…se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.

Lc 19:40

Uma imagem veio à mente quando conversava sobre a proposta do blog Dignidade!. É a imagem abaixo da obra Solilóquio[1] (1995) do escultor José Damasceno.

soliloquio

Duas cadeiras colocadas uma frente à outra nas extremidades de uma mesa. Entre elas pedras, muitas pedras. Lembro do dia em que ao visitar o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro vi a obra. Tirei várias fotos, de vários ângulos, foi algo que me mobilizou.

Damasceno afirma que “Talvez a arte possa então operar um movimento indagador, uma curiosidade inquietante, um deslocamento que ofereça novas visadas, novos olhares, contribuindo com formas acessíveis de se enriquecer o pensamento, para que possamos descobrir o arco de possibilidades que o ato poético, que sempre é político, pode oferecer” (Revista Arte & Ensaio, 2006, p. 83[2]).

Estes novos olhares, estas novas visadas que o artista se refere passam pelas oportunidades de encontro. Pela afirmação dos diálogos e da dignidade humana. As impressões e sensações que a obra de Damasceno mobilizam são tremendas. Como a imagem de sua obra expressa, parece ser possível falar para ninguém, somente para nós mesmos. As pedras podem ocupar nossas mentes, nossas mãos e nosso coração. Pedras que nos isolam e que até podem trazer uma sensação de segurança/defesa; mas que são, de fato, a representação de uma situação de não-comunicação, isolamento, um situar-nos fora do diálogo, alheios ao colóquios, dentro de um solilóquio.

Solilóquios e colóquios podem acontecer em diferentes espaços, mesmo nas redes sociais ou em Blogs como este; na vida real e na virtual. Quando se satanizam espaços, se negam possibilidades, esquece-se que os solilóquios estão em locais em que há paredes de separação, estão onde não se constroem pontes. Isso pode se dar seja no ciberespaço, como também no cotidiano de nossas existências. A não disposição ao diálogo pode, até mesmo, levar que as próprias barreiras se tornem veículos para expressar tantas coisas, até mesmo a grandeza de Deus. A imagem se reveste, assim, de um sentido ainda mais potente: “pedras que clamam”.

As pedras podem produzir sombras, mas também gerar luz que desperta a consciência da alma? As contradições e ambivalências das pedras que servem para estabelecer fundações  como, por exemplo, as tábuas da lei que representavam escritas civilizatórias em pedras que objetivavam gerar dignidades e direitos coletivos relacionados ao bem comum e um bem viver entre pessoas, famílias, comunidade tribal com possibilidade de se tornar ícone imagético de redenção e graça (Não era esse o chamado de Israel? Um povo construído por oralidade que narrava histórias de memoriais de pedra que lembravam momentos de arrependimento, recomeço e reconstrução – muros caídos, oportunidades de reconstrução de identidades pós diásporas).

Paradoxalmente, pedras que manifestam as incoerências e intolerâncias humanas nos apedrejamentos tão bem retratados pelos narradores bíblicos e na construção de espaços de apedrejamentos étnicos, sexuais, religiosos e filosóficos. Na contemporaneidade, pedras que constroem os muros que garantem o silêncio e a segurança nos condomínios e prédios, mas que constroem centros urbanos destituídos das suas ágoras e favorecem a constituição das ruas como os espaços cívicos participativos. Pedras que servem como memorial e memória das desigualdades de posição e ocupação sócio-espacial das áreas metropolitanas brasileiras e outras que são metáforas das vidas esfaceladas pela dispersão e pela segregação planejada nas pranchetas dos urbanistas, nas agendas dos proprietários de terras e dos mercados imobiliários, mas também nos encontros e  desencontros dos gestores das urbis.

Enfim, corpos que podem ser tornar pedras de edificação na mão do Construtor ou  objetos de destruição e ruptura fundamentalista nas mãos raivosas dos néscios da contemporaneidade. Corpos que traduzem “as muralhas erguidas em torno da capacidade de percepção” (Sennet, 2008) ou que aceitam o convite de olhar e ver “E, olhando, viram que já a pedra estava revolvida; e era ela muito grande” (Marcos 16:4).

Somos convidados a construir, como dizia o arquiteto Portoghesi, recintos de solidariedade, caminhos de alegria em que seja possível o encontro. Nosso convite é que preenchamos de colóquios a terra e o ciberespaço, que este Blog seja uma oportunidade de diálogos abertos, em que possamos deixar nossas pedras de lado; elas não precisam clamar, pois somos capazes de nos expressar, de construir reflexões e pontes de diálogo em prol da Dignidade Humana.

Que possamos juntos remover as pedras da injustiça social, da insensibilidade e da intolerância, permitindo que A Pedra da restauração, Jesus, inspire novos diálogos e respire novas gramáticas relacionais nos nosso campos e espaços de ocupação.

 

Alexandre Brasil Fonseca

 

(Este texto foi resultado da observação e de comentários sobre a obra de José Damasceno a partir de um álbum de fotografia postado na Internet. O texto foi montado com base no diálogo entre Angelit Guzmán Chávez e Alexandre Brasil Fonseca em agosto de 2011 e comentários de Daniela Frozi e de Leides Moura no início de 2014)

 

 



[3] Sennet, R. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental.  Rio de Janeiro: Best bolso; 2008.