por Gabriele Greggersen

“C.S. Lewis usava figuras de linguagem como analogias para as verdades do cristianismo; ele representa um oásis de bom-senso, humanidade, fé, esperança e amor

10-12-2005 | Estreou na última sexta-feira, dia 9, um dos filmes mais esperados do ano, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, dirigido por Andrew Adamson e baseado na obra homônima do autor (assumidamente cristão) C.S. Lewis (1898-1963).

Infelizmente, o autor e catedrático de literatura medieval e renascentista é pouco conhecido e apreciado no Brasil. E os que o conhecem, criticam pelo uso de palavras como “magia”, “sortilégio”, “profecias” e figuras como feiticeiras, faunos, animais falantes etc. Ele se tornou internacionalmente popular, precisamente por sua habilidade em lidar com as figuras de linguagem, usando-as as como analogias para veicular verdades profundas do cristianismo. As “Crônicas de Nárnia”, lançadas pela editora secular Martins Fontes na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 1997, fizeram tal sucesso – e continuam fazendo por todo o mundo – que o editor achou por bem comprar de uma só vez os direitos autorais de vários de seus livros. Agora as editoras cristãs se ressentem e tentam resgatar alguma parte, mais eminentemente teológica.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa faz parte da coletânea de sete livros intitulada As crônicas de Nárnia. Trata-se de uma série de contos infantis, incluindo O Sobrinho do mago, O cavalo e seu menino, Príncipe Caspian, A viagem do peregrino da alvorada, A cadeira de prata e A última batalha, que se dão em parte ou totalmente em Nárnia, um mundo completamente imaginativo, cujas pretensões de realidade se limitam ao âmbito da metáfora.

Para compreendê-las, exige-se do leitor/expectador experiência na leitura e interpretação de histórias do tipo conto de fadas, que a criança tem muita facilidade de compreender, mas a que o adulto muitas vezes tem resistência devido ao excesso de racionalização. O mundo adulto fala cada vez mais uma linguagem distante da linguagem infantil, que é essencialmente lúdica e imaginativa.Lewis e o jornalista britânico G.K. Chesterton e muitos psicanalistas e filósofos renomados como Carl Jung, Bruno Bettelheim, Jean-Paul Sartre e Gilbert Durand concordam em afirmar que o imaginário faz parte da experiência e da qualidade de vida humana, sem o qual adoecemos e que serve para curar traumas profundos em todas as idades.

Agora que a Disney resolveu encampar o projeto da Walden Media de filmagem das histórias de Nárnia, teremos uma oportunidade única para compreender a importância do imaginário e da narrativa de contos que, como muitos críticos já observaram, são tudo, menos infantis (no sentido moderno). Teremos chance também de tornar o autor mais conhecido entre nós, o que certamente também atiçará a crítica, o que não é necessariamente uma coisa ruim.Promover esse nome e seu legado no Brasil não é nenhuma “missão impossível”, como era antes do filme, dada a sua importância reconhecida no mundo de fala inglesa e na Europa em geral. Quem tem a curiosidade de pesquisar na internet encontrará mais de 5 milhões de páginas relacionadas a ele (inclusive a minha: http://cslewis.com.br).

Aventurando-se pelo mundo da literatura fantástica, infantil ou da crítica literária, acabará tropeçando nele, mais dia menos dia, citado como parte integrante do patrimônio cultural comum da humanidade. Parte de sua biografia já serviu de inspiração a diretores de cinema, como Richard Attenborough, que em 1993 lançou Terra das sombras (Shadowlands), estrelado por Anthony Hopkins.

Mas o melhor livro para se entender os dramas da vida desse autor tão multifacetado e fascinante é Surpreendido pela alegria (Editora Mundo Cristão), no qual ele narra, entre outras coisas, a morte de sua mãe, aos cinco anos de idade; suas péssimas experiências em escolas experimentais britânicas; sua tábua de salvação, que foi um professor particular que o resgatou; sua experiência de guerra e o juramento a um amigo de batalha que o fez cuidar da mãe dele e uma irmã pelo resto da vida dela (o que tem escandalizado alguns críticos); e a história de sua conversão ao cristianismo, uma das mais relutantes e comoventes que já li.Lewis nunca foi militante de nenhuma denominação ou igreja específica. Era amigo de vários padres e freiras, e sua luta sempre foi pela unidade e diálogo entre as várias igrejas, ao contrário do proselitismo de que o acusam. Acredito, quanto a este aspecto, que um autor, principalmente quando escreve ficção, não tem como esconder aquilo em que acredita, e seria até uma hipocrisia fingir que não acredita em nada.Meu interesse particular pelo autor começou na infância, quando assisti pela primeira vez uma versão de O leão, a feiticeira e o guarda-roupa em desenho animado, e firmou-se quando ouvi um dos seus livros mais premiados, Cartas de um diabo a seu aprendiz (Editora Vozes), ou Cartas do coisa-ruim, como foi traduzido anteriormente (Editora Loyola), citado numa aula de Filosofia da Faculdade de Educação da USP, onde estudei e dediquei minha tese de doutorado à dita Crônica. A já publicada e agora em vias de republicada tese inspirou-se naquele meu estranhamento inicial de ver um autor de livros infantis imaginativos e livros teológicos invadindo a academia, normalmente fechada a tudo que não seja estritamente racional (…).

Mas a principal razão pela qual continuo me dedicando a esse autor e aos que considero seus correlatos nacionais e internacionais é o oásis de bom-senso, humanidade, fé, esperança e amor que ele representa. Seus livros são uma verdadeira oficina de criatividade, que gerou uma grande variedade de contos de minha própria autoria (No guarda-roupa do Leão I: Contos, mistérios e encantos inspirados em Nárnia, Editora Descoberta). Orientar as pessoas em como canalizar esta criatividade foi uma das preocupações do meu último livro, A magia das crônicas de Nárnia (GW Editora), que pretende ser o primeiro de uma série de manuais com dicas úteis para pais, educadores e líderes de empresas.

Fonte:

Artigo publicado no site Teologia Brasileira, disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/Materia.asp?MateriaID=220, acesso em 01.01.2009.

Última atualização em Qua, 21 de Outubro de 2009 00:23
por SHIN OLIVA SUZUKI
da Folha de S.Paulo

Parece a receita dos sonhos de Hollywood: juntar fantasia e cristianismo –os temas mais quentes na capital do cinema atualmente– embalados em uma história chancelada por milhões de leitores. Vem aí “A Paixão do Hobbit”? Não se chegará a tal absurdo, mas elementos do controverso filme de Mel Gibson e de “O Senhor dos Anéis” estarão na aposta da Disney para recuperar o encanto perdido.

A companhia anunciou no início deste mês a adaptação cinematográfica da série infantil de fantasia “As Crônicas de Nárnia”, de autoria do escritor e pensador cristão, nascido na Irlanda do Norte, C.S. Lewis (1898-1963), amigo próximo de J.R.R. Tolkien quando freqüentavam a Universidade de Oxford.

O primeiro filme, produzido em conjunto com a Walden Media, irá consumir US$ 100 milhões em filmagens na Nova Zelândia e será baseado no livro “The Lion, the Witch and the Wardrobe” (“O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa”, lançado no Brasil, como todas as “Crônicas”, pela editora Martins Fontes). A direção ficará a cargo de Andrew Adamson, de “Shrek”, e, para o papel principal, Nicole Kidman vem sendo cogitada. A previsão é que o filme estréie no Natal do ano que vem.

A empreitada ganhou importância depois que a Disney recusou a produção da trilogia “O Senhor dos Anéis” (quase US$ 3 bilhões só de bilheteria, 17 Oscar no total) e rompeu a parceira com a Pixar, responsável por uma seqüência bem-sucedida de animações digitais (de “Toy Story” a “Procurando Nemo”). Acionistas da empresa não gostaram dos recentes passos e forçaram a retirada de parte do poder do presidente-executivo, Michael Eisner.

A fé para afastar de vez a maré baixa foi depositada em uma história desconhecida do público brasileiro, mas dona de larga base de admiradores entre os leitores de língua inglesa –85 milhões de livros foram vendidos desde os anos 50, quando a série foi escrita.

“As Crônicas de Nárnia” se passam em um mundo fantástico povoado por não tão inusuais (para um mundo fantástico) bruxas, anões e animais falantes. No entanto, o diferencial na obra de Lewis está na estrutura formada em torno da moral cristã.

“A série foi a primeira obra de fantasia teológica a ser escrita, o que levou até a revista ‘Time’ a fazer uma reportagem de capa com Lewis. Havia um gênero novo à vista”, explicou à Folha de S.Paulo Stanley Mattson, presidente da C.S. Lewis Foundation, entidade que promove seminários Estados Unidos afora para debater o trabalho do autor norte-irlandês –em cujas platéias se sentam mais acadêmicos do que a própria criançada.

O personagem principal da série é o leão Aslan –uma alegoria de Jesus Cristo construída por Lewis–, que surge sempre quando o mundo de Nárnia se encontra ameaçado. Em “O Leão, a Bruxa…”, o messias de juba salva um grupo de quatro crianças da vilã Feiticeira Branca, não, porém, sem ensinar a importância do caminho moral que será seguido e do arrependimento de seus erros.

Douglas Gresham, filho adotivo de Lewis e que trabalhará como consultor no filme da Disney, afirmou, por e-mail, que a mensagem por trás das “Crônicas” é a de que “Deus sempre triunfa sobre o mal e, ocorra o que ocorrer, tudo depende do lado que vamos escolher estar no meio dessa guerra”.

Mas os livros de Lewis vêm cativando leitores de variados credos graças, ao que Stanley Mattson chama, da “acessibilidade de seu texto”. “Ele queria partilhar com o leitor o que via e compreendia. Lewis era um homem de grande formação intelectual, mas se comunicava de uma maneira que todos podiam entender.”

“Poderia dizer que a população inteira do mundo é uma audiência em potencial para ele”, diz Gresham. A Disney está mal das pernas, mas não é boba, não.

Última atualização em Seg, 14 de Dezembro de 2009 19:49

26 de novembro de 2007

Por Gene Edward Veith

Os livros de Harry Potter talvez sejam o maior sucesso até hoje na história da literatura infantil. Essa série, escrita por uma autora britânica chamada J. K. Rowling, foi traduzida em 35 idioma e lida em 220 países. Chegou ao topo dos campeões de venda em todo o mundo com a marca de quarenta e um milhões de exemplares distribuídos. No Brasil, os livros da série Harry Potter ocupam os três primeiros lugares de venda. Os dois primeiros volumes, por exemplo, atingiram a casa dos 200 mil exemplares vendidos. É a primeira vez que um só autor consegue conquistar tal posição.Os maiores compradores desses livros campeões de venda são, obviamente, as crianças. Muitas delas, segundo consta, ao comprarem um exemplar dessa série, estão lendo pela primeira vez um livro na vida. Pais e mestres afirmam que a série Harry Potter está levando milhares e milhares de jovens aos prazeres da leitura. Os meninos, em especial, que usualmente são mais resistentes à leitura que as meninas, estão desligando a TV e os videogames para dedicar tempo ao suposto bom livro. Os jovens que antes eram condicionados a passar horas e horas em frente à televisão estão se dedicando intensamente à leitura de uma série com nada menos que 700 páginas. Quem vê isso pensa logo em boas notícias. Mas não é bem assim.

Um dos aspectos das histórias de Harry Potter faz com que os pais cristãos se sintam mal. A série fala de uma escola para bruxas. Harry é um pré-adolescente bobo e totalmente infeliz, criado por padrastos que o desprezam. Por fim, ele vai para a Academia Hogwarts [Verrugas de Javali], um internato mágico. Lá aprende a lançar sortilégios e transforma-se num superatleta ao participar, voando, de uma corrida de vassouras, além de desfrutar de aventuras fabulosas.Nestes tempos, quando a verdadeira bruxaria está em voga, com as convenções de Wicca (bruxaria) reconhecidas nos campus universitários da Europa e da América do Norte como mais um ministério legítimo entre estudantes, essa narrações passam a idéia de que a feitiçaria é algo atraente. É verdade que as bruxas que voam montados em vassouras não deixam de ser uma ilustração dos personagens das histórias infantis. Não se tratam, logicamente, das deusas neo-pagãs e dos adoradores da natureza da Wicca. Mas não é por isso que os pais cristãos devem deixar de se preocupar com os seus filhos adolescentes: a leitura da série Harry Potter está a um pequeno passo entre o fascínio pelo personagem desses livros e o envolvimento aberto com o ocultismo.Harry Potter é só um exemplo de como a juventude de hoje está nadando na fantasia. Os videogames, apesar de sua alta tecnologia, freqüentemente retratam âmbitos arcaicos de espadas e feitiçaria. Na TV, envolvem-se com Xena, a princesa guerreira; Buffy, a caça vampiros e Sabrina, a bruxa adolescente, além de programas e novelas que evocam o ocultismo. Os filmes de grande popularidade entre as crianças, os adolescentes e os jovens são freqüentemente fantasias com toques de ficção científica, como por exemplo, a série Guerra nas Estrelas.Na realidade, a fantasia sempre teve participação fundamental no entretenimento infantil, seja de modo maléfico ou sadio. Hoje em dia, portanto, destaca-se mais o seu lado maléfico, infelizmente. A fantasia é um recurso que, se não for bem usado, prejudica, e muito. Se por um lado algumas histórias infantis estão eivada de insinuações feministas, por outro, muitos autores procuram transmitir valores honestos, demasiadamente tradicionais.Alguns dos melhores escritores cristãos, de John Bunyan a C. S. Lewis, têm empregado e defendido o gênero literário da fantasia. O Peregrino, de John Bunyan [publicado pela Editora Mundo Cristão], e as Crônicas de Nárnia [publicados pela editora Martins Fontes], de Lewis, têm ajudado milhares de crianças e seus pais a compreender o evangelho.

O problema não está na fantasia, que nada mais é do que um simples exercício de imaginação. Uma obra que lança mão desse recurso pode moldar a criatividade imaginária do público, tanto para o bem quanto para o mal. O desafio é saber discernir a diferença entre a fantasia boa e a fantasia má, e reconhecer não somente o seu conteúdo, mas também o seu efeito sobre o leitor. O que torna uma fantasia diferente da outra? Como o leitor ou seus pais podem perceber essa diferença? Julgando o seu conteúdo. E isso envolve perspicácia para entender como funciona a fantasia e discernimento para reconhecer seus efeitos.

Fantasia e a realidadeA solução não é simplesmente repudiar as obras de fantasia e favorecer as realistas. Poderíamos argumentar que livros realistas atuais para crianças são mais negativos em seus efeitos do que as fantasias da série Harry Potter. Livros como Heather tem duas mamães, de Leslea Newman e Diana Souza, e O companheiro de quarto do papai, de Michael Willhoite, são tentativas realistas de legitimar a prática homossexual entre crianças de quatro a oito anos.Outras obras desse gênero literário lidam com divórcio, abuso de crianças e sexo. Títulos populares escritos para adolescentes incluem tratamento favorável ao abuso de drogas, fuga de casa, suicídio e relação sexual extraconjugal em todas as suas formas. O mundo realista de hoje é constituído de pais cruéis, rebelião moral e autocomiseração dos adolescentes. A moda do realismo nos livros infantis não passa de um pretexto à doutrinação politicamente correta, à invectiva anti-família e à narrativa eivada de problemas de angústia.O psicólogo cristão William Kirk Kilpatrick demonstra como as histórias infantis podem ajudar as crianças em sua educação moral. Elas aprendem que a virtude é atraente e a iniqüidade, repulsiva. Não assimilam isso pelos preceitos abstratos das histórias, e muito menos pelos exercícios de clarificação de valores ensinados nas escolas, mas ao torcerem por seus heróis virtuosos e imitarem o comportamento deles.Parece que a proposição inversa também é verdadeira. Se algumas histórias tornam a virtude atraente, outras, no entanto, elevam, de igual forma, o vício. Assim como qualquer ferramenta, a literatura também pode ser usada para o bem ou para o mal. Se o propósito é ensinar a criança a não mentir, nada melhor do que o livro O menino que gritava “lobo”!, e outras fábulas de Esopo que, apesar de seus animais falantes, transmitem noções certas de trabalho esforçado (A formiga e a cigarra) e da persistência (A tartaruga e o coelho).Não seria errado dizer que os cristãos primitivos inventaram a fantasia, ou a ficção, por meio de suas atitudes com os mitos. Para eles, os mitos não eram verdadeiros, e os mantinham em seu currículo educacional como meras histórias.

Conforme observa Werner Jaeger, foram os cristãos que, finalmente, ensinaram aos homens a avaliar a poesia por um padrão puramente estético, padrão este que os capacitou a rejeitar a maioria dos ensinos morais e religiosos dos poetas clássicos como falsos e ímpios, mas sem deixar de aceitar os elementos formais da sua obra como sendo instrutivos e esteticamente agradáveis.Os pagãos não acreditavam que as sagas dos seus deuses não passavam de mitos, mas achavam-nas verdadeiras. Aos cristãos, no entanto, seria idolatria acreditar que Ícaro realmente voou tão alto em asas confeccionadas de cera, derretidas, depois, pela carruagem do deus-sol. Uma vez que fique claro que o deus-sol não existe e que essa história nunca aconteceu, ela pode ser apreciada de modo diferente, como uma ilustração do que pode acontecer com a soberba humana.As crianças com forte senso ficcional e sabedoria para distinguir a diferença entre a fantasia e o mundo real estão inoculadas contra a maioria dos efeitos nocivos desse tipo de enredo. Quando, porém, a criança passa a considerar o mundo real como fantasia, aí sim surgem os problemas. Mas se ela compreender a diferença entre ficção e realidade, então as histórias de todos os tipos tornam-se objeto de ensino e recreação.

Os dois tipos de escape: o bom e o mau
A fantasia é acusada de muitas coisas, e uma delas é de ser mero escapismo. No âmbito intelectual e cultural, que reconhece apenas aquilo que pode ser visto, tocado e medido, talvez a fantasia seja um toque necessário e especial. Isto porque será um instrumento que despertará a imaginação das pessoas para a saudade, a beleza, o heroísmo moral e os ideais transcendentes. Ao agir na consciência dessa maneira talvez o ser humano seja acordado para a existência de alguma coisa a mais nesta vida do que apenas um universo estreitamente material de átomos zunindo.Na verdade, as histórias infantis não são tão-somente meros preceitos abstratos; pelo contrário, são atitudes e percepções que penetram profundamente na imaginação e ajudam a formar o caráter.O psicólogo infantil Bruno Bettelheim relata como descobriu a utilidade das histórias infantis no tratamento de crianças marcadas por traumas a abusos. Ele sustenta que as partes assustadoras dessas narrações prevêem os temores que as crianças têm na realidade (como no caso de João e Maria, cujos pais não podiam sustentá-los. As crianças realmente se preocupam com esse tipo de situação!). Em seguida, o autor mostra que, a despeito das provações (perder-se no bosque) e das tentações (não comer a cama feita de doces!), as crianças descobriram, por meio do coração e da ação virtuosa (a bruxa é vencida pela esperteza deles), que poderiam viver felizes para sempre.Embora boa parte da literatura infantil contemporânea procure projetar um mundo doméstico seguro, e insista que as historinhas sejam depuradas de suas partes assustadoras e de seus castigos severos, Bettelheim adota uma posição diferente: Os adultos acham freqüentemente que o castigo cruel de uma pessoa maligna numa história infantil perturba e assusta desnecessariamente as crianças. A verdade é bem contrária a esse conceito e semelhante retribuição deixa a criança sentir confiança de que cada crime receberá seu devido castigo. Muitas vezes, a criança se sente injustiçada pelos adultos e pelo mundo em geral, e parece-lhe que nada é feito para remediar a situação. Baseando-se exclusivamente nessa experiências, deseja que aqueles que trapaceiam e degradam sejam castigados com a máxima severidade. Caso contrário, a criança acha que ninguém leva a sério a idéia de protegê-la; mas quanto mais severo o castigo aplicado àquelas pessoas más, tanto mais segura a criança se sente.O mundo das histórias infantis é um âmbito de ordem moral rigorosa. Quando usadas corretamente, as fantasias podem ajudar a instilar a ordem moral na personalidade da criança.

Fantasiando o mal
Posto que as fantasias podem ter um efeito benéfico ao estimular a imaginação de modo construtivo, não podemos nos esquecer que seus efeitos também podem ser negativos. Se certos contos passam a idéia de que o heroísmo moral é algo atraente, outros, podem levar as pessoas a conceber pensamentos malignos.Alguns pais levantam objeções contra o livro de C. S. Lewis, O leão, a bruxa e o guarda-roupa, simplesmente porque ele contém uma feiticeira. Não levam em conta em consideração o fato de que tal personagem é descrita como uma vilã repulsiva, um símbolo do diabo e suas tentações. Esquecem-se de que o livro é uma poderosa alegoria do evangelho. Acreditam que a obra (por causa da existência de uma bruxa) e seus leitores sejam defensores e participantes do ocultismo. Será que para tais pessoas um panfleto falando contra a bruxaria é uma obra do ocultismo só porque menciona essa palavra: bruxaria?O mesmo acontece com as histórias que contém violência. Pode haver uma trama sem algum tipo de conflito? Não existe história em que todos vivem felizes para sempre. Forçosamente, tem de haver algum tipo de problema, algum obstáculo a ser vencido, algum embate, quer seja externo (os bons contra os maus), quer seja interno (uma decisão do personagem), ou os dois. As fantasias tendem a exteriorizar os estados interiores e/ou a simbolizar as idéias de forma concreta.Assim, o conflito é sempre apresentado como algo externo nas histórias infantis. Ou seja, ele é manifestado através das lutas contra os monstros, nas batalhas e duelos de cavaleiros com armaduras. Tudo isso, portanto, pode ser caracterizado como violência. Mas, sem conflitos, só podem haver descrições insignificantes. Os conflitos imaginativos das histórias ensinam a moralidade e edificam o caráter.Atualmente, são os humanistas liberais que negam a diferença real entre o certo e o errado, e o conflito entre eles. E por isso levantam as objeções mais vociferantes contra a violência nas história infantis. Matar um dragão viola os direitos dos animais; o salvamento de uma princesa nada mais é do que interesse sexual.As fantasias, juntamente com todas as demais formas de literatura, devem ser avaliadas segundo seu significado e efeito. Que tipo de relevância a violência possui? Ela dramatiza o conflito entre o bem e o mal ou glorifica o papel dos fortes que aterrorizam os fracos?Que efeito a violência tem sobre o leitor? Deixa-o menos propenso a lesar as pessoas na vida real? Ou, pelo contrário, desperta os prazeres da crueldade ou do sadismo?O ponto de vista do personagem principal da história é digno de uma análise apurada. As histórias tradicionais quase sempre representam o ponto de vista do mocinho, do homem bom (Nas histórias realistas mais complexas, com algum conflito interno, o personagem talvez não seja tão singelo, e o enredo pode fixar-se apenas em luta moral. As tragédias retratam um personagem nobre cuja derrocada foi provocada por uma falha moral; mas, nas fantasias, os personagens normalmente são mais simples). As histórias contemporâneas dificilmente prendem o leitor ao pondo de vista de um personagem maligno.Nos videogames modernos, destaca-se o jogo do Atirador na Primeira Pessoa. Esse tipo de jogo interativo apresenta a ação através dos olhos de um personagem da história, que é justamente o jogador. O vídeo procura retratar aquilo que o personagem estaria vendo. O jogador é um atirador porque é colocado no papel de um assassino em série que anda a passos largos por uma paisagem virtual, levantando sua arma e alvejando suas vítimas, detonando-as.Alguns desses jogos se acham nos salões de tiro com alta tecnologia, visando alvos humanos. Ao participar desse jogo, o atirador sente a sensação imaginária de ser assassino em série. Aliás, conforme já foi bastante noticiado, os assassinos columbinos gostavam de jogos desse tipo e, posteriormente, encenaram esses jogos na vida real.Dizem que o número de jogadores que literalmente encena esses jogos na vida real é minúsculo. Os cristãos, entretanto, sabem que não são apenas as ações, mas também os pensamentos e imaginações do coração que corrompem moralmente. O próprio Jesus enfatizava que Deus julga os pensamentos da mesma forma que julga as ações. O adultério cometido no coração viola o mandamento de Deus, ainda que jamais seja posto em prática. Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo; e qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno (Mt 5.21-22). Ouviste que foi dito aos antigos: Não cometereis adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela (Mt 5.27-28).As nossas fantasias pessoais, tais como as literárias, são de suma importância espiritual. As fantasias pornográficas e as imaginações sobre como machucar as pessoas são extremamente prejudiciais a nós mesmos. Elas corrompem o coração. O caso de Harry Potter

O que, portanto, os cristãos devem pensar do grande sucesso da moda Harry Potter? Entre outros motivos, as crianças se apaixonam por esses livros porque suas mentes estão subnutridas e, empregando a metáfora de Tolkien, suas imaginações estão como que aprisionadas, ansiosas por uma via de escape.As escolas, muitas vezes, trancam as crianças num currículo politicamente correto, esforçando-se zelosamente para inculcar na consciência delas problemas sociais reais e deprimentes. Seus livros-textos são materialistas. Os textos científicos asseveram o sistema naturalista do evolucionismo. Os históricos atacam as últimas sobras dos ideais cristãos. Os literários desenvolvem histórias de problemas e dilemas morais. Não é por nada que as crianças odeiam ler.A popularidade dos livros Harry Potter não está simplesmente no fato de eles serem fantasias (literaturas como esta existem muitas, mas não com tamanha projeção e popularidade). A série fala de escola, de educação. Eis o motivo de seu grande sucesso. Ao lerem a respeito da Academia Verrugas de Javali, as crianças se identificam com o ambiente, e isso lhes dá a sensação de conhecê-la. Ao viajarem na leitura, encontram-se com as panelinhas, as pressões estudantis e, acima de tudo, a luta pela popularidade entre os amigos, algo com que estão bem familiarizadas.A Academia Verrugas de Javali é uma escola diferente, interessante. Não é como as escolas comuns. Ao invés de simplesmente colocar as crianças sentadas em grupos para que compartilhem seus sentimentos, ensina-lhes coisas maravilhosas: tornar-se invisível, mudar a forma dos objetos com vara de condão (vara mágica) e voar!As crianças, especialmente as mais perceptivas, podem identificar-se com Harry Potter que, no início, está preso no mundo de Muggle (âmbito material comum e insípido daqueles que não conseguem enxergar o sobrenatural), marginalizado na escola e desprezado pelos padrastos. O desenrolar da história revela que ele era realmente um mágico desde o começo. Mas na Academia, o menino bobo de óculos alcança popularidade! Os fãs de Harry Potter não estão interessados no enredo fantasioso sobre bruxas, mas em se tornarem populares e bem-sucedidos.O argumento cristão contra Harry Potter é o fato de estar ele em uma escola para feiticeiros. Sabemos que as bruxas não são meras personagens dos enredos fantasiosos. Elas são reais. Sejam elas adoradoras de Satanás ou devotas neo-pagãs de Wicca. Não importa.Os defensores de Harry Potter podem ressaltar que as bruxas da Academia Verrugas de Javali nada têm a ver com Wicca ou com algum tipo de feitiçaria de magia negra. Não são iníquas, de modo nenhum, e muito menos pregam qualquer tipo de religião da natureza, como, por exemplo, a Nova Era. As bruxas aqui envolvidas são tiradas das histórias infantis, com suas vassouras e sortilégios. São bondosas (assim como a bruxa virtuosa no Mágico de Oz). A verdade, para tais defensores, é que Harry está aprendendo a ser um mágico, e não um feiticeiro.Mas isso não importa. Como cristãos, devemos desaprovar esses livros. Nas histórias infantis, as bruxas são tipicamente malignas, o que reforça as nítidas linhas distintivas entre o mal e o bem; ou seja, entre as forças das trevas e as forças da luz. Qualquer coisa que borrar essas linhas é motivo de preocupação.Harry Potter, no entanto, não apaga totalmente essas linhas distintivas. Existe um poder abertamente maligno na pessoa de Valdemort, uma bruxa realmente ímpia contra a qual Harry e seus colegas de escola estão em conflito durante a série inteira. Alguns enxergam desrespeito para com os pais no péssimo relacionamento de Harry e seus padrastos. Os verdadeiros pais desse personagem foram mortos pelo bruxo Valdemort. O amor e a admiração por seus pais são sentimentos importantes no caráter de Harry.Todavia, essa literatura não está à altura de ser ideal. Ela apresenta um perigo nítido e atual da bruxaria. Os pais cristãos têm razão ao orientar seus filhos a evitar essa série. Se a coqueluche Potter já afetou seus filhos, caro leitor, você deve lidar cuidadosamente com a situação.Os pais devem deixar bem claro que os cristãos não são Muggles. Em outras palavras, o cristianismo não é uma cosmovisão bitolada, materialista e enfadonha, tal como satirizada nas novelas Potter e ensinada nas escolas. O cristianismo tem um universo aberto, com espaço para o natural e o sobrenatural, para o corriqueiro e o milagroso. O cristianismo reconhece as verdades invisíveis da bondade e da beleza, e acredita numa batalha genuína entre as forças das trevas e as forças da luz. Os relatos bíblicos sobre como Deus se tornou homem, através de Jesus Cristo, a derrota de Satanás, a expiação pelos nossos pecados, mediante seu sacrifício na cruz, a ressurreição de Cristo compõem a história mais maravilhosa de todas as histórias.A melhor maneira de evitar que as nossas crianças sejam confundidas por Harry Potter e seduzidas pelas fantasias más, o que é muito pior, é colocar à disposição delas a boa literatura, e também a fantasia boa, como por exemplo, o livro O Peregrino, de John Bunyan. Nenhuma literatura, portanto, substitui a Bíblia Sagrada, a poderosa Palavra de Deus.Veja que maravilha: Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele (Pv 22.6).

Fonte:

Blog Canção Nova, disponível em http://blog.cancaonova.com/sergiofernandes/2007/11/page/6/, acesso em 01/01/2009.

Última atualização em Ter, 20 de Outubro de 2009 15:17

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Nárnia X Harry Potter: Fantasias boas e más (?)

26 de novembro de 2007


Por Gene Edward Veith

Os livros de Harry Potter talvez sejam o maior sucesso até hoje na história da literatura infantil. Essa série, escrita por uma autora britânica chamada J. K. Rowling, foi traduzida em 35 idioma e lida em 220 países. Chegou ao topo dos campeões de venda em todo o mundo com a marca de quarenta e um milhões de exemplares distribuídos. No Brasil, os livros da série Harry Potter ocupam os três primeiros lugares de venda. Os dois primeiros volumes, por exemplo, atingiram a casa dos 200 mil exemplares vendidos. É a primeira vez que um só autor consegue conquistar tal posição.Os maiores compradores desses livros campeões de venda são, obviamente, as crianças. Muitas delas, segundo consta, ao comprarem um exemplar dessa série, estão lendo pela primeira vez um livro na vida. Pais e mestres afirmam que a série Harry Potter está levando milhares e milhares de jovens aos prazeres da leitura. Os meninos, em especial, que usualmente são mais resistentes à leitura que as meninas, estão desligando a TV e os videogames para dedicar tempo ao suposto bom livro. Os jovens que antes eram condicionados a passar horas e horas em frente à televisão estão se dedicando intensamente à leitura de uma série com nada menos que 700 páginas. Quem vê isso pensa logo em boas notícias. Mas não é bem assim.

Um dos aspectos das histórias de Harry Potter faz com que os pais cristãos se sintam mal. A série fala de uma escola para bruxas. Harry é um pré-adolescente bobo e totalmente infeliz, criado por padrastos que o desprezam. Por fim, ele vai para a Academia Hogwarts [Verrugas de Javali], um internato mágico. Lá aprende a lançar sortilégios e transforma-se num superatleta ao participar, voando, de uma corrida de vassouras, além de desfrutar de aventuras fabulosas.Nestes tempos, quando a verdadeira bruxaria está em voga, com as convenções de Wicca (bruxaria) reconhecidas nos campus universitários da Europa e da América do Norte como mais um ministério legítimo entre estudantes, essa narrações passam a idéia de que a feitiçaria é algo atraente. É verdade que as bruxas que voam montados em vassouras não deixam de ser uma ilustração dos personagens das histórias infantis. Não se tratam, logicamente, das deusas neo-pagãs e dos adoradores da natureza da Wicca. Mas não é por isso que os pais cristãos devem deixar de se preocupar com os seus filhos adolescentes: a leitura da série Harry Potter está a um pequeno passo entre o fascínio pelo personagem desses livros e o envolvimento aberto com o ocultismo.Harry Potter é só um exemplo de como a juventude de hoje está nadando na fantasia. Os videogames, apesar de sua alta tecnologia, freqüentemente retratam âmbitos arcaicos de espadas e feitiçaria. Na TV, envolvem-se com Xena, a princesa guerreira; Buffy, a caça vampiros e Sabrina, a bruxa adolescente, além de programas e novelas que evocam o ocultismo. Os filmes de grande popularidade entre as crianças, os adolescentes e os jovens são freqüentemente fantasias com toques de ficção científica, como por exemplo, a série Guerra nas Estrelas.Na realidade, a fantasia sempre teve participação fundamental no entretenimento infantil, seja de modo maléfico ou sadio. Hoje em dia, portanto, destaca-se mais o seu lado maléfico, infelizmente. A fantasia é um recurso que, se não for bem usado, prejudica, e muito. Se por um lado algumas histórias infantis estão eivada de insinuações feministas, por outro, muitos autores procuram transmitir valores honestos, demasiadamente tradicionais.Alguns dos melhores escritores cristãos, de John Bunyan a C. S. Lewis, têm empregado e defendido o gênero literário da fantasia. O Peregrino, de John Bunyan [publicado pela Editora Mundo Cristão], e as Crônicas de Nárnia [publicados pela editora Martins Fontes], de Lewis, têm ajudado milhares de crianças e seus pais a compreender o evangelho.

O problema não está na fantasia, que nada mais é do que um simples exercício de imaginação. Uma obra que lança mão desse recurso pode moldar a criatividade imaginária do público, tanto para o bem quanto para o mal. O desafio é saber discernir a diferença entre a fantasia boa e a fantasia má, e reconhecer não somente o seu conteúdo, mas também o seu efeito sobre o leitor. O que torna uma fantasia diferente da outra? Como o leitor ou seus pais podem perceber essa diferença? Julgando o seu conteúdo. E isso envolve perspicácia para entender como funciona a fantasia e discernimento para reconhecer seus efeitos.


Fantasia e a realidade

A solução não é simplesmente repudiar as obras de fantasia e favorecer as realistas. Poderíamos argumentar que livros realistas atuais para crianças são mais negativos em seus efeitos do que as fantasias da série Harry Potter. Livros como Heather tem duas mamães, de Leslea Newman e Diana Souza, e O companheiro de quarto do papai, de Michael Willhoite, são tentativas realistas de legitimar a prática homossexual entre crianças de quatro a oito anos.Outras obras desse gênero literário lidam com divórcio, abuso de crianças e sexo. Títulos populares escritos para adolescentes incluem tratamento favorável ao abuso de drogas, fuga de casa, suicídio e relação sexual extraconjugal em todas as suas formas. O mundo realista de hoje é constituído de pais cruéis, rebelião moral e autocomiseração dos adolescentes. A moda do realismo nos livros infantis não passa de um pretexto à doutrinação politicamente correta, à invectiva anti-família e à narrativa eivada de problemas de angústia.O psicólogo cristão William Kirk Kilpatrick demonstra como as histórias infantis podem ajudar as crianças em sua educação moral. Elas aprendem que a virtude é atraente e a iniqüidade, repulsiva. Não assimilam isso pelos preceitos abstratos das histórias, e muito menos pelos exercícios de clarificação de valores ensinados nas escolas, mas ao torcerem por seus heróis virtuosos e imitarem o comportamento deles.Parece que a proposição inversa também é verdadeira. Se algumas histórias tornam a virtude atraente, outras, no entanto, elevam, de igual forma, o vício. Assim como qualquer ferramenta, a literatura também pode ser usada para o bem ou para o mal. Se o propósito é ensinar a criança a não mentir, nada melhor do que o livro O menino que gritava “lobo”!, e outras fábulas de Esopo que, apesar de seus animais falantes, transmitem noções certas de trabalho esforçado (A formiga e a cigarra) e da persistência (A tartaruga e o coelho).Não seria errado dizer que os cristãos primitivos inventaram a fantasia, ou a ficção, por meio de suas atitudes com os mitos. Para eles, os mitos não eram verdadeiros, e os mantinham em seu currículo educacional como meras histórias.

Conforme observa Werner Jaeger, foram os cristãos que, finalmente, ensinaram aos homens a avaliar a poesia por um padrão puramente estético, padrão este que os capacitou a rejeitar a maioria dos ensinos morais e religiosos dos poetas clássicos como falsos e ímpios, mas sem deixar de aceitar os elementos formais da sua obra como sendo instrutivos e esteticamente agradáveis.Os pagãos não acreditavam que as sagas dos seus deuses não passavam de mitos, mas achavam-nas verdadeiras. Aos cristãos, no entanto, seria idolatria acreditar que Ícaro realmente voou tão alto em asas confeccionadas de cera, derretidas, depois, pela carruagem do deus-sol. Uma vez que fique claro que o deus-sol não existe e que essa história nunca aconteceu, ela pode ser apreciada de modo diferente, como uma ilustração do que pode acontecer com a soberba humana.As crianças com forte senso ficcional e sabedoria para distinguir a diferença entre a fantasia e o mundo real estão inoculadas contra a maioria dos efeitos nocivos desse tipo de enredo. Quando, porém, a criança passa a considerar o mundo real como fantasia, aí sim surgem os problemas. Mas se ela compreender a diferença entre ficção e realidade, então as histórias de todos os tipos tornam-se objeto de ensino e recreação.

Os dois tipos de escape: o bom e o mau
A fantasia é acusada de muitas coisas, e uma delas é de ser mero escapismo. No âmbito intelectual e cultural, que reconhece apenas aquilo que pode ser visto, tocado e medido, talvez a fantasia seja um toque necessário e especial. Isto porque será um instrumento que despertará a imaginação das pessoas para a saudade, a beleza, o heroísmo moral e os ideais transcendentes. Ao agir na consciência dessa maneira talvez o ser humano seja acordado para a existência de alguma coisa a mais nesta vida do que apenas um universo estreitamente material de átomos zunindo.Na verdade, as histórias infantis não são tão-somente meros preceitos abstratos; pelo contrário, são atitudes e percepções que penetram profundamente na imaginação e ajudam a formar o caráter.O psicólogo infantil Bruno Bettelheim relata como descobriu a utilidade das histórias infantis no tratamento de crianças marcadas por traumas a abusos. Ele sustenta que as partes assustadoras dessas narrações prevêem os temores que as crianças têm na realidade (como no caso de João e Maria, cujos pais não podiam sustentá-los. As crianças realmente se preocupam com esse tipo de situação!). Em seguida, o autor mostra que, a despeito das provações (perder-se no bosque) e das tentações (não comer a cama feita de doces!), as crianças descobriram, por meio do coração e da ação virtuosa (a bruxa é vencida pela esperteza deles), que poderiam viver felizes para sempre.Embora boa parte da literatura infantil contemporânea procure projetar um mundo doméstico seguro, e insista que as historinhas sejam depuradas de suas partes assustadoras e de seus castigos severos, Bettelheim adota uma posição diferente: Os adultos acham freqüentemente que o castigo cruel de uma pessoa maligna numa história infantil perturba e assusta desnecessariamente as crianças. A verdade é bem contrária a esse conceito e semelhante retribuição deixa a criança sentir confiança de que cada crime receberá seu devido castigo. Muitas vezes, a criança se sente injustiçada pelos adultos e pelo mundo em geral, e parece-lhe que nada é feito para remediar a situação. Baseando-se exclusivamente nessa experiências, deseja que aqueles que trapaceiam e degradam sejam castigados com a máxima severidade. Caso contrário, a criança acha que ninguém leva a sério a idéia de protegê-la; mas quanto mais severo o castigo aplicado àquelas pessoas más, tanto mais segura a criança se sente.O mundo das histórias infantis é um âmbito de ordem moral rigorosa. Quando usadas corretamente, as fantasias podem ajudar a instilar a ordem moral na personalidade da criança.

Fantasiando o mal
Posto que as fantasias podem ter um efeito benéfico ao estimular a imaginação de modo construtivo, não podemos nos esquecer que seus efeitos também podem ser negativos. Se certos contos passam a idéia de que o heroísmo moral é algo atraente, outros, podem levar as pessoas a conceber pensamentos malignos.Alguns pais levantam objeções contra o livro de C. S. Lewis, O leão, a bruxa e o guarda-roupa, simplesmente porque ele contém uma feiticeira. Não levam em conta em consideração o fato de que tal personagem é descrita como uma vilã repulsiva, um símbolo do diabo e suas tentações. Esquecem-se de que o livro é uma poderosa alegoria do evangelho. Acreditam que a obra (por causa da existência de uma bruxa) e seus leitores sejam defensores e participantes do ocultismo. Será que para tais pessoas um panfleto falando contra a bruxaria é uma obra do ocultismo só porque menciona essa palavra: bruxaria?O mesmo acontece com as histórias que contém violência. Pode haver uma trama sem algum tipo de conflito? Não existe história em que todos vivem felizes para sempre. Forçosamente, tem de haver algum tipo de problema, algum obstáculo a ser vencido, algum embate, quer seja externo (os bons contra os maus), quer seja interno (uma decisão do personagem), ou os dois. As fantasias tendem a exteriorizar os estados interiores e/ou a simbolizar as idéias de forma concreta.Assim, o conflito é sempre apresentado como algo externo nas histórias infantis. Ou seja, ele é manifestado através das lutas contra os monstros, nas batalhas e duelos de cavaleiros com armaduras. Tudo isso, portanto, pode ser caracterizado como violência. Mas, sem conflitos, só podem haver descrições insignificantes. Os conflitos imaginativos das histórias ensinam a moralidade e edificam o caráter.Atualmente, são os humanistas liberais que negam a diferença real entre o certo e o errado, e o conflito entre eles. E por isso levantam as objeções mais vociferantes contra a violência nas história infantis. Matar um dragão viola os direitos dos animais; o salvamento de uma princesa nada mais é do que interesse sexual.As fantasias, juntamente com todas as demais formas de literatura, devem ser avaliadas segundo seu significado e efeito. Que tipo de relevância a violência possui? Ela dramatiza o conflito entre o bem e o mal ou glorifica o papel dos fortes que aterrorizam os fracos?Que efeito a violência tem sobre o leitor? Deixa-o menos propenso a lesar as pessoas na vida real? Ou, pelo contrário, desperta os prazeres da crueldade ou do sadismo?O ponto de vista do personagem principal da história é digno de uma análise apurada. As histórias tradicionais quase sempre representam o ponto de vista do mocinho, do homem bom (Nas histórias realistas mais complexas, com algum conflito interno, o personagem talvez não seja tão singelo, e o enredo pode fixar-se apenas em luta moral. As tragédias retratam um personagem nobre cuja derrocada foi provocada por uma falha moral; mas, nas fantasias, os personagens normalmente são mais simples). As histórias contemporâneas dificilmente prendem o leitor ao pondo de vista de um personagem maligno.Nos videogames modernos, destaca-se o jogo do Atirador na Primeira Pessoa. Esse tipo de jogo interativo apresenta a ação através dos olhos de um personagem da história, que é justamente o jogador. O vídeo procura retratar aquilo que o personagem estaria vendo. O jogador é um atirador porque é colocado no papel de um assassino em série que anda a passos largos por uma paisagem virtual, levantando sua arma e alvejando suas vítimas, detonando-as.Alguns desses jogos se acham nos salões de tiro com alta tecnologia, visando alvos humanos. Ao participar desse jogo, o atirador sente a sensação imaginária de ser assassino em série. Aliás, conforme já foi bastante noticiado, os assassinos columbinos gostavam de jogos desse tipo e, posteriormente, encenaram esses jogos na vida real.Dizem que o número de jogadores que literalmente encena esses jogos na vida real é minúsculo. Os cristãos, entretanto, sabem que não são apenas as ações, mas também os pensamentos e imaginações do coração que corrompem moralmente. O próprio Jesus enfatizava que Deus julga os pensamentos da mesma forma que julga as ações. O adultério cometido no coração viola o mandamento de Deus, ainda que jamais seja posto em prática. Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo; e qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno (Mt 5.21-22). Ouviste que foi dito aos antigos: Não cometereis adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela (Mt 5.27-28).As nossas fantasias pessoais, tais como as literárias, são de suma importância espiritual. As fantasias pornográficas e as imaginações sobre como machucar as pessoas são extremamente prejudiciais a nós mesmos. Elas corrompem o coração. O caso de Harry Potter

O que, portanto, os cristãos devem pensar do grande sucesso da moda Harry Potter? Entre outros motivos, as crianças se apaixonam por esses livros porque suas mentes estão subnutridas e, empregando a metáfora de Tolkien, suas imaginações estão como que aprisionadas, ansiosas por uma via de escape.As escolas, muitas vezes, trancam as crianças num currículo politicamente correto, esforçando-se zelosamente para inculcar na consciência delas problemas sociais reais e deprimentes. Seus livros-textos são materialistas. Os textos científicos asseveram o sistema naturalista do evolucionismo. Os históricos atacam as últimas sobras dos ideais cristãos. Os literários desenvolvem histórias de problemas e dilemas morais. Não é por nada que as crianças odeiam ler.A popularidade dos livros Harry Potter não está simplesmente no fato de eles serem fantasias (literaturas como esta existem muitas, mas não com tamanha projeção e popularidade). A série fala de escola, de educação. Eis o motivo de seu grande sucesso. Ao lerem a respeito da Academia Verrugas de Javali, as crianças se identificam com o ambiente, e isso lhes dá a sensação de conhecê-la. Ao viajarem na leitura, encontram-se com as panelinhas, as pressões estudantis e, acima de tudo, a luta pela popularidade entre os amigos, algo com que estão bem familiarizadas.A Academia Verrugas de Javali é uma escola diferente, interessante. Não é como as escolas comuns. Ao invés de simplesmente colocar as crianças sentadas em grupos para que compartilhem seus sentimentos, ensina-lhes coisas maravilhosas: tornar-se invisível, mudar a forma dos objetos com vara de condão (vara mágica) e voar!As crianças, especialmente as mais perceptivas, podem identificar-se com Harry Potter que, no início, está preso no mundo de Muggle (âmbito material comum e insípido daqueles que não conseguem enxergar o sobrenatural), marginalizado na escola e desprezado pelos padrastos. O desenrolar da história revela que ele era realmente um mágico desde o começo. Mas na Academia, o menino bobo de óculos alcança popularidade! Os fãs de Harry Potter não estão interessados no enredo fantasioso sobre bruxas, mas em se tornarem populares e bem-sucedidos.O argumento cristão contra Harry Potter é o fato de estar ele em uma escola para feiticeiros. Sabemos que as bruxas não são meras personagens dos enredos fantasiosos. Elas são reais. Sejam elas adoradoras de Satanás ou devotas neo-pagãs de Wicca. Não importa.Os defensores de Harry Potter podem ressaltar que as bruxas da Academia Verrugas de Javali nada têm a ver com Wicca ou com algum tipo de feitiçaria de magia negra. Não são iníquas, de modo nenhum, e muito menos pregam qualquer tipo de religião da natureza, como, por exemplo, a Nova Era. As bruxas aqui envolvidas são tiradas das histórias infantis, com suas vassouras e sortilégios. São bondosas (assim como a bruxa virtuosa no Mágico de Oz). A verdade, para tais defensores, é que Harry está aprendendo a ser um mágico, e não um feiticeiro.Mas isso não importa. Como cristãos, devemos desaprovar esses livros. Nas histórias infantis, as bruxas são tipicamente malignas, o que reforça as nítidas linhas distintivas entre o mal e o bem; ou seja, entre as forças das trevas e as forças da luz. Qualquer coisa que borrar essas linhas é motivo de preocupação.Harry Potter, no entanto, não apaga totalmente essas linhas distintivas. Existe um poder abertamente maligno na pessoa de Valdemort, uma bruxa realmente ímpia contra a qual Harry e seus colegas de escola estão em conflito durante a série inteira. Alguns enxergam desrespeito para com os pais no péssimo relacionamento de Harry e seus padrastos. Os verdadeiros pais desse personagem foram mortos pelo bruxo Valdemort. O amor e a admiração por seus pais são sentimentos importantes no caráter de Harry.Todavia, essa literatura não está à altura de ser ideal. Ela apresenta um perigo nítido e atual da bruxaria. Os pais cristãos têm razão ao orientar seus filhos a evitar essa série. Se a coqueluche Potter já afetou seus filhos, caro leitor, você deve lidar cuidadosamente com a situação.Os pais devem deixar bem claro que os cristãos não são Muggles. Em outras palavras, o cristianismo não é uma cosmovisão bitolada, materialista e enfadonha, tal como satirizada nas novelas Potter e ensinada nas escolas. O cristianismo tem um universo aberto, com espaço para o natural e o sobrenatural, para o corriqueiro e o milagroso. O cristianismo reconhece as verdades invisíveis da bondade e da beleza, e acredita numa batalha genuína entre as forças das trevas e as forças da luz. Os relatos bíblicos sobre como Deus se tornou homem, através de Jesus Cristo, a derrota de Satanás, a expiação pelos nossos pecados, mediante seu sacrifício na cruz, a ressurreição de Cristo compõem a história mais maravilhosa de todas as histórias.A melhor maneira de evitar que as nossas crianças sejam confundidas por Harry Potter e seduzidas pelas fantasias más, o que é muito pior, é colocar à disposição delas a boa literatura, e também a fantasia boa, como por exemplo, o livro O Peregrino, de John Bunyan. Nenhuma literatura, portanto, substitui a Bíblia Sagrada, a poderosa Palavra de Deus.Veja que maravilha: Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele (Pv 22.6).

Fonte:

Blog Canção Nova, disponível em http://blog.cancaonova.com/sergiofernandes/2007/11/page/6/, acesso em 01/01/2009.

Última atualização em Ter, 20 de Outubro de 2009 15:17

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Olha, minha luta tem sido um tanto “inglória” e solitária. Não que a glória fosse minha… Ela é do Senhor e não abro. Mas o fato é que tenho tido muitos contatos isolados de pessoas que lêem e curtem o Lewis no Brasil. Contatos espalhados e esporádicos, entende? Esse site serve precisamente para tentar reunir essas pessoas que, ao que tudo indica, gostam de se esconder.  São uma espécie de “hobbits”, que vivem nas suas tocas, percebe? Eu mesma tendo a isso, rsrs e posso entender muito bem. Mas não consigo ficar de braços cruzados. Aslam certamente está “on the move” ou “a caminho”.
Muitos argumentam que o Lewis não tem nada a ver com o Brasil. Que é “britânico” demais para o nosso povo. Eu já acho que ele fala uma linguagem que apela a todo ser humano: uma linguagem universal, que é a dos grandes clássicos do patrimônio cultural comum da humanidade, que inclui os mitos e os contos de fada. E o que é mais importante e vem ganhando força nos meios seculares cada vez mais virtuais e cibernéticos: ele valoriza a imaginação, usando-a como mediador educacional.

Como criaturas de Deus, criados à Sua imagem e semelhança, simplesmente não temos o direito de viver de forma pouco criativa ou pouco culta. Isso inclui a literatura, a arte mesmo aquela que não pode ser classificada como “cristã” (se é que existe arte “não-cristã”). E como cristãos, mais do que nunca, somos vocacionados a educar e usar a nossa imaginação para o Reino de Deus, da mesma forma que nossa razão, emoções, etc., numa proposta de educação integral.

Bem, você vai me perguntar: E o que isso tem a ver com a repercussão de Lewis no Brasil? Tudinho, meus caros! Quer povo mais criativo do que o brasileiro? E mais aberto para as coisas de Deus, mesmo que muitas vezes, da forma errada?

Por que será que os castores e os meninos não permaneceram no conforto daquele lar tão

quentinho e aconchegante quando chegaram à conclusão, de que Aslam estava chegando? Penso que está na hora dos hobbits aparecerem e se mexerem, principalmente com a repercussão de Nárnia no cinema. Lewisianos, uni-vos! Para a glória de Deus, é claro!

A Última Batalha ganhou o Carnegie Award, o maior e mais importante prêmio de literatura infantil do Reino Unido. O famoso presidente Winston Churchill também ofereceu a Lewis o título de cavaleiro, mas ele recusou.

Em 1998, ano do centenário do seu nascimento, o governo dos Estados Unidos e da Inglaterra lançaram três selos em homenagem às Crônicas de Nárnia. Eu estive em Oxford por ocasião do lançamento oficial (nada de inveja…).

Mas sua primeira obra a receber destaque na imprensa com premiações foi Cartas de um Diabo a seu Aprendiz. Uma forma indireta de premiação é a sua presença na lista de livros recomendados pelos Ministérios Educacionais para as escolas fundamentais e médias, principalmente de países de língua inglesa.

No Brasil, já topei com as Crônicas de Nárnia e outras obras em várias bibliotecas, desde a de letras da USP, até  mesmo em escolas técnicas de ensino superior e escolas de ensino fundamental. Ele também é lembrado nas encicolpédias, como wikipédia e Encarta, como um dos autores mais citados e citáveis, principalmente nos campos da literatura em geral, da ficção infantil, ficção científica, teologia e crítica literária.

Como se sabe, Lewis começou a se destacar em Oxford, dando aulas de filosofia e literatura antiga. Há várias referências a uma cidade da Antiguidade chamada “Nárnia” nos livros da área e é bem provável que Lewis tenha tropeçado nelas ao criar as histórias daquele mundo, numa espécie de homenagem.

Em todos os casos, o nome me parece combinar bem com o ambiente antigo e personagens mitológicos que aparecem nas histórias.