A importância da Palavra de Deus para a igreja em missão

A importância da Palavra de Deus para a igreja em missão

Texto básico: Atos 7.1-60

Leitura diária
D – Dt 1.1-8 – Palavra cumprida;
S – Dt 4.1-8 – Palavra que dá sabedoria;
T – Dt 5.1-21 – Palavras da aliança;
Q – Dt 6.1-9 – Palavras que conduzem ao temor;
Q – Dt 10.12-22 – Palavras para o próprio bem;
S – Dt 13.1-5 – Palavras a serem evitadas;
S – Dt 30.1-10 – Palavras de restauração

Introdução

A história da defesa de Estevão, narrada em todo esse capítulo, surge em decorrência do seu envolvimento concreto com a missão de Deus neste mundo (6.8-15). Sua fidelidade à ação redentora de Deus o levou a assumir posições claras quanto ao evangelho de Cristo em sua sociedade a ponto de homens serem subornados (6.11) para incitar o povo a levá-lo para um interrogatório diante do Sinédrio (6.12-15).

I. De olho na história da redenção

A narrativa de sua defesa diante do Sinédrio não deixou de ser fiel à ação redentora de Deus revelada em sua Palavra e podemos, ao observar alguns elementos dessa defesa de Estevão, buscar uma melhor compreensão da importância da Palavra de Deus para a nossa vida em constante missão como igreja de Deus neste mundo.

A) O registro da Escritura

O resumo conciso que Estevão fez da história dos judeus aos líderes religiosos e a acusação de que aqueles homens haviam matado o tão esperado Messias foi direto e inciso; levando os judeus à fúria. Como resultado encontramos o primeiro martírio na história da igreja.

Ao longo de praticamente todo o capítulo 7, observamos como Estevão levanta dados significativos dos atos graciosos e redentores de Deus ao longo da história, tal como estão registrados nas Escrituras.

Ele começa com o Deus da glória que se revela a Abraão (7.2) indo até a construção do templo por Salomão (7.47-48). Ele mencionou diversos eventos relacionados com a história compreendida entre estes fatos, procurando destacar a ação e a intenção redentora de Deus. Em termos práticos a sua defesa se baseia na história bíblica da salvação. Portanto, essa “história da salvação” foi o elemento fundamental que deu à ação missionária de Estevão um sentido profundo e verdadeiro.

Em outras palavras, Estevão somente pode realizar com fidelidade a obra de Deus por derivá-la diretamente da própria Palavra de Deus. A Palavra, e somente ela, tornou-se o principal fundamento para que Estevão (e a igreja) encontrasse a missão. Sem uma vinculação da Palavra à nossa vida, nossas famílias e igrejas não haverá uma verdadeira missão.

B) A Palavra interpretada e aplicada

Paulo fez a mesma coisa quando em Atenas se deparou com a multiplicidade religio­sa existente ali. Após ver os atenienses “acentuadamente religiosos” ele passou a discorrer sobre os fundamentos de sua fé, compartilhando o evangelho. Jesus Cristo pregava a Palavra de Deus no poder do Espírito Santo (Mt 5.21-48) dando a real interpretação e aplicação da lei.

A defesa de Estevão não foi uma mera defesa de seu direito de pregar o evangelho às pessoas, como talvez pudéssemos esperar. Sua defesa foi muito além disso, tornou-se em si mesma uma proclamação muito bem elaborada da história de salvação realizada e escrita por Deus, ou seja, sua defesa tornou-se um testemunho da graça redentora de Deus.

Como vemos, Estevão baseia sua defesa-testemunho em uma leitura interpretativa dos atos de Deus. Ele precisou selecionar os eventos históricos, interpretá-los à luz dos propósitos eternos e redentores de Deus e contextualizá-los ao momento em que vivia (7.51-53).

A leitura da Palavra de Deus é sempre uma leitura que interpreta a ação de Deus na história e, somente assim, pode-se fundamentar a vida da igreja em seu constante estado de missão. Sem uma interpretação da Palavra, compreendendo seu sentido no contexto em que fora escrita e, necessariamente, contextualizando-a aos diversos ambientes atuais, será impossível vincular a Palavra às nossas vidas, famílias e igrejas, não produzindo uma verdadeira missão.

C) Pecado humano e graça divina

A interpretação de Estevão dos atos de Deus na história revelou o fracasso espiritual de Israel do Antigo Testamento e apresentou a esperança que é oferecida em Cristo.

A defesa-testemunho de Estevão buscou ressaltar o pecado humano que se contrapõe a Deus e a sua missão redentora e graciosa. Estevão destaca:

a) a atitude invejosa dos patriarcas vendendo José (7.9);
b) a opressão causada pelo rei do Egito (7.19);
c) a falta de compreensão dos israelitas para com a libertação proposta por Moisés (7.25-28,35);
d) a desobediência dos israelitas, retornando em seus corações para o Egito ao renderem-se à idolatria (7.39-43).

Com base nessa interpretação da história da salvação, Estevão precisou apontar para o pecado dos israelitas de seus dias que, como os antigos, também eram de “dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo” (7.51), tornando-se em nome da religião traidores de Deus e assassinos do seu Cristo (7.52).

A partir dessa abordagem da Palavra ele tanto destaca o pecado humano, como oferece uma oportunidade para a reflexão e para o arrependimento: (7.53). Ele não fecha a porta para o arrependimento nem para a fé; antes, procura levar seus ouvintes, por meio da Palavra interpretada, à compreensão de que o Deus da graça continua a oferecer plena redenção.

D) A reação natural

Os cristãos ainda são perseguidos ao redor do mundo. Cerca de 200 milhões de irmãos e irmãs na fé enfrentam constantemente sofrimentos, torturas e até a morte, simplesmente por causa de seu compromisso com Jesus Cristo. O que você pode fazer por eles? Como você pode encorajá-los a enfrentar a reação natural ao evangelho?

A defesa-testemunho (missão) de Estevão também resultou em rejeição, sofrimento e morte (7.54-60). Pela forma como o texto relata a fúria dos judeus que ouviram seu testemunho acerca da história da salvação de Deus e o próprio testemunho (martírio) final dado com sua vida, fica muito claro que os resultados da missão nem sempre são os que se esperam.

Ao menos deveríamos esperar rejeição e oposição ao testemunho do evangelho quando anunciado e vivido em todas as suas formas e dimensões, pois “eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou” (Jo17.14). Rejeição e oposição porque o projeto de vida do reino de Deus (o evangelho) que deve ser anunciado insistentemente não condiz com o modo de vida distante de Deus a que os homens estão presos dentro de sua própria natureza (o pecado).

Nesse sentido, os seres humanos, individual e socialmente, estão estruturados contra Deus. A rejeição ao evangelho deve ser esperada por ser a reação natural da humanidade. O testemunho-missão da igreja deve, portanto, levá-la constantemente a “ver a glória de Deus e Jesus que estava à sua direita” (7.55) e a interceder sempre e com misericórdia pela humanidade-campo (7.60).

II. Retomando o caminho da missão

Diante disso, creio ser importante buscar alguns significados para a nossa vivência de igreja em missão. Entre várias implicações, as seguintes podem nos servir de inspiração para uma constante retomada no caminho da missão:

A) Reflexão bíblica

É preciso que preguemos uma mensagem contextualizada, mas com conteúdo e essência.

Torna-se cada vez mais necessária a centralização da Bíblia e de sua teologia para a vida da igreja e seu crescimento conceitual quanto à missão. Precisamos investir em um processo permanente de reflexão bíblica para construirmos uma teologia de fundamentação missionária para a nossa igreja hoje.

Infelizmente, a igreja no Brasil vem caminhando nos últimos anos sem viver uma experiência missionária que se expresse satisfatoriamente em termos bíblicos e teológicos. Isso tanto tem gerado desvios conceituais graves, como diversas insuficiências na busca de modelos missionários.

É fundamental que recuperemos de forma séria o trabalho bíblico-teológico como a principal alavanca para a vivência missionária da igreja brasileira hoje.

B) Aprendendo com Deus

Em sequência com o anterior, precisamos aprender a ver, individual e eclesialmente, a ação missionária de Deus (missio Dei) ao longo da história da graça de Deus nos registros das Escrituras. Em outras palavras, esse trabalho bíblico-teológico não deve prestar-se a confirmar os nossos modelos, prioridades e estratégias missionárias (sejam nossas mesmas ou recebidas de fora!). É muito importante que na leitura dos relatos da ação graciosa e redentora de Deus no mundo (a Bíblia), estejamos abertos a perceber a missão graciosa de Deus e elaborar tal compreensão na forma de prioridades e modelos que condigam com as realidades atuais.

C) Renovação no estudo bíblico

Obviamente, estamos falando de um processo hermenêutico completo – da Bíblia à missão – o que, inevitavelmente, exige uma renovação em nosso estudo da Bíblia para solidificar a missão. Consequentemente, essa renovação do estudo bíblico poderá levar-nos a descartar diversos conceitos que foram impostos sobre a missão na igreja brasileira, tais como a centralidade do transculturalismo no pensamento teológico missionário e a massacrante ênfase no pragmatismo metodológico como critério para a leitura da missão na Bíblia. Uma renovação no estudo bíblico, sem dúvida, nos ajudará a livrar-nos de desvios e a encontrar fundamentos sólidos para a missão.

D) Arrependimento e fé como resposta

Precisamos, ainda, investir em uma leitura bíblica da missão-graça de Deus resgatando a exigência da necessária resposta humana ao evangelho na forma de arrependimento e fé. Isso não invalida, por outro lado, a necessária “presença cristã no mundo, indispensável à evangelização, e também o diálogo que tem por propósito ouvir conscientemente para melhor compreender” (Lausanne, IV). Portanto, nossa leitura bíblica deve produzir em nós (pessoas, famílias e igrejas) uma missão integral que exija arrependimento e fé como respostas humanas ao evangelho.

E) Crescimento da nossa compreensão

Diante do que vimos, não podemos deixar de lado a necessidade de formarem-se núcleos de estudos bíblicos em nossas igrejas e em nossas casas, visando o crescimento da nossa compreensão da missão-graça de Deus nos relatos da Bíblia.

Não podemos mais nos contentar com a visão e o ensino produzidos fora do nosso próprio ambiente social e eclesial que acaba nos condicionando a modelos missionários incompatíveis contextual e teologicamente. Podemos ler, juntos, o texto bíblico, interpretá-lo e encontrar seus significados para a igreja hoje.

F) Autonegação

Por fim, é importante não esquecer que a rejeição por parte da sociedade, estruturada contra Deus e sua graça-missão, deve ser esperada e enfrentada. Ao assumir sua vocação hermenêutica e missionária, dedicada ao testemunho fiel do evangelho de Jesus, a igreja deve lembrar-se de que “Jesus continua a requerer de todos que desejam segui-lo que se neguem a si mesmos, tomem a sua cruz e identifiquem-se com a sua nova comunidade” (Lausanne, IV).

Que o Senhor da graça-missão nos auxilie em nossa vivência missionária no mundo!

Perguntas para reflexão

  1. Diante de uma sociedade estruturada contra Deus (pecado) como podemos relacionar nossa responsabilidade hermenêutica com nossa vocação missionária?
  2. Que atitudes precisamos tomar, individual e eclesialmente, para que nos tornemos uma comunidade hermenêutica que busca nas Escrituras o crescimento de nossa autocompreensão como igreja missionária?
  3. Com que atitudes pessoais devemos ler a Bíblia de forma que essa leitura produza em nós (indivíduos e igreja) um envolvimento arrependido e renovado com a missão de Deus no mundo?

> Autor do Estudo: Carlos del Pino
>> Estudo publicado originalmente na revista Palavra Viva – Caminhos missionários da igreja, da Editora Cultura Cristã. Usado com permissão.

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