Livro da Semana  |  A Espiritualidade na Prática

Por Paul Stevens

 

A primeira e a última refeição

O primeiro presente para Adão e Eva, o primeiro mandamento e a primeira bênção de Deus, é a comida: “Disse Deus: “Eis que lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimento para vocês” (Gn 1.29). Mas o primeiro pecado também aconteceu no contexto do comer.

Adão e Eva estavam alojados em um jardim-santuário para desfrutar da comunhão com Deus, para promover comunhão e para serem cocriadores com Deus – tudo na presença dele. Mas, como a serpente havia indicado, a árvore do conhecimento representava a tentação de serem independentes de Deus – “ímpios” como Esaú, citando Hebreus novamente.

O primeiro casal poderia fazer uma refeição com o diabo e quebrar a comunhão com Deus, exatamente como aconteceu. Quando eles viram que ela era “boa de comer” (uma questão de provisão), “agradável aos olhos” (esteticamente bela) e “desejável para dar entendimento” (obtenção de poder), comeram. Por que o pecado entrou na família humana por meio de uma refeição comum? Seria porque não existe algo como uma refeição comum?

Falando sobre isso com grande profundidade, Leon Kass diz:

Embora a árvore do conhecimento do bem e do mal seja apenas uma metáfora – o conhecimento não dá em árvores –, a imagem sugere uma clara relação entre a autonomia e a voracidade humanas, ao representar o limite da autonomia na forma de um limite para a voracidade… Deus buscou proteger o homem da expansão de seus desejos para além do naturalmente necessário, ou da substituição do desejo dado pela natureza pelos desejos criados por nossa própria mente e imaginação. Essas perspectivas tentadoras, porém perigosas – de autonomia, escolha, independência e aspiração pelo controle pleno, e do desejo emancipado e insaciável – estão sempre presentes no centro da vida humana… Quando a voz da razão despertou, e a simples obediência foi questionada (tornando-se, portanto, não mais possível), os desejos do homem começaram a sobressair. Embora não soubesse exatamente o que isso significava, o homem imaginou que seus olhos seriam abertos e ele seria como deus, ou seja, autossuficiente, autônomo, independente, conhecedor, talvez imortal e, por fim, livre. Assim foi a promessa da serpente – a voz suave que fez a primeira pergunta do mundo e, dessa forma, perturbou sua paz para sempre.1

Jesus foi igualmente tentado no contexto do comer. Tendo jejuado por quarenta dias no deserto, ele estava com fome, e Satanás o convidou para usar seus poderes sobrenaturais transformando pedras em pães. A resposta de Jesus é profunda: “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Jesus estava, de fato, citando Deuteronômio 8, em que a questão não é viver baseado nas Escrituras, mas depender daquilo que Deus dá de si (que é o verdadeiro sentido do discurso de Deus). “Assim, ele os humilhou e os deixou passar fome. Mas depois os sustentou com maná… para mostrar-lhes que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor” (Dt 8.3). Assim, a mesa é um teste: podemos confiar em Deus para a nossa provisão e viver em constante atitude de ação de graças?2

 

Ao deixar um memorial de si, não deixa um livro, mas uma refeição

Porque Jesus era e é Deus, o Deus que se doa (a Palavra), ele se autodefine e define a sua missão ao usar o imaginário da comida: “Eu sou o pão da vida”. Ele nos convida a comê-lo. Chama a atenção o fato de que, quando Jesus quer deixar um memorial de si, não deixa um livro, mas uma refeição.3 A mesa foi um lugar de tentação para Judas também: aceitar que Jesus estabeleceria o reino por meio da fraqueza e do sofrimento na cruz, e não da insurreição militar. Ela é um teste para Tiago e João, que quiseram usá-la para proveito pessoal, como Jacó. Mas, assim como na renovação da aliança no Antigo Testamento, vemos Deus, o comer e o beber mais uma vez – um sacramento.
O famoso iconógrafo russo Andrew Rublev apreende a essência da refeição comunitária em sua interpretação sobre Gênesis 18, em que Abraão e Sara hospedam estranhos e por fim descobrem tratar-se de anjos – mensageiros trazendo a presença de Deus. Em sua obra, Rublev mostra três anjos representando Pai, Filho e Espírito Santo à mesa do convite com um cálice ao centro, ilustrando a dupla hospitalidade à mesa da comunhão – nossas boas-vindas a Deus em nosso coração e as boas-vindas de Deus à sua casa de amor. Os três parecem estar apreciando a companhia uns dos outros e formam visualmente uma comunhão ovalada. Seus corpos, no entanto, estão voltados na direção do observador, como num gesto de convite. Somos desejados à mesa de Deus, e aquele que está assentado mais próximo tem a mão sobre o cálice, assim como Deus coloca sua mão sobre o mundo. E tudo isso acontece no contexto de uma refeição.
Jesus ilustra o fim da história da salvação com uma festa. Diversas vezes isso é sugerido nas parábolas – da festa de boas-vindas do filho pródigo ao banquete de casamento para o qual ele havia convidado todos os maltrapilhos do mundo. Na mente dos religiosos, até mesmo seu estilo de trabalho é considerado impuro porque ele comia com cobradores de impostos e pecadores, e parecia ser, comparado ao asceta João Batista, “um comilão e beberrão” (Mt 11.19), a exemplo do filho rebelde de Deuteronômio 21.20.

A Bíblia termina com uma visão dupla do comer – nosso destino final. Haverá um casamento e um velório. Apocalipse 19 diz que os santos desfrutarão “do casamento do Cordeiro” (v. 9) e para os permanentemente ímpios (como Esaú) haverá um velório após o julgamento (v. 11-21). O modo como comemos diz tudo. Assim como disse acerca de Esaú e de Jacó. Um tinha inveja do que o outro possuía. Esaú tinha inveja da comida de Jacó; Jacó tinha inveja da posição de Esaú na família. O coração de cada um deles foi revelado no comer. Todos nós ficamos vulneráveis quando estamos à mesa.

 

Refeição comovente

Os pais sabem que a disciplina inibe a digestão. A mesa das refeições, se alguém se importa em ter uma, é o pior lugar para se disciplinar um filho. Amigos sabem que não dá pra sentar e comer junto se há algo pendente, um pecado não confessado, entre eles. Quando isso acontece, ela se torna mesa da manipulação e do engano. A comida não é só para a nutrição, mas também para a comunhão, e não somente comunhão entre pessoas, mas também comunhão com Deus. Em quase todas as culturas, uma negociação comercial é selada durante uma refeição. Os amantes descobrem companhia (–com significa “partilhado” e –panhia vem da palavra que significa “pão”). Quando queremos a companhia de alguém, repartimos o pão. E quando queremos a companhia de Deus, vamos à mesa. De fato, o propósito da eucaristia na igreja é nos capacitar a viver eucaristicamente a vida como um todo. Desse modo, descobrimos Deus no trabalho, na família, na vizinhança e na mesa simples da cozinha (alimentando-nos com Deus e de comida ao mesmo tempo). Robert Capon aconselha que devemos comer, antes de tudo, “festivamente, pois a vida sem celebração não vale a pena ser vivida. Mas sem festa também, pois a vida é muito mais que uma celebração, e a sua grande simplicidade nunca deve passar desapercebida”.4

 

Por que comer?

Afinal, por que comer? Comemos por satisfação. Também nos encontramos para servir. A hospitalidade à mesa é uma das maneiras primárias de mostrarmos o amor de Deus. Reuven Kimelman, professor de Talmude e de Midrash, explora o impacto do exílio sobre os membros ou ministros “leigos” em Israel. Eles foram apartados do templo e de sua liturgia formal, mas não separados da vida em Deus. Por isso, multiplicaram as bênçãos – bênçãos para a hora da refeição e bênçãos para fazer amor, centenas delas para cada dia, assim como as centenas de encaixes necessários para manter o templo em pé. Agindo dessa forma os rabinos tentaram não transformar a comunidade judaica em uma democracia, mas levantar todas as pessoas para que se tornassem sacerdotes juntas.
Os horários de refeição eram vistos como ocasiões para que aquilo que é comum e ordinário fosse inundado pelo céu. De acordo com o Talmude, “enquanto o templo esteve em pé, o altar promovia reconciliação a Israel, mas agora a mesa de um homem promove essa reconciliação por ele”.5 Parte da reconciliação era receber estrangeiros e pobres à mesa – um princípio que levou a Espanha medieval à prática do sepultamento de ricos benevolentes em caixões preparados com a madeira de suas mesas de refeição. As mesas, desse modo, se tornam altares rabínicos. “Quando dois se assentam juntos e as palavras entre eles são da Torah, a presença divina está no meio deles” (Avot 3.3).6 Desse modo, comemos como missão, estendendo o reino de Deus, reino de amor e de transformação, ao mundo.

Também comemos como sacramento, encontrando-nos com Deus. Cada refeição é uma lembrança da provisão criadora de Deus (por isso oramos “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”). Mas ela é também uma confissão de adoração (por isso oramos “santificado seja o teu nome”). Cada refeição é um rumor da encarnação, de que Deus reveste a si mesmo de carne, de que Deus está presente naquilo que é comum, que é corriqueiro. Cada refeição é um relance da redenção quando damos as boas-vindas uns aos outros ao redor da mesa mostrando a hospitalidade de Deus e, por incrível que possa parecer, experimentando essas boas-vindas enquanto as repartimos – recebendo aquilo que oferecemos.

Finalmente, comemos como profecia. Cada refeição faz com que voltemos nossos olhos para o futuro, aguardando o fim pelo qual todas as angústias da história humana anseiam, a segunda vinda de Cristo e a plena consumação do reino de Deus, os novos céus e nova terra, e – adivinhe! – uma maravilhosa refeição.
Portanto, comer é uma janela para a eternidade e um caminho para Deus.7 Leon Kass comenta, com sensibilidade:

A alma faminta busca satisfação nas atividades animadas também por perplexidade, ambição, afeição, curiosidade e encantamento. Nós, seres humanos, nos deleitamos na beleza e na ordem, na arte e na ação, na sociabilidade e na amizade, na percepção e na compreensão, na canção e na adoração… Todos esses apetites da alma faminta podem ser, de fato, parcialmente saciados à mesa, desde que nos aproximemos dela com o espírito apropriado. A refeição à mesa é a forma cultural que nos capacita a responder simultaneamente a todas as características dominantes do mundo: necessidade interior, plenitude natural, liberdade e razão, comunidade humana, e a misteriosa fonte de tudo isso. Na refeição humanizada, podemos alimentar nossas almas até mesmo enquanto alimentamos nossos corpos”.8

Notas
1. KASS. Hungry Soul. p. 208-209.
2. As três narrativas sobre tentação na Bíblia (Gn 3.1-19; Mt 4.1-11; 1 Jo 2.16) possuem uma simetria extraordinária, ao exporem três testes de verdadeira espiritualidade que ocorrem na vida cotidiana: 1) na provisão: “bom para se comer”; “transformar pedras em pão”; “a cobiça da carne”; 2) no prazer:“atraente aos olhos”; “joga-te”; “a cobiça dos olhos”; e 3) no poder: “desejável para obter conhecimento”; “tudo isto te darei”; “a ostentação dos bens”.
3. A salvação é um convite aberto a uma mesa repleta de alimento (Sl 23.5; 36.7-9; Is 4.6; Jl 3.18; Am 9.13-14; Ap 19.1-10). Refeições são importantes em toda a Bíblia. Sara e Abraão cozinham para estranhos em Manre (Gn 18.2-8); a viúva de Sarepta alimenta Elias (1 Rs 17); Deus alimenta o seu povo por quarenta anos com o maná no deserto (Êx 16.32-36).
4. CAPON, Robert Farrar. Supper of the Lamb: a culinary reflection. Nova York: Smithmark, 1969. p. 27.
5. In: KIMELMAN, Reuven. Judaism and ay ministry. NICM Journal 5, n. 2, p. 47, 1980.
6. Ibid. p. 51. Veja Mateus 18.20.
7. Veja também HOLT, Simon. Eating. p. 322-328; KERR; Patricia. Hospitality. p. 505-510; WILKINSON, Mary Ruth. Meal preparation. p. 613-615. In: BANKS, STEVENS. Complete Book. Os seguintes recursos também podem ser consultados: BARER-STREIN, T. You Eat What You Are. Toronto: McClelland & Stewart, 1979. BELL, D., VALENTINE, G. Consuming Geographies: we are where we eat. Londres: Routledge, 1997. BRAND, Paul. The Forever Feast. Ann Arbor: Servant, 1993. CHARLES, N., KERR, M. Women, Food and Families. Manchester, U. K.: Manchester University Press, 1988. DAVIES, H. The Bread of Life and the Cup of Joy: never ecumenical perspectives on the eucharist. Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1993. KOENIG, J. New Testament Hospitality. Philadelphia: Fortress, 1985. MENNELL, S., MURCOTT, A., OTTERLOO, A. van. The Sociology of Food: eating, diet and culture. Londres: Sage, 1992. NOUWEN, Henri. Can you drink the cup? Notre Dame, Ind.: Ave Maria, 1996.
8. KASS. Hungry Soul. p. 228.
• Trecho retirado do livro A Espiritualidade na Prática, de Paul Stevens (Editora Ultimato).

Leia mais

> O sabor da vida depende de quem a tempera

> À mesa com Jesus, edição 368, revista Ultimato.

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