Por Denise Araujo

Muitas vezes, nós queremos que a nossa vocação seja uma fórmula, uma carreira, uma profissão com descrição de cargo, um ‘ministério’, mas não é. A vocação é a obra da nossa vida.
[Denise Araujo]

“Meu sonho era ser missionária, mas Deus me chamou para ter uma atividade profissional.” Não estava esperando ouvir isso? Nem eu. Cresci em um lar cristão, mas só fui me entregar totalmente ao Senhor quando eu tinha treze anos. Foi nessa época que senti Deus me atraindo e mostrando que a minha vida deveria ser para conhecê-lo e torná-lo conhecido. Minha experiência de conversão foi bastante radical. Não demorou muito para sentir queimar em mim o chamado para missões transculturais. Fui voluntária com a Cru, no movimento entre estudantes secundaristas e universitários. Participei de três projetos missionários de férias e vários seminários de evangelismo de final de semana. Além disso, fui intérprete voluntária dos treze aos vinte anos com grupos de americanos que vinham fazer missões aqui no Rio de Janeiro, através de parceria com a Convenção Batista Carioca.

Da esquerda para a direita: Michael W. Goheen, Denise Araujo e Paulinho Degaspari, no VIII Congresso Brasileiro de Missões | Foto: AMTB

Eu desejava cursar Teologia, mas também fazer uma faculdade. Acabei entrando no seminário decidida a cursar outra faculdade ou pós-graduação quando terminasse.  Importante dizer que em 2005 comecei a trabalhar no escritório da Junta de Missões Mundiais, como assistente do Projeto Radical – Voluntários sem Fronteiras. Na época, o projeto tinha apenas três turmas e só enviava voluntários para a África. Meu trabalho consistia em ser o suporte dos missionários ali no escritório. O grande diferencial do projeto era que equipes eram enviadas para aldeias quase 100% muçulmanas, testemunhando o amor de Cristo da forma mais encarnacional possível. A convivência com esse molde de missões encarnacional foi me conquistando… Aos poucos fui percebendo que Deus estava abrindo outra porta para mim, porta pela qual eu nem imaginava passar.

Quando concluí o curso de Teologia, comecei a procurar outra faculdade ou pós-graduação que fosse profissionalizante. Nessa minha busca lembrei de como gostava de fazer interpretação voluntária quando era adolescente. Eu nem sabia se ser intérprete era profissão ou não, se era necessário ter formação específica. Fiz uma busca rápida no Google, achei um curso e me inscrevi para receber mais informações. Fui selecionada e comecei a estudar, conciliando com meu trabalho na JMM. Com o tempo fui me identificando cada vez mais com a profissão e vendo como ela casava com a minha personalidade. Semestre a semestre eu era desafiada a me aprimorar, estudar mais e desenvolver minhas habilidades.

Quando me formei como intérprete, comecei a entender que Deus estava abrindo uma porta para que eu servisse a ele com a minha profissão – “fazendo tendas”. Meu marido, que é médico, já estava convencido disso há um tempo. Havia chegado o meu tempo de perceber que era com isso que Deus queria que eu me envolvesse. Tive que tomar a decisão muito difícil de pedir demissão do meu trabalho na Junta de Missões. Nossa, como foi difícil lutar com esse paradigma “entranhado” em mim sobre o que Deus desejava que eu fizesse! Esse foi um dos momentos decisivos. Por mais improvável que fosse, eu precisei crer que quem estava abrindo aquela porta era Deus e crer que aquela seria a maneira dele de me sustentar; me dar mais tempo para servi-lo no ministério e também para me conectar a pessoas que não conheciam a Jesus.

Na época, estávamos servindo em nossa comunidade local e equipe ministerial. Minha nova atividade profissional me permitiu estar mais envolvida, por ser freelancer, e ter mais tempo livre para me dedicar ao ministério. Mal sabia eu que essa profissão também seria estratégica para que eu pudesse ter mais tempo com meus filhos, quando eles nascessem.

Denise Araujo interpretando Darrow Miller durante o encontro Vocare, em 2015

Já estou nessa caminhada há dez anos e ser obediente não é fácil. Infelizmente, nós, muitas vezes, queremos uma “linha de chegada”, que a nossa vocação seja uma fórmula, uma carreira, uma profissão com descrição de cargo, um “ministério”, e não é. A vocação é a obra da nossa vida, o que ela produz. Hoje, vejo que se trata de um chamado para, sob a direção de Deus, desenvolver tudo o que ele nos entregou: nossos talentos, características, temperamento, dificuldades, pontos fortes e pontos fracos.

Um dos oradores que tive o privilégio de interpretar no Vocare 2015, Darrow Miller, me ensinou sobre isso. Em seu livro “Vocação: escreva sua assinatura no universo”, ele diz: “chamados por Deus, temos um empregador digno de nossos esforços” (p. 196). Como mulher, que trabalha fora e dentro de casa, tenho dias muito variados. Há dias em que trabalho o dia todo fora, em um congresso de Petróleo e Gás, traduzindo palestras bem técnicas. Há dias em que meu maior desafio é convencer meu filho de dois anos a não jogar um brinquedo eletrônico na banheira. Meu empregador continua sendo o mesmo: aquele Deus que se revelou a mim aos treze anos e que todos os dias me chama para servi-lo de forma radical, custe o que custar.

• Denise de Vasconcelos Araujo é casada com Mário e mãe do Theodoro e do Otto. Formada em Teologia pela Faculdade Teológica Sul-Americana, com pós-graduação em interpretação de conferências e mestrado em Estudos da Linguagem na PUC-Rio. Intérprete de conferência há 10 anos e membro desde 2011 da Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (AIIC), da Associação Profissional de Intérpretes de Conferência (APIC) e do Sindicato Nacional de Tradutores (Sintra). Desde 2012 é professora do curso de Formação de Intérpretes da PUC-Rio.

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