Arte para todos | Exclusivo online
Por Silvana Bezerra

Uma comunidade numa grande cidade do interior de São Paulo esquecida pelo mundo. Meia dúzia de assassinatos de gente invisível em alguns fins de semana. Crianças que assistiam a tudo e aprendiam sobre um mundo desigual.

Horas de viagem na África do Oeste até chegar numa cidade esquecida pelo mundo, perto da divisa do Senegal com Guiné Bissau. Quase um milhão de talibès pelo caminho (meninos de rua), milhares de pequeninas meninas mutiladas, crianças que nunca haviam calçado um sapato na vida.

O que essas realidades citadas acima tem a ver com minha atividade artística? Comecei a pintar na adolescência, porque gostava, porque me dava prazer, porque tinha algum talento. Trabalhando com crianças de comunidade comecei a ensinar pintura. Vi que a arte poderia ser usada por Deus como instrumento de cura, de transformação, de empoderamento. Nossas oficinas falavam de Van Gogh, das casas da favela, das cores do bairro. E pintávamos a realidade e o sonho. Em algumas crianças, o Reino que tudo ilumina chegava transformando as pinturas. As vezes a criança que só pintava caveira e sangue se transformava num artista que pintava flores e rios em tons pastéis. A arte mostrava que o toque do Eterno tinha serenizado as cores internas.

Depois dessa marcante experiência fiquei  muitos anos sem pintar. A minha história tomava novos rumos, uma família para cuidar, dois filhos, um mestrado, um doutorado e uma carreira acadêmica me afastaram da arte. Até viajar para o Senegal-África achando que ia levar Jesus e encontrar Ele também lá já nos esperando com um balde de tinta e pincéis.

Fomos até lá pintar o centro social onde também funciona a igreja. Nada naquela cidade esquecida era colorido, tudo era na cor de terra vermelha, ou a cor do lixo de cada esquina.

 E começamos a pincelar as paredes, a tirar o encardido do tempo com cor, muita cor. Gastamos todo o estoque de tinta da cidade! Cada vez que eu voltava à loja querendo mais tinta os vendedores olhavam pensando: só pode ser coisa de toubab (gringo).

As paredes foram ficando coloridas, flores foram pintadas. No barrado do salão escrevemos com cores diferentes os versículos que falavam da criança e do Reino. E o Reino começou a brilhar ainda mais…

As crianças, a cada dia do nosso trabalho de pintura, aumentavam a expressão de alegria: “c’est joli”( está lindo) falavam no primeiro dia. Nos dias seguintes a expressão de alegria  ia ficando mais forte, bem como a quantidade de palavras para tentar reforçar o quanto aquilo mexia com elas ( “c’est très, très, très, très joli– está muito, muito, muito, muito lindo). Vinham pessoas de toda a cidade ver e perguntar o que era aquele lugar tão colorido. Quando falávamos que era um lugar feito para as crianças, pelo Deus que amava as crianças e se importava com elas, as pessoas perdiam a voz. Ali criança não tinha valor, era menos que um animal muitas vezes. Nossa pregação de que o Reino era delas chegou com simples pinceladas coloridas nas paredes: e todos entenderam… Alguns nunca tinham vista sequer um pincel, alguns me pediam para ensina-los a pintar e falavam que se aprendessem aquilo suas vidas poderiam mudar!

Além da pintura, os meus olhos fotografaram tristezas que eu ainda não conhecia como as meninas mutiladas que não sabiam sorrir. Que chegaram na oficina que fizemos para elas e queriam ir embora, pois acharam que o lugar lindo, todo enfeitado não era para elas. E perguntavam: “quem vai chegar aqui de tão importante?”. E eu tive a mais linda experiência de evangelização da minha história quando pude dizer: “já chegaram, são vocês as pessoas mais importantes. Alguém que ama muito, muito vocês, chamado Jesus, nos mandou aqui para fazer tudo isso”. E mais uma vez, pelas cores pintadas de amor nas paredes, elas entenderam a Mensagem das Boas notícias.

E como voltar com tudo isso nas malas para o Brasil? A bagagem veio pesada…

Hoje eu pinto quadros revertendo toda a renda para projetos apoiados pelo “Retalhos de Esperança”, trabalho lindo iniciado pela minha amiga Zazá para apoiar refugiados sírios e tantas outras pessoas em extrema vulnerabilidade social. E para apoiar projetos da ong cristã “Missão Peixes” que apoia projetos em comunidades aqui no estado do Rio e esse que eu citei lá no Senegal-África.

Mas porque voltei a pintar? Durante apenas dois meses, depois de voltar da viagem ao Senegal, pintei cinquenta quadros.

Foi uma catarse onde vomitava em cores as dores em preto e branco que inundavam minha alma. Tinha que pintar o olhar daquelas mulheres, tinha que profetizar em cores que aquelas meninas voltariam a sorrir. Tinha que pintar o talibè não mais sendo espancado para pedir dinheiro, mas sorrindo e brincando, como deveria ser a vida de todas as crianças do mundo. E minhas pinturas foram minhas orações, foram lágrimas de muita dor transformadas em cores e vida.

Hoje, quando pinto, penso que aquele quadro será cobertor para que um pequeno sírio não morra de frio, será o brinquedo da brinquedoteca, o livro da biblioteca que estão construindo, a cadeirinha do pré -escolar.

E não quero só fazer “por eles”, quero fazer “com eles”. Agora em maio volto para o Senegal para fazer a primeira oficina de pintura COM eles. Sonhando que pintem suas alegrias e dores, e os quadros também sejam luz e vida, sejam o sapato que falta, a comida que é rara. Estar com eles para perceberem que podem construir com cores sua própria história.

E quem sabe depois ensinar também as crianças sírias, congolesas, tunisianas, marroquinas, brasileiras do Retalhos de Esperança.

Porque o Reino é justiça, vida, esperança, fé. E tudo isso pode chegar também colorido numa pincelada de amor.

• Silvana Bezerra é professora universitária, doutora em educação, mãe, escritora e artista plástica nos tempos livres.

Aprecie na galeria um pouco do trabalho que Silvana fez no Senegal.

  1. Silvana é minha amiga e parceira de caminhada. Sou também Retalhos de Esperança. Li a matéria em lágrimas. Lágrimas de alegria, de Gratidão e Esperança, crendo que outras pessoas sejam inspiradas, tocadas a olhar e trabalhar pelo Reino.

  2. Tão profunda experiência de amor e fé. Tenho o privilégio de ter um desses quadros em minha sala, no escritório do Projeto Calçada. Silvana retratou um menino puxando uma garrafa pet como se puxasse um carrinho, enquanto sua mãe segura um de seus braços e carrega um bebê nas costas.
    Resiliência da criança é o que transmite seu quadro para mim.
    Lido com histórias bem duras de crianças e adolescentes. E esse quadro tenho ao meu lado para lembrar sempre da resiliência e criatividade da criança. Inspiração e fé.
    Agradeço muito, Silvana por compartilhar em cor e palavras sua esperiência no Senegal.

  3. E uma honra lhe ter como professora, tenho a prendido não só o conteúdo que o sistema nos propõe, mas a olhar o ser humano com outros olhos e assim me conhecendo melhor… .. Lindo o trabalho muito sucesso..!!

  4. SILVANA, FIQUEI COMOVIDA COM SEU TRABALHO. PARABÉNS ! QUE AS CORES LINDAS QUE FORAM IMPRIMIDAS NA VIDA DESSAS CRIANCAS SE ESPALHEM PELO MUNDO TÃO CHEIO DE VERMELHO, PRETO E CINZA. QUE AS CORES LINDAS DA VIDA FLORESCENDO VOLTEM PARA TODOS. OBRIGADA POR FAZER A DIFERENÇA E LEVAR A ESPERANCA E CONFORTO. DEUS ESTÁ EM TODA PARTE . SÓ É PRECISO QUE QUEIRAMOS RECONHECE-LO.

  5. Foi com lágrimas nos olhos que li está reportagem, o amor de Deus pelos seus semelhantes é assim, não mede esforços, faz e segue adiante. Silvana tu és realmente aquela que faz a diferença, apesar do teu pouco tempo restante tu estende o máximo que podes. Que Deus te abençoe e ilumine sempre. E que tu possas levar sempre a esperança para todos.

  6. Mariane Aparecida Schuenck

    Silvana, você é um presente de Deus para todos nós! Que Deus continue te dando forças para continuar nessa caminhada ! Conte sempre com o nosso apoio.

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