Gabriele Greggersen*

Introdução

O que poderia aproximar pensadores de áreas e contextos tão distintos quanto o filósofo francês contemporâneo, Paul Ricoeur (1913-), e um filólogo de Oxford do entre guerras, J.R.R Tolkien (1892-1973), que também ficou conhecido como o grande “criador de mitos” (mythmaker)? Uma das preocupações que eles têm em comum é o problema do mal, que é um dos mais desafiadores e menos resolvidos dilemas da humanidade, que diz respeito desde a filosofia, até a teologia. Aliás, nenhuma área pode se dizer inteiramente alheio a ele, principalmente quando se trata de ética e valores pouco quantificáveis.

Ricoeur, muito mais do que Tolkien, colocava-se na fronteira entre a filosofia e a teologia, campos complementares, mas infelizmente fragmentados, em busca do diálogo. O que eles têm em comum é o meio ou mediador que privilegiam para levantar temas filosóficos, que é a literatura, e, mais especificamente, o mito. Com O Senhor dos Anéis (OSA) [2], pode-se dizer que Tolkien cria, na prática, ou se esforça em criar o produto sobre o qual Ricoeur reflete filosoficamente e para o qual cria uma hermenêutica.

Como se sabe, a hermenêutica tem suas raízes na exegese teológica. Uma vez aplicada à reflexão filosófica, ela pode representar um meio de aproximação entre filosofia e teologia, que permite abrir

o campo da hermenêutica propriamente dita, isto é, da hermenêutica da interpretação aplicada de cada vez a um texto singular. É, com efeito na hermenêutica moderna que se ligam a doação de sentido pelo símbolo e a iniciativa inteligente da decifragem. É então que se descobre o que se pode chamar de círculo da hermenêutica, que o simples amador de mitos elude sem cessar…” é preciso compreender para crer, mas é preciso crer para compreender.” Este círculo não é um círculo vicioso, e menos ainda mortal. É um círculo bem vivo e estimulante…graças a esse círculo da hermenêutica, ainda posso hoje comunicar-me com o Sagrado, ao explicitar a pré-compreensão que anima a interpretação. (Ricoeur, 1978, 251).

Longe de pretendermos esgotar a complexa teoria hermenêutica ou do conceito de mal de Ricoeur e muito menos escavar o mundo de Terra Média ou as concepções éticas de Tolkien, o que nos interessa destacar aqui é a concepção do mal em OSA , à luz das teorias de Ricoeur. Na sua concepção, esse tipo de estudo só pode ser feito por meio do símbolo, cuja função básica é nos “fazer pensar”. Pois o mesmo, que vem sempre mediado por um signo, remete a um sentido e uma intencionalidade, situados para além de si mesmos. Isso é especialmente adequado quando se trata do mal, que, de acordo com a abordagem cristã, ao menos, não tem uma substancialidade própria.

Pois que o problema do mal extrapola os limites do escrutável, à medida em que, do ponto de vista moral, não pode ser uma coisa em si, como já defendia Kant:

…vejo em Kant a manifestação filosófica completa do fato de que o mal supremo não é a infração grosseira de um dever, mas a malícia que faz passar por virtude o que é sua traição. O mal do mal é a justificação fraudulenta da máxima pela conformidade aparente com a lei, é o simulacro da moralidade. Kant pela primeira vez, parece-me, orientou o problema do mal para o lado da má-fé, da impostura. Eis aí o ponto extremo de clareza atingido pela visão ética do mal: a liberdade é o poder do afastamento, da inversão da ordem. O mal não é uma coisa, mas a subversão de uma relação (Ricoeur, 1978, 255-6).

Apesar ou quem sabe, precisamente pelo fato de não ser uma coisa, o mal busca coisas como meios pelos quais possa se manifestar e se fazer sentir de diferentes maneiras, como nos mostra a nossa própria experiência. Essa é precisamente a perspectiva que temos em OSA . O próprio Um Anel não veio do nada. Ele foi habilmente forjado por Sauron, um dos anjos seduzidos por Merkor, ou, se quisermos, o primeiro anjo decaído, cujo objetivo era corromper o bem e instalar o império do mal no meio de Terra Média (não por acaso, certamente, chamada assim). Com isso, pretende-se em suma, afrontar Isildor, o criador do mundo.

Assim, como também destaca Ricoeur (1991), o problema todo não está na posse do anel em si, mas nos efeitos corruptores desse poder, que querem destruir o ser e instaurar o nada, ou seja, anular ou fazer desaparecer a personalidade de cada um. Como Ricoeur mesmo ressalta, o nada só existe em função de algo e particularmente, em função de um eu. Essa é a razão por que a perda do caráter, da individualidade e da personalidade é uma das conseqüências nefastas do mal, particularmente na vida de Gollum, que viveu séculos de posse do anel, sofrendo os seus efeitos corruptores ao extremo. Eis porque os planos de Sauron acabam se frustrando. O mal é usado pelo próprio mal para se auto-destruir. Como bem lembra Foster, esse princípio funciona desde as mais remotas eras daquele mundo. Os senhores do Mal se revezavam no poder, sabotando os planos maléficos uns dos outros.

Tudo o que se pode concluir de tantas histórias é que o mal, apesar de suas várias caras destrutivas, acaba sempre na auto-destruição e desespero, sendo incapaz, inclusive, de impedir a restauração de Terra-Média no final da história. Assim, de certa forma ele acaba quase que “por acaso” servindo ao bem.

Embora o dilema do mal fosse misterioso e transcendente, Tolkien parece estar nos dizendo que é importante que o homem não se esquive dele e reflita a seu respeito. Pois paradoxalmente esse mesmo fenômeno desafia à adoção de uma postura mais cuidadosa e crítica diante das coisas. Ele pode levar à conscientização de que nada na vida, inclusive o conhecimento racional, está isento de limites e perigos e de que, embora haja o absoluto e o universal, ele não se encerra no homem. Por mais absurdo que possa parecer, o mal pode servir para conscientizar-nos da nossa temporalidade e dependência dos símbolos e das mediações para a compreensão do mundo:

Esses símbolos, de fato, resistem a toda redução a um conhecimento racional… Todos os símbolos dão o que pensar, mas os símbolos do mal mostram, de uma maneira exemplar, que há sempre mais nos mitos e nos símbolos que em toda nossa filosofia; e que uma interpretação filosófica dos símbolos jamais se tornará conhecimento absoluto. Os símbolos do mal, nos quais lemos o fracasso de nossa existência, declaram, ao mesmo tempo, o fracasso de todos os sistemas de pensamento que pretendam absorver os símbolos num saber absoluto. Tal é uma das razões, e talvez a mais surpreendente, pela qual não há saber absoluto, mas símbolos do Sagrado, para além das figuras do espírito… (Ricoeur, 1978, 280).

Entenda-se que o autor não está negando o absoluto, mas apenas o “saber absoluto” ou seja, a pretensão humana ao seu conhecimento. Essa mesma epistemologia essa visão “humilde” do mundo e do homem é outra característica que fica muito visível em OSA . Além de Frodo, uma figura franzina, amedrontada, frágil, baixinha; a história revela o jardineiro gordinho, Sam, como grande herói da história. Com seu saber simples, seu bom-senso e fidelidade ao seu senhor, Sam se mostra capaz de carregar o anel e resistir ao seu poder sedutor.

Precisamente por não crer em conhecimento absoluto, e pelo fato de que todo conhecimento que o homem tem de si, parte de uma “ilusão” ou captação do fenômeno, como ele se manifesta aos olhos do inquiridor, aos órgãos do sentido, Ricoeur procura equilibrar-se entre dois extremos opostos.

O primeiro é o do “mitologismo dogmático”, que vê no símbolo nada mais, do que um conteúdo didático e alegórico, pronto para ser sistematizado. Ele o reduz a um sentido dogmatizante. O segundo é o que chamou de “gnose”, que é o perigo de recair em mera especulação teórica ou mística. A principal filosofia dos gnósticos, que se originaram em Platão e no Egito, era de encontrar uma explicação cabal para a origem do mal, pois identificavam a matéria com o mal, dando origem ao chamado dualismo, ou oposição entre corpo e alma; matéria e forma. Platão dizia que o corpo é o “cárcere”  da alma.

Para se alcançar uma visão equilibrada entre esses dois extremos, que podem ser observados desde a antiguidade até os dias de hoje, Ricoeur recomenda o método de desmitologização da realidade, não, no sentido de eliminação da mitologia, mas de reflexão a partir dela, como bem elucida:

O pensamento como reflexão é essencialmente “demitologizante”. Sua transposição do mito é, ao mesmo tempo, uma eliminação não somente de sua função etiológica, mas de seu poder de abrir e de descobrir. Ele interpreta o mito apenas reduzindo-o à alegoria. O problema do mal é, nesse ponto de vista, exemplar: A reflexão sobre a simbólica do mal triunfa naquilo que chamaremos doravante de visão ética do mal… De uma parte, ela prolonga a redução progressiva da mácula e do pecado à culpabilidade pessoal e interior. De outra parte, ela prolonga o movimento de demitologização de todos os mitos à exceção do adâmico e reduz este a uma simples alegoria do servo-arbítrio. O pensamento reflexivo está por sua vez, em luta com o pensamento especulativo, que quer salvar o que uma visão ética do mal tende a eliminar. Não somente salva-lo, mas mostrar sua necessidade. (Ricoeur, 1978, 253)

Assim, nesse seu embate contra uma visão do mal dogmática, por um lado, e gnóstica, por outro, o pensamento reflexivo traz no seu bojo a idéia de livre-arbítrio e de liberdade. Desde a queda do homem e do ingresso do pecado no mundo, assunto que Ricoeur considera mais do que digno de reflexão filosófica, o livre-arbítrio “forja” uma “máxima má”, que estabelece como regra (idem, 255). Podemos observar esse “princípio” na carta de Paulo aos Romanos, quando, no capítulo seis, ele fala da “lei da escravidão” que se opõe à “lei da graça”. Em seguida, no capítulo sete, ele descreve o conflito no seu interior entre o bem que ele quer e não consegue realizar e o mal, que não quer, mas que acaba cometendo.

Esse caráter paradoxal do ser humano na sua dimensão ética e moral torna necessária uma certa formalização da concepção do bem e do mal, como já sugeria Aristóteles. A clara distinção do certo e do errado permite evitar o nível do puramente ilusório ou subjetivo no juízo de valor, pelo que se recairia no relativismo.

Na perspectiva de Kant, a questão do mal não diz respeito somente ao nível emocional do ser humano. Ele admite a objetividade e segurança de pelo menos duas coisas: o cosmo acima da sua cabeça e a lei moral no seu interior. Por outro lado, admitir certo formalismo no tratamento do certo e do errado já não significa um mero formalismo, ou moralismo barato.

Embora o esforço de Tolkien possa parecer contrário ao de uma demitologização, o efeito produzido é precisamente esse: da reflexão sobre o mal, que se revela como algo assustador, sim, mas que, em última instância, é impotente contra o pano de fundo mais amplo do bem.

Para o professor de humanidades da St. Louis University no Missouri, o sucesso dessa obra de Tolkien deve muito à espécie rara de realismo fantástico que ele adota para expressar preocupações extremamente importantes e atuais, como a da guerra:

Mais do que meras aventuras de hobbits, elfos, bruxas ou quaisquer outras criaturas, que culmina em uma guerra contra o poder que está dominando Terra Média  Shippey afirmou que o imaginário de Tolkien é um reflexo da história turbulenta do século vinte. “Meus colegas do departamento de literatura afirmam que tudo não passa de um material altamente escapista. Mas eu revidei:, ‘Não, absolutamente não.’ Na verdade trata-se de um registro de todas as ocorrências do século vinte. O que o século vinte tem sido basicamente é uma luta industrializada,” disse Shippey em uma entrevista ao telefone diretamente de St. Louis. “Tolkien mesmo passou por isso (como soldado de infantaria) na Primeira Guerra Mundial. Mas as coisas só tenderam a ficar piores ao longo da sua vida,” disse Shippey . “Acredito que ele se preocupava muito com a natureza do mal, a natureza da tecnologia, a maneira como era possível abusar das coisas, o modo como as boas intenções podiam ser subvertidas. E isso é tudo.”(“The secret of Tolkien’s ‘Rings’ Much loved series for a half-century” publicação eletrônica, disponível, http://www.cnn.com/2001/SHOWBIZ/books/12/17/rings.tolkien/, atualizado 18.12.2001)

Antes de passarmos para a análise da história propriamente dita e constatação desse mesmo realismo, estaremos tecendo algumas considerações metodológicas, a partir da hermenêutica de Ricoeur e das idéias de Tolkien.

1. Considerações metodológicas

Para entendermos o tratamento que Ricoeur confere ao mal, faz-se necessário considerar que ele partia do pressuposto cristão da queda e do pecado, conceitos centrais da cosmologia bíblica. Embora Tolkien provavelmente não concordasse com a interpretação alegórica que Ricoeur dava à narrativa do Gênesis, ele certamente concordaria com a visão crítica e aplicação que Ricoeur dava a esses conceitos na sua hermenêutica. No capítulo “A simbólica do mal interpretada”, ele deixa claro que o que buscava não era:

… opor, nesse nível de abstração, uma formulação a outra formulação: não sou dogmatizador. Minha intenção é refletir sobre a significação do trabalho teológico cristalizado em um conceito como o de pecado original. Coloco portanto um problema de método. Com efeito esse conceito tomado como tal não é bíblico e, contudo, quer explicar, por meio de um aparelho racional sobre o qual teremos de refletir, o próprio conteúdo da profissão e da predicação ordinária da Igreja. Refletir sobre a significação é, pois, reencontrar as intenções do conceito, seu poder de remetimento ao que não é conceito mas anúncio, anúncio que denuncia o mal e anúncio que pronuncia a absolvição. Em suma, refletir sobre a significação é de uma certa forma desfazer o conceito, decompor suas motivações e, por uma espécie de análise intencional, reencontrar as setas de sentido que visam o próprio querigma (Ricoeur, 1978, 227-8).

O que ele se propõe a fazer, nesta e noutras obras, não é questionar o conceito teológico de pecado, mas construir uma espécie de simbólica do mal. Assim, o fato de Tolkien ter abraçado o catolicismo romano e não o protestantismo reformado, como Ricoeur, não representa empecilho para o nosso estudo, mesmo porque ambos bebem de filósofos da Igreja não dividida, como Agostinho.

Como se sabe, mesmo os Reformadores como Calvino e Martinho Lutero, beberam de Agostinho, principalmente no que diz respeito à questão da graça e da trindade, que estão diretamente relacionados ao problema do mal.

Por mais que o platonismo também tivesse deixado as suas marcas no pensamento e tradição cristãos, um dos mais freqüentes equívocos no tratamento do problema do mal é o dualismo, particularmente o maniqueísta, uma das maiores preocupações dos grandes pensadores do cristianismo, de Santo Agostinho até Kant, e que continua sendo discutido e mal resolvido até os dias de hoje.

Os maniqueus atribuem ao mal uma substancialidade própria, coisa inteiramente inaceitável, do ponto de vista cristão. Nesse sentido, o maniqueísmo é comparável ao gnosticismo, que os críticos e filósofos da atualidade tendem a registrar e combater mais, do que o maniqueísmo, que muitas vezes passa despercebido. Por outro lado, esse tipo de pensamento está longe de ser uma postura superada. Diríamos até, que ele está presente na maioria das obras, filmes, particularmente de ficção, e desenhos animados da atualidade.

Para além do problema do dualismo, o que os maniqueus ignoram é que o mal, ao contrário do bem, tem uma natureza e origem totalmente dependentes. Portanto não há simetria ou equivalência possível entre o bem e o mal.

Outro autor muito preocupado com a questão do mal e do sofrimento, Peter Kreeft, encara o problema de maneira bastante objetiva e clara. Em Buscar Sentido no Sofrimento, citando um grande amigo e colega de Tolkien em Oxford, C.S. Lewis, ele deixa muito clara a distinção entre bem e mal[3]:

“O mal é parasitário, não original. Os poderes que permitem a continuação do mal são dados pela bondade.” Pode existir o bem absoluto, mas não pode existir o mal absoluto… O mal precisa do bem como o parasito precisa do hospedeiro, como o poder destrutivo precisa de algo bom para destruir, mas nunca o contrário. O bem não precisa do mal…O problema teórico do satanismo é o mesmo do dualismo. O mal não pode ser maior do que o bem, porque o mal é um bem distorcido, doentio, uma parasito do bem. O mal é sempre relativo ao bem. O mal infinito é uma contradição nos termos, pois, sendo infinito, não daria espaço para o bem se manifestar, não dando espaço assim à existência plena, à inteligência e à determinação do deus mau, anjo, ou homem.(Kreeft, 48-9)

Apesar de terem professado vertentes diversas do cristianismo, Lewis e Tolkien concordavam que o Mal não tem substância. Ele se opõe ao bem somente no sentido de tentar nega-lo, destruí-lo e anula-lo. Essa idéia fica clara particularmente em O Problema do Sofrimento, de C.S. Lewis, que, ao contrário de Tolkien, encarou a questão do mal teórica e teologicamente, associando-a à existência do sofrimento, como sendo um dos sintomas mais evidentes do mal.

Podemos identificar pelo menos três indícios de que Tolkien não recai em qualquer maniqueísmo, opondo-se até mesmo a ele. Em primeiro lugar, apesar do aparente preto e branco da luta entre o bem e o mal em OSA , não podemos encontrar em Terra Média personagens puramente bons, nem maus. Há os que foram bons e se tornaram maus. O mal não tem uma origem específica. Ele não é criado. Daí que ironicamente os maus acabam, em última instância, servindo ao bem. Há personagens considerados até “neutros”, no sentido de não engajados diretamente na luta moral ou de não serem atingidos pela sedução do anel, como Tom Bombadil, o único que permanece totalmente intocado pelo mesmo.  Nesse sentido, como observa Jacobsen, OSA não é apenas um épico, mas também uma história de criaturas simples, que se encontram situadas no meio do caminho entre o bem e o mal.

O segundo indício que torna evidente o não-maniqueismo de OSA , é que o mal é combatido com o bem, movido por atos de vontade livre e nenhum mecanismo ou “lei”, segundo o qual o bem tivesse algum poder “mágico” de ganhar sempre aleatoriamente no final.

Finalmente, o autor também dá grande liberdade ao leitor, de tirar as suas próprias conclusões a respeito dos personagens, que assim se tornam de riqueza praticamente inesgotável. A moral da história para o autor é que ninguém pode julgar a bondade ou maldade de ninguém, pois afinal, vivemos num mundo de “sombras”. Nesse sentido, Jacobsen alerta os críticos apressados, lembrando que:

Terra Média não está dividida em duas categorias, Bem e Mal. Há uma massa cinza entre elas. O que devemos lembrar quando se trata da mitologia de Tolkien é que jamais se poderá obter uma visão adequada do seu mundo, lendo as suas obras uma só vez, muito menos tentar analisar os seus habitantes. Devemos mais do que isto ao autor. Nem sempre a primeira impressão é a mais correta. (Jacobsen )

Nosso estudo comparativo entre esses dois autores parte, assim, dessa distinção originária, radical, mas não maniqueísta ou dualista, entre o bem e o mal, com o qual Tolkien e Ricoeur concordam, para além de suas discordâncias. De sua parte, Tolkien é bastante claro quanto a isso: “Na cosmogonia temos a queda: ou melhor até, uma queda de anjos… não pode haver qualquer ‘história’ sem a queda – todas as histórias falam, em última análise, da queda – pelo menos não, para mentes humanas, como as que nós conhecemos e possuímos”(Tolkien, apud Chance, 184).

2. Os Planos do Mal em Ricoeur

Da mesma forma como Kreeft e Lewis, Ricoeur também trata o mal, como algo que se encontra inalienavelmente ligado ao sofrimento, ainda que esse não passasse de um segundo estágio ou conseqüência moral do mesmo. Na obra de Ricoeur, que tomaremos por base para a análise da obra-prima de Tolkien, intitulada O mal: um desafio à filosofia e à teologia, Ricoeur parte das interpretações de autores como Agostinho, Kant, Barth e Hegel e outros pensadores, que não professavam o cristianismo, tais como Marx e Nietzsche, para chegar à seguinte conclusão:

O mal moral – o pecado em linguagem religiosa – designa o que torna a ação humana objeto de imputação, de acusação e de repreensão… É aqui que o mal moral interfere no sofrimento, na medida em que a punição é um sofrimento infligido… é por isso que se chama a culpabilidade de pena, termo que ultrapassa a fratura entre o mal cometido e o mal sofrido… fazer mal é sempre, de modo direto ou indireto, prejudicar outrem, logo, é faze-lo sofrer (Ricoeur, 1988,  23-24).

Nesse sentido, Ricoeur concorda muito mais com Agostinho, do que qualquer pensador moderno, pois para ele o mal não tem substância. Ele não tem uma origem, não tem uma explicação racional e nem sequer metafísica, como nos parece ser a concepção de Kant, embora ele existisse, de certa forma, como “regra” ou “princípio” universal da humanidade:

O princípio do mal não é de modo nenhum uma origem, no sentido temporal do termo: é somente a máxima suprema que serve de fundamento subjetivo último a todas as máximas más de nosso livre-arbítrio; esta máxima suprema fundamenta a propensão (Hang) ao mal em todo o gênero humano (…) ao encontro da predisposição (Anlage) ao bem, constitutiva da vontade boa. Mas a razão de ser deste mal radical é “insondável” (unerforschbar). (Ricoeur, 1988,  38)

De certa forma, o mal “implode” as categorias temporais, espaciais e didáticas, sendo uma espécie de “magia profunda” que se coloca, no dizer de Lewis em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (LFG)[4], na “aurora do tempo” (deep magic from the dawn of time). A aurora do tempo está aqui evidentemente para a idéia de queda. A feiticeira conhece bem esse “feitiço” e apela para ele, para se declarar merecedora do sangue de um traidor. O que a feiticeira desconhecia é que, para além dessa magia, havia outra “ainda mais profunda”, de antes da aurora do tempo. Com isso, o leão consegue fazer o tempo e até a morte voltarem atrás, quando o traidor confessa e se arrepende do seu delito.

Assim, muito mais do que ao nada, o mal está relacionado à liberdade e à responsabilidade humanas[5], que se encontram escritos no próprio coração do homem. Pois, como bem nos lembra Lewis em Cristianismo Puro e Simples, havia no homem já anteriormente escrita, desde a sua criação à imagem e semelhança de Deus, uma “outra lei”, a “lei moral”, que transcende o tempo e, assim, o mal. Na visão de Agostinho, essa lei foi escrita pelo próprio “dedo de Deus”. Portanto, não é possível falar do mal, sem falar igualmente da realidade altamente complexa do livre-arbítrio e da autonomia humana. O sofrimento seria, portanto, uma conseqüência ou resposta à desobediência do homem:

todo o sofrimento, tão injustamente repartido ou tão excessivo que seja, é uma retribuição do pecado, é necessário dar a este uma dimensão supra-individual, histórica, até mesmo genérica; é a resposta da doutrina do “pecado original” ou “pecado de natureza” (Ricoeur, 1988, p.33)

Partindo, assim, da concepção de queda e livre-arbítrio, faz-se mister pôr em dúvida se pode existir alguma lógica ou razão de ser do mal, ou não passaria ele de pura desrazão, algo simplesmente i-razoável e i-lógico?

Em Hegel, a questão do mal é geradora de uma dialética entre a “convicção “ e a “consciência julgante”, que acaba sendo superada pela “destruição do juízo da condenação”. Ele não adimitia ninhuma lógica do mal, mas reconhecia uma “astúcia da história”, que concorre com o “espírito do mundo” e o “espírito do povo”, trazendo conseqüências e acontecimentos não pretendidos pelos historiadores. Temos em Hegel, portanto, uma mistura entre o pensamento religioso e o filosófico.

Assim, ao menos no que diz respeito ao plano do pensamento, a compreensão do mal exige uma reflexão mais complexa e paradoxal. O mesmo não pode ser resolvido com base exclusiva no aparato intelectivo do homem. É forçoso transcender o nível da mera racionalidade humana.

Ricoeur vai ainda mais longe ao surgerir que a concepção do mal está na raiz do próprio modo de pensar. Na verdade, o dilema do mal nos remete à busca do sentido da existência, da mesma forma como à busca de Deus, que não pode ser totalmente compreendido pela razão pura, mas nem por isso devemos nos “calar” a seu respeito. Pois, na verdade, dilemas como esse nos remetem inalienavelmente ao transcendente, pois que só podem ser tratados, a partir de uma perspectiva transcendental.

Na perspetiva do autor, o homem não se pertence a si mesmo e também não  tem como declarar a sua total independência racional. Daí que todas estas questões que transcendem a razão humana só possam ser tratadas a partir da ruptura espaço-temporal, pela introdução de um pensamento diferente, como o da narrativa, principalmente a mitológica. O mito acaba assumindo para o pensamento arcaico o papel desempenhado pelos modelos da ciência :

Considerada em termos do seu alcance referencial, a linguagem poética tem em comum com a linguagem científica o facto de só alcançar a realidade mediante um desvio, que serve para negar a nossa visão ordinária e a linguagem que habitualmente empregamos para a descrever. Procedendo assim, a linguagem poética e científica visam uma realidade mais real do que as aparências. A teoria dos modelos permite-nos deste modo interpretar satisfatoriamente o paradoxo da linguagem poética, evocado mais acima…. A composição de uma história ou de um enredo – Aristóteles fala aqui de um mythos – é o caminho mais curto para a mimese, que é o ideal central de toda a poesia. Por outras palavras, a poesia só imita a realidade recriando-a a um nível mítico do discurso. Aqui, ficção e redescrição vão a par. (Ricoeur, 1995, 114-115)

O ponto que gostaríamos de frisar é que tudo que nos é vedado pela via da razão lógica e sistemática, pode muito bem ser alcançado através do mito e da narrativa. Assim, Ricoeur tenta dar conta da aparente contradição entre a realidade do mal, ao mesmo tempo em que se crê na existência de um Deus, a partir de um modo de pensar que chama de “onto-teológico”.

Isso no plano do pensamento. Acontece que o mal também existe no nível da ação, onde equivale à violência, que, por sua vez, só pode ser combatida por uma política ética. Ricoeur é bastante contundente quando se refere a este plano, afirmando que:“antes de acusar Deus ou de especular sobre a origem demoníaca do mal no próprio Deus, atuemos ética e politicamente contra o mal.” (Ricoeur, 1988, 49). Seu maior argumento contra aqueles que se queixam contra a violência é o da responsabilidade, que deve caminhar de mãos dadas com a liberdade.

Já no plano dos sentimentos, o mal equivale à queixa contra o sofrimento, que por sua vez poderia ser combatida pela superação da revolta contra Deus e pela tese da punição. Neste contexto, Ricoeur resgata o conceito freudiano de luto. Sua função, para além do sofrimento, é a de ajudar o sujeito que sofre por alguma contingência, a libertar-se da acusação natural que faz contra si mesmo. Além do mais, de acordo com a perspectiva , Deus também sofre. E assim a acusação contra Deus torna-se uma questão de tempo e de renúncia, que só podem assumir aqueles que acreditam que Deus seja a fonte de todo o bem.

Para lá deste limiar, alguns sábios avançam solitariamente no caminho que conduz à renúncia da própria queixa. Alguns chegam a discernir no sofrimento um valor educativo e purgativo. Mas é necessário afirmar sem hesitação que este sentido não pode ser ensinado…O horizonte em direção ao qual se dirige esta sabedoria parece-me ser uma renúncia aos próprios desejos dos quais a ferida gera a queixa; renúncia, primeiro, ao desejo de ser recompensado por suas virtudes, renúncia ao desejo de ser libertado pelo sofrimento, renúncia ao componente infantil do desejo da imortalidade, que faria aceitar a própria morte com um aspecto desta parte do negativo… (Ricoeur, 1988, 52)

Paradoxalmente é no contexto de morte que o bem mais se destaca. De acordo com Chance, a morte é um tema de destaque em OSA . O nome da região de “Mordor”, por exemplo, vem de “murder”, ou seja, assassinato e morte. Uma das maiores armas usadas pelos heróis da história contra ela é a ética ou moral.

O jornalista britânico G.K. Chesterton, que inspirou tanto a Tolkien, quanto a Lewis, também concordaria inteiramente com essa visão paradoxal, que ele atribui ao cristianismo, que diz que “só aquele que põe a perder, ganha e aquele que quer ganhar, perde”[6]:

Aquele que perder a sua vida salva-la-á: isto não é nenhuma divisa mística para santos e heróis. É um conselho de senso comum para marinheiros ou montanhistas. Podia estar impresso numa guia para alpinistas ou em um manual de instrução militar. Este paradoxo contém todo o princípio da coragem, mesmo da coragem simplesmente terrena ou simplesmente brutal….Um soldado cercado pelo inimigo, se quiser abrir caminho para escapar, terá de combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação pela morte. Não lhe basta apegar-se à vida, pois então seria um covarde e não escaparia. Não pode esperar pela morte, pois então seria um suicida e também não escaparia… Imagino que nenhum filósofo terá jamais expressado este romântico enigma com a lucidez adequada… Mas o cristianismo fez mais do que isso: marcou-lhe os limites nas tremendas sepulturas do suicida e do herói, mostrando a distância que há entre aquele que morre por amor à vida e aquele que morre por amor à morte. (Chesterton, 39-40)

E somente esse paradoxo do enfrentamento da morte por amor da vida, diz Ricoeur, é capaz de romper com o ciclo vicioso da retribuição, permitindo a entrega ao amor incondicional divino. Ricoeur encerra a sua reflexão com um forte apelo para o engajamento:

Em relação a esta luta (contra o mal), estas experiências são, como as ações de resistência não-violenta, antecipações em forma de parábola de uma condição humana onde, a violência sendo suprimida, o enigma do verdadeiro sofrimento, do irredutível sofrimento, é colocado às claras. (Ricoeur, 1988, 53)

Assim, a existência do mal reafirma a condição humana que vê o homem, como  criminoso e vítima ao mesmo tempo. Esse caráter paradoxal da natureza humana não se manifesta apenas na lógica, mas também na linguagem.

Da mesma forma como o mal, ninguém sabe ao certo a origem da linguagem. Ela é algo inescrutável para a mente humana. Logo, ela também requer transcendência para servir para a superação do sofrimento e até da solidão (Ricoeur, 1995, 66). Na visão de Ferreira da Silva, a linguagem tem a característica adicional de ser “intersubjetiva”

Só a condição lingüístico-intersubejtiva fundamental deste tipo de experiência (do inexprimível) torna possível a sua realização… como nos diz Ricoeur, a linguagem do mal não é, de modo nenhum, a linguagem habitual. A tensão sempre presente nos símbolos e mitos do mal entre mal sofrido e mal cometido, obriga-os a retomarem-se constantemente, refazendo, de novo, o seu sentido. O símbolo nunca é, de facto, toda a realidade simbolizada. O seu princípio é sempre o paradoxo do tempo e do carácter excessivo do sentido. (Ferreira da Silva, 24-25)

A condição a que o autor se refere não é meramente teórica, mas simplesmente existencial. Ninguém vive sem uma linguagem composta de signos, símbolos e significados: “Na verdade, lembra-nos Ricoeur, se a vida não fosse originariamente significação, a compreensão nem sequer seria possível. Mas o caminho do símbolo é simultaneamente o do esquecimento e o da restauração, ”(Ferreira da Silva, 55). A linguagem, longe de ser uma entidade independente, é, assim, mediadora de significados ou do sentido. Ela server para preservar a memória, mas serve também para o esquecimento, como mecanismo de defesa e de desmitificação da realidade, como vimos anteriormente,  para a sua re-significação:

Só esta dialética diz alguma coisa acerca da relação entre a linguagem e a condição ontológica do ser-no-mundo. A linguagem não é um mundo próprio. Nem sequer é um mundo. Mas, porque estamos no mundo, porque somos afectados por situações e porque nos orientamos mediante a compreensão em tais situações, temos algo a dizer, temos a experiência para trazer à linguagem. (Ricoeur, 1995, 71)

Em resumo, então, a simbólica construida pelo sofrimento e necessidade de darexplicação ‘a existência do mal é em Ricoeur, paradoxalmente também a simbólica do sentido da vida e da busca da reconciliação ou salvação. Daí que ele estabeleça uma forte proximidade entre a filosofia, a hermenêutica e a soteriologia ou teologia da salvação.

Autores como J.R. R. Tolkien e seus colegas de Oxford[7], todos igualmente interessados em assuntos existenciais e teológicos, empenhados em contribuir para a “salvação” do mundo do holocausto da guerra e da indústria tecnológica, empenhavam-se não somente na luta contra o mal, mas em usar os meios mais comunicativos para tanto. Entretanto, para se extrair as suas importantes lições de narrativas como as parábolas, é necessário “ter ouvidos para ouvir” e mente para refletir. È preciso ainda ter parâmetros morais para julgar e interpretar as suas narrativas.

Esses são resumidamente, assim, os pressupostos teóricos com os quais faremos a leitura de OSA  a seguir..

3. O mal em OSA

Ness obra, o autor procura conciliar uma série de extremos, numa atitude paradoxal[8] para a sua época: o mundo interior e o mundo exterior; o subjetivo e o objetivo; o induzido e o contingente; o teórico e o prático; o universal e o particular. Esse método do paradoxo também está muito presente nos mitos, que costumam buscar soluções para as contradições aparentes e reais da existência humana. Neste sentido, é importante notar a moral central da história ou o anúncio por detrás da denúncia que é bastante simples e modesto: os verdadeiros heróis são precisamente aqueles personagens ignorados e silenciados, que nos parecem inicialmente os mais fracos e insignificantes de todos.

É interessante notar, nesse sentido, que quando os hobbits se encontraram com os ents da floresta, eles não tinham qualquer registro da sua existência. O estranhamento ocorrido nesse encontro também pode ser observado no primeiro encontro entre o fauno e Lúcia em LFG. Trata-se do mesmo tipo de abalo frequentemente provocado pelos mitos e contos maravilhosos em geral, etc.

Outro traço em comum entre a mitologia e OSA é a multiplicação dos motivos de um mesmo tema. Não se tem uma imagem única nem do bem e nem do mal. O aspecto modelar dos mitos, já destacado por Ricoeur multiplica-se por toda a história: Bilbo é um modelo referencial para Frodo; Gandalf é o modelo referencial para Aragorn; Galadriel, que se torna a mentora espiritual da confraria do anel, a partir da morte de Gandalf, e sempre faz as perguntas certas, é um modelo espiritual para os hobbits, etc. Mas não há só exemplos positivos na história.

Podemos citar inúmeros personagens que apresentam fraquezas pessoais, como o próprio Frodo, personagem principal e portador do Um Anel; Bilbo, o bolseiro, que foi o primeiro portador e Boromir, um dos integrantes da Sociedade do Anel. Por outro lado, o Um Anel representa o mal em si, associado à ambição e ao poder. Foster elucida os interessantes efeitos do anel sobre diversos portadores:

Devido ao seu imenso poder maligno, o Anel tem propriedades curiosas. Ele possui uma certa medida de auto-determinação… O Anel também usa e devora os seus portadores, a menos que, como no caso de Sauron, ele mesmo seja dotado de grande poder. Eles passavam a viver mais, mas o custo disso era de tornarem-se escravos do Anel e serem corrompidos até na aparência física (veja: Gollum) já que os seus corpos e almas eram consumidas pela fome que tinham do anel. O anel também incitava a ambição de quem o possuía e ódio invejoso e medo da parte do seu portador … Aqueles dotados de pouco poder que usassem o anel, tornavam-se invisíveis, mas a sua vista e audição ficavam mais aguçadas, e esta acuidade sensorial permanecia por alguns momentos, mesmo quando eles não estavam usando o Anel … O Anel representava um peso e tormento constante na mente e corpo de Frodo, pois ele o carregou em uma época em que o poder de Sauron estava muito forte e porque ele o usou em Mordor  (Foster, 385-6).

Além do Um Anel, há vários outros anéis na história, denominados genericamente “anéis do poder”. Diz a lenda que Melkor, o anjo do mal, ensinou os elfos a forja-los, muito antes sequer da queda do mundo. Mas o Um Anel, forjado por Sauron, o Senhor do Escuro na Montanha do Fogo, para controlar todos os outros anéis do poder é o mais temível de todos. Nele encontra-se inscrito:

Um Anel para a todos governar; Um Anel para encontra-los,

Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisiona-los. (Tolkien, 52)

Essas duas linhas de um poema folclórico que fala de todos os anéis já forjados em Terra Média, eram visíveis somente a Frodo, o portador do Anel. Os outros anéis encontravam-se espalhados. Três deles estavam no poder dos elfos; sete, dos anões; e nove, dos homens. Mas precisamente o Um Anel encontrava-se perdido. O fato de, em meio a tantos anéis, somente um ser puramente maligno, é outra evidência da transcendência do bem, relativamente ao mal em Tolkien.

Pelo que se pode ler em Silmarillion e outras histórias e fragmentos de histórias, a queda do primeiro anjo mau, Melkor, ocorreu antes de Ilúvatar ter despertado os seres para a vida, à semelhança do que ocorre na narrativa bíblica. Quem criou os fundamentos e elementos substanciais de Terra Média foi Aulë. Seu nome significa “invenção”. Ilüvatar ou Eru (Deus), cria os Ainur, ou os santos, e usa o seu canto para criar Arda, o mundo, “despertado-o” para a vida.  Os maiores Ainur são os Valar, sendo que Melkor era um deles. Ele atrapalha o canto dos outros Ainur, de modo que eles o banem. Toda a saga de OSA começa quando Melkor resolve voltar à Terra Média.

Registra-se ainda a existência de demônios e anões, embora vivendo em estado de sono profundo nas profundezas das cavernas, antes do despertar dos “filhos de Ilúvatar”. Os elfos, que são os seres angelicais mais próximos dos homens, também são despetados antes dos seres humanos. Assim, a oposição entre o bem e o mal vem de antes do despertar do homem para a vida, ainda que nunca, como forças iguais ou simétricas que usassem as mesmas armas e estratégias.

Outro detalhe que escapa à quem acusa Tolkien de maniqueísmo é o fato de que a clara nomeação e distinção entre o bem e o mal em OSA não é nenhuma prova de que o autor está necessariamente sendo maniqueísta. Só o que ele está fazendo é uma clara, quase que gritante distinção. A suspeita de maniqueísmo só poderia ser levantada, se essa relação entre bem e mal fosse de contradição simétrica, a modo do que acontece em desenhos animados como os do He-man, que se opõe diametralmente à figura do esqueleto, a quem se assemelha no porte físico. A diferença só é que ele “tem a força”, em detrimento do seu inimigo.

Em OSA , não há nenhum tipo de proporcionalidade direta ou inversa entre o bem e o mal, pois o primeiro transcende de longe o segundo, como a luz transcende as trevas. O exemplo mais contundente disso talvez se encontre na entrega de Gandalf à morte para salvar seus companheiros e a sua posterior ressurreição, numa clara analogia à morte e ressurreição de Cristo, ainda que não, de forma direta ou alegórica.

A superabnudância do bem também pode ser observado pelo fato de todos os personagens maus, já terem sido, de alguma forma, bons no passado. Quanto mais remoto esse passado, mais corrompido se tornou o personagem. Por outro lado, os personagens bons também cometem os seus erros, e se sentem tentados. O que os distingue é que eles não vivem fazendo o mal e que costumam aprender com esses erros, o que, por sua vez, é outro aspecto fortemente anti-maniqueista. Pela visão maniqueista tudo o que há já nasce bom ou mau. Normalmente não se admite tons cinza entre um extremo e outro ou mudanças de essência.

Quando falamos em hábitos de vida e aprendizagem, estamos automaticamente falando em educação, que também envolve pelo menos os três planos de análise do mal sugeridos por Ricoeur, que Tolkien também abrange em OSA , e que passaremos a analisar mais detidamente a seguir.

3.1. O mal em pensamentos

A partir da perspectiva epistemológica, psicológica ou mental, é importante destacar que em OSA a maldade éincapaz de gerar pensamentos originais ou relevantes. Os personagens do mal morrem de inveja da criatividade característica aos de bem. Só os bons é que conseguem criar, e só Ilúvatar, o Criador do mundo, sabe criar a partir do nada. O que Morgoth mais deseja, no fundo, é forjar o poder criacional de Ilúvatar. E Frodo esclarece que esse também foi mesmo desejo daquele que criou os horripilantes orcs: “A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou; e, se eles tiverem de viver, precisam viver como as outras criaturas.” (Tolkien, 967).

Diz-se até que, na verdade, os orcs eram depravações do que já foram hobbits em outros tempos. Da mesma forma como língua de cobra, o conselheiro do rei Théoden foi um ser humano no passado: “Veja Théoden, aqui está uma cobra! Não pode levá-la consigo em segurança, nem deixá-la para trás. Matá-la seria justo. Mas essa criatura não foi sempre com é agora. Já foi um homem, e o serviu à sua maneira.” (Tolkien, 544.)

Essas duas criaturas, particularmente Gollum, ou Smeagul, como passava a se chamar quando se tornava menos depravado, são exemplares bastante ilustrativos de pensamentos malignos, que se manifestam sempre numa linguagem egocêntrica, se não, esquizofrênica. Não é por acaso que os orcs, que decidiram servir a Saruman, nunca foram capazes de desenvolver uma linguagem muito complexa.

Ele está sempre dialogando com a própria consciência sobre as decisões que irá tomar para reconquistar o seu “precioso”, o Um Anel que já esteve em posse dele há muito tempo atrás. Desde que ele foi preso e torturado por Sauron, para depois ser liberto para ir à caça de Frodo, seu pensamento obsessivo mantém-se fixado nesta idéia.

Em sua interessantíssima análise deste complexo personagem, Seland afirma que a maldade de Gollum, ao contrário daquela dos demônios Sauron, Saruman e Morgoth não é “espiritual”, mas muito mais carnal, humana ou moral. Além do seu egoísmo pueril e a sua gula, ele demonstra fortes indícios de estar sofrendo uma síndrome “maníaco depressiva” nos seus longos monólogos. Seu hábito de mentir é tão forte, que ele passa a enganar principalmente a si mesmo. Daí que se diz que o anel corrompeu Gollum “devorando a sua cabeça” e tornando-o cada vez pior. Na verdade Gollum sofre de um mal que o vai corroendo pela divisão ou fragmentação do seu ego. E este mal se manifesta pela sua linguagem cada vez menos inteligível, pobre e infantil.

Mas o que importa destacar aqui não é a maldade de Gollum e sim, a comiseração demonstrada por Frodo, depois de ter passado por uma espécie de “rito de purificação” nas cavernas. Na perspectiva de Beagle, o tema da purificação e da pena é o mais importante de toda a história de OSA :

OSA é a história da viagem de Frodo´s através do longo pesadelo de ambição e energia terrível da sua educação, tanto para o medo, quanto para a verdadeira beleza, e da sua perda final do mundo que ele busca salvar. Em certo sentido, o seu crescente conhecimento devorou a alegria e força inocente que o tornou, de todos os personagens sábios e mágicos que ele encontra pelo caminho, o único adequado para ser o portador do Um Anel. Como Sam Gangee, o único amigo que o acompanhou por todo o longo caminho rumo ao fogo, “As coisas têm que ser assim muitas vezes … quando as coisas estão ficando perigosas: alguém tem que abrir mão delas, perde-las, para que outros possam ficar com elas.” Certamente haviam outros personagens em Terra-Média que teriam se disposto a pagar este preço, mas certamente nenhum para quem isto tinha tanto sentido. (Beagle, XI)

Ou seja, a sua disposição mental de tentar compreender e ser compassivo para com Gollum. Com isso, paradoxalmente, a partir de uma certa identificação de Frodo com o orc, o mal fica muito mais destacado diante do bem. Neste sentido, Gollum é o personagem que melhor representa a maldade e suas conseqüências destrutivas, a partir de uma perspectiva essencialmente humana. Não é certamente nenhum acaso o fato de que um dos poderes do anel é tornar as pessoas invisíveis, ou seja, tirar-lhes a concretude mais caracteristicamente humana. Como já dizíamos, o objetivo do Um Anel é de escravizar e controlar mentalmente quem decide possuí-lo. E o melhor exemplo disso é dado pelo próprio Gollum:

As palavras “Meu Precioso ” são muito significativas, indicando que aquele que possuísse o anel acaba, na verdade, sendo possuído por ele. Ele acaba se tornando a sua posse mais preciosa, mais preciosa até, do que a sua própria alma. As palavras, na verdade, sugerem que o portador do Anel perde a sua identidade. Não é de se estranhar, portanto que os cavaleiros negros, os maiores servos de Sauron, não passassem quase que de sombras. Originalmente Homens, cada um recebeu um anel por Sauron e desta forma eram facilmente corrompidos, tornando-se tão maus, que perdiam a sua própria identidade (Foster 359-60). Eis porque eles são invisíveis aos olhos normais, e só podem ser reconhecidos pelas suas roupas negras…. Nós também podemos notar que, embora ele (Gollum) falasse muito em se tornar um “mestre”, uma vez que tivesse o anel, ele não deseja poder. A sua imaginação e inteligência parecem insuficientes para se dar conta de todo o poder do Anel. Nisto ele se diferencia de Sauron e de Saruman, que pretendiam usar o anel para dominar toda a Terra-Média. A ambição de Gollum sempre se limita ao nível físico (Katharyn F. Crabbe, 37). Ele deseja poder meramente para ser chamado de “grande” e ter tanto peixe quanto ele possa comer. Mas para além disso, Gollum não passa de alguém que mente para si mesmo. (Idem)

O que fica evidente, tanto nos diálogos, quanto nos monólogos de Gollum é que ele assume atitudes irracionais e parece não ter o mínimo controle sobre a sua própria vontade. Assim, o anel acaba dominando a vontade de quem o carrega, tentando convence-lo de que lhe trará algum bem e fazendo-o praticar o mal, causando a destruição. Ao final, o anel divide e destrói a personalidade e o caráter do seu portador, fazenda-o corromper-se e tornar-se uma das mais vis e degradantes criaturas. Assim, Gollum contribui para a sua própria auto-destruição, servindo de exemplo para o que acontece, sempre que se cede ao desejo indevido ou excessivo. Daí que o autor ponderasse que todos argumentos de Gollum são irracionais e estúpidos, pois nenhum deles garante que o Um Anel lhe dê o que ele deseja, coisa que nem sabe muito bem o que é.

O próprio Saruman, braço direito de Sauron, tinha um plano secreto de derrotar o chefe e tomar posse do anel do poder para si mesmo. Sob esse prisma, poderíamos considerar OSA uma grande história sobre a criatividade e liberdade humanas.

Mas o maior exemplo da maldade de pensamento encontra-se na já mencionada figura de Melkor, que mais tarde é chamado de Morgoth. Deus deu a ele poderes, acima de todos os outros, de modo que começou a se corromper a partir da idéia de ser igual a Deus, ou seja, de criar, a partir do nada. A estes pensamentos seguiram a inveja e o desejo de dominar o mundo todo, até que ele acabou sendo expulso do mundo dos Valar.

E um dos aspectos do seu caráter mais rapidamente corrompido foi precisamente a sua capacidade imaginativa, até que ele acabou não sendo capaz de criar mais nada, além de imitações baratas, prontas para a destruição.

Após a sua derrota na guerra com os elfos e aprisionamento, ele conseguiu seduzir outro anjo, chamado Manwë para liberta-lo e criar todo um exército para apóia-lo na luta contra o bem. Desde então a sua maldade e mentira passaram a obscurecer o coração de todos os seres de Terra-Média, como uma sombra, ou pelo menos até a destruição do Um Anel e a derrota de Sauron. Tolkien usa um a imagem de um olho obscuro que só Frodo consegue ver, quando põe o anel e ele e Sam, quando olham no espelho de Galadriel, depois de se verem, horrorizados, o futuro, como ele poderia ser. Tudo dependeria da vontade deles, explica Galadriel.

Na leitura crítica de Lewis, revelar a realidade da vida humana é um dos principais objetivos de Tolkien em todas as idéias apresentadas e evocadas em OSA  :

… uma das principais coisas que o autor deseja dizer é que a vida real do homem possui este mesmo caráter mítico e heróico. Podemos ver este princípio em ação nos seus personagens. Muito do que em uma obra realista teria sido produzido pelo traçar do ´perfil dos personagens ´ é realizado aqui simplesmente personificando o personagem em um elfo, um anão ou um hobbit. Os seres imaginários Têm o seu lado interno virado do avesso; eles são almas visíveis. E o Homem como um todo, o Homem diante do universo, será que nós sequer o vimos antes de ter chegado a vê-lo como um herói em um conto-de-fadas? (Lewis, 1982, 89)

Não por acaso o sentimento de esperança é também o que distingüe os contos de fada da tragédia, como elucida Chance. Eles evocam a associação que existe entre o mundo primário e o mundo secundário, de forma semelhante ao sentimento evocado no mundo cristão pela simbologia do paraíso (Chance, 2001, 115 ss.).

Mas longe de serem tediosos e enfadonhos como muitos imaginam os contos de fada e às vezes o próprio céu e suas entidades celestes, os personagens de Tolkien são ricos, humanos e multifacetadas, não deixando margem a qualquer acusação de visão parcial ou unilateral ou dogmática do universo. E todos eles têm importantes lições de vida a nos oferecer.

A já mencionada elfa Galadriel, por exemplo, é uma figura bastante controversa. Por um lado, ela alerta os viajantes da Sociedade do Anel[9] para o perigo, por outro, ela lhes dá uma idéia do monstro em que poderia vir a se transformar, se viesse a possuir Um Anel e faz Frodo passar por um teste de moral, permitindo que ele olhasse no espelho e visse o olho de Sauron que lê pensamentos. O que importa é o fato de que ela é uma das únicas personagens que resiste à tentação de possuir Um Anel. É em momentos como este que ela prova toda a sabedoria, peculiar à sua maneira de pensar:

Sei o que você viu por último …, pois está também em minha mente. Não tenha medo! Mas não pense que é apenas cantando entre as árvores, ou só por meio de flechas frágeis e arcos élficos que nós da terra de Lothlórien nos defendemos e nos guardamos do Inimigo. Digo a você, Frodo, que neste exato momento em que conversamos eu percebo o Senhor do Escuro e sei o que se passa na mente dele, ou pelo menos tudo que se relaciona aos elfos. E ele sempre se insinua para me ver e ler meus pensamentos. Mas a porta ainda está fechada…O amor dos elfos por sua terra e seus trabalhos é mais profundo que as profundezas do Mar, sua tristeza é eterna e nunca poderá ser completamente abrandada. Mesmo assim, jogarão tudo fora se a outra opção for a submissão a Sauron: pois agora os elfos o conhecem. Você não deve responder pelo destino de Lothlórien, mas apenas pelo desempenho de sua própria tarefa. Apesar disso, eu poderia desejar que, se isso adiantasse de alguma coisa, o Um Anel nunca tivesse sido forjado, ou que continuasse perdido para sempre. (Tolkien, 380-381).

Outro bom exemplo da depravação mental é dado por Boromir, o governante que, de tanto querer prever o futuro na sua pedra mágica, que contém o olho de Sauron, acaba enlouquecendo devido à sua soberba e sofrimento pela morte do seu filho. Por mais que seus vícios se manifestassem em sentimentos, a origem dos mesmos é a pura falta de controle racional das suas emoções, como esclarece Chance.

A inteligência de Denethor, excitada pela soberba e desejo, degenera-se em loucura e de sofrimento pela perda do seu filho…. O erro de Denethor, portanto, é marcado pela percepção distorcida da verdade, a imaginação desordenada e incapacidade de amar – na verdade uma falta daquele amor próprio que permitiria uma fidelidade filial menos ciumenta e dominadora – pela ambição arrogante e cobiça e por isso, uma vontade não controlada por nenhum processo racional (Chance, 2001, 108, 111).

Paradoxalmente, são precisamente as criaturas dotadas de capacidade criativa, que são aquelas capazes de serem verdadeiramente livres. E com isso elas também têm a possibilidade de cometer o mal. Como já comentávamos na análise do pensamento de Ricoeur, somente uma pessoa verdadeiramente livre pode cometer ou livrar-se do mal.

Neste sentido, não é para menos que essa elfa é tão venerada entre os hobbits, já que ela foi capaz de algo quase inédito: resistir aos poderes sedutores do anel. Por este trecho podemos ver, que o controle de pensamentos é uma das principais estratégias do maligno para infligir e difundir o mal e a destruição. Notamos ainda os conflitos morais pelos quais têm que passar muitos personagens, e que são inexistentes nas visões de mundo maniqueístas, onde o bem e o mal são bem determinados desde o início.

Outro aspecto importante a ser notado aqui é que, ao invés da força bruta, o que os elfos usam contra o mal são pensamentos bons e saudáveis, a arte, a solidariedade, a renúncia e o sacrifício, ou seja, todos os pensamentos virtuosos e propriamente humanos ou até sobre-humanos, tais como os da fé, da esperança e do amor.

Esta concepção do mal, como busca excessiva do bem e abuso auto-destrutivo do livre-arbítrio coincide perfeitamente com o pensamentos de Ricoeur acima explicitado. E ela concorda até com a idéia Bartheana de que o mal, de alguma forma, permanece latente no pensamento e no coração da humanidade, mesmo depois de derrotado na cruz por Cristo, enquanto ele decidir por não voltar para resgatar o homem e com ele toda a criação. Daí que o apóstolo Paulo nos convidasse a nos transformarmos pela “renovação da nossa mente” (Rm 12:1-2).

Esta concepção fica particularmente evidente no penúltimo capítulo da história “ O expurgo do Condado”. Entretanto, o que está por trás deste capítulo é certamente muito mais a idéia de participação, do que de alguma contingência da divindade, idéia esta que também fica muito clara nas obras de ficção de Lewis.

E a verdadeira guerra de pensamentos bons e maus, pela qual Frodo, mais do que ninguém, se vê obrigado a passar, acaba com um final feliz providencial, quase milagroso, que já vinha dando rumo e sentido a toda a história, mesmo naqueles momentos, aparentemente mais desesperadores, muito à semelhança do que acontece nos contos-de fada. Os personagens são assim convidados a participar da dor e sofrimento que há no mundo, assumindo a sua cruz.

Neste sentido, outro aspecto interessante em todos os personagens que cultivam maus pensamentos é que eles acabam sendo os que mais sofrem debaixo do jugo da sua própria maldade. O que já nos remete ao próximo item.

3. O mal em sentimentos

Da mesma forma, como no caso dos pensamentos, podemos citar inúmeros sentimentos bons e maus, que os personagens manifestam ao longo da história. E a maioria destes sentimentos acaba tendo uma influência direta sobre as decisões e atitudes assumidas pelos personagens. Com isso, Tolkien não prova somente a sua enorme sensibilidade, mas também um impressionante conhecimento da natureza humana.

Os sentimentos expressos com maior freqüência são o desejo pelo poder e sentimentos, movidos pela ganância, egoísmo e inveja, que estão todos igualmente ligados ao desejo de poder e à sedução. De certa forma, toda a maldade em Terra Média, embora originada em pensamentos, acaba sendo movida por um forte desejo de poder. E o desejo pelo poder está, por sua vez muito ligado ao desejo de posse, outro tema central em OSA , já que toda a trama gira em torno da posse do Anel. E o melhor exemplo disso está novamente representado na figura de Gollum e sua busca insaciável e até maníaco depressiva pelo objeto do seu desejo. O descontrole dos desejos está associado em Tolkien, da mesma forma como em Lewis, aos excessos de dualismo, bem como de todos os ismos; que se manifestam no uso descontrolado da tecnologia, particularmente da engenharia genética ensaiada tanto por Morgoth, quanto por Sauron e Saruman, e na excessiva mecanização do homem.

Em LFG, Edmundo não consegue se saciar com o tão desejado e enfeitiçado Manjar Turco e até passa mal em decorrência do excesso de ingestão do mesmo. Em sua triologia espacial (Longe do Planeta Silencioso, Perelandra e That Hideous Strength da Space Triology) a engenharia genética e a mecanização do homem são as maiores causas que levam o mundo ao apocalipse final. Não que Lewis ou Tolkien fossem contrários à ciência e tecnologia, mas somente aos abusos dela, em nome do poder e da posse.

De acordo com Duriez[10], o desejo descontrolado de poder e posse sempre encontra em Tolkien um contraponto, por meio de personagens que se mostram bons despenseiros, bons administradores (steward), dotados da virtude da parcimônia e do dom do serviço. É esta atitude que dá a Tom Bombadil, por exemplo, o poder de resistência contra os poderes sedutores do Anel.

E o exemplo negativo que temos de maus sentimentos é dado por Boromir. Era um eminente administrador público de Gondor, filho de Denethor e irmão do sábio Faramir. Embora tivesse sido escolhido para fazer parte da Sociedade do Anel, graças à busca que ele e seu irmão empreenderam atrás do significado de um sonho, infelizmente ele herdou o grave defeito do seu pai: o orgulho. Daí que ele não conseguisse conformar-se com a idéia de ter sido Frodo, e não ele, o encarregado da missão de destruir o Um Anel e ser o seu portador. Na sua concepção, o poder do anel devia ser aproveitado para destruir Sauron. Acontece que o anel provoca nele um desejo cego de posse, que o leva a ponto de tentar matar Frodo. Mas o fato acaba sendo até providencial, uma vez que isso leva Frodo a fugir do alojamento levantado pela Sociedade do Anel, minutos antes de um ataque de orcs. Arrependido, Boromir sacrifica-se para salvar a vida de Pippin e Merry, o que lhe restitui um pouco a imagem.

Já o próprio Denethor, pai de Boromir é um exemplo ainda pior de sentimentos excessivos de orgulho e amor, particularmente por Boromir, que o faz chegar a ponto de querer sacrificar o seu outro filho, Faramir e cometer suicídio para não ter que se humilhar.

Além do sentimento de inveja, da traição, do engano e do desejo de posse, podemos citar outros sentimentos freqüentes, como o medo e insegurança que Frodo manifestava diante do perigo e que sempre eram afastados pelo seu fiel amigo Sam, e o ódio manifestado por Saruman, ao confrontar-se com o sábio Gandalf.

Interessante notar ainda a observação de Gandalf quanto à natureza mentirosa e nada original da maldade de Saruman, que procura infringir o medo nos outros:

–       Perigoso! – exclamou Gandalf. – Eu também sou, muito perigoso: mais perigoso que qualquer outro ser que jamais encontrarão, a não ser que sejam levados vivos diante do trono do Senhor do Escuro. E Aragorn é perigoso, e Legolas é perigoso. Você está rodeado de perigos, Gimli, filho de Glóin; pois você mesmo é perigoso, à sua maneira. Certamente a floresta de Fangorn é perigosa – não menos perigosa para aqueles que são rápidos demais com seus machados; e o próprio Fangorn, ele também é perigoso, no entanto é gentil e sábio…(Tolkien, 522).

Esta mesma atitude mentirosa é denunciada na discussão travada entre Língua de Cobra e Gandalf, quando fica claro que o primeiro estava a serviço de Saruman.

–       Ele é bravo e astuto. Agora mesmo está fazendo um jogo com o perigo e ganhou uma jogada….Veja Théoden, aqui está uma cobra! Não pode levá-la consigo em segurança, nem deixá-la para trás. Matá-la seria justo. Mas essa criatura não foi sempre com é agora. Já foi um homem, e o serviu à sua maneira.[11]

Como se pode ver por estes exemplos, a chave para se entender o abismo que distingue o bem do mal em OSA não está no perigo que o mal representa, mas na falta de gosto e na falta de autenticidade e criatividade dos seus sentimentos e atitudes. Como mencionávamos alhurdes, o mal é incapaz de criar a partir do nada, só o bem é criador, portanto, todo mal prescinde de algum bem. Pelo menos é isso que Frodo sugere na sua observação em relação àqueles escravos horripilantes de Saruman, chamados orcs, e que lhe causam tanto asco e pena. Da mesma forma que as imagens do mal em Tolkien, Lewis também cria diversas imagens do mal em suas Crônicas de Nárnia. Na perspectiva de King, por exemplo, da mesma forma como Tolkien, Lewis também dá conta de concretizar o mal na própria geografia do seu mundo, que nos imprime um sentimento de vazio e de completa falta de sentimento humano:

As paisagens congeladas e córregos silenciosos que vão surgindo pelo caminho são símbolos apropriados do efeito que a raiva pode ter; isso nos lembra uma frieza nos relacionamentos e na vida que penetra profundamente, congelando às raízes o a interação necessária da vontade entre os homens. Toda a mesquinharia do ódio, a demanda que todo o outro deve concordar e consentir em respeitar o modo de ser de cada um são a um tempo cômicos e trágicos; cômico, no sentido de que todos aqueles que observam de fora podem facilmente observar a postura ridícula que a pessoa irritada assume; e trágico que aqueles mesmos povos podem fazer muito pouco para amenizar os sentimentos passionais e violentos que este pecado evoca.C. S. Lewis quis mostrar precisamente isto em suas Crônicas de Narnia. Ele fez exame dos sete pecados capitais em Narnia, mostrando seu poder destruidor, e nos apresenta exemplos de comportamentos que devemos evitar. Embora cada livro destaque um pecado particular e ilustre seu efeito específico nos personagens, a mensagem em cada caso é a mesma: o ardil do pecado leva à morte. (King, publicação eletrônica).

Embora considerássemos a interpretação que o autor dá às Crônicas de Nárnia um tanto reducionistas, acreditamos que este aspecto vem por conta de uma moral que transcende tudo isso e está representada pela morte de Aslan, derrota da feiticeira e cura dos feridos em LFG e que, como em OSA , é de esperança.

Pelo fato de ter personificado o mal em mulheres, alguns críticos acusam Lewis de machismo. Contudo é preciso considerar que a bruxa ser mulher não é surpreendente para um conto de fadas. Além disso, em A Última Batalha, Lewis usa outro tipo de imagem bastante masculina do mal. Sem falar que Lúcia é também uma das suas personagens prediletas, e a mais virtuosa de todas.

Na verdade Lewis está querendo aludir ao clássico dilema de que o mal, freqüentemente se veste de bem para seduzir o homem pela via da emoção e do senso estético. Como Julián Marías tão bem o formula, a mulher até parece que foi criada para ser admirada e para provocar emoção e encantamento. Ela provoca mirandum, ou seja, aquele desejo mais profundo do homem, de se ver completado e liberto da solidão. Entretanto, quando ela esquece de si mesma, e de que foi criada para compartilhar e não, para girar em torno de si mesma, a mulher pode vir a se tornar uma criatura monstruosa:

Há também um momento delicadíssimo, muito perigoso, em que a mulher não quer ser desejável. Pode parecer estranho, mas se analisarmos com um pouco de atenção veremos que não é tão raro… Então, evidentemente, cessa esta atenção de que eu falava antes, este campo magnético da convivência, que é justamente a raiz fundamental mais constante, mais permanente e mais abrangente do lirismo e se produz uma atitude, de certo modo, de prosaismo. (MARIAS, publicação eletrônica).

A questão da relação entre o belo e o bem é outro problema clássico da filosofia, e que foi corajosamente abordado por Spoviero. De acordo com este autor, embora o belo sempre apelasse mais para o sentimento, do que para a razão e por mais que, portanto, o belo se distinguisse do bem, em circunstâncias normais, estes dois aspectos acabam convergindo no plano transcendental:

Ora, o belo distingue-se do bem e do verdadeiro por referir-se fundamentalmente ao sentimento, enquanto o bem aponta para a vontade e o verdadeiro para o intelecto. Na tradição filosófica ocidental confere-se espiritualidade (isto é, abertura para a totalidade do real) às potências da inteligência e da vontade. E o sentimento? Terá ele também um valor tão universal? Acaso será a beleza tão somente subjetiva?…. Em S. Tomás, (I,5,4 ad 1), reequilibra-se o equacionamento do tema: o belo refere-se à faculdade cognoscitiva; o bem, ao apetite. Em certo sentido, o belo é um tipo especial de bem ao mesmo tempo que é um tipo especial de conhecimento. É resplendor da verdade que convoca também o amor da vontade; é resplendor do bem que se impõe como verdade ao intelecto… O falso, o mal, o feio convergem, mas como estão inviscerados no verdadeiro, no bem e no belo, necessitam e alimentam-se destes e procuram fazer-se passar por estes: é o cerne da sedução: o vício e o feio artístico belamente representados. Assim a morte mostra-se bela e o homem ama a morte. (Spoviero).

Semelhantemente também na narrativa literária e particularmente na ficção, esta relação entre ética e estética fica muito clara. Como Ricoeur mesmo o expressa, a ficção não põe em jogo a ética em nome da estética

Seria equivocar-se quanto à própria estética. O prazer que temos em seguir o destino dos personagens implica certamente que nós suspendamos todo o julgamento moral real, ao mesmo tempo que pomos em suspenso a ação efetiva. Mas, no recinto irreal da ficção, não deixamos de explorar novas maneiras de avaliar ações e personagens. As experiências de pensamento que conduzimos no grande laboratório do imaginário são também explorações levadas ao reino do bem e do mal. Supervalorizar, e mesmo desvalorizar, é ainda avaliar. O julgamento moral não é abolido, ele é, antes, ele mesmo submetido às variações imaginativas próprias da ficção. (Ricoeur, 1991, 194).

Assim, ao contrário do que querem os subjetivistas, o que o bem e o belo têm em comum é esta coincidência com a realidade, quando tudo anda bem, o que não quer dizer que ocasionalmente o mal não possa se trasvestir de belo. Daí que tanto Lewis, quanto Tolkien procurassem sempre desmascarar esta falsa beleza, concretizando ao máximo a realidade, e evidenciando o aspecto sedutor do mal, tão bem representado pela figura da Feiticeira Branca. Como se diz na sabedoria popular, quando se é exposto à sedução, é preciso manter a “cabeça fria”, ou “cair na real”.

Exemplar neste sentido é a atitude do ser pantanoso de A Cadeira de Prata, das Crônicas de Nárnia, quando ele se vê diante da feiticeira e o seu discurso de que na realidade não há mundo algum fora da caverna, mas somente ilusões. Assim ele coloca literalmente a sua mão no fogo para não cair nas palavras enganosas dela. Portanto, para não se deixar seduzir é preciso manter uma visão objetiva com relação ao mal, em toda a sua feiúra e violência, que fica tão evidente em OSA . Mas é principalmente na ação que a debilidade do mal mais se manifesta, plano ao qual estaremos nos dedicando a seguir.

4. A maldade em ação

Como já foi mencionado anteriormente, sempre que o mal entra em ação em OSA , ele se manifesta de modo violento e esteticamente feio. Ele é sempre destrutivo e vicioso. As estratégias adotadas por Sauron, por exemplo, para apossar-se do anel são sempre intrincadas e forjadas. E no final há sempre uma inversão inesperada dos planos do mal, que acabam, por um “acaso” servindo ao bem.

Neste sentido é interessante observar o fato de Saruman trancar-se em uma fortaleza, fortemente vigiada, da qual ele manda arrancar toda e qualquer árvore e encher os buracos de cimento. Note-se ainda que há várias camadas de paredes internas em torno da fortificação. Com isso Tolkien evoca aquele conceito clássico, presente tanto em Dante (Divina Comédia), quanto em Milton (Paradise Lost), de que o mal, é, em última análise algo que prende o homem e o escraviza por dentro. Isto é, o mal imobiliza o homem, impedindo-o de cumprir o seu papel e partir para ações éticas.

Seria interessante, neste sentido, traçar um paralelo entre OSA e o Cartas de um Diabo a seu aprendiz e That Hideous Strength de C.S. Lewis. No primeiro, ficamos conhecendo a estratégia do diabo, vista pela perspectiva enganosa do mal. Trata-se de uma inversão total dos comportamentos que poderíamos considerar “lógicos e razoáveis” ou sadios. Em Cartas de um Diabo a seu aprendiz, o diabo trata a Deus como o “Inimigo”, enquanto o homem é o “paciente” que importa aos demônios conduzir ao mau caminho, garantindo a sua danação. Para isso ele usa das estratégias mais nefastas, como por exemplo, a de desviar a atenção do paciente das coisas mais importantes na vida, fazendo-o ocupar-se e preocupar-se com futilidades. A estratégia diabólica envolve ainda toda uma inteligência maligna que garante o fluxo constante e ininterrupto de informações para o “campo de batalha”. Também os relacionamentos são um campo fortemente vigiado e controlado. E, da mesma forma como em Tolkien, o mal acaba sendo vencido quase que “por acaso”, caindo freqüentemente no ridículo:

Screwtape também entra em contato com outros demônios encarregados de tentar os amigos, conhecidos e parentes do seu paciente. Wormwood vê particularmente grandes possibilidades na pessoa da mãe do jovem, que é muito difícil de lidar. Entretanto o jovem consegue evitar a pressão do círculo mais próximo de amizades com sucesso (…) O único consolo que resta a Screwtape encontra-se em devorar o seu sobrinho incompetente. (Duriez, 1990, 182)

Já no prefácio de That Hideous Strength, o volume final de sua triologia espacial (Space Triology), Lewis mesmo admite que a queda daquele mundo foi inspirada na queda do mundo de Tolkien. O mal é representado por uma associação de cientistas e tecnocratas totalitários que querem dominar o mundo. Depois de derrotado por uma “invasão” do reino dos céus na Terra, ela é restaurada. Com isso Lewis defende a mesma idéia de Tolkien de que o bem transcende o mal e de que o bem sobrenatural é capaz de interferir no cotidiano mais “trivial” e humano do mundo. Da mesma forma como Tolkien, Lewis também defende a existência objetiva do bem e do mal (defendida também em outras obras do autor, tais como The Abolition of Men), e que o mal é sempre destruidor da natureza criada e principalmente, de que ele é auto-destrutivo. Outro ponto comum já mencionado anteriormente é a participação de seres humanos na história da redenção do mundo.

Poderíamos citar inúmeras más ações em OSA e seus contrapontos bons. Mas tememos com isso pôr a perder todo gosto da bem articulada trama, que é toda de ação. Além do que imaginamos que ter alcançado suficientemente os nossos objetivos para podermos traçar as nossas considerações finais.

Conclusão

O que se pode concluir após essa análise de O Senhor dos Anéis, a partir dos três planos de Ricoeur, é que o mal tem diferentes formas de manifestação no mundo: por meio dos sentimentos, dos pensamentos e da ação. Essa divisão “didática”, que une os dois autores, ajuda-nos a entender a real e aparente contradição entre o mal, seja na forma de intenções, emoções ou violência, e a existência de Deus e, portanto, de uma bondade que transcende tudo isso.

Tolkien provavelmente concordava com a concepção de Lewis em O Problema do Sofrimento, de que o mal é uma conseqüência da queda, mas é, ao mesmo tempo, um “lembrete” de Deus, um verdadeiro “megafone” que nos lembra de sermos menos presunçosos e intelectualmente independentes e nos abrirmos mais ao transcendente e numinoso. Lewis costumava dizer que Deus sussurra por meio dos nossos prazeres, fala pelo nosso intelecto e grita, por meio do sofrimento, como destaca Duriez:

ele dizia que não tinha nada a oferecer a seu leitor, a não ser a sua convicção de que sempre que temos que carregar alguma dor, um pouco de coragem ajuda mais, do que muita coragem, e a menor pincelada do amor de Deus, mais do que tudo… Pois em um livro tão pouco volumoso Lewis foi longe e fundo na discussão sobre o controle que Deus tem sobre todo e qualquer evento humano, inclusive o sofrimento, a bondade de Deus, a debilidade humana, a queda da humanidade, a do homem, o inferno, o sofrimento dos animais, e o céu (Duriez, 167).

Em outras palavras, a concepção de mal em O Senhor dos Anéis, parte de uma visão de mundo bastante semelhante à de Ricoeur e que convida à transcendência. Sua concepção de sub-criador (imago Dei), transcende a concepção de natureza e por isso também a nossa capacidade intelectiva. Não é por acaso que a Bíblia insiste tanto na prática do bem, muito antes do que na especulação sobre ela. E o dilema gerado pelo mal e pelo sofrimento, visto por essa perspectiva supranaturalista, apesar de ser em última instância incompreensível, pode muito bem ser apreendido através da narrativa imaginativa.

Esperamos ter contribuído, a partir dessas reflexões, para o reconhecimento do quanto a literatura, particularmente a hermenêutica, têm a oferecer para o levantamento e esclarecimento dos maiores impasses que afligem toda a humanidade e, não por acaso também são grandes questões da filosofia e da teologia, através da imaginação. É essa descoberta que parece unir dois pensadores aparentemente tão distantes, quanto Tolkien e Ricouer e tantos outros autores aparentemente pouco relacionados como esses.

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* [1] Docente do curso de graduação em filosofia, do programa de mestrado em teologia e de ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutora em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo e autora do livro Antropologia Filosófica de C.S. Lewis, São Paulo: Editora Mackenzie, 2001.

[2] A análise aqui pretendida limita-se ao livro e não pretende explorar as cenas do filme. Para maiores informações a respeito do filme e do autor, recomendamos consulta ao site da fundação dedicada ao autor  disponível http://www.tolkiensociety.org/.

[3] Para maiores informações sobre o autor, veja tributo do  Dr. Russel Shedd em http://www.ibam.com.br/Cultura/CSLewis/cslewis.htm e lista de sites internacionais dedicados ao autor.

[4]Dedicamos nossa tese de doutorado a essa, que foi a primeira das sete Crônicas de Nárnia do autor (Martins Fontes), que foi publicada como Antropologia Filosófica de C.S. Lewis (editora Mackenzie), e que está atualmente sendo filmado para os cinemas pelo editor de Shrek e será distribuído pela Disney a partir de 2005. Quanto ao relacionamento entre as duas obras e autores, publicamos outro livro recentemente, intitulado: O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética (Editora Ultimato).

[5]Ver quanto ao assunto artigo muito importante de Julián Marías, um dos maiores filósofos cristãos da atualidade em “Liberdade e Responsabilidade”, disponível em  http://www.hottopos.com/harvard2/liberdade_e_responsabilidade.htm, atualizado em 22/04/1998.

[6]Cf.. Bíblia Sagrada, Evangelho de Mateis 16:25.

[7] A palavra “ Inklings” com a qual o grupo foi batizado quer dizer “borrão” de tinta ou “noção vaga”, no seintido de “insight”.

[8] Os autores ditos “sintéticos”como Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino entre outros, destacam-se da sua época por essa característica de estar sempre em busca do meio termo entre extremos, daí serem chamados de “paradoxais”, por representarem um “não” para o seu tempo, tanto para um, quanto para outro extremo.

[9] Lamentamos a tradução mal feita de Fellowship of the Ring ou Company of the Ring para Sociedade do Anel, expressão por demais frio e distante, que seria melhor traduzida como “Confraria” do Anel.

[10] Duriez, 206-207.

[11] Idem, 544.

  1. A contribuição de valôres tão elevados nos afetam na mesma proporção e profundidade para que nos envolvamos com as reflexões sobre os elementos que constituem a experiência de viver e a relação com o próprio ser, seu existir e sua eternidade e a ETERNIDADE. Deus te abençoe!

  2. Muito bom, gostei de passar neste site… apenas acho estranho que posicionem C. S. Lewis tão próximo à igreja reformada, não creio que seja possível não ter conhecimento de o quanto apreço Lewis, após sua conversão, tinha pelas escrituras e pela tradição da Igreja Cristã, que se não era a mantida pela Igreja Católica era ainda mantida pela Igreja Anglicana.

    • Oi Wilson,

      Interessante o seu comentário. Na minha leitura, principalmente de Cristianismo Puro e Simples, mas da obra de Lewis como um todo, ele não hasteava a bandeira de nenhuma “denominação”, buscando as bases comuns da fé, comuns também a católicos e protestantes. O fato de ele ter se filiado à igreja anglicana não quer dizer muita coisa, apenas que foi a que mais lhe dava a liberdade de pensar a igreja como Corpo de Cristo, que deve ser, acima de tudo, unida pelos laços de amor que nos unem a Cristo.

      Assim, associar Lewis à igreja reformada só faz sentido, se pensarmos na proposta original dos reformadores, inclusive de Lutero e de Calvino, não de constituir algo novo, melhor ou pior do que a igreja católica da época e, sim, corrigir ou reparar os erros da igreja do passado, sem incorrer em maiores erros. Essa é para mim a idéia por traz da “reforma sempre reformanda”, já que os erros são humanos e sempre que acontecem ao longo da história, devem ser corrigidos.

      Fique com Deus e grande abraço!

      • Boa colocação, a leitura dos livros de C. S. Lewis sempre me levam a renovar conceitos e aprimorá-los, não procurava criar divisão, mas preservar a lisura dos pensamentos dos livros de Lewis.
        Tenho-o entre os escritores ingleses do século passado que mais vivamente nos mostram a beleza do cristianismo, igual a um copo de água fresca em uma boca ressequida.
        Diria que Lewis, Chesterton, Tolkien e Belloc, me são caros, e apenas sinto que tão poucas pessoas tenham nestas leituras o mesmo prazer que sinto.
        Precisamos de “muitas” Gabriele Greggersen, parabens!

  3. Olha no senhor dos aneis eu li o livro e nao vi nda de mal pq quem vence afinal e o mal ou o bem e claro q e o bem ate tolkien deu inspiracao a lewis se nao fosse por isso nao istiria narnia e no senhor dos aneis o autor quer dizer q todos devemos ser bons igual a jesus nao se achar q e ele nao mas ter bondade no coracao todos os personagems de tolkien tem um defeito mas todos tem bondade na biblia fla assim amar como jesus amou nao precisa ser perfeito ate mesmo frodo passou por sofrimentos para destruir o anel sem usar poder nada ele foi na humildade acompanhado por seu amigo q lhe deu forca para seguir em frente

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