Artigo de 15 de março de 2008 publ. no Diário Catarinen

por Gabriele Greggersen

Obra centenária de G.K. Chesterton é traduzida e publicada no Brasil

O título não parece nada atraente, mas a obra tem dado o que falar. A grande mídia brasileira recebe com louvor a notícia do lançamento da edição centenária do clássico Ortodoxia, do jornalista, escritor, palestrante e educador britânico G.K. Chesterton (1874-1936). Ele se tornou popular pelas aventuras do memorável Padre Brown, obras que beiram o fantástico, como O Homem que era Quinta Feira, entre outros trabalhos mais investigativos, como São Francisco de Assis (que lhe rendeu um prêmio no colégio) e Tomás de Aquino. O especialista em história e filosofia medieval Etiènne Gilson considerou esta a melhor obra já escrita sobre Tomás. Como jornalista, contribuiu para importantes jornais de Londres. Seu estilo comunicativo bem-humorado e sua arte argumentativa mereceram apreciação do público seleto de Jorge Luis Borges, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, e T. S. Eliot. Ele soube dialogar simultaneamente com liberais e conservadores, agnósticos e religiosos, famosos ou não, sem perder o respeito e a compostura.

Ortodoxia é o relato da peregrinação espiritual de um jovem de 34 anos, ex-ateu, ex-socialista, profundamente inserido nas questões do seu tempo, à procura de respostas sinceras para perguntas honestas. Como se deu esta surpreendente e feliz empreitada? “…tentei colocar-me à frente de meu tempo, e descobri que estava 1800 anos atrás”… O navegador achou que havia “descoberto a América”, quando, na realidade, havia reencontrado a boa e velha Inglaterra. Mal imaginava ele que, cem anos depois, o livro se mostraria ainda tão atual e incisivo quanto as frases que o tornaram célebre.

A obra foi escrita em resposta aos leitores, que o desafiavam a superar o nível denunciatório da obra anterior, Hereges, em que criticava o ceticismo materialista, racismo antropocêntrico, perda dos valores familiares e educacionais e os totalitarismos da época que redundariam nas duas grandes guerras. Quem sabe, uma das frases mais célebres de Ortodoxia, nesse sentido, seja: “O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão”. Por outro lado, ele defende o uso da razão, desde que dentro do que chama de “razoável” para uma obra em relação ao seu criador, o logos ou razão primordial.

Na verdade, Chesterton não pretende ser original. Ele fala do que há muito tempo já sabe o homem comum: Que o mal existe e deve ser combatido. Que a miséria é absurda. Que a realidade também existe e é gloriosa. Que a tirania do passado está sendo substituída pela tirania do futuro. Que as principais questões da vida e sua moral encontram-se já encravadas nos mais insuspeitos contos de fada. Que a ciência tem limites que precisam ser respeitados. Que o novo não necessariamente supera o antigo. Que não existe a neutralidade política, religiosa, econômica. Que o antropocentrismo, os extremismos e outros “ismos” são absurdos. Enfim, que somente quando partimos de um ponto de referência absoluto e reto (orto = reto, doxa = crença ou glória), podemos admitir o que é relativo.

Ao contrário do que dizem os filósofos racionalistas, a glória do saber e da sabedoria não pertence ao homem, ela é sobrenatural. E o mesmo vale para a razão, que, entendida como logos divino, procede, em última instância de Deus e se encarna em Cristo. Então, não existe coisa mais razoável e racional do que reconhecer em Deus o limite da razão humana. Essa paradoxal postura equilibrada entre os extremos do ceticismo racionalista e do sentimentalismo irracional é a marca registrada de Chesterton. A ortodoxia, assim entendida, é “o único guardião lógico da liberdade, da inovação e do avanço”. Sem ela estaremos como cegos em tiroteio. Se você quiser conservar um poste de luz branco, explica ele, precisa passar sempre uma nova tinta nele. Inovação não significa destruição; nem tão pouco a tradição, estagnação.

A ortodoxia cristã resume-se ao Credo dos Apóstolos, ou confissão comum a todos os cristãos católicos e protestantes e evangélicos. Longe de ser uma camisa de força, esses princípios simples são a via de acesso a ideais humanos como a justiça, a amizade, a liberdade, a coragem, a paz e a alegria. Esse último é o maior trunfo, pois, como dizia Chesterton, o “que foi a pequena publicidade do pagão é o gigantesco segredo do cristão”. Assim, Chesterton resgata o núcleo da fé cristã, capaz de dar sentido à existência humana como um todo.

Com pequenas frases notórias, Chesterton influenciou pessoas marcantes na história como Michael Collins, Mahatma Gandhi e Martin Luther King, além de autores conhecidos, como J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis.

O capítulo mais “perigoso” para os denunciados em Hereges é o que fala dos contos de fada (Elfolândia), que é “o país ensolarado do bom senso. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra.” Quem espera deparar-se com um livro convencional, acabará frustrado. Quem se aproximar dele livre de preconceitos pode não acabar cristão, mas é certo que ficará encantado.

POR GABRIELE GREGGERSEN | DOUTORA EM EDUCAÇÃO PELA USP, TEÓLOGA E PEDAGOGA

  1. olá Gabriele sou o joão Queiroz já entrei no seu site uma vez, ainda estou sem computador por isso tenho visitado pouco seu site,já li esse livro ortodoxia adorei,quando tiver tempo vou visitar mais frequente seu site cada vez que entro leio alguma matéria. falta-nos boa litura nos dias atuais. por isso quando encontramos coisa boa precisamos aproveitar. abraço

  2. Tenho lido bastante C.S. Lewis… depois deste artigo fiquei extremamente interessado em ler está obra do Chesterton, que para falar a verdade conheço pouco. Abraços

    • Oi Rafael,

      Vai fundo, amigo. Quem gosta de Lewis dificilmente não irá gostar de Chesterton, mesmo pq o autor se inspirou muito nesse brilhante jornalista britânico, que levava a sério a causa do cristianismo.

      Abs

  3. Olá, Gabriele,
    Ganhei o dia! Não conhecia o Chesterton, nem você, apesar de tb ser uspiana (FD e Prolam). Tudo graças ao Prof. Lindo, pois procurando informes sobre o tema de sua palestra A ética do orthos logos na América, acabei por encontrá-la. Estou agradavelmente surpreendida ao constatar que grandes mentes estudam a fé (p. ex. Ricoeur leitor de Agostinho). Volto sempre ao nosso Sócrates: Só sei que nada sei…Grande abraço. Bela

    • Oi Florisbela,

      Que bom saber que “há vida inteligente” no planeta Brasil para assuntos tão jogados à escanteio como a ortodoxia. E vida humilde também. Essas são condições muito importantes para o sucesso de suas pequisas. Mas o principal me parece ressaltar de suas palavras: entusiasmo, outro ingrediente muitas vezes em falta nesse mundo, mas bem presente no nosso país.
      Temos que construir em cima disso.

      Obrigada pelo apoio e que Deus abençoe sua empreitada!

      Grande abraço

  4. Realmente é um obra incrível. A utilizei para fazer meu trabalho de conclusão de curso sobre os limites da Fé e da Razão…
    Quero parabenizá-la pelo trabalho. Suas postagens tem sido instrumento de conhecimento, cultura e tem inclusive, através de CS Lewis, esclarecido dúvidas existenciais.
    E sempre parabenizá-la pela interação com os leitores do site…

    Deus abençoe grandemente seu lindo trabalho…

  5. Oi Felippe,

    É sempre um prazer saber que as “mal-traçadas linhas” estão sendo lidas e aproveitadas. Obrigada pelo encorajamento e elogios. Deus seja louvado por isso!

    Que Ele também te abençoe grandemente.

    Grande abraço

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