Livro da Semana  |  Sou eu, Calvino

Uma coisa é certa: quando as riquezas dominam o homem, Deus é despojado de sua dominação

 

A salvação somente pela graça de Deus e não pelas obras, como o senhor insiste sempre, não desobriga o crente reformado das boas obras?
De modo nenhum. As boas obras não causam a salvação, mas devem ser a causa dela. É uma questão de ordem: primeiro a salvação e, depois, as obras. Pode-se dizer que a doutrina do sola gratia santifica as obras, pois arranca delas a chaga da barganha e as torna uma expressão da gratidão e louvor a Deus. Em Genebra damos muita importância à ação social. Temos exercido grande influência sobre o governo civil da cidade. Daí as leis até sobre saúde e segurança. Cuidamos das coisas grandes e das pequenas. Por exemplo, é proibido jogar lixo ou excrementos humanos nas ruas, é proibido acender uma lareira em quartos sem chaminés, é proibido construir uma sacada sem grades (para evitar que as crianças caiam dela). Intrometemo-nos em tudo: uma enfermeira não pode levar consigo para a cama os bebês, os vigias noturnos devem fazer suas rondas com responsabilidade, os negociantes não podem cobrar demais pela sua mercadoria. Na época das eleições, o pregador da Catedral de Saint Pierre deve pregar sobre a necessidade de eleger homens piedosos, e os eleitos são exortados a governar sob a direção de Deus e para a glória dele. Em nossas exposições bíblicas, apontamos como contrárias à ética cristã as habituais manobras para aumentar o lucro, tais como a estocagem de trigo na esperança de que ele suba de preço, a especulação financeira e o monopólio. Quando o primeiro dentista montou seu consultório em Genebra, eu mesmo fiz a primeira consulta para testar sua competência.

Antes de sua primeira chegada a Genebra, Guilherme Farel, na tentativa de moralizar a cidade, colocou rédea curta em todo mundo. Por exemplo, a presença aos cultos dominicais era obrigatória, sob pena de pesadas multas. Leis severas demais dão resultado?
Minha experiência diz que não funcionam nem em curto nem em longo prazo. Temos de pedir sabedoria a Deus, tanto para não pesar demais como para não pesar de menos. Não podemos cair nem no legalismo (não faça isso, não faça aquilo) nem na frouxidão (não é pecado isso, não é pecado aquilo). Temos de apelar mais ao coração do que à coerção. Naturalmente algumas leis foram necessárias para disciplinar Genebra e torná-la uma cidade reformada não só nominalmente. Fizemos leis para regulamentar o uso de bares, para proibir a blasfêmia contra Deus, a venda de pão e vinho a preços acima dos estipulados, a prática do jogo de cartas (que tirava o dinheiro de muitos em favor de poucos) etc. Tornamos obrigatória a instrução pública. Acabamos com os muitos dias santos herdados da Igreja Católica e devolvemos ao domingo a importância que ele deve ter, tornando-o verdadeiramente o dia do Senhor, o dia de ir à igreja, o dia de descanso semanal. Embora nossas intenções fossem as melhores possíveis, descobrimos que leis por demais severas, que excedem os limites do razoável, provocam insatisfação, mesmo entre os crentes verdadeiros. Os libertinos, que pendiam para o lado oposto, acabaram nos expulsando de Genebra, eu e Farel, em abril de 1538.

O senhor tem sido contra o luxo, a extravagância e os gastos supérfluos. Mas, se a pessoa que se entrega a isso é alguém honestamente rico, ele não tem o direito de gastar o seu dinheiro como bem entende?
Mesmo não havendo a menor suspeita sobre a origem da fortuna de alguém, de modo nenhum ele deve esbanjar o seu dinheiro com o consumismo desenfreado. Isso é pecado, para não usar a palavra crime. É pecado porque ao redor dele há muitos que não têm teto, não têm o que comer nem o que vestir, seja irmão na fé ou não. Os mandamentos de Deus em favor dos pobres, das viúvas, dos órfãos, dos imigrantes e dos incapacitados para o trabalho aparecem com impressionante frequência em toda a Bíblia, tanto na antiga dispensação como na nova. Uma vez convertido, Zaqueu, além de separar algum dinheiro para restituir aos que porventura tivessem sido lesados por ele, tomou a decisão de repartir a metade de seus bens com os pobres. Os fazendeiros do Antigo Testamento não deveriam colher todos os frutos de seus campos, mas deixar pelo menos os cantos das plantações para os necessitados, segundo a lei da rebusca da qual as viúvas Noemi e Rute se valeram. A extravagância é sinal de egoísmo e, portanto, pecado, e pecado grave. Na parábola do bom samaritano, Jesus mostra que tanto o sacerdote como o levita não quiseram gastar tempo, esforço e dinheiro com aquele semimorto à beira da estrada. O que os ricos perdulários gastam com o luxo e o supérfluo daria para construir orfanatos, abrigos para os sem moradia, escolas e hospitais. Os proprietários de grandes extensões de terra, muitas vezes abandonadas, poderiam dividir uma parte delas em pequenos sítios e doar a famílias pobres e desempregadas. Os donos de grandes fortunas deveriam abrir novas empresas, não para obterem mais dinheiro, mas para criar mais ofertas de trabalho. Uma coisa é certa: quando as riquezas dominam o homem, Deus é despojado de sua dominação. O caso é sério!

No seu entender, o oitavo mandamento da lei de Deus – “não roube” – significa apenas subtrair alguma coisa alheia?
Defraudamos o próximo de seu bem quando deixamos de cumprir com os deveres dos quais somos incumbidos. Estou certo de que aquele que não se desincumbe para com os outros das obrigações que sua vocação inclui retém o que pertence a outrem. Trocando por miúdos: ele está quebrando o oitavo mandamento, dando mau testemunho e fazendo sofrer ainda mais os que já sofrem.

Afinal, o senhor é contra ou a favor da desobediência civil?
O governo civil é tão necessário quanto pão e água, luz e ar. Sou a favor da hierarquia na área conjugal (a liderança do marido), na área familiar (a liderança dos pais) e na área social (a liderança dos magistrados). Sem essas lideranças, ocorre o caos. Todavia, por causa da Queda, todas elas podem falhar, tanto pela omissão como pelo abuso. Se sou contra ou a favor da desobediência civil, tenho de tomar muito cuidado com a resposta, porque ela pode ser torcida e generalizada. Entendo que cometemos um crime contra o próprio Deus quando obedecemos a ordens e exigências de um governo contrário à vontade expressa de Deus. Por esta razão, não temo em afirmar que Daniel não pecou ao desobedecer a ordem dada por Nabucodonosor para que toda a população do vasto império babilônico adorasse a estátua que ele mandou erguer. Diria o mesmo a respeito das parteiras Sifrá e Puá que, em desobediência ao rei do Egito, deixaram vivos os filhos das mulheres hebreias, incluindo Moisés. Também diria o mesmo a respeito da desobediência religiosa dos apóstolos que não deixaram de anunciar o evangelho, desprezando a decisão quase unânime do sinédrio.

O senhor é contra o serviço militar?
Sou absolutamente contra o uso bélico em defesa da fé e em defesa dos perseguidos por sua fé. Nossas armas são diferentes. Quando os tiranos lançam suas baforadas, devemos volver nossos olhos para contemplar o socorro que Deus dá aos seus. Sofrer perseguição não significa ser abandonado por Deus. Os tormentos são uma provação e os tiranos não podem sobre nós mais do que Deus lhes permite, como se vê claramente na história de Jó. Temos de aprender a esperar a mão de Deus. Em algum momento, ele freará o furor dos tiranos e os fará cessar a despeito de seus dentes e fúria. Ganhar uma guerra religiosa pela força não nos é lícito. Tudo quanto sustentarmos temerariamente sem a aprovação do Mestre não pode ter um resultado feliz. Sou igualmente contrário ao engajamento do crente num exército mercenário. Se há gente no mundo que seja desregrada é aquele que, em vez de aplicar-se a algum trabalho honesto e legítimo, corre atrás de um soldo a quem mais lhe dá. E sobre que condição? Para matar e ferir ou, então, para ser morto ele próprio. Por causa da oferta – é muito comum hoje convocar soldados mercenários –, essa é uma tentação muito forte para os nossos jovens. Zuínglio em Zurique e eu aqui em Genebra temos lutado contra isso.

Para ser verdadeiramente piedoso, o crente precisa evitar qualquer contato com a sociedade, com o mundo secular?
A piedade de alguns anos atrás preconizava isso. Mas o ensino de Jesus é exatamente o contrário. Na chamada oração sacerdotal, feita na noite de quinta para sexta-feira, Jesus orou ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Jo 17.15). Se o crente fugir do ambiente não cristão, como será luz do mundo e sal da terra?

A única coisa a fazer agora é esperar a plenitude da salvação?
Esperar só não! Isso nos levaria à indolência, à impaciência, à irritação. Precisamos adquirir a consciência não só da grande comissão, mas também de que a igreja é uma antecipação do reino de Cristo em sua vinda. Somos como uma sociedade provisória, mesmo imperfeita, governada pelas leis de Cristo. Temos um ministério didático (a igreja precisa pregar e ensinar), um ministério político (a igreja precisa vigiar o Estado) e um ministério social (a igreja precisa socorrer os necessitados). Vem a calhar a citação de Paulo que aparece na Carta aos Efésios: “Você que está dormindo, acorde!” (Ef 5.14).

• Trecho retirado do livro Sou Eu, Calvino – Conversas com o Reformador – Uma Biografia, de Elben César (Editora Ultimato).

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  1. Na primeira linha está escrito: “As boas obras não causam a salvação, mas devem ser a causa dela”…

    Conclusão: as boas obras não causam a salvação, mas… DEVEM SER A CAUSA DELA? Uma auto contradição da afirmação.
    O que se está afirmando então é que tanto em um quanto em outro caso, as boas obras CAUSAM a salvação.

    O correto seria escrever: As boas obras não CAUSAM a salvação, mas devem ser a CONSEQUÊNCIA dela. Aí, sim, a frase seria correta.

  2. Ricardo Antonio de Abreu

    De modo nenhum. As boas obras não causam a salvação, mas devem ser a causa dela. É uma questão de ordem: primeiro a salvação e, depois, as obras.

    Este trecho da resposta à primeira pergunta acima me parece incorreto. Por ventura não seria: As boas obras não causam a salvação, mas devem ser a consequência dela?

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