UltJovem_22_06_16_selo_meulugarnomundo-01Deus foi bom ao me mostrar aos poucos, no decorrer da minha vida cristã e acadêmica, aonde exatamente Ele queria que eu estivesse. Na primeira vez em que questionei sobre minha vocação, fui confortado pelo testemunho de um missionário experiente: “Eu apenas me dispus para ser usado por Deus”. A oração que minha mãe fez em sua mocidade também me inspirou e me ajudou a achar meu lugar no mundo: “Senhor, me usa onde, como e com quem tu quiseres”. A disposição para servir também foi o segredo de grandes profetas como Isaías e Jeremias.

Apesar de ser missionário efetivo há apenas cinco anos, já estou envolvido há uma década no trabalho para o qual o Senhor me chamou a servi-Lo: o ministério de Etnoartes. O objetivo deste ministério é levar os povos a adorarem ao Senhor com suas próprias expressões artísticas. Como eu soube que esta era a minha vocação? Através das portas que Deus abriu para mim, para fazer um mestrado em etnomusicologia, lecionar em eventos nacionais e internacionais, e participar de redes internacionais de etnoartes. Só me restava entrar por essas portas, porque eu tinha certeza que só Ele poderia dar oportunidades tão extraordinárias quanto essas.

O ministério de Etnoartes ainda é relativamente novo no Brasil. Já ouvi muitas críticas de missionários veteranos dizendo que esse tipo de trabalho não dará certo. Ninguém disse que o caminho seria fácil. Espera-se que um trabalho pioneiro enfrente dificuldades como essas. Porém, mesmo com as limitações de um trabalho recém-conhecido, o Senhor continua abrindo as portas para que ele seja realizado. Entrar em portas abertas extraordinariamente foi o que levou William Carey a servir ao Senhor na Índia e o Irmão André a propagar o evangelho em países comunistas.

A combinação desses dois elementos: disposição para servir e aproveitar as portas abertas, sem dúvida, vai te levar a encontrar seu lugar no mundo.

 

heberHéber Negrão, 33 anos. Missionário há cinco anos com um povo indígena no norte do Brasil.

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Por Héber Negrão

#ELJ2016 – Um dos objetivos do Encontro de Líderes Jovens de Lausanne é promover os encontros e as conexões em prol da missão de Deus. Michael Oh, presidente do Movimento Lausanne disse no primeiro dia do encontro que “queremos conectar, contar os feitos de uma geração à outra”.

Dentre as várias conexões que fiz durante estes dias, tive a grata surpresa de reencontrar um amigo de adolescência. O Matheus Parker morou no Pará por muitos anos, seus pais eram obreiros do Instituto Missionário Palavra da Vida onde eu sempre participava de acampamentos e eventos para jovens. Matheus e eu tínhamos uma convivência preciosa naquela época.

Quando ele completou 14 anos, seus pais deixaram o ministério no IMPV e se mudaram para o Amazonas com o objetivo de inicar a Missao SEARA que trabalha no alcance dos povos ribeirinhos que vivem às margens do Rio Abacaxis. Obviamente que Matheus os acompanhou e ficou envolvido neste trabalho até sua ida para a faculdade.

Durante aqueles anos lá ele percebeu a necessidade de uma ferramenta que pudesse alcançar os ribeirinhos nas épocas do ano em que os missionários não estavam nas comunidades. Matheus então passou a se envolver com radiodifusão durante seus estudos nos Estados Unidos, tornou-se membro da HCJB e passou a morar em Quito no Equador onde atua como responsável pelo departamento de Novas Mídias desta rádio.

Mesmo morando em outro país, Matheus continua dando apoio ao ministério da Missao SEARA. Depois que terminou seus estudos, ele planejou conseguir uma estação de rádio para que os ribeirinhos pudessem ter bons programas. Infelizmente o governo brasileiro dificultou a aquisição de uma estação própria e, por isso, foi necessário mudar de estratégia: ele passou a oferecer aos ribeirinhos um rádio alimentado por energia solar contendo cerca de 2 mil programas gravados em mp3. Esses programas são gravados pela Rádio Transmundial e pela HCJB e têm estudos bíblicos, cânticos e leitura das Escrituras. A cada três meses o Matheus vem ao Brasil substituir os programas já ouvidos por novos programas. Segundo ele, esses rádios mp3 têm tido um alcance ainda maior do que o rádio tradicional. Além disso, ele tem dado um treinamento para que os próprios missionários da SEARA saibam gravar novos programas para as suas comunidades.

No Encontro de Líderes Jovens (ELJ) o Matheus conseguiu fazer novas conexões. Ele foi convidado por irmãos da Libéria para implementar este projeto de rádios mp3 naquele país. E pela facilidade de falar português ele pode se envolver com brasileiros que trabalham com estudantes universitários para auxiliá-los no alcance de seus ministérios através das redes sociais.

• Héber Negrão é paraense, tem 33 anos, mestre em Etnomusicologia. Héber integrou a equipe brasileira no ELJ2016.

UltJovem_22_06_16_selo_meulugarnomundo-01Converti-me no final de 1974, através do grupo da Aliança Bíblica Universitária (ABU) em Fortaleza. Na ocasião, o encontro não era para um estudo bíblico, estavam discutindo outras questões do grupo. Não sei por que, mas minha cabeça trabalhava para achar soluções para os problemas apresentados. Era como se eles fossem meus. Logo me envolvi totalmente no ministério estudantil.

Paralelamente, um grupo da ABU no qual eu estava inserido começou um trabalho social (Projeto Castelão) nas imediações do estádio Castelão. As coisas andaram juntas por cerca de nove anos até que me mudei para Brasília. No dia de minha chegada ao Distrito Federal já viajei para São Paulo, de ônibus, para minha primeira reunião como diretor financeiro da ABU. Foram 26 anos de diretoria financeira, vice-presidência e presidência. Há quatro anos passei o bastão. Continuo até hoje no presbiterato da Igreja Presbiteriana do Planalto (IPP), que assumi em 1987.

Nunca tive dúvidas quanto ao meu chamado para os ministérios que assumi. Meu raciocínio era simples: se a porta está aberta, se eu estou no jeito para assumir e se não tenho qualquer obstáculo honesto, então é porque a porta é de Deus.

Dou graças a Deus pela minha jornada vocacional até agora. Tudo tem confirmado o meu chamado. Penso que um dos segredos para isso é o fato de que minha esposa Luzia sempre esteve junto, pagando o preço com muito trabalho e paciência.

Quanto ao meu trabalho secular, servi por 38 anos, 35 deles como analista do Banco Central, onde me aposentei. Sentia meu campo profissional como uma oportunidade excelente que Deus estava me dando. Tive à minha disposição locais extraordinários para testemunhar, tanto verbalmente como através do meu trabalho, em todos os setores onde trabalhei. O espaço era aberto pelo bom relacionamento com os colegas e pelo respeito que eles tinham pelo meu trabalho e ética profissional.

Por mais espantoso que possa parecer, não me lembro de ter tido escolhas realmente difíceis. Dúvidas surgiram, mas não que colocassem em risco minha decisão final. As muitas dificuldades surgidas eram as normais desse tipo de caminhada.

O resultado do meu chamado até agora é ver que nenhum sofrimento foi em vão. Mesmo longe de terem sido perfeitos, sinto que Deus tem abençoado cada passo. Ao ver jovens, entre eles meus filhos, com uma boa formação bíblica e consciência de cidadania cristã, fico muito feliz pela caminhada. Há pastores formados dentro dessa visão de cristianismo integral. Não foi por falta de sólido ensinamento bíblico que alguns se desviaram da fé. Valeu tudo a pena. Ebenezer: até aqui nos ajudou o Senhor.

JoséJosé Miranda Filho, 60 anos. Casado, pai de quatro filhos, avô de cinco netos. Presbítero da IPP e funcionário público aposentado.

 

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Crédito: Lissânder Dias

Julia E. M. Cameron, 62 anos, é uma inglesa sorridente que ama livros. Na verdade, ela acredita que, mais do que entretenimento, a literatura pode ser usada para diminuir abismos e para ensinar e encorajar a Igreja na missão de Deus. Residente em Oxford, professou sua fé por meio do Ministério de Billy Graham. Durante anos atuou na International Fellowship of Evangelical Students (IFES) e na OMF International. Julia edita livros e é autora de três, entre os quais um sobre John Stott para crianças e outro sobre Frances Whitehead, a fiel secretária de Stott por quase toda a vida ministerial do teólogo britânico (John Stott’s Right Hand –  the untold story of Frances Whitehead). Julia começou escrevendo notas obituárias para a imprensa do Reino Unido e hoje ocupa o cargo de Diretora de Publicações do Movimento de Lausanne. Confira a seguir a versão completa da entrevista que Cameron concedeu à revista Ultimato 362.

 

Qual é o seu papel em Lausanne como diretora de publicações? E quais os planos do movimento nesta área?

Chefio a publicação de livros e atuo como editora sênior. Produzimos publicações tanto curtas como extensas e servimos a Igreja em 28 línguas. Nossos livros menores mais divulgados são de autores consagrados como John Stott, Ajith Fernando e James Philip. Para o meio acadêmico, estamos publicando livros de consultas globais, as quais reúnem algumas das mais brilhantes mentes evangélicas para trabalhar temas chaves identificados em O Compromisso da Cidade do Cabo.

Estamos estabelecendo um novo paradigma para as publicações Lausanne. Temos comitês editoriais regionais ao redor do mundo, o que implica decisões tomadas por líderes que entendem o contexto local melhor do que eu ou outros de fora entenderíamos.

 

Como vocês pensam em alcançar as igrejas locais e que iniciativas esperam desenvolver para interagir, de forma dinâmica, com elas?

Nós consideramos muito a igreja local e alguns de nossos títulos menores já são usados para servir congregações locais em diferentes culturas, inclusive no coração dos mundos muçulmano, hindu e budista. Para mim isso é um teste decisivo do valor daquilo que produzimos. Afinal, se o nosso ministério de publicações não tiver utilidade em âmbito local, também não será útil em âmbito global.

 

As publicações têm o poder de manter a memória dos conteúdos, resoluções, conceitos. Em português nos beneficiamos muito da publicação do Pacto de Lausanne e, mais recentemente, de O Compromisso da Cidade do Cabo. Você é uma espécie de guardiã das memórias do Movimento de Lausanne. Falta à Igreja valorizar mais sua própria história? O que perdemos com isso?

Obrigada por essa importante pergunta. Ela se relaciona com os dois aspectos de Lausanne. Vou responder em duas partes: de fato, é a palavra publicada, como você disse, que preserva o conteúdo. Eu sinto um grande senso de responsabilidade por garantir que seja assim, especialmente porque [o Movimento de] Lausanne é guardião de riquezas raras. John Stott uma vez descreveu o movimento de forma muito bonita como sendo “um compartilhar de presentes”, como se a igreja de cada continente trouxesse o seu presente para a mesa para compartilhar. Por isso é tão importante publicar materiais dos nossos encontros e nos esforçar para disponibilizá-los em diversas línguas.

O segundo objetivo é preservar a história. A igreja seria muito mais pobre se não aprendesse com sua própria história ao longo dos séculos e das décadas. Por quarenta anos o Movimento de Lausanne, devido ao seu grande alcance, tem sido um instrumento catalizador de mudanças em diversas frentes.

Eu acredito que líderes da América Latina diriam que o Pacto de Lausanne de 1974 mudou o entendimento da essência da missão. Estima-se que possivelmente 70% das organizações cristãs na América Latina mantenham o Pacto de Lausanne em suas bases de fé. Mais especificamente, sabemos de duas grandes igrejas na América Latina em que a teologia da prosperidade distorcia o evangelho e cujos pastores têm mudado de percepção por terem ouvido a apresentação de Femi Adeleye sobre o tema no Terceiro Congresso de Lausanne.

O Compromisso da Cidade do Cabo está aos poucos influenciando as prioridades de igrejas e agências missionárias, trazendo assim novos assuntos para as pautas de reunião. São fatos notáveis na vida da Igreja que devem ser preservados.

 

Você acha que a Igreja tem lido satisfatoriamente? Há coisas e pessoas sobre as quais a Igreja precisa ler ou saber mais?

Eu tenho visto líderes cristãos do Sul Global mergulhando em estandes de livros em eventos da IFES e de Lausanne; com certeza há uma sede de livros em algumas culturas. Infelizmente há muitas publicações sem peso que não servem bem aos leitores. Sempre defendi que cristãos leiam boas biografias para aprender mais sobre a vida de fé e as dificuldades da fé de grandes homens e mulheres de Deus; que leiam textos doutrinários para construir uma clara definição de suas crenças; e que leiam sobre a missão mundial – seja com foco em um campo específico, seja com interesse geral. Aqueles que servem em profissões seculares talvez se beneficiariam de ajuda para adquirir uma visão bíblica sobre seu trabalho. Também sugiro que os cristãos adotem uma obra favorita para distribuírem de presente. No meu caso, adotei o belo e profundo livrinho de James Philip The Glory of the Cross – Exploring the Meaning of the Death of Christ [A glória da cruz – explorando o significado da morte de Cristo]. Carrego alguns exemplares comigo quando viajo.

 

Você tem um olhar privilegiado da igreja global. Como a Igreja está hoje? Quais são suas expectativas? Quais são os maiores desafios que a Igreja deve enfrentar nos próximos anos?

Devo ressaltar que grande parte da minha visão passa pelos prismas de Lausanne e da IFES. Ao examinar alguns líderes mais jovens muito especiais, eu tenho esperança. Mas também sei que alguns dos líderes de igrejas mais experientes começaram bem, mas depois relaxaram, de forma que nunca devemos ser complacentes. Quanto aos maiores desafios: Controvérsias sobre gênero; a disseminação do islamismo; migrações em massa; poucas vozes cristãs no meio acadêmico que dialogam com o dia a dia do povo; menos motivação para leituras com profundidade, o que diminui a habilidade para uma defesa forte. Também fico atenta às vis perseguições que pairam sobre tantos irmãos e irmãs nossos, aqueles de quem o mundo não é digno. Seria muita inocência de nossa parte não perceber que isso vai piorar.

 

Qual foi sua motivação principal para contar a história de Frances Whitehead?

Pieter Kwant me convidou a escrevê-la. Após algumas pesquisas e conversas com Frances, descobri que o próprio John Stott tinha esperanças de que a história fosse contada um dia. A parceria entre “tio John e tia Frances”, como eram conhecidos mundo afora, era única e de grande valor para a Igreja. A rara bagagem familiar de Frances, sua mente esperta e seu grande comprometimento com Cristo foram fatores que tornaram possível o ministério de Stott. O trabalho dele não seria nem metade tão bem-sucedido sem ela. A história dos dois juntos é um testemunho tocante da providência de Deus, uma história que precisa ser preservada.

 

Você escreveu outros livros? Eles também são biográficos ou tratam de outras temáticas?

Escrevi alguns outros livros, como The Humble Leader [O líder humilde], uma biografia de John Stott para crianças e Silhouettes and Skeletons [Silhuetas e esqueletos], um pequeno livro sobre Charles Simeon, contemporâneo de William Wilberforce e um colosso na história evangélica. Também editei muitos outros livros, o que me dá a mesma satisfação. Onde há conteúdo precioso que merece atenção para se tornar mais claro, eu amo trabalhar ali. Em 2008 lancei uma modesta série de pequenos livros de grandes autores, os quais foram publicados em 24 línguas. Assim, entendo que editar é meu chamado tanto quanto o é escrever.

 

Frances Whitehead foi descoberta por John Stott. Houve algum líder que descobriu seus dons e talentos e a encorajou a assumir essas responsabilidades?

Sim, Edward England, da editora Hodder e Stoughton. Tudo aconteceu de um modo não esperado. Eu me lembro do culto fúnebre de uma talentosa escritora, Phyllis Thompson, que, durante uma geração e por meio de uns cinquenta livros, trouxe o tema da missão mundial para dentro dos lares de dezenas de milhares de cristãos. Ela se tornara uma amiga querida e eu havia estado com ela no momento de sua morte. Seu editor, Edward England, fez um discurso no culto fúnebre em Londres sobre a dedicação e o ministério dela, como eu mesma já havia feito no velório. Depois ele me disse: “Talvez você devesse tomar esse manto agora, Julia”. Essa declaração súbita me pegou de surpresa. Mas resolvi levá-la a sério. Naquela época eu era a responsável pela área de publicações da OMF. De uma forma ou de outra, permaneci ativa em empreitadas editoriais desde então. E, pela graça de Deus, acredito que esse privilégio vai continuar.

 

Nesse desafio de alcançar as igrejas locais, que iniciativas vocês estão considerando para atingir as igrejas mais pobres?

Sempre haverá uma ideia de que livros só alcançam os escolarizados e, historicamente, o Movimento de Lausanne tem sido uma rede de líderes e pessoas influentes. Mas em termos de conteúdo, é vital que os líderes se envolvam com os problemas da pobreza e busquem sua solução a longo prazo. Um pequeno livro que já foi publicado em várias edições ao redor do mundo é Light, Salt and the World of Business – Good practice can change nations (Luz, sal e o mundo dos negócios – Boas práticas podem mudar nações), de Fred Catherwood, pois sabe-se que a pobreza é frequentemente causada por corrupção sistêmica. Nossa próxima grande publicação, que será lançada em 2017, é resultado da consulta global que aconteceu em Atibaia, São Paulo. Trata-se de um livro sobre o que é comumente chamado de teologia da prosperidade e como esse “evangelho” insidioso, como sabemos, tem um grande apelo a igrejas pobres. Acreditamos que esse livro ajudará igrejas a perceber o que esse “evangelho” realmente é.

 

Com o avanço das novas tecnologias e redes sociais, a experiência da leitura ganhou novas opções. Isso é bom ou ruim na missão de edificar e ensinar a Igreja?

O importante é que os cristãos que querem crescer continuem lendo. Nosso conteúdo sempre será disponibilizado no Kindle ou no site lausanne.org. Mas não nos esqueçamos dos livros impressos. São estes que são passados adiante, comentados e emprestados a amigos.

 

Um movimento mundial e plural como Lausanne tem o gigantesco desafio de zelar pela identidade das organizações que a ele se ligam, ao mesmo tempo que deve respeitar a diversidade de contextos tão diferentes. Como lidar com este dilema, sem deixar de ser relevante globalmente?

Alguns dos mais importantes agentes no início do Movimento de Lausanne foram pessoas de países “não ocidentais”, como Samuel Escobar e René Padilla. Por outro lado, a influência de John Stott mostrou que todas as culturas são respeitadas. A IFES [União Internacional de Estudantes Evangélicos, sigla em inglês] é uma forte parceira em muitos países, e o seu comprometimento com a liderança nacional também tem reforçado as raízes nacionais do Movimento de Lausanne. Houve ocasiões em que o número de representantes de países “ocidentais” em comitês centrais foi maior do que o de países “não ocidentais”, e é importante garantir que isso não se repita. Lindsay Brown, ex-secretário geral da IFES, recentemente passou a responsabilidade para Las Newman (da Jamaica) como diretor associado global. Ambos têm profundas raízes na IFES e são comprometidos com esse princípio [de respeito cultural].

 

Lausanne planeja alguma comemoração a propósito dos 500 anos da Reforma Protestante?

Sim, temos uma série de encontros planejados para junho de 2017, na Alemanha, com pensadores líderes sobre missão mundial. O plano é estudar como dar continuidade ao trabalho para ver a verdade de Cristo conhecida entre todos os povos, línguas, tribos e nações.

 

O Movimento de Lausanne tem investido muito nos jovens líderes. Um exemplo é a realização do Encontro de Jovens Líderes, em Jacarta, na Indonésia. Qual é a força da juventude na Igreja global? Como valorizá-la sem ignorar os mais velhos? Como estimular a intergeracionalidade?

Os cristãos têm de ser contraculturais nessa e em muitas áreas. O modelo bíblico é o mais velho ensinando o mais novo, e queremos manter assim. Nana Yaw Offei-Awuku (de Ghana) lidera uma nova iniciativa que chamamos de YLGen (Geração de Líderes mais Jovens, sigla em inglês), lançada no encontro de Jacarta. Seu objetivo é atrair pessoas da geração mais nova, equipá-las, treiná-las, incorporá-las nas redes temáticas e oferecer-lhes mentores caso queiram.

 

Há dificuldades próprias de ser uma líder global mulher? Quais?

Eu evito usar o termo “líder global”, pois os únicos realmente “líderes globais” foram Billy Graham e John Stott. Certamente em algumas culturas a voz de um homem tem mais autoridade do que a de uma mulher, mas em meu pequeno papel no mundo de publicações não tenho tido dificuldades.

 

Você tem estudado o movimento missionário feminino? Qual tem sido o papel das mulheres no avanço da “missão de Deus”?

Não tenho feito estudos específicos sobre mulheres, mas muitos nomes vêm prontamente à minha mente – mulheres cujas histórias precisam ser recontadas para novas gerações. Lembro-me, por exemplo, do lendário trio da China Inland Mission (hoje OMF Internacional), três mulheres de mente extraordinária que atravessaram o deserto de Gobi cinco vezes como evangelistas itinerantes. Também, já em nosso tempo e num contexto totalmente diferente, temos as perseverantes assistentes pessoais de Billy Graham, Joni Eareckson Tada e George Verwer. Elas, assim como Frances Whitehead, possibilitaram o ministério de seus chefes através de seus talentos, dedicação e décadas de serviço em conjunto.

 

[Traduzido por Josué Bastos]

 

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Foto: Aaron Burden/Unsplash

Por Lissânder Dias

“Cristo é o sol, o centro do nosso universo. Os profetas apenas giram em torno de Jesus”.

“Se Deus não for rei sobre toda a nossa vida, ele não é rei”.

“O Cristianismo sem Cristo nunca vai mudar a África. A África precisa ouvir Jesus”.

Estas são algumas das muitas frases de quem falou nas plenárias dos três últimos dias do Encontro de Líderes Jovens de Lausanne (ELJ), ocorrido de 3 a 10 de agosto, em Jacarta, Indonésia. A ênfase não parece ter sido orquestrada pela organização do evento, mas evidenciou uma preocupação importante sobre o que é a essência do Cristianismo em todos os continentes.

Jesus é o sol. Os profetas giram em torno dele

O asiático Richard Ching explicou o diálogo da transfiguração de Jesus (Mt 17.1-13) mostrando que a grandeza de Moisés e dos profetas Elias e João Batista residia na clareza do testemunho deles a respeito de Jesus. “Jesus reina sobre toda galáxia, sobre o Estado Islâmico, sobre todos os governantes do mundo. Ele reina, ele manda, ele é o foco da história. Jesus é o filho amado em quem Deus se compraz, o servo de Isaías que traz a justiça. Jesus é o filho amado em quem Deus se agrada”. No entanto, ele fez justiça não por meio do poder, mas sim pelo sofrimento. “Se você quer ver o amor de Deus, olhe para a cruz. A justiça do Pai é como um oceano revolto. Jesus bebe o cálice da sua própria ira. O amor de Deus pelo seu filho agora está transbordando em nós”.

Ching ainda ressaltou o papel da Trindade na obra de Cristo. “As coisas básicas na vida são experimentadas num relacionamento próximo.  Nenhum relacionamento na história da eternidade é tão próximo quanto o relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espírito. Alguma coisa acontece na Trindade que ultrapassa nossa compreensão e ele derrama seu amor sobre todos em toda história”.

Esteja pronto!

Para o apologeta Os Guiness a compreensão do senhorio de Cristo é o caminho para lidarmos com uma fé fragmentada na atual geração. “Estamos vivendo transformações de proporções titânicas. A modernidade causou mais dano à igreja do que muitos perseguidores. De singular, ela tornou-se múltipla. O estilo é self service, você escolhe o que quiser. Há uma crise profunda de autoridade. A fé integrada tornou-se fragmentada. É muito fácil ter uma fé que se concentre apenas em sua própria vida, afinal sua vida é muito pequena diante do que está fora dela. Se Deus não for rei sobre toda a nossa vida, ele não é rei. Tenha certeza de que você tem as ferramentas que precisa para lidar com a modernidade. Precisamos do poder do Espírito para a guerra. Vivemos uma batalha de ideias. Esteja pronto para fazer a sua parte nas grandes tarefas da igreja neste século”, desafiou.

Sobre a geracionalidade, Os Guiness criticou a fragmentação do conceito. Para ele, geração não é meramente o fragmento de uma era, como os marqueteiros querem nos convencer. “Na Bíblia não é assim. Nela todos são responsáveis por todos: responsabilidade de transmissão e seguir passando o bastão de uma geração à outra. No mundo moderno, o passado não é importante. A questão do nosso tempo, na verdade, é de fidelidade. A igreja consegue ser reavivada uma terceira vez? O futuro da humanidade depende desta pergunta. Dizemos que Jesus é a resposta, mas estamos vivendo isso de verdade?”, conclui.

Secularismo chinês e kairós africano

Uma líder chinesa e um líder africano trouxeram seus olhares da igreja a partir de suas regiões. A líder chinesa (que prefere não se identificar) ressaltou que o secularismo tem afetado bastante a juventude cristã do país. Segundo ela, milhares de jovens cristãos que vão para o Ocidente voltam de lá e perdem a fé. É fundamental que estes jovens descubram, de fato, o lugar deles no reino. “Minha vida mudou completamente depois que eu encontrei meu capítulo na grande história de Deus”, testemunhou.

Já o líder africano Emmanuel Kwizera ressaltou que a África é o continente que mais cresce economicamente no mundo hoje e que é tempo de oportunidades. “Agora é nossa vez de enviar missionários e não somente recebe-los. Missão é de todos os lugares para todos os lugares. Temos o desafio de alcançar o norte da África. Somos capazes de completar a missão ainda não completada. Vamos nos envolver na Diáspora africana”, declarou ele. No entanto, junto com este encorajamento, o líder africano não deixou de questionar que tipo de mensagem a igreja tem pregado na África. “Em muitas igrejas, o Cristianismo não é mais boas novas para os pobres, mas para quem quer ficar rico. Qual a mensagem da igreja? Qual sua resposta? Quem é Jesus em nossa geração? Quem é Jesus em Nairobi? Na Cidade do Cabo? Alguns pensam que ele é apenas um tipo de escolha. Nós existimos para conhecê-lo e torná-lo conhecido. Precisamos trazer Jesus de volta para nossas igrejas, para nossos sermões. O Cristianismo sem Cristo nunca vai mudar a África. A África precisa ouvir Jesus”.

Final do EJL, mas não é o fim de história

O último dia do EJL foi marcado pela esperança. O jovem pastor brasileiro René Breuel leu Apocalipse 5 e nos lembrou que vivemos em torno da esperança cristã. “Porque esperamos com esperança, lavamos os pés dos outros mais que qualquer pessoa, ajudamos o próximo mais que qualquer pessoa”. Ele ressaltou ainda que esta esperança caminha junto com a responsabilidade do testemunho e com o privilégio do louvor a Deus.

A cerimônia de Santa Ceia foi ministrada a partir dos pequenos grupos (ou Grupos de Conexão, como eram chamados). Foi um momento singelo, mas cheio de significado. Os participantes do ELJ experimentaram a comunhão que nasce no compartilhar de nossas próprias histórias e na compreensão da Grande História de Deus no mundo. Com isso, vislumbramos a centralidade de Cristo (ele é o protagonista de cada história pessoal), louvamos seu caráter santo e digno, testemunhamos sua obra na cruz e esperamos por “novos céus e nova terra”.

Não à toa, o ELJ terminou com muita música e louvores ao Deus da história. Mesmo após o final, grupos de países diferentes continuaram cantando juntos espontaneamente e celebrando a unidade em meio à diversidade cultural. Um grupo de brasileiros dançou junto com os africanos. Asiáticos abraçaram ocidentais.

Se os desafios da igreja global são mais complexos do que imaginamos, podemos começar diminuindo as distâncias ainda tão grandes na igreja de Cristo. Esta é uma expectativa concreta do Movimento Lausanne para os próximos 10 anos por meio do projeto YGen, que pretende conectar todos os participantes do evento por meio de um aplicativo exclusivo e com a participação de mentores. Que Deus faça sua obra.

• Lissânder Dias é editor do Portal Ultimato e foi um dos convidados do ELJ2016.

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Foto: Aaron Burden/Unsplash

UltJovem_22_06_16_selo_meulugarnomundo-01Este é o ponto da caminhada onde estou: pastoreando e servindo jovens. Atualmente atuo como pastor em tempo integral com foco na juventude, ministério no qual já estou envolvido há 11 anos. Hoje é mais claro pra mim qual é o meu papel no mundo, pois descobri a resposta de outra pergunta semelhante: Qual é o meu papel no corpo de Cristo?

Sou pastor (ou pelo menos estou em processo de formação)! Sou pastor não pelo cargo, ou por estar trabalhando em uma igreja, mas sim porque o Espírito Santo me capacitou com dons que me ajudam especificamente nessa caminhada pastoral. Gosto de pregar, de ensinar a palavra, de aconselhar, de discipular, de produzir material para estudos bíblicos. Todos esses pontos me ajudam na caminhada pastoral.

Ao descobrir o meu papel no corpo de Cristo, consequentemente descubro o meu papel no mundo. Ele tem a ver com o cuidado de gente e com fazer com que as pessoas olhem para Deus e reflitam sobre Ele e a vida. Meu principal campo de atuação são os cristãos, e tenho por objetivo e desafio caminhar com os que estão próximos a mim, sendo instrumento de Deus para a edificação e preparo dessas pessoas, para que possam discernir seu papel no mundo e tenham conhecimento bíblico para servirem ao reino como discípulos bem preparados.

Essa descoberta foi (e tem sido) um processo. Nunca imaginei que seria pastor quando entrei no seminário. Tinha outros planos, mas algumas experiências foram moldando em mim um caráter pastoral. Nessa caminhada, dons e talentos apareceram e foram lapidados. Fui encontrando tarefas pelas quais sou apaixonado, como pregar e discipular. Também fui percebendo que em determinadas áreas em que eu achava ter aptidão, na realidade tinha mesmo era uma falsa sensação de aptidão. Tive que deixar essas atividades para focar no que realmente tenho talento para fazer.

É uma caminhada de “deixar” e “pegar”.  Um processo no qual você vai descobrindo novas aptidões, mas ao mesmo tempo precisa deixar algumas outras habilidades de lado para focar naquilo que realmente irá te auxiliar na jornada.

Nesse processo de descoberta, atualmente me preparo para uma transição ministerial, pois compreendo que, após 11 anos de dedicação a esse público, o ciclo de envolvimento com o ministério para a juventude está para terminar. Aproxima-se o fechamento dessa etapa e apresenta-se então o início de uma nova caminhada, que ainda não sei qual é. Mas o fato de eu ter clareza sobre qual é a minha função no corpo me ajuda a perceber qual é o meu lugar.

 

BlogUlt_15_08_16_calebeCalebe Ribeiro, 29 anos, casado com Myrna Ramos. Mora atualmente na cidade do Rio de Janeiro. Formado em Teologia e em Sociologia.

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Participante africano conta sua história em tabuetas pintadas por ele e sua irmã

 

Por Héber Negrão

 

Não há dúvidas de que a arte sempre foi uma grande parceira da espiritualidade cristã. Na história da igreja vemos inúmeros artistas cristãos criando e refletindo a imagem do Deus Criador em suas próprias obras de artes. Das grandes catedrais da Idade Média, onde a arte era usada para instruir um povo sem acesso às Escrituras, até às grandes paixões de Johann Sebastian Bach, a arte tem sido utilizada para o benefício do povo de Deus na compreensão da sua Palavra.

Não há dúvidas de que a equipe de planejamento do Encontro de Líderes Jovens (ELJ) tinha isso em mente quando pensou no evento. Vemos diferentes manifestações artísticas permeando o Encontro, não só em contexto de culto (como estamos acostumados a limitá-la), mas também em contexto de relacionamentos.

O tema do ELJ foi “Unidos na Grande História” e para auxiliar na compreensão do todo, cada participante foi incentivado a produzir uma pequena representação artística de sua trajetória de vida para ser contada nos Grupos de Conexão. A criatividade correu solta entre os mil participantes. Houve pinturas, desenhos e colagens. Um participante da África chegou a fazer uma montagem com blocos de madeira ligados por fios. Um sucesso! [veja a foto] Continue lendo →