Soli Deo gloria

Soli Deo gloria

A glória de Deus em oposição à nulidade dos ídolos

Texto Básico: Êxodo 20.1-6

Leitura diária
D – Êx 20.1-17 – O Dez Mandamentos
S – Is 42.1-9 – A minha glória, não a dou a outrem
T – Rm 11.33-36 – Dele, por ele e para ele
Q – Hb 7.23-25 – O nosso intercessor
Q – At 17.16-31 – É de Deus que recebemos bênçãos
S – 1Co 10.31 – Tudo para a glória de Deus
S – Hc 2.12-14 – A glória de Deus

Introdução

Em oposição à teologia romana da Idade Média, uma das bandeiras dos reformadores era uma defesa dos dois primeiros mandamentos. Diante da veneração aos santos, às relíquias e aos padroeiros, eles defenderam corajosamente que somente Deus é digno de glória.

A teologia reformada admite que muitos irmãos do passado se destacaram pela sua vida cristã, mas, ao mesmo tempo, insiste em afirmar que somente Deus deve ser adorado. Veremos, também, formas evangélicas de canonização e endeusamento de pessoas e aprenderemos a nos posicionar diante desse fenômeno pós-moderno com sabedoria e firmeza.

I. O Deus único em oposição às imagens

Outro ponto fundamental da teologia reformada é conhecido pela expressão latina que dá título a esta lição: Soli Deo gloria (glória somente a Deus). Com essa bandeira, os reformados enfatizam o ensino bíblico de que somente Deus merece adoração, refletindo, assim, o ensinamento da singularidade de Deus.

De acordo com a Escritura, não há mais de um Deus. Há um só Deus vivo e verdadeiro. Na prática, essa doutrina bíblica não apenas proíbe a adoração de qualquer criatura, tais como anjos, santos e relíquias, mas também a adoração do Deus de Israel na forma de qualquer criatura.

Antes de passarmos ao estudo, é muito importante delimitarmos a questão que será abordada aqui. A questão não é se irmãos piedosos do passado devem ser respeitados e honrados por sua fé e até mesmo imitados em sua fidelidade ao Senhor. A Escritura não se opõe a isso (Lc 1.48; Mc 14.9). A questão é se esses irmãos piedosos do passado devem ser adorados.

Com relação à prática católica romana, é notório que a adoração aos santos é uma das partes principais de sua vida devocional. Os santos são honrados com templos, capelas, altares, missas, festas e dádivas que são oferecidas a eles, bem como com orações, juramentos e votos. De modo geral, eles são invocados como intercessores, protetores do mal e concessores de bênçãos. Vejamos o que a Escritura tem a nos dizer sobre cada uma dessas atividades atribuídas aos santos.

  • Intercessão

A Escritura afirma que temos um intercessor diante de Deus: Jesus Cristo (Rm 8.33-34). O autor da carta aos Hebreus diz que “por isso, [Cristo] também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25). A Escritura é clara ao afirmar que “há um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”. Portanto, não há base escriturística para a doutrina de que os santos intercedem por nós junto a Deus.

  • Proteção contra o mal

A Escritura tem um ensinamento sobre isso. O próprio Jesus nos ensinou a orar: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal” (Mt 6.13). Quem pode nos livrar do mal, segundo a Escritura, é o próprio Deus. Foi ele que permitiu que Jó fosse tocado em sua prosperidade, em sua família e fosse afligido do alto da cabeça à sola dos pés (Jó 1.12; 2.6) e foi ele que impediu que os leões abrissem a boca contra Daniel (Dn 6.22). É Deus quem pode nos livrar do mal, segundo a sua vontade, e é ele quem pode permitir que o mal nos alcance, para sua glória e nosso benefício final e eterno.

  • Concessão de bênçãos

De acordo com a teologia católica romana, os santos são nossos mediadores diante de Deus e, assim, podem obter benefícios temporais e espirituais para nós não somente por suas orações, mas também por seus méritos. Por serem puros, merecem ter seus pedidos atendidos por Deus. A Escritura afirma que é Deus “quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.25). É Deus quem faz vir a chuva “sobre justos e injustos” (Mt 5.45). O salmo 104 é um longo louvor a Deus por ser o Criador e o Sustentador de tudo o que existe. Quem concede bênçãos é Deus, não outro.

Os ensinamentos da Escritura, associados ao fato de que não há sequer um preceito, uma promessa ou um só exemplo de adoração aos santos em toda a Escritura formam a base da doutrina reformada de que somente Deus deve ser adorado.

Alguns teólogos católicos romanos tentam se livrar do peso da doutrina reformada alegando haver uma distinção entre as palavras gregas latreia e douleia. Segundo eles, o termo latreia significa a adoração que deve ser dada somente a Deus. A veneração aos santos é descrita como douleia, por isso, segundo eles, a adoração, veneração e invocação de santos não pode ser considerada idolatria.

Sobre isso, precisa ser dito que a Escritura não reconhece a distinção católica romana entre latreia e douleia, mas reivindica adoração somente a Deus. No Novo Testamento, a palavra grega latreia só é usada como referência à adoração a Deus. No entanto, a palavra douleia também é usada nesse mesmo sentido (Mt 6.24 – servir; Rm 12.11 – servindo ao Senhor; 1Ts 1.9 – servirdes o Deus vivo). Portanto, essa distinção feita pelos teólogos católicos romanos não tem apoio na Escritura.

Em resumo, segundo a Bíblia, toda adoração ou invocação religiosa dirigida a qualquer ser que não a Deus é uma adoração idólatra (Rm 1.25).

II. O Deus único em oposição às relíquias e aos padroeiros

Uma extensão da adoração aos santos é a adoração às suas relíquias. Relíquias são objetos pertencentes ou supostamente pertencentes a cristãos piedosos do passado que, no decorrer do tempo, foram canonizados. Entre essas relíquias encontramos fiapos de roupas, retalhos de mantos, pedaços de unhas e dentes, fios de cabelo, ossos e vários outros objetos e pedaços do corpo. Como em nenhum lugar a Escritura fundamenta este tipo de adoração, nem ordena que seja realizada, nem atribui alguma promessa a ela, nem dá exemplo que deva ser seguido, a teologia reformada considera esse tipo de adoração como uma superstição religiosa.

No governo do imperador Constantino, começou a ocorrer a exumação de cadáveres de cristãos piedosos para que fossem enterrados em lugares mais vistosos. Isso foi ordenado pelo próprio imperador. Ele queria que as solenidades das religiões pagãs fossem assimiladas pelo cristianismo para tornar a religião cristã mais aceitável aos pagãos. Quando viu os pagãos transferindo, com grande pompa e solenidade os cadáveres de reis e líderes religiosos que tinham sido sepultados em lugares obscuros para sepulcros tão esplêndidos que se tornaram verdadeiros monumentos, ele pensou que essa honra devia ser dada aos grandes líderes e mártires cristãos. Porém, quando os restos mortais desses irmãos começaram a ser exumados e transportados, os cristãos passaram a vê-los como protetores do país ou cidade para os quais os corpos eram levados. Foi daí que surgiu a ideia de “santos padroeiros”, que passaram a ser invocados e adorados.

A Escritura, além de condenar a invocação e a adoração de qualquer criatura em lugar de Deus, nada tem a dizer sobre jurisdições confiadas aos santos. Ela relata, porém, o sepultamento de crentes piedosos e a ação de Deus por meio desses irmãos. Por exemplo, Jacó e José pediram que seus corpos fossem levados do Egito para a terra prometida, mas não há registro de que seus corpos tenham sido adorados ou colocados no templo, nem carregados em procissões, nem colocados em altares. Seu pedido apenas refletia sua fé na promessa de Deus a respeito da terra prometida. Eles queriam que seus restos mortais fossem depositados na terra que Deus havia prometido dar aos descendentes de Abraão.

Há, no Antigo Testamento, o relato de que certo homem, ao ser sepultado, foi jogado às pressas sobre os ossos de Eliseu e, ao tocá-los, ressuscitou. Este acontecimento é eventualmente usado por aqueles que creem no poder das relíquias, mas o fato é que nem antes nem depois do milagre os ossos de Eliseu foram adorados nem seu túmulo foi transformado em centro de peregrinação religiosa.

No Novo Testamento, há o relato de que a simples colocação de um enfermo sob a sombra de Pedro foi suficiente para que ele fosse curado (At 5.15-16). Não há, porém, um só indício na Escritura de que Pedro tenha aceitado adoração ou tenha assumido o papel de Mediador da nova aliança. Há um relato semelhante sobre Paulo (At 19.12). Este, porém, em preceito e exemplo, mostra claramente que a criatura não deve ser adorada em lugar do Criador. O preceito é encontrado em Romanos 1.25, e o exemplo é visto quando ele claramente rejeita a adoração que os habitantes de Listra queriam prestar a ele depois da cura de um coxo (At 14.8-18).

Há, ainda, outra forma de adoração proibida na Escritura. Além de proibir a adoração de qualquer ser além de Deus, a Escritura também proíbe a adoração de Deus por meio de qualquer representação (Dt 5.8-9).

Na Escritura, todas as imagens feitas para a adoração algum deus são chamadas de ídolos. Isso acontece, por exemplo, com o bezerro de ouro (At 7.41), com o ídolo de Mica (Jz 17.3-4) e com os ídolos de Jeroboão (1Rs 12.28). Portanto, quando uma pessoa diz que, curvando-se a uma imagem ou dirigindo a ela orações, está, na verdade, curvando-se diante de Deus e dirigindo suas orações a ele, essa pessoa está relatando uma prática totalmente estranha à Escritura.

Há quem tente usar os querubins que ficavam sobre a arca da aliança e a serpente de bronze como fundamento para o uso de imagens. No entanto, há que se observar que nem o querubim nem a serpente de bronze foram adorados. Deus, de fato, disse que falaria a Moisés do meio dos querubins (Êx 25.22), mas em nenhum lugar ele ordena que Moisés os adore. Aliás, eles ficavam fora da vista do povo, sobre a arca, no Santo dos Santos. Quanto à serpente de bronze, ela foi completamente destruída pelo piedoso rei Ezequias justamente porque os judeus começaram a adorá-la (2Rs 18.4).

III. A água do rio Jordão, o sal grosso e o herói que arrasta multidões

Até aqui, a lição tratou da afirmação da doutrina reformada da glória de Deus em oposição à doutrina católica do tempo da Reforma. No entanto, a realidade de grande parte da comunidade evangélica de nossa época faz com que esta doutrina tenha especial relevância hoje.

No mundo evangélico, uma imensa multidão de pessoas tem sido atraída por pastores que agem como heróis religiosos, canalizando para si mesmos uma atenção que deveria ser direcionada a Jesus, o único Salvador e Cabeça da igreja. Nesses movimentos, o líder se apresenta como revestido de autoridade espiritual máxima, pronto para solucionar problemas, curar enfermos, expulsar legiões de demônios, dar ordens e receber recompensas em nome de Cristo.

Essa postura personalista deixa em segundo plano a pessoa de Cristo, que é quem verdadeiramente soluciona, abençoa, cura, restaura, enfim, quem verdadeiramente age como Senhor da igreja e sumo sacerdote eterno. Uma coisa é o pastor ser fiel, ter um ministério abençoado e frutífero e levar a igreja a glorificar a Cristo, reconhecendo nele a fonte de todo o bem e de toda a vida. Outra coisa é o pastor apontar para si mesmo, confiando em sua eloquência e em suas aptidões para arrastar multidões. A igreja é de Cristo e tudo o que se faz nela deve redundar em glórias a Cristo, a mais ninguém.

Outro problema visto nesses grupos evangélicos é o uso de “relíquias evangélicas”: copo de água em cima do rádio, toalhinha santa, sal grosso, água do rio Jordão, lascas da arca de Noé, pregos da cruz, manto de Elias, etc. Tudo isso são relíquias modernas que chamam para si uma atenção que só devia ser dada a Cristo. Quem cura e abençoa não é a água barrenta do rio Jordão ou a água cristalina de uma fonte borbulhante; não é o sal grosso nem o sal refinado; não é o manto de Elias nem de Pedro; quem cura e abençoa, conforme a sua vontade soberana e benfazeja, é Jesus Cristo, o único Mediador da nova aliança, o único Salvador, o único Autor da vida.

IV. A glória de Deus como o objetivo máximo de todas as coisas

De acordo com o Catecismo Maior de Westminster, “o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre” (resposta à pergunta 1). Deus não divide com ninguém a sua glória (Is 42.8) e governa a história de modo que em tudo ele seja glorificado. Veja como ele fez isso na história de Israel e da igreja: Deus escolheu seu povo para sua glória (Ef 1.4-6; cf. v. 12 e 14); nos criou para a sua glória (Is 43.6-7); chamou Israel para a sua glória (Is 49.3; Jr 13.11). Deus resgatou Israel do Egito para a sua glória (Sl 106.7-8); levantou Faraó para mostrar seu próprio poder e glorificar seu próprio nome (Rm 9.17); derrotou Faraó no Mar Vermelho para mostrar a sua glória (Êx 14.4,17-18). Deus poupou Israel no deserto para a glória do seu nome; (Ez 20.14); deu a Israel a vitória em Canaã para a glória do seu nome (2Sm 7.23); não desamparou o seu povo para a glória do seu nome (1Sm 12.20-22). Deus restaurou Israel do exílio para a glória do seu nome (Ez 36.22-23,32).

Também vemos isso na pessoa de Cristo. O Senhor Jesus buscou a glória de seu Pai em tudo o que fez (Jo 7.18); ensinou-nos a fazer boas obras para glorificarmos a Deus (Mt 5.16; cf. 1Pe 2.12); advertiu que não buscar a glória de Deus torna a fé impossível (Jo 5.44); disse que responderia às orações para que Deus fosse glorificado (Jo 14.13); suportou sofrimentos até o último momento para a glória de Deus (Jo 12. 27-28; Jo 17.1; cf. 13.31-32). O Senhor ofereceu seu Filho para vindicar a glória da sua justiça (Rm 3.25-26); perdoou nossos pecados por amor de si (Is 43.25); Jesus recebe-nos em sua comunhão para a glória de Deus (Rm 15.7); o ministério do Espírito Santo é glorificar o Filho de Deus (Jo 16.14); Deus instrui-nos a fazer todas as coisas para a sua glória (1Co 10.31; cf. 6.20); Deus instrui-nos a servir de maneira que ele seja glorificado (1Pe 4.11); Jesus enche-nos com os frutos da justiça para a glória de Deus (Fp 1.9, 11). Todos estão sob julgamento por desonrarem a glória de Deus (Rm 1.22-23; 3.23); Jesus voltará para a glória de Deus (2Ts 1.9-10); O desejo de Jesus é que na eternidade, o seu povo se alegre em sua companhia contemplando a sua glória (Jo 17.24). Mesmo na ira, o propósito de Deus é fazer conhecida a riqueza da sua glória (Rm 9.22-23); o plano de Deus é encher a terra com o conhecimento de sua glória (Hc 2.14). Todas as coisas que acontecem redundam na glória de Deus (Rm 11.36). Na Nova Jerusalém, a glória de Deus substitui o sol (Ap 21.23).[1]

Conclusão

A adoração só é devida a Deus. Devemos nos lembrar disso não apenas quando somos convidados a agir de modo errado e nos curvar diante de uma imagem e oferecer orações a ela, mas também quando somos tentados a adorar as modernas “relíquias evangélicas” e a ter pelos líderes religiosos uma consideração muito maior do que a que é devida. Somente Deus deve ser adorado.

Aplicação pessoal

Como se manifesta o moderno “culto evangélico às relíquias”? Que atitude devemos tomar quando temos esse comportamento diante de nós?

[1] Extraído e condensado de John Piper, Alegrem-se os povos, publicado por esta editora.

>> Autor do estudo: Vagner Barbosa
>> Estudo publicado originalmente pela Editora Cultura Cristã, usado com permissão.

Print Friendly

Um comentário para “Soli Deo gloria”

  1. Antonio lucas caetano 20 de julho de 2017 at 12:01 #

    Excelente estudo, em minha visão teve como finalidade trazer o cristão a sensatez que está sendo perdida e se distanciando dos cristãos e das igrejas a passos largos. A fé do cristão toma forma por meio das nossas palavras, ações e decisões. Se nestes elementos procurarmos a gloria de Deus certamente grande parte dos desvios grosseiros que estão em evidência no evangelho atual serão desfeitos naturalmente.

Deixe um comentário