Gabriele Greggersen

 

Em 1998, quando se festejou o centenário do nascimento de C.S. Lewis, bati na porta de várias editoras com um projetinho para algum evento comemorativo e com propostas para tradução de vários livros. Mas a resposta que obtive foi: “Quem leria C.S. Lewis no Brasil?”

 

De lá para cá, muita coisa mudou: Novas traduções surgiram de vários títulos pela editora Martins Fontes, de Surpreendido pela alegria (Editora Mundo Cristão), de Mero Cristianismo (Editora Quadrante), de vários títulos pela Editora Vida Nova, meus livros da Editora Vida (Pedagogia Cristã na obra de C.S. Lewis) e da Editora Mackenzie (Antropologia Filosófica de C.S. Lewis) e os dois títulos por mim traduzidos para a Editora Ultimato: Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Mas é claro que os títulos da Martins Fontes, que lançou as Crônicas de Nárnia em grande estilo na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 1997, foram os mais importantes, pelo tamanho e alcance (distribuição) da editora.

 

Mas foi depois do lançamento dos filmes das Crônicas… no cinema que o nome de C.S. Lewis se tornou mais conhecido no Brasil, tanto ao público que gostou dos filmes, mas até agora não faz nenhuma relação com o cristianismo (cristão ou não), quanto daquele que fez a relação imediata, mas que nunca havia ouvido falar em C.S. Lewis. Entre os últimos encontram-se os criadores e administrador do portal Mundo Narnia, que se inspirou em Narnia para criar todo um mundo virtual.

 

Há também grupos lewisianos que já estudavam Lewis no Brasil desde 1965, dois anos após a morte do mestre, e de lá para cá se reuniam informalmente, mas que nunca haviam conseguido se organizar para institucionalizar um Grupo Oficial, só conseguindo alguma coisa a partir de seu ingresso na Internet (mais ou menos a partir de 2002), e hoje constituem uma verdadeira escola virtual, com centenas de artigos publicados na Rede e pelo menos 3 (três) livros publicados com base em Lewis ou falando sobre ele (todos publicados pelas editoras Agbook e Clube de Autores). Este grupo de 1965 chama-se Escola de Aprofundamento Teológico (EAT), e seu pessoal conta com três pastores e é dirigido pelo amigo narniano Prof. João Valente.

 

Finalmente, quem sabe, meu site <http://cslewis.com.br> também tenha contribuído de alguma forma para a popularização do autor e da obra, principalmente no meio acadêmico.

 

É preciso considerar que Lewis tem várias facetas, não apenas do escritor de livros imaginativos para todas as idades e apologista cristão. Ele também era um acadêmico de mão cheia na área de literatura, mas também, informalmente, nas de filosofia, teologia e educação.

 

Assim, no ano passado, fui surpreendida por uma nova missão: traduzir a obra acadêmica de C. S. Lewis para o português do Brasil. Trata-se de quatro livros, a começar pela sua dissertação de mestrado: A Alegoria do Amor, já lançado pela Editora É-realizações. Os próximos lançamentos serão: A Imagem Descartada, que é um estudo sobre a visão de mundo medieval via literatura; Estudos de Literatura Medieval e Renascentista; e Prefácio ao Paraíso Perdido, sobre a famosa obra de Milton, mas numa perspectiva comparativa.

 

Esse trabalho gerou várias reflexões da minha parte. Principalmente sobre a questão, se é difícil ou fácil traduzir C.S. Lewis, pergunta essa que é ainda mais importante no caso das suas obras mais “técnicas”.

 

Vou começar pelos seus aspectos “fáceis” de ler e traduzir: seu carisma, que chamaria até de verve; sua paixão pelo que ele conhecia e sabia fazer, e não era pouca coisa; seu lidar com as letras e com os autores; e sua clareza mental; seu equilíbrio e ponderação na argumentação; sua humildade e seu respeito pelo leitor. De uma maneira geral, o aspecto fácil está na própria simplicidade com que ele escreve, com insights regados de genialidade. O leitor sintonizado admira-se: “Nunca parei para pensar nisso” ou (aos ainda mais sintonizados) “sempre pensei isso” e depois “mas como foi que ele conseguiu expressá-lo de forma tão simples?”

 

A parte difícil da tradução da obra de C. S. Lewis, em especial, aquela, escrita para o meio acadêmico é a disparidade de linguagem e cultura entre o a academia brasileira e a inglesa da época dele. Lewis era poliglota e entre as línguas que ele dominava, estava o inglês médio (inglês da Idade Média), língua mais morta do que o latim, de forma que o tradutor tinha que fazer verdadeiros malabarismos para tentar decifrá-las. Sem falar de citações em latim, francês, italiano, britânico, saxônico e grego.

 

E mais: Lewis também usa um estilo que já não é mais usual, nem mesmo nos meios acadêmicos: Frases longas, com uso constante de pronomes, principalmente o “it” (gênero inexistente no português) até se perder de vista a que os mesmos se referem, e o uso de expressões idiomáticas. Todas essas dificuldades fizeram vários tradutores desistir da ousadia de traduzir esse autor, principalmente nessas obras.
Mas o que é fundamental, até para os editores que me lêem: a mensagem de C.S. Lewis sobrevive há décadas, não apenas no mundo cristão, mas até no secular e acadêmico. Digno de nota é a edição recente de An Experiment in Criticism, que foi traduzido pela UNESP para Um Experimento na Crítica Literária (2009), livro esse que já é citado em trabalhos e resenhas acadêmicas.

 

Você me dirá: “Mas eu não entendo nada de literatura, muito menos, da Medieval”, e eu lhe direi que o esforço por ingressar nesse universo será coroado de recompensas inesperadas da filosofia, da teologia e de muitas outras áreas interdisciplinares a cada página de cada um desses livros. E mais: Você sairá com um gosto mais apurado pela literatura ou quiçá até se apaixone por ela (e de quebra também pela filosofia e a teologia).

 

Então, esses livros traduzidos são a prova de que C.S. Lewis não é apenas um nome para veicular o cristianismo através de novos canais de comunicação, como faz crer um artigo recente, que tenta aproximar as suas estratégias à forma de comunicação e de marketing pós-moderna do neopentecostalismo brasileiro, as quais pouco ou nada têm a ver com os meios acadêmicos.

 

C.S. Lewis era um profissional e acadêmico com todas as letras, embora esse seu mérito tenha sido alcançado por ele apenas tardiamente em sua vida e por uma universidade (Cambridge), que não era a dele de origem (Oxford), coisa que essas universidades reconhecem hoje ter sido uma injustiça e um preconceito pela sua genialidade e popularidade nos meios não acadêmicos e cristãos.

 

Nessa semana em que lembramos particularmente do escritor e da obra, que é a que comemoramos todos os anos em novembro, mês em que ocorreu tanto o nascimento (dia 29 de novembro de 1898) e a morte (dia 22 de novembro de 1963) de C.S. Lewis, fica aqui a minha singela contribuição.