Versão ampliada de artigo publicado na seção Ponto Final da revista Ultimato edição #376.

Fui convidado a conversar com a juventude de minha igreja sobre o tema “como ter um namoro saudável aos olhos de Cristo”.

Fiz imediatamente a conexão entre o convite e meu livro Sexo e Felicidade: em busca de sabedoria (Curitiba, Encontro, 2002). Cadê o bendito livro? Ah, aqui está, num cantinho da prateleira. Pouco uso. Tira a poeira. Ele foi escrito como uma “conversa” com meus filhos, quando estavam nessa fase. Agora já sou avô, e essas coisas ficaram um pouco esquecidas. Pelo menos, no âmbito familiar.

Mas eis que surge a missão. Tipo, um bate-papo franco e bíblico entre o velho presbítero e os jovens. Hum, vamos conversar sobre “AREV”? As condições em que o sexo não conspira contra a felicidade? Quando acontece no contexto de uma relação de amor? Um amor que não é qualquer amor, mas Altruísta, Responsável, Espiritual e Verdadeiro? Um amor cristão, enfim? Em o qual tudo redundará em ruído infrutífero, como “o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1 Co 13:1)? Sem o qual tudo será frustração e amargura, porque “se não tiver amor, nada serei” (1 Co 13:2)?

De fato, minha intenção, ao escrever o livro, foi o de evitar a simples autorização ou proibição, seguida de versículos bíblicos. Meu pressuposto era (e ainda é) que a única força capaz de manter um relacionamento adolescente “saudável aos olhos de Cristo” seria o convencimento profundo. Ele será capaz de lutar contra seus poderosos hormônios se estiver intimamente convencido de que esse é o caminho que deseja. E porque o deseja, ele o buscará em Deus, com a ajuda da família e da igreja. E em Cristo ele triunfará (2Co 2:14).

O amor “responsável”, dizíamos, considera, tanto quanto a idade lhe permita, as consequências de seus atos. Responde a si mesmo, perante Deus e perante a outra pessoa. Considera os projetos de vida compartilhados; considera propostas de caminhada a dois, que podem ser abruptamente interrompidos por um ato impensado. No momento em que estou pensando nessas coisas, leio, na primeira página do Correio Braziliense (6/01/2019), a seguinte  manchete: “DF registra, por dia, 12 filhos de crianças e adolescentes”. A matéria se refere a jovens entre 10 e 19 anos.

O amor “espiritual” é aquele que conversa muito. Busca conhecer o outro, em termos de sonhos, planos, vocação, família, valores, alegrias, receios etc., com o objetivo de harmonizar seus mundos, o máximo possível. Sim, a vida devocional pertence a essa categoria, mas não a esgota.

Finalmente, o amor “verdadeiro” deseja e busca a verdade; a sua própria e a do outro, a se revelarem naquela relação. Este amor reconhece a virtude e a elogia; percebe a luta e conforta; chama o erro pelo seu nome — pede perdão e também perdoa. Isso me lembra um livro cujo título era algo assim: Existe espaço para a verdade em nosso relacionamento?. Lembra-me também um personagem de  novela dizendo: “meu bem, entenda isto: o meu passado não interessa: o que interessa é este nosso presente lindo”.

Nesse momento de minhas reflexões, em que estou relendo antigas anotações, me ocorre perguntar sobre a faixa etária de meus jovens interlocutores, de modo a ajustar a linguagem da comunicação. E a resposta foi que eram adolescentes, de 12 a 15 anos.

Levei um susto. Como conversar sobre AREV com adolescentes? Serão eles capazes de um relacionamento assim? Uma relação afetiva que pressupõe, em tanto, maturidade, se essa faixa etária se define como sendo um período de atribulada transição?

Bem, encerrei minhas preparações com uma opinião. Abro-a, aqui, à discussão: acho que pelas características da idade, pesando eventuais prós e muitos contras, de um modo geral, adolescentes deveriam limitar seus relacionamentos afetivos a boas e arejadas amizades. É melhor esperar mais um pouco.

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