Era janeiro… Noites como aquela a gente mal dormia. O sono era entrecortado pelos misteriosos sons no escuro silêncio. A qualquer momento meu pai poderia entrar pela porta do quarto e nos acordar como que anunciando: “as aventuras das férias vão começar”. Por isso a noite era longa e a ansiedade intensa.

Por mais longa que a noite fosse, a hora chegava. Com o toque paterno, suave e amoroso, acompanhado do sussurro – “vamos viajar?” – a gente pulava da cama sentindo o cheiro da “maria izabel”, arroz com carne seca típico da região, que ia sendo preparado pela minha mãe na cozinha. Aquele seria o almoço, em hora incerta, em lugar incerto, debaixo de uma incerta frondosa árvore na beira da estrada. E a gente andava pela casa, ainda madrugada, com certo cuidado para não tropeçar nas malas, sacolas e caixas espalhadas.

A viagem no nosso querido fusca seria longa, umas 9 horas pelo sertão de Goiás em cenários paradisíacos, cruzando vilas, fazendas, porteiras, cajueiros e pequizeiros (ora floridos, ora carregados), pontes de rios transbordantes e rebanhos de gado – sonhos tornando vivas realidades. Íamos para Crixás, uma pequena cidade no norte goiano, torrão natal de meu pai. As esguias estradas de terra que nos levavam ao destino, naquela altura, eram puro barro. Isso porque as férias de janeiro traziam consigo o tempo das águas. A mata ficava verde, o cheiro da terra molhada inebriava os aventureiros e os rios nervosos de águas barrentas metiam medo. O céu azul celeste virava azul quase negro e eu calado torcia por um solzinho, mesmo que moderado.

Apesar dos perigos a gente viajava tranquilo porque sabia que o nosso fusca era valente e venceria a estrada barrenta. Aliás, essa a principal virtude daquele carro – nada o detinha: nem os atoleiros, nem a falta de estrutura da região. Até hoje minhas contas não fecham quando lembro de tanta coisa que ia dentro dele: no porta-malas praticamente iam todas as malas, sacolas, bem como algumas compras para os familiares do interior. Nos bancos da frente iam meu pai e minha mãe e, logo atrás, os quatro filhos que brigavam durante viagem pela vez de ir no colo da mãe ou no cubículo atrás do banco dos passageiros. Eram outros tempos, onde as estradas pareciam ser menos rápidas e perigosas. Misteriosamente tudo aquilo cabia dentro no nosso fusca: as bagagens, a família e nossos sonhos. O coração batia no ritmo do motor refrigerado a ar, quase explodindo de tanta felicidade.

Os tempos passaram e a vida mudou muito. O mundo se tornou cheio de novidades, tecnologias, modernidades, mas também repleto de receios, violências, maldades e correrias. Hoje as estradas para Crixás são de asfalto e o tempo de viagem foi reduzido em bem menos da metade. Os carros se tornaram mais velozes. Os viajantes são chamados de passageiros, indicando que e a viagem se tornou mera passagem. A deliciosa panelada de “maria izabel” feita com tanto amor por minha mãe foi discriminada e substituída pelos salgados suspeitos dos bares da rodovia. Raros são os fuscas que ainda labutam pelas estradas desse interior. Contudo nada remove de minha memória aquele tempo, aquelas viagens, aquele amor, aquelas aventuras e aquela valentia do nosso fusquinha, pequenino por fora, imenso por dentro.

Enquanto relembro tudo isso, a impressão que tenho é que o tempo passa, mas as aventuras vividas com o nosso fusca não. Incontáveis histórias e estórias sobre esse veículo pulsam na memória, nos recônditos do Brasil, país esse que ele ajudou a construir com sua vocação de “carro do povo”. Aqui dedico a ele o meu carinhoso respeito e a renovada admiração.

É véspera de Natal. Neste domingo as igrejas que seguem o calendário litúrgico acenderão a quarta e última vela do Advento: a vela do acolhimento. Somos convidados a acolher a Jesus e a celebrar a solenidade de seu nascimento. A vinda de Jesus, o Verbo Encarnado, que trouxe ao mundo perdido nas trevas do pecado a luz que liberta homem de sua angustiante prisão.

A pergunta que me vem à mente é a seguinte: como acolherei o Natal? Os personagens bíblicos tiveram, cada qual, experiências distintas na noite do nascimento de Jesus. Os pastores viram o Anjo e a milícia angelical adorando a Deus em retumbante glória. Ficaram aterrorizados (Lc 2.9). Mas, depois que os seres celestiais lhes revelaram o local onde Maria e José cuidavam do recém nascido, ao verem o menino, voltaram glorificando e louvando a Deus (Lc 2.20). Glória e louvor!

Os magos do Oriente viajaram longos dias seguindo uma estrela que lhes servira como sinal de Deus. Um misto de revelação natural com revelação especial, orientação divina por meio da natureza com verdades apreendidas nas profecias bíblicas dos antigos profetas. Chegaram para visitar o Rei dos reis, como seria natural, em Jerusalém, cidade dos palácios e do poder (Mt 2.1). Mas a lógica humana estava equivocada. O menino se encontrava num estábulo da pequenina e insignificante Belém. Era para lá que a estrela apontava. Obedientes os reis do Oriente, se dirigiram à humilde gruta e ofereceram seus tesouros a Jesus, adorando-o prostrados (Mt 2.11). Reverência e adoração!

O rei Herodes, também teve sua relação com o menino Jesus. Por mais que dissesse aos magos que também queria adorá-lo, seu sentimento e desejo foi totalmente outro. Ao saber que Jesus era o Rei dos Judeus, prometido por meio das Escrituras, procurou de todas as formas tirar a vida daquela criança. Sentia-se inseguro, imaginando que um novo líder ameaçaria a sua glória e posição de realeza. Recebeu a revelação mas, diferentemente, não ofereceu adoração. Ameaça e desprezo!

Qual sentimento nos move esta data? Encontramo-nos para oferecer reverentemente adoração e louvor ao Filho de Deus – Jesus Cristo? Ou a sua glória e o seu Reino ameaçam nossos anseios, projetos e desejos? O que o Natal de Jesus realmente evoca em nós?

Que neste dia voltemos mentes e corações para considerar sobre a vida que idealizamos, nossos anseios e expectativas. Que as reflexões próprias dessa época do ano direcionem nossas vidas no novo ano que se avizinha, assim como a estrela direcionou os magos ao lugar correto – a presença de Jesus. Glória a Deus!

Um Feliz Natal!

Foi numa sexta-feira de agosto. Para ser mais exato, no dia 18 de agosto de 2017, no auditório do Seminário Servo de Cristo, Vila Mariana, em São Paulo. Anualmente, desde 2012, ensino nessa instituição sobre temas como Arte, Cultura, Missão e Bíblia. Com o passar dos anos introduzi num dos dias da semana do curso, um sarau artístico, onde artistas são convidados a interagir com os alunos.

Em 2017 inovei ao convidar a recém criada Confraria Violeira para uma apresentação. Seria um evento ímpar: um grupo violeiros cristãos apresentando canções regionais com a viola caipira nas instalações de um seminário. E de fato foi uma noite fantástica.

A meu convite, estiveram presentes os violeiros Cristiano Scuciatto, Marco Neves, Ramon Vieira, Renan Alencar, Saulo Calantone, Vavá Rodrigues e Vitor Quevedo, e alguns músicos acompanhantes. O ambiente foi decorado pela artista plástica Lisa Cláudia com elementos que remetiam ao campo, festas do interior e fazendas. O artista Anderson Monteiro, pintou um belíssimo quadro enquanto as músicas eram apresentadas.

Quadro Confraria Violeira, de autoria de Anderson Monteiro

O repertório era uma mescla de músicas autorais, clássicos da música caipira e instrumentais. Destaco aqui as novas composições que surgiram depois que a Confraria foi formada. A idéia que se tem é esses encontros tem servido como verdadeira fonte de inspiração e sinergia para novos poemas, músicas, textos, outras expressões de arte e, quem sabe, em breve novos CDs, eventos e livros.

O sarau atraiu um bom número de interessados. Esperamos que em breve outros encontros aconteçam e que o movimento seja fortalecido com a chegada de outros violeiros, pois a folia está apenas começando.

 

 

Renan Alencar, Saulo Calantone e grupo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No saguão de entrada do Servo de Cristo

Nesse 5 de junho de 2017 comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. Precisamos levantar a nossa voz e a bandeira do cristianismo que coloca o ser humano como o “cuidador do jardim”, como aquele designado por Deus para ser o mordomo da criação. O mandato cultural nos ensina:

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra“. Gn 1.26-28

Depois de criar o homem à sua imagem e semelhança, Deus entregou nas mãos do ser humano tudo o que havia criado para que cuidasse. Com esse ato demonstrou que o destino e o bem-estar da criação estão entrelaçados com o destino humano. Subjugar aqui jamais teve o sentido de usufruir irresponsavelmente do que Deus criou. Conforme nos ensina Timóteo Carriker, “Gênesis 1.28 esclarece o que significa a função dada ao homem de “dominar” a criação. A imagem de Deus no homem abrange três áreas de responsabilidade e administração: sua experiência social e familiar (“multiplicar”, “encher”, “dar nome”), sua experiência econômica e ecológica (“sujeitar”, “cultivar”, “guardar”), e o governo ou a área política (“dominar”, “dar nome”)”.

Mas, infelizmente temos destruído desmedidamente o nosso próprio lar, ao invés de cuidar dele. Segundo a revista Scientific American Brasil, vivemos num momento histórico que se parece uma encruzilhada: dependendo de nossas ações até 2025, poderemos criar um mundo ideal para se viver, do ponto de vista ambiental, ou assistir ao planeta entrar em colapso, com a falência do ecossistema. Moro em Brasília, e já estamos sofrendo com os primeiros sintomas da falta d’água, o que tem trazido transtornos para a nossa cidade.

Precisamos mudar nossa postura diante da criação. Isso implica desde pequenas ações como jogar o lixo no lixo de maneira inteligente – separando o que pode ser reciclado, do que poder servir como adubo, ou até descartado – até ações como evitar o excessivo consumismo de produtos industrializados, o desperdício de água, o desperdício de energia elétrica, considerarmos sobre uma mudança nos nossos hábitos de deslocamentos utilizando mais o transporte coletivo, caminhadas ou uso de bicicletas, entre outras ações bem práticas. Abrange também nossas ações políticas e cidadãs na sociedade, cobrando dos poderes constituídos posturas coerentes nos projetos públicos, considerando as questões socio-ambientais, entre outras ações.

Que nesse dia possamos orar por isso. Pedir a Deus que nos ajude a ter uma consciência clara sobre esses assuntos. Que Ele nos ajude a ler a Bíblia percebendo o Seu interesse também nessas questões que envolvem o cuidado com a Criação. Os desafios são, sem dúvida, enormes. Mas uma longa jornada sempre começa com um passo, não é mesmo? Então vamos lá…

Para te animar, aí vão dois vídeos com canções sobre a temática do Meio Ambiente.

 

 

 

Está no ar mais um programa Novos Acordes, a versão em áudio da coluna Novos Acordes da revista Ultimato, edição 365 de maio e junho de 2017. Nessa edição são apresentados os CDs “Tudo Novo” de Nando Padoan, “Moda de Louvar”, de Vavá Rodrigues e Ivan Teixeira e “Sinais” da banda Gólgotha.

Clique abaixo e conheça o som desses grandes artistas.

 

Depois de dois anos hibernando, o Som do Céu voltou em 2017 com novidades. Realizado nos dias 13 a 16 de abril, retornou numa roupagem diferente voltada para o público jovem e adolescente. Isso sem desconsiderar seus fiéis seguidores de anos, os quarentões e cinquentões, sempre presentes.

O Rebanhão apresentou seus antigos sucessos

A grande mudança nesta edição foi a descentralização dos shows, que antes aconteciam somente na tenda do circo ou na capela do Acampamento da MPC, em São Sebastião das Águas Claras (Macacos). Para este ano, as reuniões matutinas, que incluíam os cafés da manhã com estudos bíblicos, workshops e almoços musicais, continuaram no acampamento. Os shows foram todos transferidos para o Teatro Izabela Hendrix, nas proximidades da Praça da Liberdade, em BH. Começavam às 15h se estendendo até as 22h. Se por um lado trouxe algumas inconveniências logísticas para os que estavam hospedados no acampamento, por outro apresentou vantagens: a melhoria na qualidade do som por conta do ambiente, o conforto dos assentos, além atrair o público da cidade que pôde escolher assistir somente os artistas preferidos.

O Som do Céu começou na quinta-feira, 13, com o show do grupo Rebanhão, relembrando seus 35 anos de caminhada. Estavam no palco o trio Carlinhos Félix, Paulinho Marotta e Pedro Braconnot, que ao lado de Janires Manso e Kandell Rocha, no início da década de 1980, encabeçaram uma revolução na musica cristã jovem. No repertório músicas consagradas como Princípio, Muro de Pedra, Selo do Perdão, Hoje sou feliz, Primeiro amor, Baião, entre outras. O teatro estava lotado, especialmente de saudosistas deste grupo que pisou inúmeras vezes o palco do Som do Céu nos anos 80 e 90.

Scardini e Caldeira pela primeira vez no Som do Céu

Na sexta, 14, pela manhã aconteceu no acampamento o lançamento do livro “O Café da Transfiguração”, de Marcelo Gualberto e a apresentação musical do grupo Terno e Saia. Daniel Caldeira & Guilherme Scardini abriram os shows da tarde no teatro, apresentando canções autorais e contando com a vibração do público presente. Na sequência o Trio Tuyo apresentou seu trabalho, que foi descrito por eles como um show minimalista. As vozes das irmãs Lilian e Layane acompanhadas pelo violão tecnológico de Jean arrancaram aplausos de todos. A noite contou com o violão e a voz harmoniosos de Gerson Borges, sempre muito preciso e talentoso, e o carisma de Lorena Chaves acompanhada de uma super banda.

A manhã de sábado, 15, foi de estudos, workshops e o almoço musical com o Trio Tuyo, Daniel e Guilherme. A tarde foi iniciada pelo Terno e Saia, um grupo do interior do Paraná, que lançou o CD “Volume Dois”, num show bonito e diversificado. No palco os seis músicos se revezavam em mais de uma dezena de instrumentos acústicos e eletrônicos espalhados. A última música apresentada, “Calmo, sereno e tranquilo”, teve a participação de João Alexandre que fez o show na sequência. João foi um dos representantes dos “jurássicos” do Som do Céu deste ano, ao lado do Rebanhão. Representou a história desses mais de 30 anos do evento. Acompanhado de seu inseparável violão, desfilou canções antigas, algumas MPBs, recheando o repertório com causos e dicas aos músicos. Sua esposa Tirza participou em algumas músicas.

O show envolvente de Gerson Borges

A noite de sábado talvez tenha reunido o maior público do evento. Erlon Lemos subiu ao palco para um show autêntico de rock e blues, acompanhado de um trio da pesada. Além de cantar canções autorais, relembrou clássicos da música cristã, homenageando Nelson Bomilcar. A noite foi encerrada com Marcos Almeida e o show “Sarau”, nome de seu último CD. Acompanhado apenas do violão, alguns pedais de efeitos e um bumbo de bateria, Marcos envolveu o público presente que cantou animadamente as canções.

O Som do Céu foi encerrado na manhã da Páscoa no acampamento com a apresentação do Terno e Saia e a santa ceia conduzida pelo pastor Marcelo Gualberto, idealizador e diretor do evento.

Os presentes saíram dali na expectativa de que o Som ganhe fôlego e prossiga firme. Um evento que caminha há mais de 30 anos não pode parar. Ele não apenas ajudou a escrever as linhas das artes cristãs no Brasil, lançando nomes e fomentando a criatividade de tantos no passado. Ele tem ainda muito a contribuir para o reino de Deus, como seu instrumento na construção de um novo futuro de justiça e paz, por meio das suas armas: o Evangelho e as artes. Que Deus continue dando longevidade ao Som do Céu!