by Gabriele Greggersen

Escrito em 1940, onze anos depois de sua conversão ao teísmo, alguns anos após sua conversão ao cristianismo e bem antes de Nárnia, O Problema do Sofrimento é, na rica constelação de obras lewisianas, um de seus maiores clássicos teológico-apologéticos do século XX.

Esse livro tornou-se a primeira de uma série de obras de doutrina cristã destinadas ao público leigo e foi escrito bem antes do encontro de Lewis com Joy, com a qual se casou (e que morreu de câncer poucos anos depois, história esta relatada no filme Shadowlands Terra das Sombras, estrelado por Anthony Hopkins). O tema era tão entrelaçado à trama da história de vida do autor que lhe permitiu retomá-lo em Anatomia de uma Dor, uma de suas últimas obras, inicialmente publicada com pseudônimo.

Muitos concluíram, a partir desse livreto publicado inicialmente sob um pseudônimo, que Lewis tivesse perdido a fé, dados os seus ataques contra Deus, que chama de “carrasco divino”. No entanto, quem o lê em profundidade fica impressionado com a coerência do autor consigo mesmo e com as Escrituras, particularmente os livros de Jó e de Lamentações (o livro do “profeta chorão”).

Considerando a história de vida de Lewis, entendemos porque a temática do mal permeia todo o seu legado de obras, ficcionais ou não. Mas em O Problema do Sofrimento ele torna isso mais explícito do que nunca, usando palavras que já eram tabus na sociedade moderna, que continua erigido na pós-moderna: o pecado. Só isso faz valer a pena ler o livro, de acordo com Bacz (1999, on line).

Longe de estar superado, hoje em dia esse debate é ainda mais difícil e ao mesmo tempo mais pungente do que na época da Segunda Grande Guerra Mundial. Vivemos uma crise ética e moral profunda. Mas as Escrituras não nos autorizam a deixarmos de lutar pela instauração do bem, mesmo em um mundo tão violento e imoral quanto o nosso.

Por que considero O Problema do Sofrimento um dos mais importantes livros de C.S. Lewis para a atualidade? A principal razão é elucidada pelo próprio Lewis: o fato de que o mal e o sofrimento são os principais argumentos de ateus e pessoas que descrêem do Evangelho contra o cristianismo. Mais do que nunca, os movimentos ateus insistem em explorar esse ponto. Como pode existir um Deus (supostamente) bom e perfeito, ao mesmo tempo em que observamos tanto sofrimento, dor, injustiças, guerras e males neste mundo por Ele criado para ser perfeito? E, se Ele existe, devia poder impedir o sofrimento. Ou então, deve ser um deus mal ou impotente.

O argumento central de Lewis contra essas suposições é que Deus é onipotente, sim, mas não agiria contra a natureza por Ele mesmo criada. Violar a liberdade de sua criatura seria uma dessas “infrações” que não combinam com a essência e os propósitos divinos. Lewis aprofunda essa ideia em Cristianismo Puro e Simples e em A Abolição do Homem, afirmando que tal essência segue regras que não podemos reconhecer completamente, mas que podemos intuir, de modo semelhante ao que acontece com as regras da matemática.

É claro que essa regra do bom-senso ou Tao, como ele o chama em Cristianismo Puro e Simples, está mais bem explicitada na Bíblia, mas ela emana de toda a criação desde o princípio dos tempos e, mais ainda, desde a queda. Como elucida Bacz (1999, on line), uma das regras observadas por Deus é a do sentido ou da não contradição:

Ele começa pela ideia de Deus como Todo-poderoso. Qual o sentido da Onipotência de Deus? Será que ele pode fazer o que bem entende? Sim, tudo exceto o impossível intrínseco. Você pode lhe atribuir milagres, mas não o absurdo: “O absurdo continua sendo absurdo, mesmo quando estamos falando de Deus”. Indo mais a fundo nessa idéia da Onipotência Divina, Lewis construiu um universo próprio: um universo no qual almas livres, ou talvez, como costumamos dizer nos dias de hoje, pessoas, podem se comunicar. Nesse processo, ele descobre que “nem mesmo a Onipotência poderia criar uma sociedade de almas livres sem criar, ao mesmo tempo uma Natureza relativamente independente e ‘inexorável'”; que uma natureza fixa implica na possibilidade, ainda que não na necessidade, do mal e do sofrimento… “Tente excluir a possibilidade de sofrimento que a ordem da natureza e a existência do livre-arbítrio envolvem e descobrirá que excluiu a própria vida”. Assim, o universo como o conhecemos pode muito bem ser produto de um criador sábio e onipotente, resta-nos mostrar “como a percepção de um mundo sofredor, mas continuar certo, em territórios bastante diferentes, que Deus é bom, somos levados à concepção de que a bondade e o sofrimento não abrigam nenhuma contradição”.

Em seguida, Lewis parte para a definição de bondade.

Mais do que nunca tendemos hoje a confundir o “bem” com o “conveniente”, o “prático”, o “cientificamente comprovado” ou o simplesmente “interessante” ou “popular”. The show must go on! – dizem os que sofrem hoje, rangendo os dentes e aparentando ter tudo “sob controle”. Estamos a milhas de distância da compreensão do sentido mais profundo do bem e do mal, o que nos aproxima dos tempos do Éden e da queda.

E a bondade de Deus é confundida com “gentileza” ou “favores”, principalmente voltados para a vida financeira. Muitas igrejas exploram ao máximo essa área, fazendo a “espiritualidade” ser equipara à “prosperidade”. Ao invés de um pai, que ama quando corrige, queremos um avô, que paparica seus netos. Lewis afirma sem pruridos que a bondade e amor de Deus incluem o sofrimento circunstancial, precisamente pelo estado decaído deste mundo, numa visão mais abrangente ou transcendente da história. Como comenta Bacz (1999, on line), só mesmo quem leu Agostinho é capaz de compreender essa verdade com todas as suas implicações sobre o saber e o fazer humanos.

Um exemplo disso é a forma preconceituosa com a qual a modernidade tratou os povos chamados “primitivos” que, do ponto de vista cristão, jamais poderiam ser considerados inferiores aos “civilizados”. “Não existem pessoas ordinárias”, afirma ele em outro escrito, levando a noção de criação às últimas conseqüências para a humanidade. Infelizmente o cristianismo institucionalizado e politizado contradiz a não acepção de pessoas diante de Deus, já anunciada no Antigo Testamento. Do ponto de vista evangelístico, Lewis considera os pagãos espiritualmente menos “contaminados” pelos vícios modernos, e por isso mais acessíveis à boa nova.

Para compreendermos melhor essa aparente contradição, Lewis propõe discutir o tema da moral a partir de três categorias: “(1) o simplesmente bom que descende de Deus, (2) o mau, simples produzido pelas criaturas rebeldes e (3) a exploração do mal por Deus para fazer cumprir seus desígnios redentores, o que produz (4) o bem complexo gerado pela aceitação do sofrimento e o arrependimento do pecado”.(BACZ, 1999).

Esse autor frisa ainda que um dos maiores aprendizados, e assim, benefícios que o sofrimento pode (paradoxalmente) trazer é abrirmos mão de nossa auto-suficiência e deixarmo-nos ser usados por Deus para a realização do seu propósito maior, que aceitamos pela fé. É assim que nos tornamos co-criadores deste mundo, participando efetivamente do Seu Plano de Resgate do mesmo e, assim, das garras do tirano que nos escraviza desde a queda, sem que ele se dê conta disso.

Assim, gradativamente O Problema do Sofrimento nos faz ver sentido no sofrimento e a lógica moral e racional da obra de Deus neste mundo. Além de voltarmos a ter esperança e força para nos erguermos das fases e situações de sofrimento, Lewis desperta em nós o desejo pelo Lar Perdido no qual já começamos a morar. Ele nos devolve a cidadania espiritual que o sofrimento nos faz ver ameaçada. A ameaça não está do lado de Deus, mas do nosso: nós é que somos o elo fraco no processo, não Deus. Portanto, jamais teremos como culpar Deus pelo mal que há no mundo, mesmo porque, como Lewis sugere por toda a sua obra de ficção ou teológica, em última instância o mundo não é mal, só está mal, é diferente! Lewis deixa claro que Deus vai fazer cumprir o seu desígnio através de criaturas boas ou más. Resta a nós preferirmos servir a Ele “pelo amor ou pela dor”. Ao mesmo tempo em que somos os únicos responsáveis por esse processo, somos também as suas únicas vítimas. Paradoxalmente, Deus mesmo se fez vítima no nosso lugar, mesmo não tendo necessidade para tanto. Assim o mistério do mal é o primeiro passo rumo à compreensão do mistério da cruz. E a abnegação do nosso self se torna o primeiro passo para a descoberta do nosso self verdadeiro – ou aquele que Deus originariamente “bolou” na criação – e para a auto-realização. Tornando-nos cristãos, ou seja, imitadores de Cristo e verdadeiros Cristos, nos tornamos mais nós mesmos, num processo de aprimoramento na fé.

Ao longo desses anos de pesquisa a respeito da vida e obra de C.S. Lewis, tenho me convencido cada vez mais de sua atualidade para o nosso tempo. Ela é frisada por biografias excelentes como a de Peter Kreeft (C.S. Lewis for the Third Millenium), entre outros.

Mas para entender em profundidade o elo que une o clássico, O Problema do Sofrimento, ao breve Anatomia de uma Dor e toda a sua obra até o seu último livro, publicado postumamente, Cartas de Malcolm,1 é preciso ler a sua extensa correspondência.

Apesar de ter confessado que escrever cartas não era exatamente o que mais gostava de fazer, Lewis produziu milhares delas, em parte porque também recebia inúmeras. Com algumas pessoas ele manteve uma correspondência fiel literalmente até a morte, como com a misteriosa Senhora Americana (conf. Cartas a uma Senhora Americana). A troca de cartas entre eles começou em 1950 e durou até a morte de Lewis em 1963. O tom usado por ele é sempre o de mentor, conselheiro, tutor ou alguém que se identifica com as dores do outro, sendo sensível a elas (mesmo no caso de uma mulher) e a encorajando a não desistir.

É claro que Lewis não é nenhuma exceção à regra do crescimento espiritual, sendo acusado, principalmente em seus primeiros escritos, de incorporar alguns preconceitos comuns na sociedade, como os de gênero e raça.

Porém logo na primeira carta a essa senhora ficamos sabendo que ela era católica, para o que Lewis demonstra um espírito não discriminatório em frases como: “embora o caminho que a senhora tomou não seja o meu, estou em condições de cumprimentá-la – talvez seja porque sua fé e sua alegria aumentaram de forma tão evidente” (2006 a, 15-16). O mesmo também foi provado no seu relacionamento com o melhor amigo, J.R.R. Tolkien, que não só era católico, mas também teve um papel fundamental na sua conversão ao cristianismo.

Ele explica:

Acredito que, no atual estado de divisão da Cristandade, as pessoas que estão no centro de cada divisão estão mais próximas uma das outras que as que estão nos extremos. Eu estenderia essa afirmação para além do Cristianismo: temos muito mais em comum com o judeu e o muçulmano autênticos, que com qualquer infeliz liberalizante e ocidentalizado membro desses dois grupos (2006 a, 11-12, de 10.11.52).

Nessas cartas, temos versões resumidas de suas principais teses e sua evolução ao longo do tempo. Topamos com frases impressionantes por sua simplicidade, como: “É claro que todos aprendemos sobre o que fazer com o sofrimento – oferecê-lo em Cristo a Deus, como nossa pequeníssima participação no sofrimento de Cristo – mas é tão difícil fazer isso! Para mim, infelizmente, acho que é mais fácil imaginar do que realmente viver isso” (Lewis, 2006 a, 69).

A prova de fogo para pôr em prática a teoria de Lewis de que o sofrimento é o “megafone de Deus”2 (tão frisada no filme Terra das Sombras) viria após o diagnóstico de câncer em Joy e seu casamento (primeiro civil, depois, contra todas as regras da igreja anglicana, também no religioso) com o que ele chamou de uma “moribunda”. Mas ele confessa que a doença dela, embora fosse atrativa para um poeta de certa forma trágico, apenas apressou e incentivou algo que aconteceria de qualquer forma. Ela acabou se recuperando e tiveram alguns bons anos de convívio antes de seu falecimento.

Depois de anunciar a morte da esposa e de dizer que o único consolo que lhe resta é o seu enteado mais novo, ele diz: “Sobre como suporto o sofrimento, a resposta é: ‘De quase todas as formas possíveis’. Porque, como você talvez saiba, não se trata de um estado, mas de um processo” (2006 a, 113).

Precisamente nos momentos em que mais necessitamos de Deus, diz Lewis, Ele nos parece mais distante, ao passo que quanto mais pranteava a morte da esposa, mais se distanciava dela. Todo o seu dramático processo de penar e as suas lamentações diante de Deus devido à morte de Joy encontram-se descritos em Anatomia de uma Dor.

Ainda em Cartas a uma Senhora Americana, Lewis retoma uma idéia de O Problema do Sofrimento, de que “a parte amorosa do sofrimento é boa e tem efeitos purgatórios, ao passo que a parte raivosa é ruim e infernal… O coração humano (pelo menos o meu) é ‘desesperadamente mau’” (idem, 114-115). Daí que, como destacam Moreland e Craig (2005), a problemática da morte para o cristão protestante não gira em torno da dúvida a respeito do purgatório (idéia recentemente negada pelo próprio papa Bento XVI), e sim, de como conciliar a bondade de Deus com o sofrimento que há no mundo.

Essa discussão já estava presente em num dos primeiros e principais clássicos apologéticos de C.S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, publicado em 1943 é baseado em palestras radiofônicas anteriores. Discute-se ali uma determinada Lei Moral que rege o universo e a que todos têm acesso, o que nos torna indesculpáveis e co-responsáveis pelo sofrimento que há no mundo. Daí a importância do aprendizado. Pelo menos a princípio aprendemos a mudança de comportamento por mimese ou pela imitação de bons modelos que nos foram passados, para depois nos apropriarmos daquele comportamento como sendo nosso.

Em Anatomia de uma Dor, depois de chamar Deus de “palhaço”, “sádico cósmico” e “viviseccionista”3, dentista ou veterinário, metáforas já usadas anteriormente em O Problema do Sofrimento, e de questionar o consolo que a religião possa trazer, Lewis conclui:

Duas convicções diversas a respeito do todo me pressionam cada vez mais o espírito. Uma é a de que o Veterinário Eterno é ainda mais inexorável; a outra, de que as possíveis operações ainda sejam mais dolorosas do que nossas elucubrações mais graves podem prever; mas há outra, segundo a qual “tudo acabará bem…” As imagens do Sagrado facilmente se tornam imagens sagradas – sacrossantas. Minha ideia de Deus não é uma ideia divina. Ela deve ser despedaçada. Ele próprio a despedaça. Ele é o grande iconoclasta. (Lewis, 2006 b, 81-2).

Encerramos essa nossa reflexão com uma carta não publicada, escrita poucos meses antes da sua morte e que resume todo o pensamento do autor sobre o assunto:

Imagine-se como sementinha pacientemente hibernando enterrada na terra; à espera do afloramento no tempo que o jardineiro achar melhor, para o mundo real, para o verdadeiro despertar. Suponho que toda a nossa vida presente, quando olharmos para trás, a partir daí, não parecerá mais do que um devaneio sonolento. Este é o mundo dos sonhos. Mas o galo está para cantar. E está mais próximo agora do que quando eu comecei a escrever esta carta. (Lewis, 1980, 187).

Referências:

BACZ, Jacek. “C.S. Lewis: The Problem of Pain.” The Newman Rambler (Spring 1999): 23-28.

KREEFT, Peter, O Diálogo, trad. Wanda de Assumpção São Paulo: Mundo Cristão, 1986.

___, C. S. Lewis For The Third Millenium. Six Essays On The Abolition Of Man. San Francisco, CA: Ignatius, 1994.

LEWIS, C.S., Cristianismo Puro e Simples. 5a. ed., São Paulo: ABU, 1997.

___, O Problema do Sofrimento, São Paulo: Vida, 2006

___, Crônicas de Nárnia, São Paulo: Martins Fontes, 1997.

___, A última Batalha, São Paulo: Martins Fontes, 1997.

___, Surpreendido pela Alegria, São Paulo: Martins Fontes, 1998.

___, O Grande Abismo, trad. Neyd Siqueira, 2a. ed. São Paulo: Mundo Cristão 1983.

___, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, trad. Mateus Sampaio Soares de Azevedo, Petrópolis: Vozes, 1996.

___, Cartas de uma Senhora Americana, São Paulo: Vida, 2006 (a).

___, Anatomia de uma Dor, São Paulo: Vida, 2006 (b).

___, Poems (ed. Walter Hooper), New York, Hartcourt Brace (Harvest), 1992.

___, A Mind Awake: an anthology of C.S. Lewis (ed. Clyde Kilby), Hartcourt Brace (Harvest), 1980.

Notas:

1 No original, Letters to Malcolm, chiefly on Prayer, infelizmente ainda não publicado em português brasileiro. Escrevi um capítulo sobre esse livro em O Evangelho de Nárnia (Editora Mundo Cristão).

2 A frase tanto repetida no filme – como se Lewis só tivesse um e o mesmo discurso para quaisquer públicos – é justificada da seguinte forma: “God whispers to us in our pleasures, speaks in our conscience, but shouts in our pains: it is his megaphone to rouse a deaf world” (Deus sussurra concosco através do prazer, ele fala à nossa consciência, mas grita nos nossos sofrimentos; esse é o seu megafone para despertar um mundo ensurdecido”).

3 Pessoa que faz experiências arriscadas e às vezes envolvendo a tortura de animais.

4 Para escândalo de muitos cristãos de carteirinha,