Versão ampliada do artigo publicado na sessão Arte e Cultura, da revista Ultimato #370.

Iconografia Pantocrator Santa Catarina

Por Carlos Caldas

O cristianismo tem, grosso modo, três grandes ramos: a ortodoxia oriental, o catolicismo romano e o protestantismo (incluindo aqui evangelicalismos e pentecostalismos em geral). No Brasil, o protestantismo, por motivos óbvios, tem muita proximidade com a tradição católica. Mas a tradição ortodoxa oriental, numericamente muito pequena no país, é, em grande parte, totalmente desconhecida da maioria absoluta dos protestantes e evangélicos brasileiros. Daí que o presente texto, mesmo com sua limitação de tamanho, pretende ser uma introdução sucinta a um importante aspecto da teologia e da liturgia da tradição ortodoxa oriental: a iconografia, isto é, a tradição ortodoxa oriental de confeccionar ícones, quase sempre de Cristo.

A primeira reação de um protestante brasileiro ao vir um ícone de qualquer das igrejas da tradição oriental vai ser pensar que se trata de “idolatria” ou “coisa de católico”. Isto faz lembrar que a relação do protestantismo com as artes, notadamente no Brasil, segue em busca de entendimento. O protestantismo tupiniquim desenvolveu uma relação tranquila com as manifestações artísticas de natureza auditiva. A importância da pregação e da música na liturgia protestante comprova a afirmação feita. Mas no que diz respeito às manifestações artísticas de natureza visual, a história é outra. A tradição protestante/evangélica no Brasil tem tradicionalmente uma resistência muito grande a toda e qualquer expressão estética visual. Há razões históricas que explicam o desconforto protestante brasileiro com artes visuais. Igrejas protestantes de outras latitudes não têm crise em, por exemplo, vitrais com ilustrações de cenas bíblicas em seus templos. Mas a história do protestantismo no Brasil tem algumas peculiaridades: a Constituição de 1824 determinava a Igreja Romana como oficial do Império, e permitia que grupos não católicos só tivessem cultos domésticos, sendo-lhes vedado que tivessem construções com aparência de templo. Isto gerou no imaginário protestante brasileiro um ranço contra qualquer coisa que tivesse qualquer semelhança com seja o que for que tivesse semelhança com o que lembrasse minimamente algum elemento do catolicismo. Isto explica a dificuldade brasileira com as artes visuais em geral. Estas são, de maneira muito rápida e até mesmo descuidada, identificadas com “idolatria” e quebra do segundo mandamento.

Se o protestante mediano brasileiro tem dificuldade com a estética litúrgica católica, da qual está histórica e geograficamente próximo, muito mais estranhamento terá diante da tradição ortodoxa, distante em todos os sentidos. Daí o objetivo do presente artigo: apresentar, posto que resumidamente, uma explicação para protestantes brasileiros, do significado da iconografia ortodoxa oriental.

A tradição ortodoxa entende que Deus está presente na beleza. A perspectiva oriental entende que a beleza revela e aponta para Deus, e por isso, deve se manifestar na liturgia. O ortodoxo entende que a liturgia é a revelação sensorial da teologia, o que faz com que todos os sentidos estejam presentes: a audição (os cânticos), o olfato (o incenso), o tato e o paladar (na recepção da comunhão, nas duas espécies, isto é, o pão e o vinho) e, por último, mas não menos importante, na visão (a contemplação dos ícones). Eis aí contraste com a tradição litúrgica protestante tradicional, com sua virtual negação dos sentidos do olfato e da visão, uma quase negação do tato e uma mínima utilização do paladar. No protestantismo, o sentido mais usado é a audição.

Um esclarecimento: a palavra ícone vem do grego eikon, que significa imagem. A palavra aparece no Novo Testamento em Cl 1.15, onde é dito que Cristo é a “imagem” (ícone) do Deus invisível. Para o ortodoxo oriental, o ícone não é uma quebra do segundo mandamento, pois não se presta culto à imagem em si. A adoração é dirigida a quem a pintura representa, não à própria pintura em si. Na ortodoxia oriental, a compreensão é que o ícone é para os olhos o que a pregação da Palavra é para os ouvidos. O ícone pretende ser um auxílio à meditação cristã, à contemplação dos mistérios divinos, notadamente os que têm a ver com a vida, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, e a esperança de sua segunda vinda. Na perspectiva oriental, o ícone é uma espécie de janela para a dimensão espiritual/celestial da realidade. A “beleza” do ícone não está nas suas características estéticas em si, mas na verdade teológica que este veicula. Portanto, os cristãos orientais compreendem os ícones como tendo valor sacramental: estes não são sacramentos em si, mas de alguma maneira, são sinais visíveis de uma graça invisível. O cristão ortodoxo oriental entende o ícone como uma realidade espiritual, que não pode ser explicada de maneira lógica, conceitual e racional. Antes, é uma realidade suprarracional. Por isso, os iconógrafos, isto é, os se dedicam à confecção de ícones, só poderão fazê-lo se receberem um treinamento para tal, uma autorização eclesiástica, e terão que tomar uma série de cuidados. A pintura de um ícone jamais será iniciada se não for precedida de um tempo preparatório de oração, leitura bíblica, meditação e jejum, além de banhos rituais, porque espera-se que o pintor de uma imagem tida como sagrada esteja purificado, espiritual e corporalmente. As prescrições eclesiásticas para os iconógrafos incluem ainda critérios de natureza ética: um pintor de ícones tem que demonstrar humildade e mansidão em sua vida diária. Em outras palavras: para produzir um ícone, não basta ter capacidade técnica. Mais importante que a técnica é a virtude.

Concluindo: o protestantismo tem seus motivos para tecer suas críticas à tradição iconográfica da ortodoxia oriental. E o ortodoxo oriental tem seus motivos para cultivar a mais que secular tradição do ícone. O objetivo deste texto não é discutir a questão teórica da teologia por detrás da tradição dos ícones. O que se pretende é tão somente apresentar uma palavra introdutória ao tema, para que o leitor brasileiro de origem protestante/evangélica tenha uma noção mínima do significado do ícone para o cristão ortodoxo oriental.

• Carlos Caldas, doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas.

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