Participantes de projeto de compostagem de resíduos orgânicos domésticos em São Luís, MA (2014), realizam manutenção de composteiras

Participantes de projeto de compostagem de resíduos orgânicos domésticos em São Luís, MA (2014), realizam manutenção de composteiras

Por Solange Viveiros

A Rocha Brasil – Associação Cristã de Pesquisa e Conservação do Meio Ambiente (ARB) – é uma organização não governamental, ambientalista, brasileira, de inspiração cristã, que completou dez anos de atuação no mês de setembro de 2016. Faz parte da grande família A Rocha Internacional (ARI – www.arocha.org/pt/), que atua em dezenove países há mais de trinta anos e tem como missão promover o amor ao próximo e a mordomia da criação por meio de projetos de educação, conservação ambiental e desenvolvimento comunitário com base na ética cristã.

Em 2007, com o objetivo de estimular e acompanhar o envolvimento das igrejas nas questões socioambientais, a ARB propôs o projeto Educação Ambiental e Mobilização Socioambiental nas Igrejas Evangélicas Brasileiras, cuja primeira atividade ocorreu em março de 2008, com a distribuição de 35 mil cadernos contendo quatro estudos bíblicos sobre missão integral e mordomia da criação encartados na edição 311 da revista Ultimato (disponível: ultimato.com.br/sites/arocha/materiais-2/). De 2009 a 2014, contando com o apoio da Tearfund, desenvolveu atividades na região Norte (Acre, Amazonas e Pará) e Nordeste (Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte), tendo seu nome alterado em 2010 para Rede de Transformação – Educação Ambiental e Mobilização Socioambiental nas Igrejas Evangélicas Brasileiras (ReT). O projeto despertou interesse de diversos segmentos da igreja evangélica com o cadastramento de mais de cem igrejas e grupos cristãos. Os estudos do projeto foram reproduzidos em vários jornais e boletins de igrejas locais, inclusive em 3 mil exemplares do jornal O Missionário, da Igreja Batista Nacional de Shalom (São Luís, MA), e foram também ampliados pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, que os inseriu em sua revista de educação cristã com outros treze estudos sobre missão integral.

O ReT foi organizado em quatro etapas: sensibilização, compromisso, formação e assessoria. Na etapa de sensibilização, foram distribuídos gratuitamente cadernos contendo quatro roteiros de estudos bíblicos a respeito da responsabilidade do cristão no cuidado com a natureza e um convite às igrejas a participarem do ReT. Além disso, oficinas básicas sobre meio ambiente e cristianismo foram aplicadas nas cidades contempladas no projeto. Na etapa de compromisso, as igrejas se inscreveram no ReT e foram incentivadas a realizarem os estudos bíblicos do caderno. Nesta fase, as igrejas inscritas foram motivadas a se envolverem de forma prática no cuidado com o meio ambiente. A etapa de formação capacitou líderes locais para a elaboração e execução de projetos socioambientais que visassem a resolução de problemas locais. A formação aconteceu por meio de oficinas com metodologias participativas e a utilização de diferentes ferramentas. A etapa de assessoria aconteceu via internet, telefone e visitas locais às igrejas e aos projetos em implementação. As atividades de sensibilização e formação (oficinas) foram sempre abertas a todos os interessados (de adolescentes a adultos) das cidades onde eram realizadas, criando-se, paralelamente, uma rede de parceiros e parceiras, pessoas residentes e atuantes no Norte e Nordeste que foram capacitadas nos encontros anuais de RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) e, assim, auxiliavam na organização local (divulgação e logística) das atividades do projeto ReT, ultrapassando os limites do projeto e alcançando seus objetivos de emancipação e formação.

O encerramento do ReT ocorreu em dezembro de 2014, mas deixou para trás uma série de ações que têm mudado a realidade de muitas vidas.

Em São Luís, MA, o casal Cipriano de Sousa Pereira e Agostinha Araújo Pereira – ele, pastor da Comunidade Batista Nacional Kerigma, e ela, bióloga pesquisadora do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão, ambos coordenadores do Instituto Social e Cultural Kerigma – têm sido parceiros fiéis da ARB e têm envolvido famílias de bairros periféricos da cidade em ações de compostagem de resíduos orgânicos domésticos. Os participantes das comunidades de Cidade Nova e Gapara foram capacitados pelo projeto ReT e montaram três composteiras comunitárias de 200 litros cada uma. A primeira produção de adubo alcançou mais de 50 quilos e foi iniciada a construção de dois viveiros de hortaliças, um em cada bairro participante. Além disso, o pastor Cipriano é diretor pedagógico no Seminário Teológico Batista Nacional (SETEBAN) em São Luís e, com o apoio de Agostinha, tem sensibilizado os seminaristas e pastores para o cuidado ambiental.

Em Ibiapina, CE, o casal Netinha (Porcina Rosa do Nascimento Neta) e Wilian Vicente Batista, missionários da Convenção das Igrejas Batistas Unidas do Ceará (CIBUC), no interior do Ceará, atuam ativamente nos conselhos municipais. Devido ao seu grande envolvimento com as questões da cidade, a igreja tem sido uma importante parceira da prefeitura. Em 2009, Netinha participou de uma oficina da ARB em Fortaleza, CE, e foi tão impactada pela mensagem do cuidado da criação que voltou para sua cidade decidida a desenvolver ações também nesta área. Sua primeira ação foi ocupar uma cadeira do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (COMDEMA) e, junto com os demais conselheiros, começou a sonhar e planejar a construção de um parque na cidade. Com a ajuda dela, o Conselho também iniciou uma campanha municipal sobre os resíduos sólidos com atividades de sensibilização, informação e mobilização na cidade e nas escolas. Em 2014 Netinha e Wilian iniciaram um projeto de geração de renda com mulheres de baixa renda do município, confeccionando bolsas, carteiras femininas e cases para celular e tablets a partir de embalagens de papelão e Tetra Pak, bem como embalagens de presente e banquetas (puffs) a partir de garrafas PETs, sendo retirados do lixo de Ibiapina dezenas de materiais recicláveis. No encerramento do ReT, inclusive, foi possível que as participantes realizassem uma feira para exposição, divulgação e comercialização de seus produtos confeccionados em cada oficina.

Outras ações de parceiros do ReT que têm transformado vidas estão disponíveis no site (ultimato.com.br/sites/arocha/materiais-2/), dentre elas: Lya Patrícia Guimarães Parente, missionária JOCUM, e a Escola Infantil Gerson Ribeiro em Ananindeua, PA; pastor José Silvestre Moura, Comunidade Evangélica Vida Plena, e a fábrica de vassouras de PET do bairro de Felipe Camarão, Natal, RN; Nailza Ferreira Parekh, ONG Raio de Esperança, e o projeto de educação ambiental e plantio de árvores frutíferas em comunidades escolares ribeirinhas do Rio Negro, Manaus, AM.

Nesse mesmo caderno há vários depoimentos de parceiros do projeto ReT, dentre os 1.428 participantes, de ambos os sexos, de adolescentes a idosos, moradores de áreas urbanas e rurais (ribeirinhos e indígenas), pertencentes às classes sociais C, D e E (segundo critério do IBGE), e com distintas ocupações (estudantes, donas de casa, desempregados, funcionários públicos, funcionários de organizações privadas, funcionários de ONGs e líderes religiosos). Os relatos compartilhados mostram que o projeto contribuiu e continua contribuindo na formação de sujeitos ecológicos que têm passado por transformações individuais e, paralelamente, têm contribuído para transformações no mundo ao seu redor, como constatado nas palavras de Leandro Silva Virginio, Natal, RN: “Pessoalmente, minha vida e ministério podem ser divididos em antes e depois d’A Rocha e do projeto ReT. Houve em mim uma grande quebra de paradigma e o desenvolvimento de uma nova visão bíblica, teológica e prática no cuidado com a criação como parte da minha missão. Recebi ferramentas e me foram proporcionadas vivências marcantes. Participar do ReT me trouxe crescimento; hoje me sinto mais qualificado para ajudar na questão socioambiental local”.

Participe você também dessa transformação em obediência à Palavra de Deus (Gn 2.15) e para a restauração do relacionamento com a criação, o primeiro dos relacionamentos dados por Deus ao ser humano (Gn 1.26).

 

A Rocha Brasil

Solange Mazzoni-Viveiros é pesquisadora da área de botânica e lidera o Comitê Científico d’A Rocha Brasil.

Foto: Agostinha e Cipriano Pereira

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