Livro da Semana  | Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira

Cresci numa comunidade rural nas montanhas de Ozark em Arkansas, cercada pela beleza da natureza e pelo amor de Deus. Tive muita sorte: era um lugar receptivo, e tanto minha família quanto minha igreja ensinaram-me por meio de palavras e exemplos a viver em amor a Deus e aos demais. Que benção! Com montes, rios, lagos, fontes, prados e árvores ao meu redor, o mundo natural me cercava e nunca estava longe da nossa vida diária, do trabalho ou do divertimento. Vivíamos numa fazenda arborizada com vacas, cachorros, gatos, hamsters e vida selvagem bem ao nosso alcance. Foi nesse cenário que cresci, com um amor especial pelos animais, pelas florestas e pelo céu noturno cintilando de estrelas.

Também apreciava o estudo acadêmico na escola local, e a ciência era uma parte intrigante dele, ajudando-me a compreender o mundo natural que eu amava. Não conhecia nenhum cientista, de modo não poderia conceber que algum dia eu poderia ser uma cientista. Meus pais não haviam feito faculdade, mas deram todo o apoio para que seus quatro filhos chegassem ao ensino superior. No Natal, meu irmão mais velho e sua esposa davam-me muitas vezes presentes ligados à ciência, o que me passava uma mensagem de incentivo em relação a essa área de estudo.

Mas eu tinha também outros interesses: a música, a literatura e, especialmente, a matemática. Nossa pequena cidade rural tinha a sorte de contar com excelentes e dedicados professores, e graças a boa formação e incentivo que recebi deles tornei-me fascinada pelo modo pelo qual a matemática era capaz de resolver os quebra-cabeças da física. Foi por causa da confiança e do interesse que inculcaram em mim que busquei o ensino superior, ate mesmo em lugares bem distantes.

Na minha família, bem como para muitos dos meus amigos, a igreja e a fé em Deus eram algo central na nossa vida. Quando criança, participávamos das reuniões da igreja e da escola dominical toda semana, aprendendo sobre Deus e especialmente sobre Jesus e seu amor por nós. Fui batizada com alegria por volta dos 11 anos, como um símbolo de minha fé interior e de um vínculo eterno com a família que é a igreja. Meus pais procuravam viver de maneira integra e com fé, e a oração e a leitura da Bíblia ou de um devocional eram parte da nossa vida em família. Acampamentos no verão e grupos de jovens e adolescentes ajudavam-nos a aplicar as lições sobre o amor de Deus na pratica ao nos importarmos uns com os outros.

Contudo, eu crescia também como um ser humano (!), com a tendência humana de ser autocentrada, independente e orgulhosa, e, à medida que os anos se passavam, cercada pelas pressões sociais típicas da adolescência, com todos querendo “encaixar-se”. Em algum ponto, talvez mais de uma vez, fui confrontada pela realidade nua e crua como transmitida por pregadores destemidos: Jesus é o Senhor de todas as coisas, e ele quer que entreguemos nossa vida integralmente a ele. Ele ama com um amor todo-abrangente e deseja nos dar vida verdadeira, abundante e eterna e viver por meio de nós; sem ele não há vida real, nem alegria ou esperança. Ele voltará, e todos vamos ter de ficar diante dele algum dia, e toda a eternidade está em suas mãos. Estou vivendo para mim, ou para ele? Eu não havia feito coisas “terríveis” na minha vida que pudessem ser notadas por outras pessoas, mas sabia que meu coração precisava colocar a Deus em primeiro lugar. Orei e ofereci toda a minha vida a ele. Desde aqueles dias minha vida de fé centrou-se em buscar conhecer Jesus Cristo e segui-lo em todas as situações e estágios da vida, com todas as suas decepções, lutas e alegrias.

Um começo na astronomia

Jennifer Wiseman [NASA]

Como foi que a astronomia, minha profissão, finalmente surgiu? Foi uma junção entre o natural e o inesperado. Em primeiro lugar, crescer naquela fazenda incluía muitas vezes passeios com meus pais e com os cachorros à noite, com o céu noturno repleto de estrelas em todo o horizonte (a poluição ainda não havia maculado os céus, como ocorre muitas vezes hoje). Era natural que meus olhos fossem atraídos para cima, que fossem cativados pelo imenso número das estrelas e que eu fosse levada a me imaginar sendo transportada para uma visita a essas luzes brilhantes no céu. Naquela mesma época, um programa de televisão popular nos mostrava as primeiras imagens das luas exóticas ao redor de outros planetas, frutos das sondas planetárias Voyager e Pioneer, que foram as primeiras a ver de perto esses novos mundos fascinantes. Quando estudei sobre as superfícies fascinantes dos gelados Enceladus e Ganymede, o vulcânico Io e a intrigante Europa, eu sonhava estar nesses lugares pessoalmente. Mas não por muito tempo, já que logo percebi que os astronautas não podiam viajar a lugares tão distantes e, pelo menos num futuro próximo, explorar esses mundos longínquos exigiria usar um telescópio.

Assim, a astronomia tornou-se um tópico de grande interesse para mim. Certa vez, “construí” um buraco negro para nossa feira de ciências da escola. Felizmente, a minha invenção de papelão não possuía a mesma atração gravitacional gigantesca de um verdadeiro buraco negro astrofísico! Os buracos negros reais são formados a partir de estrelas que colidem, formando um material tão denso que seu campo gravitacional pode até mesmo distorcer o trajeto da luz, puxando-o para uma rota da qual não consegue mais sair. À medida que se aproximava o momento em que eu deveria escolher meu curso universitário, meus professores e meu irmão me incentivaram a escolher dentre as boas faculdades de ciências, e então, cheia de confiança, candidatei-me a diversas delas, e meus pais com muito sacrifício possibilitaram-me frequentar uma excelente. Fiz minha graduação no MIT.

Foi então que algo inesperado entrou em cena. Eu não sabia que até mesmo como estudante de graduação poderia envolver-me em pesquisas científicas verdadeiras. Foi muito empolgante poder participar, nos anos seguintes, de pesquisas ligadas a temas que iam da adaptação de astronautas no espaço a estudar os anéis do planeta Urano. Vi como era complicado trabalhar com dados reais. E também tive uma surpresa muito agradável. Num trabalho de campo no Observatório Lowell no Arizona, onde nós aprendíamos o que “verdadeiros astronautas” faziam notei um objeto inesperado numa fotografia do céu noturno que havia sido tirada recentemente com um telescópio. Ele não se parecia com os asteroides que deveríamos procurar. Era mais parecido com um cometa, embora fosse impossível confirmar sua identidade com uma única imagem. (Na verdade, a sua aparência de cometa deveu-se ao seu movimento durante a exposição!) Mas com a ajuda da equipe de profissionais ali localizamos novamente o objeto no céu e confirmamos tratar-se de um novo cometa! Naquela época eu não sabia se cometas eram descobertos a cada ano, ou todos os dias, ou a cada mil anos. Na verdade são descobertos cerca de doze cometas por ano, embora nem todos voltem a aparecer regularmente. Felizmente, aquele cometa retorna a cada seis anos e meio. Eu não tive nada a ver com o processo de nomeação, mas as autoridades responsáveis denominaram-no Cometa Wiseman-Skiff, em homenagem a mim e a Brian Skiff, o notável astrônomo de Lowell que havia tirado a foto que o revelou.

Naquela época eu estava orando por ajuda para encontrar um tópico para minha monografia de fim de curso, que era o requisito para me formar em física. A descoberta do cometa parecia ser a resposta, de modo que continuei a observá-lo e a estudá-lo com o telescópio da universidade por vários meses; e de fato ele tornou-se o tema da minha monografia. Hoje, minhas orações nem sempre são atendidas de modo tão “astronômico” (!), mas, desde então, sempre me intrigou o fato de que as pessoas lembram-se mais da descoberta do cometa do que de quaisquer outras pesquisas posteriores em outros temas com os quais trabalhei ao longo dos anos. Isso me faz lembrar que, em última análise, não se trata dos nossos próprios esforços (embora um trabalho benfeito seja algo bom), mas sim da provisão de Deus (e até mesmo de surpresas!).

Nota: Trecho retirado do capítulo “Inspirada pelos céus”, por Jennifer Wiseman, no livro Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira, Editora Ultimato.

• Jennifer Wiseman é astrônoma, palestrante e escritora. Bacharel em física pelo MIT e doutora em astronomia pela Universidade de Harvard, ela estuda a formação de estrelas na nossa galáxia utilizando radiotelescópios, telescópios óticos e infravermelhos. Ocupou vários cargos de liderança e em pesquisas em institutos de pesquisa nos Estados Unidos, bem como vários cargos na condução de políticas na área de ciências. Gosta de palestrar sobre seu entusiasmo pela ciência e pela astronomia para grupos acadêmicos, igrejas e o público em geral.

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