A cultura e a graça comum

A cultura e a graça comum

Texto base: Daniel 1

Leitura diária
D Hb 11.1-34 – Graça especial (I)
S Hb 11.35-40 – Graça especial (II)
T Mt 5.45; 7.11 – Graça comum
Q Sl 73. 12-17 – Ímpios prosperam
Q Sl 74 – Afronta ao povo
S Gn 41.34-36 – O Egito prospera
S Dn 1.1-7 – Cultura caldaica

Introdução

Já tratamos um pouco acerca da graça comum na visão do teólogo holandês Abraham Kuyper (lição 6). Precisamos nos aprofundar um pouco mais no assunto pelos seguintes motivos: 1) O ensino bíblico da graça comum está inseparavelmente relacionado ao senhorio de Cristo, reino de Deus e o chamado cristão; 2) Este é um dos assuntos que gera dúvidas, compreensões erradas e acusações de mundanismo contra os crentes fiéis; 3) É importante entender os limites da graça comum em relação à graça salvadora.

I. Considerações sobre a proposta de Kuyper

É relevante trazer Abraham Kuyper mais uma vez à tona porque foi ele um dos que, na história recente, mais tratou do assunto da graça comum, tentando entender e perceber as implicações dessa doutrina para a história da cultura.

Ele entendia que, por meio da ação da graça comum de Deus, o poder do pecado e os resultados de seu veneno são presos e contidos e até podem ser atenuados. Ou seja, não fosse a graça comum, os males causados pela humanidade seriam muito piores. Essa graça sempre opera independentemente do homem.

Ela é chamada graça comum porque é dada tanto ao crente quanto ao descrente (Mt 5.45; 7.11; 16.1-4) e é um dos motivos para a preservação de um conhecimento natural de Deus. Por isso, o homem, ainda que descrente, tem anseio de justiça e pode fazer atos de bondade.

A Bíblia ensina que o homem natural é alienado de Deus, não tem esperança (Ef 2.12). No entanto, ele também conhece a Deus (Rm 1.21) em virtude de ter sido criado à imagem do Pai e de seu relacionamento de aliança contínua com seu Criador, que denominamos relacionamento religioso. Todo ser humano, mesmo aquele que não tem um relacionamento salvífico com Deus por meio de Cristo, tem em sua natureza essa “semente de religião”, essa noção de Deus, que não pode ser apagada (At 17.28). Precisamente por isso, todo ser humano é uma criatura capaz de contribuir para o enriquecimento cultural da sociedade em que vive. A graça comum de Deus participa desse processo concedendo talentos naturais e desenvolvendo aptidões e sensibilidades úteis ao desenvolvimento cultural.           

II. Graça comum e graça salvadora

Como é possível explicar a vida relativamente ordenada do mundo, mesmo sabendo que o mundo está sob a maldição do pecado? Como é que a terra, mesmo depois da quebra do pacto, ainda produz frutos deliciosos em abundância? Como podemos explicar por que o homem pecador ainda mantenha algum conhecimento de Deus, das coisas naturais e da diferença entre o bem e o mal e mostre alguma consideração para com a virtude? E como explicamos o desenvolvimento da Ciência e da Arte por aqueles que são totalmente desprovidos da nova vida em Cristo? A resposta para esta pergunta reside no entendimento bíblico da doutrina da graça comum.

Tratando deste assunto, Berkhof ressalta que a distinção (comum e especial) não significa uma existência de dois atributos divinos, mas utilizamos termos distintos em virtude das diferentes manifestações desse único atributo. Além disso, ele faz outra ressalva importante ao afirmar que a manifestação mais preciosa destas operações da graça de Deus resulta na remoção da culpa, da poluição e do castigo do pecado, para a salvação final dos pecadores.

O teólogo Wayne Gruden também segue a linha argumentativa de Berkhof, quando fala da relação entre graça salvadora e graça comum: “Diferentemente da graça comum, a graça que leva pessoas à salvação é muitas vezes chamada ‘graça salvadora’. Naturalmente, quando falamos a respeito da ‘graça comum’ e da ‘graça salvadora”, não estamos sugerindo que há duas diferentes espécies de graça no próprio Deus, mas apenas estamos dizendo que a graça de Deus se manifesta no mundo de duas maneiras diferentes. A graça comum é diferente da graça salvadora quanto aos seus resultados (ela não traz salvação), seus destinatários (é dada aos crentes e descrentes igualmente) e sua fonte (ela [graça comum] não flui diretamente da obra expiatória de Cristo, visto que a morte dele não obtém nenhuma medida de perdão para os descrentes)”.

Basicamente, a “graça comum” explica como Deus manda chuva igualmente sobre justos e injustos, enquanto que a “graça salvadora” refere-se à bênção especial que Deus deu a seu povo por meio da fé em Cristo. Plantinga define graça comum nos seguintes termos: “A bondade de Deus demonstrada sobre todos, independentemente da fé, consistindo de bênçãos naturais, da restrição da corrupção, da semente da ordem política e religiosa e de uma série de impulsos e modelos, civilizadores e de caráter humanitário”. 

A. O perigo da confusão

A não ser que entendamos a diferença entre graça comum e graça salvadora, os incrédulos serão levados à presunção e os crentes serão levados à dúvida. Quando confundimos essas duas categorias, é fácil ver o sucesso nos negócios como sinal de favor divino e as inundações em determinadas regiões como sinal de reprovação divina. Os ímpios acham que a graça comum de Deus e a sua graça salvadora são a mesma coisa, pois presumem que pelo fato de as coisas não estarem tão ruins no momento, eles não estão sob a ira de Deus. Basicamente, tomam como sinônimo de salvação a prosperidade e o bem-estar. Mas basta uma leitura superficial das Escrituras para saber que o ímpio pode prosperar (Sl 73) e o crente – alvo da graça salvadora – pode sofrer grandemente (livro de Jó) e até ser assassinado (Hb 11. 35-38).

Otimismo cultural. O otimismo cultural é uma forma de glorificação do homem natural e de suas realizações. A lógica do otimismo cultural é a seguinte: o cristão não é feito comum porque compartilha da graça comum, mas o pagão é feito cristão porque compartilha de Cristo. A lógica não é difícil. Vejamos um exemplo: como toda verdade é um dom do Espírito de Cristo e Platão falou alguma verdade, logo, Platão foi cristão porque ele compartilhou da verdade da qual Cristo é a fonte (Jo 14.6). Mas Platão, nesse caso, era um “cristão da graça comum”, já que não tinha fé salvadora. A lógica é desastrosa, sem amparo da Escrituras, e as consequências são deformadoras.

Assim, atribui-se poder salvador à graça comum, dispensando a necessidade de Jesus como único caminho. Além disso, confere-se autoridade ao que Platão escreveu e abre-se a porta para que A República, ou O Banquete (entre outros textos), ou a letra de uma música que tenha “alguma verdade” torne-se texto de sermão na igreja.

Nessa lógica, a preocupação da Igreja reside em que o mundo cumpra bem sua responsabilidade cultural, que os professores sejam bons professores, que os cientistas sejam competentes em suas funções, etc. Perde-se a ideia de antítese entre a Igreja e o mundo, abandona-se a doutrina do senhorio de Cristo e a Igreja sucumbe ao secularismo, sob o argumento de estar dialogando com a cultura, afinal, já que toda verdade é verdade de Deus, mesmo que a encontremos fora da Igreja.

Calvino não pode ser ligado, como tentam alguns, ao conceito de “cristianismo da graça comum” dos otimistas culturais. Em seus escritos, ele não confundia céu com inferno. Calvino sempre fez distinção entre o poder regenerador e santificador do Espírito Santo e a influência geral do Espírito, pelo qual os homens recebem poder para dominar a terra (Institutas II, 2, 16 e 18). O que pode ser conhecido em Medicina, na Matemática, na Dialética e em outras ciências é, de fato, um dom do Espírito. Mas o conhecimento verdadeiro do homem, do universo e de Deus vem apenas por meio da Palavra. O mais genial de todos os cientistas entre os homens continua necessitando de Jesus Cristo para ser salvo. 

B. Graça comum e reino de Deus

O reino de Deus não é mais identificado como um pedaço de chão, seja este o Éden ou Israel. A igreja é composta de judeus e gentios que, como Abel, adoram o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e, como os descendentes de Sete, invocaram o nome do Senhor.

Abraão é chamado para sair de Ur dos Caldeus para uma terra que seria mostrada (Gn 12.1-3). O autor da epístola aos Hebreus faz a correta interpretação da história de Abraão: “Pela fé [Abraão] peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor” (Hb 11.9-10). Observe bem, ele estava sobre a terra da promessa, mas andava por lá como se em terra alheia. Por quê? Porque aguardava uma realidade muito superior.

Embora os que viveram na terra prometida terrena nunca tenham visto o descanso final e as coisas prometidas que nós ainda aguardamos, eles “viram-nas, porém, de longe, e as saudaram” (Hb 9.13). Eles não estavam dispostos a colocar as suas esperanças últimas nem mesmo na Terra Prometida. “Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade” (v. 16).

Os filhos espirituais de Caim têm a luz da natureza para guiá-los na construção da civilização; os descendentes espirituais de Sete têm a luz da Escritura e a mente de Cristo. Os incrédulos poderão construir grandes cidades e ser orientados nos seus esforços pela graciosa providência de Deus (graça comum), mas os crentes devem se contentar em caminhar como peregrinos e forasteiros. Eles devem contentar-se com a sua existência nômade neste mundo. 

C. Graça comum e chamado cristão

José (Gn 41.37–47.31) e Daniel são bons exemplos de homens que usaram a sua posição para honrar a Deus na liderança secular. Mas eles não procuraram transformar seus respectivos cargos em catalisadores para transformar os reinos do mundo em teocracias bíblicas. Simplesmente seguiram a sua vocação (chamado cristão) no mundo com excelência e diligência, obtendo o respeito dos regentes estrangeiros e melhorando a vida daqueles sobre os quais exerciam autoridade.

Disso aprendemos que, seja qual for a nossa vocação, espera-se de cada um de nós que busquemos a excelência no âmbito da criação, junto com os incrédulos, e este chamado secular é tão nobre como o chamado sagrado ao ministério da Palavra e dos sacramentos. Os crentes são santos porque pertencem a Cristo, mas o ambiente ao qual foram chamados é comum. Espera-se deles que sejam diferentes na sua crença, na sua atitude e no seu estilo de vida, mas não se espera dos crentes que convertam o ambiente secular em espaço sagrado. Quando tomavam decisões no tribunal, José e Daniel tinham de basear seus julgamentos nas leis egípcias e babilônicas, não na lei hebraica, e, conquanto não pudessem endossar nada que violasse a Palavra de Deus, nem participar de nada disso, eram livres para aceitar a ideia de que foram chamados para servir às nações pagãs por um Deus que os havia dotado de maneira singular para esse propósito.

Conclusão

A doutrina da graça comum parece ser uma porta libertadora para que o crente consiga glorificar a Deus fora da Igreja, perceber as bênçãos do Espírito nos não crentes e contemplar beleza divina na produção cultural realizada pelo mundo.

O grande problema é que, enquanto observamos e nos alegramos em ver o mundo, por meio da graça comum, construindo, produzindo, criando e exercendo domínio sobre a terra, as igrejas (que são abençoadas com a graça especial, incomparavelmente superior à comum) não conseguem ir muito além de se reunir duas vezes aos domingos.

Que a compreensão bíblica da graça comum nos ajude a desempenhar uma interação correta com a cultura, glorificando a Deus e cumprindo o papel de ser luz.

Aplicação

Você já percebeu que esta doutrina pode ser extremamente útil à empreitada evangelística? Reconhecer que Deus age graciosamente fora da Igreja e que este é o motivo pelo qual o desenvolvimento cultural é possível não deve nos deixar apáticos, meros observadores dos não crentes. Mas, afinal, qual deve ser a postura da Igreja? Agradecer a Deus por sua benevolência e procurar usufruir deste mundo de uma forma que o nosso Senhor seja glorificado (1Co 10.31).

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