Obs: O texto a seguir, é a adaptação resumida de um projeto em andamento, previsto para ser publicado no final do primeiro semestre de 2017.

por Maurício Avoletta Júnior

“Conta-se aqui uma aventura que começou na Calormânia e foi acabar em Nárnia, na Idade do Ouro, quando Pedro era o Grande Rei de Nárnia e seu irmão também era rei, e rainhas suas irmãs.” Assim, se inicia, O Cavalo e seu Menino, que pessoalmente, considero o melhor dos sete livros da série do célebre escritor, C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia. Nárnia, como já é de conhecimento de muitos, é uma série de histórias que contém alegorias da vida cristã. Embora, conforme a história foi crescendo, graças a influência de seu amigo J. R. R. Tolkien, podemos dizer que essas alegorias foram amadurecendo. Não que Lewis fosse imaturo para escrever tais histórias, mas apenas que em nível de profundidade, as histórias foram crescendo.

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Aqui, pretendo analisar alguns trechos de O Cavalo e seu Menino, terceiro livro em ordem cronológica de As Crônicas de Nárnia, mas o quinto a ser lançado em 1954, com o fim de explicitar a doutrina da Providência Divina na obra. Providência Divina, resumidamente, seria a atuação de Deus na história, com o fim de fazer com que ela siga o rumo que Ele quer. Como disse Santo Agostinho em, O Livre-Arbítrio: “(…) é a Providência que dirige o Universo.” [1]

Por providência entendemos a ação contínua de Deus pela qual ele preserva a existência da criação que ele fez surgir e a dirige para os propósitos que designou para ela. [2]

Em seu livro, Confissões, Santo Agostinho deixa claro a Providência de Deus agindo durante diversos acontecimentos de sua vida, onde ele diz estar sendo dirigido pelo que ele chama apenas de Providência. Tolkien, em algumas de suas cartas, chega até mesmo a atribuir a Providência como uma personagem implícita em suas obras, principalmente em O Hobbit e na trilogia O Senhor dos Anéis. Lewis, assim como Tolkien, era abertamente um leitor de Santo Agostinho e nitidamente influenciado por seu pensamento, traz essa ideia de providência para O Cavalo e seu Menino.

– Não acho que você seja um desgraçado – disse a grande voz.

– Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?

– Só há um leão – respondeu a voz.

– Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite…

– Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.

– Como sabe disso?

– Eu sou o leão. [3]

Neste trecho, Shasta está falando com algo grande que ele ainda não soube identificar o que é. Depois de uma curta conversa, Shasta conta suas aventuras para esse “algo”, e diz o quão ele se acha um desgraçado depois de tudo o que aconteceu com ele até aquele momento. Aquilo que gerou tanto desconforto e até um certo sofrimento em Shasta, estava diante dele, se apresentando, como o próprio Lewis descreve mais a frente, como algo “belo e ao mesmo tempo terrível”, semelhante a ideia do Numinoso de Rudolf Otto, o Mysterium Tremendum et Fascinans.

É interessante vermos esse diálogo da Providência Divina, com aquilo que podemos chamar de mal pedagógico, ou seja, o ato de Deus causar alguma espécie de sofrimento em seus filhos, para que estes fiquem da forma como Ele quer, assim como vemos em Hebreus 12:6, 7. Em seu livro, O Problema do Sofrimento, Lewis desenvolve um pouco essa ideia, chegando a afirmar que Deus pode causar sofrimento nos homens, com o fim de estes ficarem inteiramente amáveis [4], ou, como ilustra em seu livro, Os Quatro Amores: “(…) a Igreja não tem beleza alguma exceto a que o Esposo lhe confere: ele não a percebe amável, mas a torna amável.” [5] Dessa forma, ressaltando a ideia de que aquele que ama, no caso Deus, pode e fará “mudanças”, para que o objeto de seu amor se torne completamente amável. Chesterton, por fim, acrescenta o seguinte:

Há a grande lição de “A Bela e a Fera”, dizendo que uma criatura precisa ser amada antes de ser amável. [6]

Durante O Cavalo e seu Menino, vemos que Shasta vai evoluindo após cada dificuldade enfrentada. Vemos ele no começo da história, apenas um garotinho assutado, aos poucos se tornar uma personagem corajosa, como por exemplo, após passar uma noite na casa dos mortos com um gato, sendo assustado por chacais, ou então, quando ele vai correndo até o Rei Luna. Estes acontecimentos, por si só, já renderiam uma boa análise da jornada do herói, mas analisando com as lentes da Teologia Cristã, podemos perceber a Doutrina da Providência saltando aos nossos olhos.

– Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite o acolhesse. [7]

Shasta está cercado por todas as partes pelo grande Leão que estava cuidando dele mesmo nas horasaravis mais difíceis. E nos momentos em que ele achava que tudo estava mal, era por que na verdade, sua jornada ainda não havia chegado ao fim, pois, para usar do pensamento um pouco das ideias de Tolkien, Shasta ainda estava passando pela sua Catástrofe, portanto, ele estava caminhando para Eucatástrofe, seu final feliz. Shasta, assim como muitos de nós, estava olhando apenas uma parte do quadro e dizendo ser um pintura horrível, ao invés de esperar o artista terminar sua obra. Em seu livro, O Homem Eterno, Chesterton diz a mesma coisa, embora em outro contexto, mas ilustrando perfeitamente o que quero dizer:

Como todos os livros que nunca escrevi, [este] é de longe o melhor livro que jamais escrevi. […] Fala de um garoto cuja fazenda ou chalé ficava em uma dessas encostas e que encetou suas viagens para descobrir alguma coisa algo como a efígie e o túmulo de algum gigante; e, quando ele já estava muito longe de casa, olhava para trás e via que sua própria fazenda e horta, luzindo achatadas na encosta como as cores e cantões de um escudo, não eram senão partes de uma figura gigantesca sobre a qual ele sempre vivera, mas que era grande demais e estava próxima demais para ser vista. [8]

A Providência se assemelha a paisagem que este garoto viu, pois não à perceberemos logo de início, é necessário tempo para entendermos as situações e podermos ver a Providência Divina atuando. Da mesma forma, só percebemos a Providência em O Hobbit e em O Senhor dos Anéis quando terminamos a história e olhamos para trás e percebemos que se a Providência não tivesse feito Bilbo sentir piedade de Gollum em O Hobbit ao invés de matá-lo, e se Frodo não tivesse igualmente tido compaixão de Gollum e protegido-o, Gollum não teria destruído o Um Anel, e  Terra-média não teria o final que conhecemos. Assim também, Shasta apenas entendeu a ação de Aslan em sua história, no momento em que Aslan se apresentou a ele e o mostrou a história novamente, só que dessa vez por uma outra perspectiva.

Preservação é Deus mantendo a existência de sua criação. Isso envolve a proteção de sua criação, evitando danos e destruição, e sua provisão para as necessidades dos elementos ou dos membros da criação. [9]

Lewis, novamente em seu livro, O Problema do Sofrimento, nos mostra que a moral de Deus é diferente da nossa em alguns aspectos, mas não totalmente diferente como o preto é diferente do branco, mas, como o próprio autor disse, diferente assim como o círculo desenhado por uma criança é diferente de um círculo perfeito [10].  E acredito que a Providência Divina, muitas vezes se da nessas situações, onde a nossa moral difere da de Deus.

Shasta, depois de se deparar com o Grande Leão que criou Nárnia e descobrir que, assim como Santo Agostinho, ele foi sustentado pela Providência Divina desde que nasceu, ele poderia facilmente declarar assim como Santo Agostinho: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora.” [11]. Talvez, seja por isso que Lewis tenha escrito O Cavalo e seu Menino, como a única história das Crônicas de Nárnia que não tem a travessia do nosso mundo para Nárnia. Shasta não precisava passar do nosso mundo para o outro, como fizeram os irmãos Pevensie, para se descobrir parte de Nárnia, porque ele já nasceu um Narniano.

Desde as primeiras palavras dessa história, já nos deparamos com a providência atuando sutilmente, mas, como já disse, só fará sentido quando chegarmos no final da jornada e olharmos a história novamente.

Conta-se aqui uma aventura que começou na Calormânia e foi acabar em Nárnia [12]

Referências:

[1] AGOSTINHO. O Livre-Arbítrio. São Paulo. Ed. Paulus.1995. p. 25.

[2] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Ed. Vida Nova. 2012. p. 169.

[3] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 262.

[4] “[…] o amor pode causar sofrimento ao objeto desse amor, mas apenas na suposição de que ele deve sofrer alterações para tornar-se inteiramente amável.” ______. O Problema do Sofrimento. São Paulo. Ed. Vida. 2013. p. 65.

[5] ______. Os Quatro Amores. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2013. p. 146.

[6] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo. Ed. Mundo Cristão. 2008. p. 83.

[7] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 262.

[8] CHESTERTON, G. K. O Homem Eterno. São Paulo. Ed. Ecclesiae. 2014. p. 9.

[9] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Ed. Vida Nova. 2012. p. 170.

[10] “A ‘bondade divina’ difere da nossa, mas não é absolutamente diversa: ela difere da nossa não como o branco do preto, mas como o círculo perfeito se distingue da primeira tentativa de uma criança em desenhar uma roda: quando a criança aprender a desenhar, ela saberá que o círculo que agora consegue fazer é justamente aquele que estava tentando fazer desde o começo.” LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. São Paulo. Ed. Vida. 2013. p. 47.

[11] AGOSTINHO. Confissões. São Paulo. Ed. Paulus. 2013. p. 299.

[12] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 193.

Fonte:  https://becounderground.wordpress.com/2016/05/18/sobre-a-providencia-divina-em-o-cavalo-e-seu-menino/