luto

 

Ainda não consegui digerir a morte da Cláudia Silva Ferreira. Não consigo esquecer aquela imagem. É como se minha mente, de maneira arbitrária, se esforçasse por simular em minha própria carne a sensação de ter a minha pele sendo desfigurada ao ser arrastada violentamente em asfalto quente, por 350 metros. É como se a todo o momento meu subconsciente reproduzisse de maneira audível aos meus ouvidos a voz de uma adolescente, agora órfã, dizendo: “jogaram a minha mãe igual a bicho”. E tudo isso, eu ainda não digeri.

 

Tamanho incômodo não me permite alcançar abstração necessária para escrever sobre outra coisa ou focar em outra reflexão, eu não consigo esquecer. E ao não esquecer, eu lembro que é exatamente o esquecimento que nos afronta como instrumento de destruição da esperança que busca insistentemente o seu lugar, perturbador da nossa memória, estabilizador das potências de conflito de nossas contradições sociais.

 

O esquecimento é a aposta dos que detém o poder, dos que oprimem cotidianamente, possuidores da legitimidade da força e da violência. É a aposta de que, seja lá qual for a dor ou a dimensão da injustiça, sempre contra os mais fracos, sua indignação popular causada não se sustentará, será diluída, dissolver-se-á na futilidade do nosso cotidiano, em meio a folclorização das nossas desigualdades sociais, na repetição das nossas ações de postagens, curtidas e compartilhamentos. Pois todo assunto, por mais bárbaro que seja, no fim, vai mesmo para o fundo de nossas timelines.

 

O esquecimento é o gatilho da nossa capacidade de invisibilizar a condição do outro, de neutralizar a nossa sensibilidade, inclusive a própria sensibilidade de quem sofre. Ele se torna o arcabouço da produção de invisíveis, e o poder não se relaciona com invisíveis. Ele elimina. Uma eliminação que nem sempre se materializa na supressão da vida, mas na negação da dignidade da vida, negação que torna a vida in-vivível, exatamente pela invisibilidade que aliena o acesso ao direito, aos serviços, ao reconhecimento. O poder não se relaciona com invisíveis, as urgências e clamores dos miseráveis não interessa.

 

Eis que a resposta do estado, a resposta do poder, quando vem a público, nunca vem como uma relação face a face – um pedido de desculpas, um reconhecimento de vergonha, um manifesto de repúdio, um compromisso de indenização – como um olhar nos olhos do injustiçado, do vitimado, do indefeso, do fraco, do desprovido. A resposta do estado é sempre um gesto proporcional à visibilidade midiática da tragédia, ou seja, o tamanho da repercussão. A resposta do estado não foi dada à família de Cláudia Silva Ferreira, a resposta foi dada à imprensa, à mídia, à pressão dos olhos de todo o Brasil e do mundo. Sem olhos nos olhos, sempre a mediação da câmera, do microfone, do foco. Mesmo ao ter encontrado a família de Cláudia Silva Ferreira, a mediação está presente na relação com o governador, chefe máximo do Estado. A mediação é simbólica, mas está.

 

No fundo, a mulher negra, pobre, favelada, detalhe anônimo num território criminalizado, de corpos criminalizados, continua sendo invisível. Sendo invisível, ao que tudo indica, após toda essa euforia de comoção e revolta será digna de nosso esquecimento. Mas até agora eu não digeri, eu não consegui esquecer.

Ronilso Pacheco