Assim como a fabricação de um veículo ou a elaboração de uma refeição têm fases e etapas distintas, tradição medieval da lectio divina(que chamei de leitura devocional) caminha por fases, ou salienta, em momentos diferentes, o que chamei de componentes (para não tornar rígida a ordem em que aparecem). Percebe-se, assim, que esses passos se dão mais ou menos na seguinte ordem: leitura, meditação, oraçãoe contemplação. Refletimos, nos textos anteriores, sobre os três primeiros, tentando salientar alguns aspectos dessa disciplina espiritual, como um todo. Longe de querer explicar; só trazendo algumas ideias.

Deste modo, o crente se acerca da Bíblia e já procura “modular o coração” para a frequência apropriada: silêncio, tranquilidade, solitude e… tempo. Uma oração pode ajudar a trazer o coração para “a regulagem”; um cântico também. Não estou propondo uma inversão da ordem; essa oração não é a oratio; é aquele dispor do coração, normalmente acompanhado do pedido de que Deus fale. Está pressuposta, claro, a disposição de ouvir.

Então, lemos o texto bíblico, procurando compreendê-lo. Nesse processo, dialogamos com o próprio texto e com Deus, aquele que nos fala pela leitura; eventualmente, chegamos a um arrazoado com ele; apresentando a leitura que fazemos de algum aspecto de nossa vida, de nosso “discurso existencial”, com seus conflitos e suas alegrias. Na sequência, passamos a orar devocionalmente, com a intenção de nos mover adiante; de sair de situações “mal paradas”, ligadas ao texto lido; reveladas por ele. Para isso, buscamos em Deus sua vontade e sua força. Ao nos predispor a nos ajustar à sua “boa, perfeita e agradável vontade”, fazemos votos; tomamos decisões, suplicamos intervenção; pedimos milagres. Assim batemos as asas da fé, como uma pequena ave que fortalece os músculos, aguardando o momento de voar.

Desnecessário lembrar que esse exercício todo acontece na presença de Deus. Eventualmente, fechada a porta do quarto, no secreto. Para que Deus, que nos vê no secreto, nos recompense. E ali o poder de Deus tem a oportunidade de transtornar todas as impossibilidades; transformar o coração; libertar a alma de amarras e a nossa psiquê de suas cegueiras, infantilidades e cercadinhos.

Passadas essas coisas e fechada a Bíblia; silenciadas as falas, as exposições de motivos, os argumentos, as exortações; serenadas as consolações; confirmada a esperança; fechados os olhos da contemplação do que não se vê; das certezas sobre o que ainda não é, o que resta? Partir para a vida? Ainda não, por favor. Fiquemos mais um pouco. Resta a contemplação. E agora, nada nos cabe fazer, senão predispor o coração a fruir da presença de Deus. Não é isso que diz nosso catecismo, quanto à primeira pergunta? Qual é o propósito da existência do ser humano? E o catecismo responde: “adorar a Deus e gozá-lo para sempre”.

Olhemos, uma última vez, para o filho pródigo. Ele chega de volta ao pai com um discurso pronto; responsável, restituidor, reparador. Jesus está usando o conceito rabínico de arrependimento. Ele se dispõe a consertar o que for possível: “trata-me como um dos teus trabalhadores”. Terminamos? Encerrada a parábola? Não; Jesus nos oferece a oportunidade de contemplar o “momento seguinte”; como quem observa de fora o desfecho da história; uma realidade-promessa para todo aquele que se coloca nas sandálias daquele rapaz (se descobrimos que o filho pródigo somos nós), que extrapola em muito as suas mais otimistas previsões: o abraço do pai, o anel no dedo, as sandálias nos pés e um novilho cevado. E a nós nos é dado quedar em silêncio, como quem não quer atrapalhar a cena, observando. Ou melhor: contemplando.

Esse momento quase irreal; quase fora do corpo, nos é oferecido, como o pouso sereno de um avião na pista, depois de longa (e eventualmente tumultuada) jornada. Sem agitação, sem sentimentos fortes (se é que esses já passaram), aquietamo-nos, contemplando a beleza de Deus: sua santidade, seu poder, sua majestade, seu amor dadivoso, sua misericórdia, sua graça, seu perdão, sua paciência etc. Não é o caso de iniciar nova meditação sobre essas coisas. Nem mesmo oração, no sentido verbal da palavra. É tempo de silêncio perceptivo e abertura do coração. Como quem diz: “fica mais um pouco, Senhor”. E dizendo assim, nem nós “saímos do quarto”, nem ele. Um tempo sem tempo, de dizeres sem palavras. Basta ficar. Em paz. Atento.

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