A premiação mais famosa do cinema americano tem uma série de interessantes rituais e preferências, as quais determinam quais filmes merecerão figurar na lista para concorrer ao prêmio ou não. Obviamente que além das qualidades presentes em cada obra, há também um forte trabalho de divulgação, lobby e outras “cositas más” que tanto são presentes em nossas sociedades contemporâneas. Faz parte do jogo, diriam alguns e, afinal, é algo que se fundamenta na decisão discricionária de um grupo de gentes.

Pois bem, em 2014 vimos a premiação do Oscar apresentar o novo ganhador do momento: 12 anos de Escravidão. História absurdamente revoltante pois além de aviltar de forma gritante todo e qualquer conceito de dignidade humana, o faz tendo a Bíblia como fundamento e justificativa. Lembrar disso para cristãos – como também de todo o processo de colonização ou das teologias que fundamentaram o Apartheid ou mesmo às ações que foram substrato para a tal Marcha da Família, que alguns poucos querem ressuscitar em pleno século 21 – é algo que não desce fácil no estômago.

O querido amigo e pastor Welinton Pereira, assessor da Visão Mundial e incansável lutador em defesa das causas de crianças e adolescentes escreveu nas redes sociais após ver o filme: “…fiquei chocado, angustiado e revoltado com tanta dor e maldade. Como negro e cristão fiquei pensando o que leva um ser humano a cometer tamanha atrocidade com seu semelhante e com a Bíblia na mão para justificar seus atos. Espero, portanto, a vinda do Reino de Deus para consolar todos os que choram, mas também para julgar os autores de tanta maldade no decorrer da história. Maranata!”.

Consolo e julgamento, eis um tema delicado. Nisso temos, por exemplo, o trabalho que envolve tanto a Comissão Nacional da Verdade como a Comissão de Anistia, que buscam reconhecer as ações equivocadas cometidas pelo Estado na época da ditadura civil-militar. Neste sentido eles julgam a possibilidade de reparações econômicas e ao anunciar o veredito também pedem perdão, em nome do Estado, pelas separações, perdas e torturas sofridas por cada um dos anistiados. Um momento significativo de incrível simbolismo e de importante consolo. O trabalho vai além e também busca identificar, inclusive dentro das Igrejas, quais pessoas atuaram de forma conivente com os processos de torturas e assassinatos cometidos pelo Estado na recente ditadura na busca de dar visibilidade a uma parte de nossa história que não pode ser intencionalmente ocultada.

Aqui retorno a recente filmografia americana para falar de um filme que, por conta dos tais rituais do Oscar, ficou de fora das premiações. Filme que vai na mesma linha do grande vencedor, só que não em um passado distante, mas num inquietante presente. Falo de uma realidade que, como sociedade, precisamos lutar para que se torne efetivamente uma página do passado. Fato que se deu com a escravidão – que ocorria de forma massiva e legalizada – e que hoje ocorre numa forma tácita em relação a violência policial e outras agressões “permitidas” que são sofridas por milhões de pessoas nas periferias do mundo.

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Fruitvale Station no cinema: Oscar e amigos são detidos.

O filme que falo é “Fruitvale Station – A última parada” e conta uma história tristemente simples: as últimas horas na vida de um americano negro que após um tempo preso, vive tentando se reabilitar junto à família e sofre com a violência de uma sociedade que ainda identifica negros como inferiores. Nesta história a religião serve de consolo e de suporte para os que sofrem, dos que padecem diante da violência de uma injusta sociedade. Neste caso, pelo menos, a religião está do lado certo.

A verídica história remete a um recente acontecimento na região metropolitana de San Francisco e o filme trata da barbaridade ocorrida no dia 1º de janeiro de 2009, em decorrência de uma ação desastrada da polícia na estação de metrô Fruitvale. Este filme, do diretor estreante Ryan Coogler e com produção do excelente ator Forest Whitaker, ganhou 27 prêmios em festivais, tendo recebido no Festival de Sundace (porta de entrada do cinema independente no mercado americano) o prêmio do Grande Júri por sua “realização bem feita, por seu impacto emocional devastador e por sua urgência moral e social”.

Pela internet lemos que o filme não entrou na lista do Oscar de melhor filme por conta da campanha bem feita pelo filme Philomena, tendo ocupado este a vaga de “filme independente” reservada para os finalistas. Pode ser. Quem perdeu mais com isso foi o Oscar e o grande público, já que a lamentável história de Oscar Grant III (nome do jovem assassinado na Fruitvale Station pela polícia americana) ficará um pouco menos conhecida mundo afora.

Os horrores da escravidão são lamentáveis, e não devemos e nem podemos esquecê-los. Os horrores da violência policial, do exercício de poder descontrolado estão presentes nos dias de hoje e temos a obrigação de evita-los. A culpa do jovem assassinado na estação do trem? Nenhuma, ele simplesmente saiu para passear e se divertir com amigos. Coisas como “rolezinhos de gente preta” geralmente não são bem vistos em nossas sociedades… Nada demais aconteceu e, talvez, o único erro dele foi ser um negro diante de policiais brancos. Forte? Pode ser, mas é o que dezenas de câmeras de celulares gravaram e é com esta cena real que o filme se inicia.

Train Station Shooting

Fruitvale Station no celular: segundos após o tiro que matou Oscar.

Durante a escravidão não tínhamos celulares nas mãos com suas câmeras. Hoje cada um em nossas cidades pode atuar como um defensor dos direitos humanos (recomendo este artigo sobre isso). Eis uma possibilidade acessível que possuímos para denunciar e questionar aqueles que exercem seu poder para além do que deviam.

O desafio está posto, não só em relação ao passado distante da escravidão, mas também em nosso cotidiano, seja no chamado primeiro mundo, seja por nossa terra. Em nossa realidade – onde Claudias e Amarildos são cotidianamente eliminados e em que o assassinato/sumiço de jovens e negros se tornou algo terrivelmente banal e corriqueiro – é fundamental que atuemos tanto para o consolo, como também para a promoção da justiça. Vidas humanas não se estornam e é na defesa delas e na ruptura e denúncia de processos e estruturas assassinas é que somos chamados a nos envolver. Maranata!

 

Alexandre Brasil Fonseca