// ESPECIAL VOCARE 2018

Por Phelipe Reis

Photo by Jon Flobrant on Unsplash

Sair às ruas com o rosto pintado, vestindo roupa preta, suando a camisa apresentando danças e peças para comunicar o evangelho de Jesus. Os palcos? Os mais inusitados possíveis: praças, praias, presídios, escolas, favelas etc. Nada pagava ver uma pessoa decidir caminhar com Cristo após assistir uma pantomima e ouvir o plano da salvação. Que coisa sensacional! Dentro de mim um sentimento muito forte dizia: “Esse é o meu chamado e quero gastar o resto dos meus dias fazendo isso”.

Da adolescência à vida adulta passaram-se quase quinze anos e hoje não faço mais praticamente nada do que eu achava que era o meu chamado e do que eu pensava que faria para o resto da minha vida. Tudo o que vivi foi intenso e profundo, Deus trabalhou muito em minha vida e caráter, mas a única coisa que restou dessa época foi a decisão convicta de perseguir em fazer a vontade de Deus.

É muito interessante olhar no retrovisor e perceber as mudanças importantes que aconteceram durante a caminhada. Minha compreensão sobre a minha vocação ficou mais nítida e o meu conceito de missão se ampliou. E, claro, o Vocare teve participação nesse processo.

Antes de participar pela primeira vez do congresso, eu já tinha tido outras experiências que me deixavam com certa firmeza no caminhar, que me davam uma direção quanto ao meu chamado e vocação. Então, quando eu ouvia alguns dizerem: “O Vocare é para quem ainda não sabe qual é sua vocação”, no fundo eu concordava um pouco com essa afirmação, por isso minha ida ao evento era sem muita expectativa. Claro que eu me animava em poder participar de um evento nacional, com gente de todo o país, e me sentia realizado por poder atuar como jornalista ajudando na cobertura do evento. Mas no fundo, sendo bem sincero, todas as vezes que fui ao Vocare, desde sua primeira edição em 2015, não tinha muita expectativa que Deus poderia falar algo a mais comigo a respeito da minha vocação.

Mas a despeito da minha falta de expectativa, Deus me surpreendeu todas as vezes. A cada ida a Maringá, Deus confirmava meus passos, clareava o caminho e apontava direções. Deus trabalhou na minha compreensão de vocação e missão da mesma maneira que um bom fotógrafo prepara e ajusta sua lente: regulando o foco, dando nitidez, ampliando o plano e dando profundidade de campo.

Jovens envolvidos com comunicação e mídia – Vocare 2017

Pensando bem, como alguém pode ir ao Vocare sem expectativa, achando que voltará para a casa da mesma maneira, se ir ao Vocare significa mergulhar num caldeirão profundo e intenso de sonhos, ideias, histórias, testemunhos, dons, talentos, projetos? Como ficar indiferente a tudo isso? Como não ficar inquieto com o exemplo de jovens corajosos que estão virando o mundo de cabeça para baixo? É simplesmente impossível, mesmo para aqueles que já têm uma compreensão mais clara e madura do seu lugar na missão de Deus.

Mais que um congresso e um movimento, posso dizer que o Vocare tem sido uma escola para mim. Além de aprender com tantos testemunhos e histórias de transformação, o Vocare me inspira com a canção da jovem cantora natalense; encoraja com a dedicação e esforço da equipe executiva, sempre incansável; surpreende com o espírito empreendedor de um jovem indígena Guarani que está projetando um aplicativo para ajudar sua aldeia; encanta pela forma tão graciosa com que Deus está usando jovens de todo o Brasil para que sua glória seja conhecida a todas as pessoas e em todas as áreas da sociedade.

Participar do Vocare me fez entender que a vocação não é uma obra pronta e acabada, mas é processo. Desconfio do jovem que, sem uma pontinha de dúvida, enche o peito e diz com plena convicção: “Tenho certeza que minha vocação é fazer isso ou aquilo”. Observando a jornada que pessoas mais experientes, tenho impressão de que não podemos lidar com a vocação como um plano de carreira ou uma descrição de cargo em um emprego. A vocação de Deus é uma obra de arte na qual ele está sempre trabalhando e dando novos contornos. A vocação nos revela Deus como o “Tapeceiro” poetizado e cantado por Stênio Március:

“Tapeceiro
Grande artista
Vai fazendo o seu trabalho
Incansável, paciente
No seu tear

Tapeceiro
Não se engana
Sabe o fim desde o começo
Trança voltas, mil desvios
Sem perder o fio”

Equipe de comunicação do Vocare 2018

Na verdade, o Vocare me ajudou a compreender que vocação pode ser substantivo, mas se expressa melhor como verbo: caminhar. E a cada passo que damos nessa jornada, novos, diferentes e coloridos nuances desse chamado de Deus, e da própria pessoa de Deus, vão se revelando e aprofundando. Não sem medo, dor e sofrimento, claro. Vocação tem poesia, mas também tem choro, pé no barro e joelho no chão. Por isso, assumir a caminhada da vocação com toda a nossa humanidade e limitações, significa dispensar a pressa, convidar a calma e a constância para pisar na estrada com pés firmes, encharcados de fé, coragem e esperança naquele que nos chamou e nos vocacionou. Entendendo que não precisamos ter um mapa com todos os detalhes do percurso, afinal, mais importante que conhecer o caminho é conhecer aquele que nos guia.

• Phelipe M. Reis é amazonense, missionário e jornalista. Casado com Luíze e pai da Elis.

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