Nesse 5 de junho de 2017 comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. Precisamos levantar a nossa voz e a bandeira do cristianismo que coloca o ser humano como o “cuidador do jardim”, como aquele designado por Deus para ser o mordomo da criação. O mandato cultural nos ensina:

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra“. Gn 1.26-28

Depois de criar o homem à sua imagem e semelhança, Deus entregou nas mãos do ser humano tudo o que havia criado para que cuidasse. Com esse ato demonstrou que o destino e o bem-estar da criação estão entrelaçados com o destino humano. Subjugar aqui jamais teve o sentido de usufruir irresponsavelmente do que Deus criou. Conforme nos ensina Timóteo Carriker, “Gênesis 1.28 esclarece o que significa a função dada ao homem de “dominar” a criação. A imagem de Deus no homem abrange três áreas de responsabilidade e administração: sua experiência social e familiar (“multiplicar”, “encher”, “dar nome”), sua experiência econômica e ecológica (“sujeitar”, “cultivar”, “guardar”), e o governo ou a área política (“dominar”, “dar nome”)”.

Mas, infelizmente temos destruído desmedidamente o nosso próprio lar, ao invés de cuidar dele. Segundo a revista Scientific American Brasil, vivemos num momento histórico que se parece uma encruzilhada: dependendo de nossas ações até 2025, poderemos criar um mundo ideal para se viver, do ponto de vista ambiental, ou assistir ao planeta entrar em colapso, com a falência do ecossistema. Moro em Brasília, e já estamos sofrendo com os primeiros sintomas da falta d’água, o que tem trazido transtornos para a nossa cidade.

Precisamos mudar nossa postura diante da criação. Isso implica desde pequenas ações como jogar o lixo no lixo de maneira inteligente – separando o que pode ser reciclado, do que poder servir como adubo, ou até descartado – até ações como evitar o excessivo consumismo de produtos industrializados, o desperdício de água, o desperdício de energia elétrica, considerarmos sobre uma mudança nos nossos hábitos de deslocamentos utilizando mais o transporte coletivo, caminhadas ou uso de bicicletas, entre outras ações bem práticas. Abrange também nossas ações políticas e cidadãs na sociedade, cobrando dos poderes constituídos posturas coerentes nos projetos públicos, considerando as questões socio-ambientais, entre outras ações.

Que nesse dia possamos orar por isso. Pedir a Deus que nos ajude a ter uma consciência clara sobre esses assuntos. Que Ele nos ajude a ler a Bíblia percebendo o Seu interesse também nessas questões que envolvem o cuidado com a Criação. Os desafios são, sem dúvida, enormes. Mas uma longa jornada sempre começa com um passo, não é mesmo? Então vamos lá…

Para te animar, aí vão dois vídeos com canções sobre a temática do Meio Ambiente.

 

 

 

Está no ar mais um programa Novos Acordes, a versão em áudio da coluna Novos Acordes da revista Ultimato, edição 365 de maio e junho de 2017. Nessa edição são apresentados os CDs “Tudo Novo” de Nando Padoan, “Moda de Louvar”, de Vavá Rodrigues e Ivan Teixeira e “Sinais” da banda Gólgotha.

Clique abaixo e conheça o som desses grandes artistas.

 

Depois de dois anos hibernando, o Som do Céu voltou em 2017 com novidades. Realizado nos dias 13 a 16 de abril, retornou numa roupagem diferente voltada para o público jovem e adolescente. Isso sem desconsiderar seus fiéis seguidores de anos, os quarentões e cinquentões, sempre presentes.

O Rebanhão apresentou seus antigos sucessos

A grande mudança nesta edição foi a descentralização dos shows, que antes aconteciam somente na tenda do circo ou na capela do Acampamento da MPC, em São Sebastião das Águas Claras (Macacos). Para este ano, as reuniões matutinas, que incluíam os cafés da manhã com estudos bíblicos, workshops e almoços musicais, continuaram no acampamento. Os shows foram todos transferidos para o Teatro Izabela Hendrix, nas proximidades da Praça da Liberdade, em BH. Começavam às 15h se estendendo até as 22h. Se por um lado trouxe algumas inconveniências logísticas para os que estavam hospedados no acampamento, por outro apresentou vantagens: a melhoria na qualidade do som por conta do ambiente, o conforto dos assentos, além atrair o público da cidade que pôde escolher assistir somente os artistas preferidos.

O Som do Céu começou na quinta-feira, 13, com o show do grupo Rebanhão, relembrando seus 35 anos de caminhada. Estavam no palco o trio Carlinhos Félix, Paulinho Marotta e Pedro Braconnot, que ao lado de Janires Manso e Kandell Rocha, no início da década de 1980, encabeçaram uma revolução na musica cristã jovem. No repertório músicas consagradas como Princípio, Muro de Pedra, Selo do Perdão, Hoje sou feliz, Primeiro amor, Baião, entre outras. O teatro estava lotado, especialmente de saudosistas deste grupo que pisou inúmeras vezes o palco do Som do Céu nos anos 80 e 90.

Scardini e Caldeira pela primeira vez no Som do Céu

Na sexta, 14, pela manhã aconteceu no acampamento o lançamento do livro “O Café da Transfiguração”, de Marcelo Gualberto e a apresentação musical do grupo Terno e Saia. Daniel Caldeira & Guilherme Scardini abriram os shows da tarde no teatro, apresentando canções autorais e contando com a vibração do público presente. Na sequência o Trio Tuyo apresentou seu trabalho, que foi descrito por eles como um show minimalista. As vozes das irmãs Lilian e Layane acompanhadas pelo violão tecnológico de Jean arrancaram aplausos de todos. A noite contou com o violão e a voz harmoniosos de Gerson Borges, sempre muito preciso e talentoso, e o carisma de Lorena Chaves acompanhada de uma super banda.

A manhã de sábado, 15, foi de estudos, workshops e o almoço musical com o Trio Tuyo, Daniel e Guilherme. A tarde foi iniciada pelo Terno e Saia, um grupo do interior do Paraná, que lançou o CD “Volume Dois”, num show bonito e diversificado. No palco os seis músicos se revezavam em mais de uma dezena de instrumentos acústicos e eletrônicos espalhados. A última música apresentada, “Calmo, sereno e tranquilo”, teve a participação de João Alexandre que fez o show na sequência. João foi um dos representantes dos “jurássicos” do Som do Céu deste ano, ao lado do Rebanhão. Representou a história desses mais de 30 anos do evento. Acompanhado de seu inseparável violão, desfilou canções antigas, algumas MPBs, recheando o repertório com causos e dicas aos músicos. Sua esposa Tirza participou em algumas músicas.

O show envolvente de Gerson Borges

A noite de sábado talvez tenha reunido o maior público do evento. Erlon Lemos subiu ao palco para um show autêntico de rock e blues, acompanhado de um trio da pesada. Além de cantar canções autorais, relembrou clássicos da música cristã, homenageando Nelson Bomilcar. A noite foi encerrada com Marcos Almeida e o show “Sarau”, nome de seu último CD. Acompanhado apenas do violão, alguns pedais de efeitos e um bumbo de bateria, Marcos envolveu o público presente que cantou animadamente as canções.

O Som do Céu foi encerrado na manhã da Páscoa no acampamento com a apresentação do Terno e Saia e a santa ceia conduzida pelo pastor Marcelo Gualberto, idealizador e diretor do evento.

Os presentes saíram dali na expectativa de que o Som ganhe fôlego e prossiga firme. Um evento que caminha há mais de 30 anos não pode parar. Ele não apenas ajudou a escrever as linhas das artes cristãs no Brasil, lançando nomes e fomentando a criatividade de tantos no passado. Ele tem ainda muito a contribuir para o reino de Deus, como seu instrumento na construção de um novo futuro de justiça e paz, por meio das suas armas: o Evangelho e as artes. Que Deus continue dando longevidade ao Som do Céu!

Estamos nos aproximando da semana santa. É interessante perceber que no nosso calendário, entre a sexta-feira da Paixão e o domingo de Páscoa, existe um dia sem nome. Sábado sem predicados. Phillip Yancey foi quem me chamou a atenção para a existência desse dia que todos evitam comentar. Decidi ver isso mais detalhadamente.

Corri para a Bíblia. Pensei: lá devo encontrar algo sobre o sábado sem-nome. Abri em Mateus. Não havia praticamente nada, a não ser que os principais sacerdotes e os fariseus procuraram Pilatos pedindo segurança para o sepulcro. Criam que os discípulos poderiam roubar o corpo espalhando a notícia que Jesus havia ressuscitado. “Ide e guardai o sepulcro como bem vos parecer” (Mt 27.65).

Rapidamente passei as últimas páginas de Marcos. No capítulo15, verso 47, encontrei Maria Madalena e Maria, mãe de José, ainda na sexta-feira, com os olhos parados sob o túmulo. O verso subsequente, 16.1, dizia assim: “Passado o sábado…”. Marcos também se cala. O sábado já era passado.

Lucas… Lucas… Lá certamente vou achar algo, porque Lucas é mais detalhista. Abri no capítulo 23, versos 54 a 56 e li: “Era o dia da preparação e começava o sábado. As mulheres que tinham vindo na Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E no sábado, descansaram, segundo o mandamento”. Não havia praticamente nenhuma informação, a não ser que fizeram o que se fazia no dia do descanso, segundo a religião judaica.

Só me restava verificar João. Vigorosamente fui ao encontro dele. Havia ali apenas o relato que o sepultamento de Jesus teve que ser rápido e às pressas por causa da “preparação dos judeus” (19.42). O sol estava para se pôr e, então, começaria o sábado judaico, no qual nenhum serviço poderia ser feito. Depois de dizer isto, João se cala e abre o próximo versículo falando do primeiro dia da semana, o domingo.

O sábado é silencioso. Nele paira o fracasso, o sentimento de incapacidade, predomina a dor e a saudade, o vazio existencial, o vácuo na alma. Nele, Deus se cala. No sábado, a graça está trancafiada num túmulo, morta sobre uma pedra fria. Quem vive é a lei, manifestando seu poder através do cumprimento ritualístico do descanso sabático.

Quem escreveu sobre o sábado foram os humanistas que anunciaram a si mesmos como “super-homens”. Proclamaram: “Deus está morto! Continua morto! E fomos nós que o matamos…” A morte de Deus foi entendida por eles como a exaltação do homem acima de si mesmo. Entendiam que no sábado, o homem enterrou a Deus e tomou as rédeas da história em suas mãos. É no sábado que os inimigos de Deus se levantam e festejam a suposta vitória.

De certa maneira vivemos o dia sem nome. Embora saibamos, cremos e pregamos que Cristo morreu e ressuscitou, vivemos um tempo entre “o já e o ainda não”. O reino de Deus já chegou entre nós, mas ainda não na sua plenitude. Segundo Yancey, “a história humana prossegue entre o período da promessa e do cumprimento”. Por isso ainda sofremos com os sons dos tiros nas favelas, com os assaltos relâmpago nas ruas das grandes cidades, com a fome que cresce e assola os mais pobres, com a exploração sexual de menores, com a violência das guerras que ceifam vidas inocentes, com o desemprego, com a miséria que desfigura e desmoraliza, com os refugiados que em sua triste fuga não encontram braços que os acolham.

Mas, há uma promessa e nela devemos nos apegar. O cristianismo é a religião da esperança porque o túmulo no domingo se encontrava vazio. Jamais poderemos nos esquecer de que o sábado está findando e o domingo está às portas. O reino de Deus já presente e com seus sinais, virá com toda a sua força, vigor e beleza. Por isso não podemos nos deixar abater. Ao contrário. Devemos viver e proclamar a Esperança de que Jesus vive, reina e voltará.

O programa Novos Acordes apresenta nessa edição os CDs divulgados na revista Ultimato de Março e Abril de 2017.

Dessa vez apresentamos os CDs “Poeta é Deus” de Silvestre Kuhlmann, “Compromisso” de Cláudio Ferre, e “Recomeço” de Di Stéfanno.

Esse programa visa ilustrar os releases apresentados na revista impressa. É uma forma de dar som e cor ao texto.

Em breve lançaremos novos programas.

 

 

“Ué… para onde foram eles?!?!” – perguntou o burrico azul com olhar triste e orelha murcha.

“Você não ouviu as conversas desses últimos dias? Estão viajando. Só ficou o pai, aquele mais velho, grisalho e barrigudo” – respondeu a princesa de cabelos cor-de-rosa e coroa dourada, a mais perspicaz das bonecas esquecidas. “Ontem aquela mulher engraçada dos cabelos enrolados estava à noite, aqui na sala, passando roupas enquanto assistia televisão. Vi hoje bem cedo uns movimentos de malas. Acho que foram para a tal Belo Horizonte, segundo ouvi a filha dizendo para as amigas pelo celular. Ela foi ontem, um dia antes. Hoje foram a mãe e o filho mais novo, o alto e magro, o que só assiste esportes. O pai ficou sozinho”.

“Mas não é deles que estou falando não. Esses sempre estão aqui” – retrucou nervosamente o burrico, confirmando as suspeitas dos sinais de bipolaridade. “Eu falo é daquela menininha que brincava com a gente todos os dias. Aquela fofurinha, gordinha, lindinha… Como sinto falta dela…” – fungou com tristeza o quadrúpede de pelúcia.

“Maria… Maria… Esse é o nome dela”.

O intrometido na conversa, que parecida íntimo da família, não era ninguém menos que o pequenino boneco de construtor da Lego. Ele se achava muito importante por ser um trabalhador na construção civil. Com barba por fazer, capacete branco, roupas zebradas de amarelo e preto, parecendo uma fita que delimita zonas de perigo, ficava o tempo todo dando ordens. Embora fosse o menor de todos, achava-se o máximo. Os compridos cangaceiros de madeira que ficavam ao lado da televisão já haviam dado o diagnóstico: aquela dureza toda era uma forma de compensação pela baixa estatura. No entanto, a graciosa Maria havia conquistado o coração do durão com suas longas e intermináveis mordidas e babadas. As quinas duras do construtor era um prato cheio para aliviar as coceiras dos dentes por nascer da menina. Ele havia se tornado um dos brinquedos preferidos nos últimos dias.

“Ela foi embora com seus pais de volta para a Inglaterra. Parece que é um lugar muito longe… Mais longe do que o lugar de onde o burrico veio” – disse o Lego para irritar o boneco que se gabava de ter vindo da Disney.

“Pois é… ela e seus pais estão fazendo uma falta, né não? Desde que chegaram a casa ficou cheia de alegria, movimentada. Vocês viram o tanto de outros brinquedos que apareceram? Cada dia chegavam novos amigos: a girafinha metida a besta, o gatinho gorducho, a Mônica que ficava dando uns olhares estranhos pra gente, um montão de mordedores. Veio brinquedo até do Camboja! E aquele tapete macio e colorido?!? Como tenho saudades dele… Depois que eles foram embora dobraram o pobre do tapete, colocaram na sacola e o deixaram ali no canto, encostado, tristonho”.

O burrico não se conformava com a situação.

“Realmente eles fazem uma falta…” – disse uma voz num tom bastante meloso, típica de uma menina mimada.

Todos riram nessa hora. Era a princesa se manifestando. Ela havia ficado algumas vezes muito contrariada com a menininha Maria. Achava que ia chegar chegando, arrasando, porque era de um tecido não alérgico, toda maciazinha, com pernas e braços longos e bons de apertar. Além do mais era cor-de-rosa. Nenhuma menina, por mais novinha que fosse, resistiria a uma boneca cor-de-rosa. Ainda mais sendo uma princesa, com coroa de ouro, colar de pérolas, pingente em coração dourado e sapatilhas de bailarina.

Pois bem. No dia que a princesa chegou, embalada como um belo presente, a menina simplesmente ignorou a boneca e ficou vidrada na etiqueta que veio presa a ela. Aquele pedaço de papel com os dizeres “Quero ser a melhor amiguinha da…” virou a sensação da pequenina. O papel traz até hoje as marcas das mordidas dos seus dois únicos dentinhos. A princesa ficou indignada com aquele desprezo. Desde então fechou os olhos, empinou o nariz e fingia não dar bola para a situação.

Mas um dia alguém pegou a princesa e a fez dançar diante da menina, aproveitando os longos braços e pernas, num movimento de bailarina que encantou a garota. Ela então soltou um grito e engatinhou às pressas para pegar a boneca. A princesa naquela hora se derreteu todinha. Era tudo o que ela queria. Ser amiga da Maria. Orgulhosa como é, continuou com os olhos fechados mas, sem conseguir dominar seus sentimentos, abriu um sorriso de felicidade. A princesa virou outra desde aquele dia.

Mas e agora?!?! A menina já não estava mais ali e levou consigo praticamente todos os brinquedos. Só deixou o burrico azul, o Lego, o ratinho amarelo e… para o espanto de todos… a princesa cor-de-rosa. Ela não teria conquistado o coração da menina?

Por conta disso não parava de chorar. Na verdade, ela não era a única. Praticamente todos os demais bonecos, o tapete macio e colorido, os sofás, a televisão, a mesa, o berço desmontável e os bisavós, os avós, os tios, os amigos, todos choravam a ausência da menina Maria e dos seus pais. Foram uns poucos dias, mas eles haviam enchido a casa de uma alegria que há muito não se via por ali. Durante aquele mês aquele ambiente parecia ter recebido uma romaria, um entra e sai de amigos e parentes que vinham vê-los, abraçá-los e tomar a menina nos braços, nem que fosse por uns poucos minutos. Era uma festança interminável!

“Eu não imaginava o quanto eles são queridos! Really!!!” – disse o ratinho que chegava das baixas temperaturas, não da Europa, mas da cozinha. Ele viera com os “ingleses” de Cambridge em dezembro. Ficava o tempo todo na sala, junto aos outros bonecos. Mas, por um inexplicável acidente, acabou sendo esquecido na geladeira da cozinha. Isso mesmo… na geladeira. No outro dia cedo quando alguém foi à procura de um copo de suco, deu de cara com o amarelinho de orelhas cor-de-rosa e pés azuis assentado no gradil do refrigerador. Ele estava curtindo bastante a temperatura mais baixa, parecida com o inverno europeu, bem diferente do insuportável verão brasiliense. Mas jamais imaginaria que seria deixado para trás.

(Um detalhe: apesar de se gabar e posar de intelectual, morador de Cambridge, o rato havia sido fabricado na China, muito embora nunca admitisse isso. Mas bastava um olhar minucioso e logo toda farsa caía por terra: de maneira quase imperceptível podia-se ler embaixo de sua base “made in China”.)

“Ué… por que você está dizendo isso, ratinho inglês? Eles não tem amigos na Inglaterra? – perguntou surpreso o burrico.

Yes! Claro que têm. Eles sempre se encontram para um friendly relationship. Já receberam em casa friends japoneses que falam português, um africano, portugueses, english friends, obviamente… e muitos outros. Isso além desse pessoal que mora aqui. Eles estiveram por lá também. A funny grandma with curly hair já foi duas vezes. Os outros grandparents da Maria e outros tios e priminhas apareceram por lá também. Mas de longe a casa de lá tem o movimento que teve a casa daqui nesses dias. Era muita gente. I’m very impressed!!!”

“Pois é, mas tudo agora acabou…” – disse deprimido o burrico fungando o focinho róseo.

“Apesar de tudo o que ela me fez, sinto uma falta imensa da Maria” – cooperou em lágrimas a orgulhosa princesa.

“Alto lá… parem com isso!!!” – retrucou bravamente o Lego com olhar de quem não pede, mas ordena, como a funcionários sob sua gerência. “Eles precisavam ir. Os pais da menina têm muito trabalho pela frente. É com o trabalho que a gente cresce. O nosso apego à pessoas e lugares não pode ser um atrapalho para que cresçamos. Se aprendemos a amar a Maria e seus pais de verdade, então é importante deixá-los ir. Para que construam novas experiências e novos conhecimentos! Amor que engaiola não é amor. É prisão!”

“É verdade, amigo Lego. I agree with you! Eles precisavam ir” – guinchou o ratinho inglês, já com a voz fraquinha, dando sinais que a pilha já estava quase no fim. “Eles precisavam ir… E eu, até que fiquei feliz de ter sido esquecido por aqui”.

Todos assustaram com aquela afirmação. O ratinho não teria saudades da menina e dos pais? Não sentiria falta do país e das baixas temperaturas? E antes que alguém dissesse algo, já foi explicando:

“Esses dias aqui foram maravilhosos. Eu via os três se preparando para a viagem e ficava imaginando: como deve ser esse sentimento de viver em uma família maior? Eu percebia o amor dos três: do pai, da mãe e da menina. Vi como tudo foi acontecendo, desde o nascimento dela. No dia da viagem, pouco antes de fecharem a mala, me colocaram lá dentro, junto com outros poucos brinquedos. Fui um dos escolhidos para ver essas coisas que vi aqui. Nesses dias aqui eu entendi um pouco mais do que seja amor. Um sentimento que a distância não apaga… ao contrário, às vezes até inflama. Pude ver a maneira como os tios, que não conheciam a menina, a receberam, como se brincassem com ela todas manhãs desde o nascimento, como eu brinquei. Vi a alegria e os sorrisos da chegada e a tristeza e o choro da saída. Mas vi também que o amor é algo maior do que toda tristeza que fica. Essa passa, até o reencontro. E, pelo que vejo, será em breve. Quem sabe, quando eles forem vê-los, me levam de volta pra casa. Aí terei aprendido um pouco mais sobre o que é amar, apesar da distância. To love despite the distance”.

Todos os bonecos estavam calados com lágrimas nos olhos. A televisão também estava muda. Só o barulho dos carros e motos do eixinho não paravam. O mundo lá fora continuava correndo freneticamente. Eles não tinham tempo. A pressa e a correria os impedia de entender o que é amar.