de poder espiritual ou uma comunhão com Deus que os tornassem melhores que os demais.

Esse povo incrédulo foi identificado por Pedro como sendo “israelitas” (3.12) e seus “irmãos” de sangue (2.17). Pedro não apenas se identifica com essas pessoas, como menciona e interpreta textos conhecidos por eles (o Antigo Testamento – 3.22-23,25) para levá-los a entender a verdadeira missão do Messias. Desse povo incrédulo, portanto, não se esperava tanta incredulidade, uma vez que eles detinham as Escrituras, viveram a história da salvação e por meio deles vieram os profetas e a lei de Deus.

Entretanto, na interpretação que Pedro faz dessas mesmas Escrituras, fica claro que o povo supostamente religioso e detentor da verdade, traiu e entregou Jesus para ser morto e o negaram perante Pilatos (3.13), além de também o haverem negado publicamente pedindo que lhes fosse libertado um assassino (3.14). Consequentemente, conclui Pedro, esse povo matou o Autor da vida (3.15).

Mas a mensagem do evangelho também é direcionada a esse povo incrédulo. O apóstolo reconhece que tudo o que fizeram contra Cristo o fizeram “por ignorância” (3.17), havendo Deus cumprido dessa forma seu propósito que culminou no sofrimento e na morte vicária do seu Messias (3.18). A mensagem do evangelho para o povo incrédulo culmina com o desafiante convite ao arrependimento e à volta a Deus visando o perdão de seus pecados (3.19) e o ingresso deles no tão aguardado reino messiânico e na restauração de todas as coisas (3.20-21).

Quanto a isso, é muito importante observar a interpretação dada por Pedro à promessa feita por Deus a Abraão (Gn 12.3). Segundo ele, de todas as nações da terra que seriam abençoadas pelo descendente de Abraão (Jesus Cristo), este foi o povo que primeiramente recebeu o Messias, que viu seus sinais e que ouviu sua mensagem para poderem ser abençoados e se converterem de suas maldades (3.26).

Não podemos considerar que somente os judeus daquela época eram um povo incrédulo. Todas as sociedades humanas, em todas as épocas e em todos os lugares do mundo, ao rejeitarem o Cristo de Deus, sua mensagem e seu poder salvador se mostram povos incrédulos. Sendo assim, não podemos desviar nossa atenção missionária deles. São, também, nosso campo missionário, mesmo que sejam considerados como “já alcançados”, à semelhança dos israelitas daqueles dias.

III. Uma igreja seguidora

Pedro reprova seu público judeu admoestando-o a não olhar para as obras do homem, e, sim, para o poder de Deus. Não foi Pedro, e, sim, Jesus aquele que outorgou aquela restauração. Toda a glória deveria ser dada exclusivamente ao Senhor.

O nosso texto destaca a presença de uma igreja que, deliberada e conscientemente, segue a Cristo em sua missão redentora. Os dois apóstolos estavam plenamente certos de que sua vocação maior era seguir a Cristo. Isso se reflete em suas próprias atitudes em relação ao homem curado, ao povo incrédulo e ao próprio Cristo.

Pedro começa seu discurso desviando o olhar maravilhado dos israelitas para Jesus, o verdadeiro autor da cura do mendigo (3.12-13). De fato, os olhares de admiração naquele momento repousavam sobre os apóstolos (igreja) e eles poderiam ceder à tentação de obter os dividendos religiosos e pessoais disso a título de “progresso e sucesso para a obra”. Entretanto, a igreja verdadeiramente seguidora do Cristo sofredor abriu mão do reconhecimento público para que Jesus Cristo fosse devidamente anunciado e glorificado.

A igreja seguidora é uma igreja que, consequentemente, assume sua verdadeira posição e vocação de testemunha do Cristo ressurreto (3.15). O que cabe à igreja em sua jornada de seguir a Cristo é reconhecer, proclamar e dar clara visibilidade à completa obra salvadora de Jesus Cristo, como no caso do mendigo curado e do povo incrédulo. “Nós somos testemunhas disso” (3.15) é uma confissão de fé que se renova na vida diária da igreja, em seus lábios que proclamam e em suas obras que sinalizam o amor de Deus.

Da mesma forma, a igreja seguidora é uma igreja que em seu dia a dia aprende a demonstrar ao outro misericórdia (seja um indivíduo ou uma sociedade) e dizer-lhe “eu sei que vocês agiram por ignorância” (3.17). Seguir a Cristo em sua missão nos leva, como igreja, a exercer misericórdia e sensibilidade para com o sofrimento e o pecado das outras pessoas, uma compaixão que somente pode encontrar na vida e na obra do Cristo que segue.

Somente uma igreja que, de forma confessante, se volta sobre seus próprios passos, buscando acertar a cada dia sua caminhada de seguir a Cristo, pode cumprir sua missão desviando de si mesma o olhar maravilhado da multidão, cumprindo com sua vocação de testemunho do Cristo ressurreto e se relacionando com o outro com misericórdia e sensibilidade.

IV. O Deus atuante

Pedro baseia seu sermão no Antigo Testamento e diz aos seus ouvintes que Jesus é o cumprimento da profecia. Deus fala por meio de seus servos, os profetas, mas cumpre sua palavra por meio de Jesus, seu Filho. Logo, Deus providencia continuidade em sua revelação. Ele faz saber que a comunidade cristã vive na era do cumprimento.

Em toda essa narrativa encontramos também a presença do Deus que atua incessantemente na história. O texto como um todo o apresenta como sendo aquele que dirige de forma plena o curso dos acontecimentos e que conduziu a vida e a obra de Cristo para o cumprimento final de seus propósitos redentores.

Foi Deus quem “glorificou seu servo Jesus” (3.13), quem “o ressuscitou dos mortos” (3.15), quem “cumpriu o que tinha sido predito por todos os profetas dizendo que o seu Cristo haveria de sofrer” (3.18), foi Deus que “falou há muito tempo por meio dos seus santos profetas” (3.21) e foi ele quem “ressuscitou o seu servo” (3.26).

É muito significativo ver a forma como Pedro resume e conclui toda essa atuação salvadora de Deus na história por intermédio de Jesus Cristo. Segundo ele, a atuação redentora de Deus deve ser condensada na aliança feita com Abraão: “por meio da sua descendência todos os povos da terra serão abençoados” (Gn 12.3; Atos 3.25). Tal aliança, para o apóstolo, não pode ser entendida de outra forma a não ser vendo no Cristo ressurreto a única possibilidade da bênção de Deus levando os homens a se converterem de suas próprias maldades. Nesse sentido, encontramos na ação de Deus a própria essência e origem da missão.

V. O Cristo enviado

Quando olhamos para a pessoa de Jesus Cristo nesse texto não o podemos ver independente da ação redentora de Deus. Ao contrário, em sua interpretação da aliança de Deus com Abraão, o apóstolo é muito claro ao dizer que “tendo Deus ressuscitado o seu servo, enviou-o…” (3.26). Esse envio (ou apostolado de Cristo) foi o que determinou, basicamente, toda a missão realizada por Jesus, cumprindo assim os propósitos eternos e redentores de Deus para a humanidade.

O Cristo enviado pelo Pai é o mesmo Cristo que foi morto e teve de padecer, é o Cristo chamado pelo apóstolo de “servo” (3.13,26), numa clara referência ao “servo sofredor” de Isaías. Assim, o Cristo enviado é um Cristo de dores, de sofrimento, de rejeição, de cruz e de morte.

Da mesma forma, o Cristo enviado é o mesmo Cristo que o Pai ressuscitou dentre os mortos, dando-lhe a completa vitória e autoridade sobre céus e sobre terra. Sendo assim, o Cristo enviado é o Cristo que reina ilimitadamente e com todo o poder sobre tudo e sobre todos. Esse é o nosso Cristo que, da mesma forma, nos envia a segui-lo em sua missão e a proclamá-lo no mundo.

Conclusão

Busquemos dia a dia uma maior consciência de que somos uma igreja plenamente vocacionada por Deus e por Cristo para levar adiante sua obra por todo este mundo.

Perguntas para reflexão

  1. Como podemos descrever melhor a responsabilidade missionária da igreja em si como parte de sua natureza e vocação?
  2. Quais são a posição e a função de cada crente à luz da responsabilidade vocacional e missionária no dia a dia da igreja?
  3. Que papel assume as equipes missionárias (transculturais ou não!) à luz da natureza missionária da igreja?

> Autor do Estudo: Carlos del Pino
>> Estudo publicado originalmente na revista Palavra Viva – Caminhos missionários da igreja, da Editora Cultura Cristã. Usado com permissão.

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