Livro da Semana  | O Deus Que Eu Não Entendo

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Quando nos deparamos com o fenômeno do mal, lutamos para aplicar nele toda a habilidade racional — filosófica, prática e solucionadora de problemas — que orgulhosamente aplicamos em todas as outras coisas. Somos levados a tentar entender e explicar o mal. Será que devemos simplesmente engolir nossas perguntas desesperadas, aceitar que o mal é um mistério e calar a boca? Será que faremos mais do que isso? Por que essas perguntas não funcionam?

Entender as coisas é uma necessidade humana fundamental. A narrativa da criação mostra que fomos colocados no meio ambiente criado para gerenciá-lo e subjugá-lo, o que implica obter entendimento sobre ele. Ser humano é ser encarregado de governar a criação, e isso exige o máximo de entendimento sobre a realidade que nos rodeia. O simples quadro de Gênesis 2, que mostra o primeiro humano nomeando o resto dos animais, é uma indicação desse exercício de reconhecimento e classificação racional. Nossa racionalidade é em si uma dimensão do fato de ser feito à imagem de Deus. Fomos criados para pensar! Nós precisamos investigar, entender, explicar; é uma característica humana peculiar que se manifesta em nossos primeiros meses de vida.

Então, entender as coisas significa encontrar o lugar delas no universo, prover para tudo que encontramos um lugar justo, legítimo e verdadeiro junto à criação. Nós instintivamente buscamos estabelecer a ordem, dar sentido, encontrar razões e propósitos, validar as coisas e então explicá-las. Como seres humanos feitos à imagem de Deus justamente com esse propósito, temos uma necessidade inata, um desejo insaciável e uma quase infinita habilidade de organizar e ordenar o mundo nesse processo de entendê-lo.

Assim, como esperado, quando nos deparamos com esse fenômeno do mal, lutamos para aplicar nele toda a habilidade racional — filosófica, prática e solucionadora de problemas — que orgulhosamente aplicamos em todas as outras coisas. Somos levados a tentar entender e explicar o mal. Porém, não funciona. Por quê?

Deus, em sua infinita perspectiva, e por razões as quais só ele conhece, sabe que para nós, seres finitos, o mal não pode e de fato não deve “fazer sentido”. Porque a verdade final é que o mal não faz sentido. “Sentido” faz parte da nossa racionalidade, que é em si parte da boa criação de Deus e da imagem de Deus em nós. Assim, o mal não pode fazer sentido, já que o sentido é em si algo positivo.

O mal não tem um lugar próprio junto à criação. Ele não tem validade, nem verdade, nem integridade. Ele não pertence intrinsecamente à criação, já que originalmente ela foi feita por Deus, e não pertencerá à criação, pois no final Deus irá redimi-la. Ele não pode e não será incorporado ao universo como uma parte racional, legítima e justa da realidade. O mal não está lá para ser entendido, mas para ser resistido e, no final, expulso. O mal era e continua a ser um intruso, uma presença estranha que tem se sentido quase (mas não de forma definitiva) inevitavelmente “em casa”. O mal está além do nosso entendimento porque não faz parte da realidade definitiva que Deus, em sua perfeita sabedoria e absoluta fidelidade, quer que entendamos. Então, quando se trata de sua revelação e de nossa busca, Deus tem retido seus segredos.

Pessoalmente, passei a aceitar isso como algo providencialmente bom. De fato, como tenho lutado com esse pensamento sobre o mal, traz certa dose de alívio. E penso que ele traz em si a implicação de que sempre que formos confrontados com algo completa e abominavelmente mal, assustadoramente corrompido ou apenas trágico, devemos resistir à tentação que está inserida na indagação: “Qual é o sentido disso?”. Não que não tenhamos resposta. Temos silêncio. E esse silêncio é a resposta para nossa pergunta. Não sentido. E isso é também algo bom.

Posso entender isso?

Não.

Eu quero entender isso?

Provavelmente não; se Deus decidiu assim, é melhor que eu não entenda.

Então, quero me habituar com o entendimento de que o Deus que eu não entendo escolheu não explicar a origem do mal; em vez disso, escolheu chamar minha atenção para aquilo que ele tem feito para lutar contra o mal e destruí-lo.

Talvez isso pareça uma resposta insuficiente para a questão do mal. Será que devemos simplesmente engolir nossas perguntas desesperadas, aceitar que o mal é um mistério e calar a boca? Será que faremos mais do que isso? Certamente sim.

Nós nos afligiremos.

Nós prantearemos.

Nós lamentaremos.

Nós protestaremos.

Nós gritaremos de dor e raiva.

Nós clamaremos: “Até quando esse tipo de coisa vai continuar?”.

E isso nos leva à segunda maior reação bíblica. Pois quando fazemos essas coisas, a Bíblia nos diz: “Tudo bem. Vá em frente. Eis aqui algumas palavras que você talvez queira usar quando se sentir assim”.

• Trecho retirado do livro O Deus que eu não entendo – Para compreender melhor algumas questões difíceis da fé cristã [Christopher J. H. Wright].

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