Crédito: @fotolia/jotajornalismo

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“Quilombos cada vez menos invisíveis” é um título da reportagem especial da revista Ultimato 362 (setembro/outubro 2016). O “Mineiro com Cara de Matuto” visitou in loco alguns quilombos, entrevistou moradores e conheceu alguns evangélicos quilombolas. A reportagem de 3 páginas continua aqui no blog da Ultimato. Leia a seguir três textos extras sobre o assunto que não foram publicados na edição impressa.

 

1.

Quilombos de refúgio

No passado, os quilombos eram aglomerados de segurança para os escravos fugitivos. Assemelhavam-se muito com as famosas seis cidades de refúgio determinadas por Moisés para abrigar aqueles que cometiam crime de morte acidental ou planejadamente. Fora dessas cidades, eles estariam sem proteção e poderiam ser mortos pelo “vingador de sangue”. Para ficar ao alcance de qualquer pessoa necessitada de abrigo, três cidades ficavam do lado leste e três, do lado oeste do rio Jordão, uma mais ao norte, outra mais ao sul e a terceira mais ou menos entre as duas primeiras. Era uma providência de cima para baixo muito bem organizada para ser aproveitada por pessoas em situação de risco. Essas cidades poderiam ser chamadas de quilombos de refúgio (Nm 35.9-29; Js 20.1-9).

A diferença entre as cidades de refúgio dos israelitas e os quilombos de refúgio dos escravos é que os refugiados se valiam de uma lei estabelecida da parte de Deus por instrumentalidade de Moisés, enquanto os quilombolas se valiam de uma providência tomada por eles mesmos. Os israelitas procuravam os seus abrigos por terem cometido crime de morte. Os negros procuravam os seus abrigos por terem cometido “crime” de fugir de seus donos.

As terras ocupadas pelos negros fugitivos podiam ser doadas, compradas pelos próprios escravos – possibilitada pela desestruturação do sistema escravista –, conquistadas por meio da prestação de serviço, bem como simplesmente apropriadas por eles mesmos. Entre os doadores estariam os ex-senhores, os abolicionistas, pessoas sensíveis à causa abolicionista e as ordens religiosas.

Nota: O Mineiro fez questão de ler um comentário sobre as cidades de refúgio de propósito no Comentário Bíblico Africano (Mundo Cristão, 2010). A autora do comentário é Anastasia Boniface Malle, ministra luterana negra, da Tanzânia.

 

***

2.

O clamor dos profetas

Os escravos não tiveram tempo suficiente para agradecer a colaboração isolada ou coletiva de alguns brasileiros brancos que participaram do movimento abolicionista e que se concretizou tardiamente nas décadas de 70 e 80 do século 19. Os profetas tinham que oferecer resistência ao “abuso da escravidão sustentada pelo homem ladrão, tolerada pelos governos covardes, em benefício da sociedade que não tem noção clara de justiça” (A. J. Macedo Soares, 1892). Cabe aos quilombolas de hoje reconhecer o papel dos intelectuais, juristas e poetas que abraçaram o movimento abolicionista, inclusive aquelas famílias que esconderam escravos fugitivos.

O preconceito racial precisa acabar, não tanto por força da lei, mas por força de uma consciência moral e religiosa. O Mineiro com Cara de Matuto se lembrou de um professor evangélico que, ao chegar de um doutorado no exterior, disse-lhe: “O preto quando não suja na entrada, suja na saída”. A confissão do primeiro presidente americano negro é muito oportuna: “Nenhum de nós é totalmente inocente. Nenhuma instituição está totalmente imune, e isso inclui a polícia. Sabemos disso. Negros de todo o país mostram um desespero crescente com o tratamento desigual”.

Em seu artigo intitulado Quilombos e quilombolas – resistência e preservação, o professor Beto Braga, de Passa Tempo, MG, cita Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

 

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3.

Os verbos da tortura do negro

 

Só no Dicionário da Escravidão, de Alaôr Eduardo Scisínio, encontram-se sete verbos que expressam a ação de punir e maltratar o negro, todos começando com a letra “a”:

Açoitar – vergastar com açoite

Acorrentar – prender com correntes

Aferrolhar – prender, aprisionar

Algemar – prender pelos pulsos

Algozar – martirizar, torturar, supliciar

Atazanar – apertar as carnes com tenaz ardente

Azorragar – bater com azorrague (açoite de uma ou mais correias entrelaçadas e unido de cabo)

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