Carla Naoum Coelho*

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O texto de Lucas 13,10-17 relata a cura de uma mulher que há dezoito anos andava encurvada e, de modo algum, podia se endireitar (v. 11). Aconteceu em um sábado, em uma sinagoga e a mulher foi curada por Jesus.

Diante das várias possibilidades que temos de olhar para esse texto, nesse momento, queremos sugerir que essa mulher representa simbolicamente a situação de todas as mulheres da época de Jesus que eram consideradas inferiores aos homens. Assim sendo, ao tocar essa mulher e curá-la publicamente, Jesus estava ‘gritando’ contra todas as maneiras pelas quais as mulheres eram diminuídas em seu valor de ser humano e lutando contra tudo o que as proibiam de assumir a postura que Deus lhes havia dado, desde a criação, de permanecerem eretas diante dos homens e de toda a comunidade. Jesus, portanto, invade um contexto histórico no qual a mulher é despersonalizada, isto é, desfigurada em seu valor, e a restaura à sua postura de ser humano, criada à imagem de Deus.

Mas não apenas as mulheres da época de Jesus. Aqui, podemos fazer nossas as palavras de Maxine Hancock: “quando eu vejo Jesus estender as mãos para endireitar, elevar e colocar essa mulher na posição correta, eu vejo Jesus se importando com todas as mulheres do mundo […], eu vejo Jesus se interessando por qualquer situação em que a mulher esteja sendo diminuída perante um homem”.

É interessante notar que, ao se referir a esta mulher, Jesus usa a expressão ‘filha de Abraão”. Ter Abraão como pai era uma afirmação judaica de orgulho e dignidade. Ter Abraão como pai era fazer parte de uma aliança. Ao chamar a atenção da congregação para o status dessa mulher como ‘filha de Abraão’, Jesus estava colocando-a integralmente dentro da comunidade da aliança. Ou seja, Jesus estava mostrando a todos ali presentes que o lugar da mulher era ao lado de seus irmãos: filhos e filhas da mesma aliança.

A partir das atitudes e palavras de Jesus demonstradas nesse texto de Lucas, entendemos que o Reino de Deus, que irrompeu na história através de Jesus Cristo, quer libertar todas as mulheres, inclusive aquelas que continuam amarradas pelas cordas de uma hermenêutica que prende a mulher em um mundo em que os privilégios são dos homens, e que vê esses privilégios não como um sintoma do nosso mundo caído, mas como o plano de Deus para a humanidade. E mais, trata os privilégios conferidos ao sexo masculino como sendo a vontade de Deus para o relacionamento entre homem e mulher.

É interessante notar que, logo em seguida ao episódio da cura dessa mulher que há dezoito anos andava encurvada, Jesus conta 2 parábolas que falam do Reino de Deus, ou, mais especificamente, que explicam como se dá o avanço do Reino de Deus no mundo. “A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei?” (Lc 13:18), indaga Jesus, como que procurando uma maneira de apresentar a sua própria perspectiva de como as coisas acontecem no Reino de Deus. E Ele continua: “é semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta, e cresceu e fez- se árvore […] (VS 19); É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado (VS 20). Mesmo em uma leitura casual do texto, percebe-se que estas duas parábolas andam juntas e não apenas porque ambas falam de crescimento mas também porque Jesus emprega os dois gêneros – homem e mulher – para ilustrar como Ele e seu Reino operam no mundo. É possível notar aqui um eco com o relato da criação onde encontramos o propósito de Deus: homem e mulher juntos na mordomia de toda a criação (Gen 1:28).

Com a atitude de Jesus de curar essa mulher, podemos perceber os sinais do Reino de Deus brotando na história e perceber também o que o Reino de Deus faz pelas mulheres: liberta-as de todas as amarras que as prendem e as impedem de viver a integralidade da vida humana.

 

*Mestre em Comunicação, Doutoranda em Ciências da Religião (PUC Goiás)

 

  1. Diga aí, DIGNIDADE!, o dinheiro é ou não é uma fonte de ‘inspiração’?

    É preciso ter muita sobra de unguento que brilha em móveis para operar critérios de avaliação sobre o que pode ou não ser publicado como comentário, não é mesmo, [in]DIGNIDADE!

    Eu já lembrara ao Marcus, que este blog tem o viés de usar o ‘bom senso’ como critério de aferição do que pode e do que não pode.

    Como o critério de ‘bom senso’ de que falava ele é expressão do que se passa no fígado, fica-se com aquela sensação de que a esquerda quando amanhece estranhamente associada à bílis, o ‘bom senso’ simplesmente julga que aquilo que pode ou não pode submeter-se-á à hora à cor da hora.

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