Por Francis Collins

[Livro da Semana]

Nada que eu havia aprendido sobre a ciência poderia explicar aquela experiência.

Em 1989 passei alguns meses num pequeno hospital em Eku, no delta do Níger. Aquilo era diferente de qualquer coisa que eu já havia conhecido. Nunca havia leitos suficientes, de modo que pacientes muitas vezes precisavam dormir no chão. Suas famílias muitas vezes viajavam com eles e assumiam a responsabilidade de alimentá-los. Com frequência os pacientes só iam ao hospital quando a doença já estava avançada. Sobrecarregado com a enormidade desses problemas, exausto pelo fluxo constante de pacientes com doenças as quais eu não tinha grande preparo para diagnosticar, frustrado pela falta de apoio laboratorial e de raio X fui ficando cada vez mais desmotivado e me perguntando por que eu havia pensado que aquela viagem seria uma boa ideia.

Uma tarde, na clínica, um jovem trabalhador rural com uma fraqueza progressiva e um grande inchaço nas pernas foi trazido pela sua família. Tomando seu pulso, fiquei assustado ao perceber que este praticamente desaparecia todas as vezes que ele inspirava. Embora eu jamais tivesse visto esse sinal físico típico (referido como “pulso paradoxal”) de uma maneira tão dramática, parecia bastante provável que isso significava que o rapaz havia acumulado uma grande quantidade de fluido no saco pericárdico ao redor do coração. Esse fluido ameaçava cortar sua circulação e tirar sua vida. O único modo de salvá-lo seria fazer um procedimento de alto risco de extrair o fluido com uma seringa de agulha bem grossa inserida no seu peito. Num país desenvolvido, esse procedimento seria feito somente por um cardiologista altamente experiente, guiado por um aparelho de ultrassom, de modo a evitar lacerar o coração e causar morte imediata.

Não havia ultrassom. Nenhum outro médico ali naquele pequeno hospital nigeriano havia realizado esse tipo de procedimento. Eu tinha de escolher entre fazer uma aspiração extremamente invasiva e arriscada ou simplesmente assistir ao trabalhador rural morrer. Expliquei a situação ao jovem, que então se deu conta da sua precária condição. Ele calmamente pediu-me para fazer o procedimento. Com o coração na mão e uma oração nos lábios, inseri uma enorme agulha logo abaixo do seu externo e a direcionei para seu ombro esquerdo, o tempo todo temendo ter feito um diagnóstico errado, em cujo caso eu quase certamente o mataria.

Não precisei esperar muito. Um jato de fluido avermelhado na seringa trouxe-me um pânico inicial de que houvesse penetrado uma das câmaras cardíacas, mas logo tornou-se claro que aquilo não era sangue. Era uma enorme quantidade de uma efusão tuberculosa do saco pericárdico. O jovem respondeu ao tratamento de maneira dramática. Seu pulso paradoxal desapareceu quase instantaneamente, e nas 24 horas seguintes o inchaço de suas pernas melhorou rapidamente.

Por algumas horas depois dessa experiência senti uma enorme sensação de alívio, até mesmo exultação pelo que havia ocorrido. Porém, na manhã seguinte a tristeza com a qual já estava familiarizado começou a me dominar. Afinal de contas, as circunstâncias que haviam levado aquele rapaz a contrair tuberculose não iriam mudar. Mesmo se ele sobrevivesse à doença, algum outro mal evitável devido à água não tratada, nutrição inadequada e ambiente perigoso provavelmente não estava muito distante no futuro dele. As chances de um trabalhador rural nigeriano viver muito tempo não são muito grandes.

Com esses pensamentos desencorajadores na mente, aproximei-me do seu leito, onde ele lia a sua Bíblia. Ele olhou-me intrigado e perguntou-me se eu trabalhava há muito tempo naquele hospital. Admiti que era novato, sentindo-me irritado e envergonhado pelo fato de isso ser tão patente para ele. Mas foi então que aquele jovem trabalhador rural nigeriano, tão diferente de mim no tocante a cultura, experiência e ancestralidade quanto possível a dois seres humanos, proferiu as palavras que ficarão para sempre gravadas na minha mente: “Tenho a impressão de que o senhor está se perguntando o que veio fazer aqui”, ele disse. “Tenho uma resposta para o senhor. O senhor veio aqui por uma razão; veio aqui por minha causa”.

Fiquei aturdido. Aturdido por ele poder enxergar tão claramente meu coração, mas ainda mais aturdido pelas palavras que ele disse. Eu havia inserido uma agulha perto do seu coração; ele traspassou o meu diretamente. Com algumas palavras singelas, ele havia envergonhado meus sonhos megalomaníacos de ser o grande médico branco curando milhões de africanos. Ele estava certo. Somos todos chamados para alcançar outras pessoas. Em algumas raras ocasiões isso pode ocorrer em grande escala. Mas na maior parte do tempo isso ocorre por meio de simples atos de bondade de uma pessoa para a outra. Esses são os acontecimentos realmente importantes.

As lágrimas de alívio que anuviavam minha visão enquanto eu digeria suas palavras provinham de uma segurança indescritível. A segurança de que ali, naquele lugar estranho, e somente naquele instante, eu estava em harmonia com a vontade de Deus, unido a aquele rapaz da maneira mais incomum, mas maravilhosa.

Nada que eu havia aprendido sobre a ciência poderia explicar aquela experiência. Nada acerca das explicações evolucionárias para o comportamento humano poderia explicar por que parecia tão perfeito àquele privilegiado médico branco estar ao lado daquele jovem trabalhador rural africano, ambos recebendo algo excepcional. Isso era o que C. S. Lewis havia chamado de amor ágape. É o amor que não busca recompensa. É uma afronta ao materialismo e ao naturalismo. E é a alegria mais doce que qualquer pessoa pode sentir.

• Trecho retirado do capítulo 7 – “No que o senhor acredita, doutor?” –, de Francis Collins, do livro Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira, Editora Ultimato.
Francis Collins, autor de “A Linguagem de Deus”, é membro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, médico e doutor em química. Desde 2009 é diretor dos Institutos Nacionais de Saúde em Bethesda, Maryland, depois de ter dirigido o Projeto Genoma Humano dos Estados Unidos. Antes de assumir este último cargo, ele desenvolveu a técnica de “clonagem posicional” de genes no DNA e liderou uma equipe de pesquisa na Universidade de Michigan que foi responsável pela identificação dos genes que causam a fibrose cística, a doença de Huntington, a neurofibromatose e outras doenças.

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