Vimos o Filho Pródigo assumir a postura de quem ouve, ao refletirmos sobre a meditação devocional (meditatio). Entretanto, se esse ouvir tem a forma de diálogo (usamos a expressão usada pelo próprio Deus: “vinde e arrazoemos”, de Is 1:18), então percebemos que a oração já está presente desde o início da Lectio Divina. A separação em etapas tem fins didáticos, apenas. No frigir dos ovos, elas se confundem.

Terminamos aqueles pensamentos dizendo que sabemos como termina a meditatiodo filho surdo: “Então, caindo em si, disse: quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai” (Lc 15:17-18a).

Na minha separação desses componentes (lectio,meditatio, oratioe contemplatio), reservei para a oração devocionaluma postura muito particular daquele que deseja se alimentar da Palavra de Deus. Alguns a encontram junto com a meditação, mas como estamos apenas didatizando, prossigo com esse elemento isoladamente.

Existem orações não devocionais? Aí está mais uma pergunta retórica, com fins didáticos. E a resposta é “sim, para explicar”: são aquelas que não têm o intuito principal de oferta. Incluo entre elas as súplicas, as intercessões, as explicações, as doxologias (afirmações de fé), o louvor, as ações de graça e também os “até quando?”. Reservo a natureza devocional para a intenção predominante de devotar,oferecer. Aí se incluem os votos, as decisões, as promessas, as declarações de submissão, de amor, de lealdade, de desejo de servir a Deus e assim por diante.

Está claro que, em uma mesma oração, muitos desses elementos poderão estar presentes. Mas olho com lente de aumento esse momento singular do coração: “Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai” (Lc 15:18a).

O que Jesus está descrevendo, aqui? Penso que, entre tantas possibilidades de resposta, ele está revelando um coração que amadureceu com a meditação. Aquilo que começou com soberba, egoísmo, altivez e separação; aquilo que passou pelas lutas da leitura guiada pelo Espírito, dos arrazoados com Deus; aquilo que foi queimado pelas chamas da meditação, agora deságua em decisão, em resposta, em responsabilidade, em maturidade. Agora, aquele rapaz magoado, marcado pelas rupturas de sua história, diz, em vista de todo o arrazoado que agora se encerra: “eis o que farei”. E Jesus nos mostra, agora, uma pessoa diferente, um homem: “E, levantando-se, foi”. Mal sabia ele o que o aguardava! Mal sabia ele o que seu Pai lhe preparava; que seus planos para esse rapaz seriam em tudo mais altos e satisfatórios do que ele próprio poderia esperar.

Essa capacidade de responder por si mesmo, caracterizada no ato de oferecer, de devotar, está no cerne das transformações que a adoração verdadeira produz. E é isto que se salienta na oração devocional, na oratio. Realizadas a leitura e a meditação, imediatamente surgem, muitas vezes em forma de esperança, perguntas tais como: o que Deus fará? Será que ele atenderá à minha súplica? Será que ele gostará do que estou sentindo ou dizendo? Mas a pergunta que minha lente de aumento quer ampliar é essa: “que darei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo?” (Sl 116:12). Gratidão. O salmista mesmo responde, dispondo o coração a cumprir os seus votos. Mas podemos acrescentar a essa oração de oferta: “o que me cabe fazer? o que posso eu fazer, se o Senhor for servido me ajudar?”. Esse “fazer”, aqui, é bem genérico, claro; vale até a decisão de não fazer nada, quando a questão for aquietar-se, confiar, entregar ou descansar. Talvez a palavra propósitose encaixe melhor.

Não nos iludamos, ao contemplar aquele rapaz de joelhos na lama, em meio a espigas e alfarrobas, cercado de porcos. É momento sagrado; é momento sobrenatural; é tempo de milagre. Na oração devocional a pequena águia, tendo exercitado suas asas, já tem a confiança necessária para vencer o abismo. Então, erguendo-se, lança-se no ar.

Ao refletirmos sobre a leitura bíblica devocional dissemos que devemos pedir que Deus nos fale pessoalmente. De tal modo que ela se transforme, também, em uma leitura da nossa própria vida. Terminamos dizendo que, crendo que Deus nos fala por meio da sua Palavra, podemos assumir a postura de quem ouve.

Então pergunto: o que significa assumir a postura de quem ouve? A imagem que me vem, como resposta a essa questão é a do Filho Pródigo. No início da parábola, Jesus o descreve como impenetrável, intratável; ao ponto de não restar opção ao pai senão dar-lhe sua parte na herança e deixá-lo partir. Esse filho não ouvia mais. Não sabemos quando essa distância se instalou, mas certamente ela vem de barreiras que surgiram na relação e que o levaram a uma surdez seletiva; uma surdez à voz do pai.

O que percebemos em relação à atitude do pai é a esperança de vê-lo aparecer de volta lá na esquina. Só que, para que isso aconteça, é necessário que o filho volte a ouvir. E o pai o conduzirá a essa condição, se ele deixar. Durante esse tempo de estranhamento, a voz que ressoará, ainda que inaudível, no coração do filho, há de ser: “vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Is 1:18).

Arrazoemos? Sim, uma palavra que chama à razão, ao diálogo, à argumentação, de ambas as partes. Para que isso acontecesse, em sua parábola, Jesus o conduz a uma condição de quietude, de silêncio, de aparente fim-de-linha. E ali, entre os porcos, ele readquire a capacidade de ouvir. Na verdade, esse “ouvir” assume a forma de leitura, de meditação.

Que transformação! Não sabemos quanto tempo se passou para que isso fosse possível. Mas sabemos que agora ele tem condições de ler, criticamente, o discurso da sua vida; sua “narrativa pessoal”. A partir dessa postura mais permeável, a leitura que faz, certamente difícil e tumultuada, entre mágoas, acusações e, também, consciência de pecado, se transforma em “arrazoado”, estabelecido com o pai, presente apenas em seu interior, como um interlocutor invisível.

Agora, serenado o coração, ponderações feitas, grandes e inflamados discursos reduzidos ao choro, o rapaz medita. Um movimento que envolve corpo, alma e espírito. Este último, atuando, por obra do Espírito Santo, como canal de comunicação para o Pai. Sim, ele já não está lendo, compreendendo, falando, chorando sozinho. Está na presença do Pai. Mesmo que não tenha plena consciência do fato. E o pai só está presente porque ele está ouvindo.

Sabemos como termina essa meditatiodo filho: “Então, caindo em si, disse: quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai” (Lc 15:17-18a).

Caindo em si? Sim, em sua surdez, ele esteve fora de si. Entretanto, por conta da paciência daquele que nos chama à razão, ele chegou ao ponto em que a leitura de sua própria vida se tornou não somente possível, mas também redentora.

A meditação devocional (meditatio) é um fenômeno de natureza espiritual no qual a leitura das escrituras se transforma, frequentemente, em leitura da própria vida; o texto se transforma em voz de Deus; essa voz, uma vez ouvida, se transforma em arrazoado, em conversa. E libera poder (porque o evangelho é poder de Deus), a desencadear profundas transformações no coração piedoso. Um poder tão forte e tão completo que pode ser descrito, sem exagero, como algo que estava perdido e foi achado; ou como alguém que estava morto reviveu.

Nem toda meditação precisa ser assim tão dramática. Mas é necessário que desenvolvamos a habilidade de ouvir, no silêncio de nós mesmos.

Atendendo ao pedido de um irmão, preparei quatro textos sobre o tema da
Lectio Divina: lectio, meditatio, oratio e contemplatio.
São textos pequenos, destinados a provocar a conversa
entre os participantes de um grupo de estudos. Apresento-os, a seguir.

 

 

A leitura bíblica não é uma leitura comum. Esta afirmação se deve ao fato de que, ao nos acercarmos do texto bíblico, levamos para ele muito de nós, seja em termos de pré-concepções sobre o fenômeno que essa relação estabelece, seja sobre a forma de proceder a leitura em si. Explico, a seguir.

A leitura bíblica, quando feita como se lêssemos um romance, um livro de história ou um livro de histórias, terminará por nos fornecer informações dessa mesma natureza. Ou seja, embora haja uma grande riqueza no que ela pode nos trazer, nada nos acrescenta naquilo que poderíamos chamar de “divino”. Assim, se nos acercamos do texto bíblico com esse tipo de curiosidade, teremos muito da nossa expectativa satisfeita apenas nesse âmbito. Teremos lido mais um livro. Um grande e complexo livro.

Se “o que de nós” levamos para essa leitura é curiosidade quanto ao mistério eventualmente nela oculto, estabeleceremos uma atividade mental de índole “perceptiva”, ou investigativa, quanto ao oculto, a códigos eventualmente existentes, a palavras secretas, a fatos e ocorrências sobrenaturais. E a Bíblia, certamente, nos saciará dessas coisas, ao nos mostrar cenas de anjos, demônios, gigantes, referências incompreensíveis, anátemas, profecias, códigos e coisas assim. E ainda poderá nos provocar com expressões tais como: “quem tem ouvidos, ouça”, e “aquele que tem entendimento decifre”.

Assim será para abordagens genealógicas, geográficas, arqueológicas, místicas, culturais, esotéricas etc. Sim, a Bíblia pode nos ensinar muito sobre essas coisas.

Já nossas pré-concepções sobre o fenômeno que ocorre no momento em que nos debruçamos sobre o texto bíblico também podem afetar nossa leitura. Se entendemos, por exemplo, que o texto tem “o poder”, em si, de nos comunicar “o que ele contém” (uma forma de entender a palavra “revelação”), pode ocorrer que ele funcione como aquela caixinha de promessas, em que o verso bíblico, no modelo horóscopo, nos traz informações até aqui insuspeitas ou ocultas. Ou como o livro mágico encontrado numa pirâmide que, ao ser aberto, libera seu conteúdo holográfico.

Ocorre que, muitas vezes, isso que levamos para a leitura bíblica nos é inconsciente. Como, então, saber que nos aproximamos dela da forma correta? Acho que esse problema faz parte de nós, da nossa psicologia, da nossa personalidade. Entretanto, proponho um caminho em que ele se torne menor, talvez até inofensivo, de modo que a leitura bíblica alcance os efeitos desejados. E a primeira coisa a fazer é definir que efeitos desejados são esses.

O que devemos desejar, ao nos debruçar sobre as escrituras? Que Deus nos fale pessoalmente. Que nos fale de si mesmo, tendo em vista a nossas relações com ele mesmo e com nosso próximo. Uma típica “DR”. De tal modo que a leitura devocional seja também uma leitura da minha vida. Devemos, inclusive, iniciar nossa leitura debaixo dessa oração: “Senhor, fale comigo”. Nesse momento, todos aqueles processos anteriormente comentados poderão ser utilizados por ele para produzir em nossos corações aquela consciência que ele deseja nos trazer, pelo “ouvir” a sua Palavra.

Uma grande diferença entre a leitura comum e a lectio divinaé que, crendo que “Deus nos fala por meio da sua Palavra”, podemos assumir a postura de quem ouve; decidir que ali, naquela passagem, pode surgir o momento em que, por meio do Espírito Santo, ouvirei a voz de Deus, falando para mim, para o meu coração (e não para outrem), as coisas que, em mim, trarão vida nova, renovação. Seja por meio de exortação, repreensão, consolo, confirmação, aprovação ou demonstração de amor.

Recente estudo demonstrou que pessoas tímidas dão presentes melhores. “Isso porque costumam duvidar mais da possibilidade de compartilhar as suas preferências. Segundo especialistas, o resultado pode ser aplicado em outras relações pessoais, como as amorosas”.

Esse estudo, reportado no jornal Correio Braziliense[1], foi publicado na revista especializada Psychology & Marketing. Pesquisadores queriam saber que tipo de personalidade é capaz de dar melhores presentes. “Você pensaria que pessoas seguras, com muitos amigos e relacionamentos, teriam uma ideia melhor do que alguém gostaria de presente, mas esse não é o caso”, ressaltou Meredith David, da Universidade de Baylor, autora do estudo”.

A pesquisadora se admirou com o fato de que os tímidos dão presentes mais apreciados. Sua hipótese inicial era de que as pessoas mais “sociáveis” teriam essa capacidade mais desenvolvida. Mas os resultados revelaram que pessoas com alto grau de segurança e liderança tendiam a projetar suas próprias preferências, ao presentear, como se seus gostos fossem universais. E o presenteado “certamente iria gostar”. Já os tímidos, ansiosos e inseguros levaram grande vantagem, porque se importavam em buscar saber o que agradaria a pessoa a presentear. Para isso, faziam perguntas, sondavam a vida, os hábitos, e mesmo questionavam familiares.

Comentando o estudo, Caroline Salles, professora de psicologia do Centro Universitário IESB, diz que essas teorias são usadas em outros campos das relações humanas, como as questões afetivas. “Esse estudo americano mostra que estar seguro emocionalmente pode gerar pontos negativos, como escolher o presente certo. Essa coisa de estar centrado muito em si mesmo faz com que a pessoa veja as coisas por um lado só. É o que vemos muito nas redes sociais, por exemplo.”

Ao ler esse “achado” científico, não pude evitar de considerá-lo a partir de pressupostos bíblicos. E não se trata de imaginar a vitória dos tímidos, associando-os aos pobres de espírito ou aos que choram. Revanches à parte, pode-se aplicar o “cerne da questão” a qualquer tipo de personalidade. Imagino, então, que o amor bíblico — aquele que se importa com o outro, que serve ao próximo, e que, nesse diapasão, está sempre oferecendo “bons presentes” — é algo a ser recebido com o batismo e aprendido com Jesus, na caminhada cristã.

Considero, também, que a maturidade cristã, condensada na palavra de Paulo aos efésios: “… submetendo-vos uns aos outros, no temor de Cristo” (Ef 5:21), envolve progressiva libertação desse “estar centrado muito em si mesmo” a que se referiu a profa. Carolina Salles.

Ao pensar assim, percebo que a capacidade de dar bons presentes, aqui atribuída aos tímidos, facilmente se transformaria em atitude-símbolo da experiência cristã. Afinal, não seria essa a origem, a causa mais remota a que nossa mente pode chegar, quando se pergunta sobre o porquê daquele menino na manjedoura, sendo anunciado e exaltado por coro celestial?

Sim, por quê?! Porque Deus amou o mundo de tal maneira que nos deu um presente precioso, pessoal, adequado. E se alegra quando percebe que compreendemos seu gesto, recebemos seu presente e o apreciamos imensamente, entre constrangidos, alegres e gratos.

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[1]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2018/04/15/interna_ciencia_saude,673753/pessoas-timidas-compram-presentes-melhores-mostra-estudo.shtml

Ponto final da edição 372

Com que armas irá o general atirar naquela consciência corruptível que mora dentro de seus soldados? Ou supõe-se que esse soldado, cabo, sargento ou mesmo oficial seja feito de material diferente dos policiais que se deixaram amolecer pelos milhares de reais a eles oferecidos, no trato com os traficantes?

Que armas utilizará para estancar o consumo de drogas que rola nos bairros de classe alta? Ou não é sabido que as armas que circulam nos morros são compradas com o dinheiro que vem do consumo das classe média e alta da sociedade?

Que estratégias de guerra usará o general para desarmar o servidor público que cria dificuldades para vender facilidades? Ou não é sabido que, do “operador de xerox” aos mais altos cargos do governo, muitos já embarcaram na correria do navio que afunda, dizendo, em tom de chacota, que “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”?

Com que armas o general vai atirar naquela conversa a meia-boca do motorista com o guarda de trânsito: “bom dia, seu guarda; como é que podemos nos ajudar mutuamente?” Ou não é sabido que não se trata mais de uma pequena parcela das corporações (e da população) que se deixou corromper, mas sim que apenas uma pequena parte se mantém firme, e que esse tipo de conversa já é vista como folclore?

Como o general evitará que os empresários combinem preços para vencer, com organizados e proveitosos conchavos, as licitações do Estado? Ou não é sabido que as tabelas superfaturadas existem desde os tempos da corte de D. João VI?

Sim, o general pode conseguir coibir o porte ostensivo de armas de fogo, por meio de uma legislação tocada às pressas no Congresso, que permita aos seus soldados presumir a agressão e “usar de força letal” em relação ao cidadão que se mostre no espaço público com uma escopeta ou um fuzil. Até aqui, o soldado tem ordens de abordar o cidadão armado de metralhadora importada sem a permissão de atirar primeiro.

Sim, o general pode remanejar suas tropas de modo a evitar que seus soldados sejam “expostos à contaminação” por tempo excessivo. Para isso, precisará contar com muito mais que uma tropa “limpa”; precisará mantê-la limpa, para que ela não ceda às mesmas influências que abateram o contingente policial alocado nas Unidades de Polícia Pacificadora – UPP, moralmente dizimadas pelo poder econômico do tráfico, em face da penúria do Estado — que decretou “calamidade financeira” — atrasando soldos e salários, até colocar soldados e suas famílias de joelhos.

O general não tem os projéteis que atinjam os alvos desejados. Esses alvos são os corações das pessoas, de qualquer classe, posição ou função social. Ele precisaria atirar com uma palavra, com um Verbo, porque nele está a verdadeira vida.

O Rio de Janeiro (bem como as demais cidades brasileiras) precisa declarar “falência moral”; morto para essa vida de trevas para, depois, experimentar a nova vida que advém da ressurreição, esse fenômeno que inaugura um novo céu e uma nova terra; a restauração de todas as coisas.

Sim, é possível uma nova Cidade Maravilhosa, como aconteceu com Nínive, como aconteceu comigo. Mas saberá o general levá-la a vivenciar o profundo drama do arrependimento, da morte e da ressurreição, experimentado e celebrado na Páscoa? (Jo 1:4,5)

Ponto Final da edição 371

Talvez os dois principais “motores” da Renascença sejam as grandes navegações e a prensa de Gutemberg. Esses elementos “pluralizantes” estão por trás dos movimentos que levaram à passagem do pensamento medieval para o que se chamou depois de Iluminismo. O Ocidente percebeu que havia outros modos de agir, trabalhar, pensar,  crer, fazer arte etc. E as consciências acompanharam as mudanças nos meios e modos de produção da vida.

Se, até aqui, a sociedade era uma quitanda, transformou-se em um supermercado. Se o queijo oferecido era único, agora competia nas prateleiras com seus inúmeros congêneres. E a consciência de que para tudo havia opções nos tornou “plurais”. E também hedonistas, pois agora escolhíamos de acordo com nossos gostos pessoais. Essas opções se alastraram para todas as esferas da vida, gerando uma nova consciência, que passou a ser chamada de “sindrome do consumidor”. “Eu pago, eu comparo, eu exijo. Se você não tem o que desejo, procuro outro fornecedor”.

E assim foi com canais de TV — e surgiu o zapping. Mas assim foi também com amizades, modos de vestir, doutrinas de fé, cores do carro, casamentos e, hoje em dia, opções de gênero. Já posso fazer zappingde amizades, de igrejas, de lookpessoal etc. E quem poderá me criticar? Diante de uma prateleira abarrotada de massas de tomate, você escolhe a que mais gosta, não? Olhamos um para o outro e evitamos qualquer crítica, porque o lema é “respeitar para ser respeitado”. Aprendemos a conviver com o dissenso.

Charles Dickens olhou para o início disso tudo e disse: “É o melhor dos tempos; é o pior dos tempos”. Sim, ele via, maravilhado, o início de uma civilização pluralista, plena de brilhos, recursos, facilidades, seduções e… perigos. Alguns não conseguirão se conduzir bem nesse novo ambiente. E adoecerão. Por exemplo, o desejo de terpoderá endividar famílias inteiras; ou torná-las ansiosas, superficiais nos relacionamentos, deprimidas, medrosas, solitárias etc. e também narcisistas.

O narcisismo existe desde que Eva pensou em ser como Deus. Mas com a superficialização das relações e a mudança da forma como a sociedade avalia uma pessoa, passando do seu caráter para o poder que aparenta ter; constituído de bens, beleza, fama, prestígio e outros acessórios, eis que surge o TPN: transtorno de personalidade narcisista. O Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais-5ª edição ou DSM-5, elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, descreve essa personalidade. Cito alguns traços de interesse[1]:

  • grandiosidade com expectativas de tratamento superior aos outros;
  • fixação por fantasias de poder, sucesso, inteligência, atratividade etc.
  • auto-percepção de ser único, superior e associado a pessoas e instituições de alto status;
  • necessidade de ser admirado;
  • exploração de outros para obter ganho pessoal;
  • falta de empatia com os sentimentos, desejos ou necessidades dos outros;
  • atitude pomposa, arrogante e invejosa.

Certo dia, Plural e Narciso ouvem, do evangelho, um chamado ao ágape: a um íntimo, profundo, significativo, caridoso, afetuoso, humilde, gracioso e sacrificial relacionamento com Deus e com os irmãos. Ouvem que isto se faz pelo poder de Deus, e que isso será, para eles, cura e salvação.

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[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade_narcisista

Ponto Final da edição 370

 

ELE ACHAVA  que não valia mais a pena discipular. “Ninguém ouve, ninguém quer saber”, dizia. Tem gente que, por não saber, acha que ninguém sabe; e por isso desanda a dar palpite sobre tudo nas redes sociais. Outros, imbuídos do espírito de sucesso, preferem ensinar.

É assim que o presbítero via a tsunami da informação, varrendo as áreas costeiras do conhecimento e dos costumes. Ela vem com imensa força; relativizando tudo. Tudo é discutível.

É o fenômeno da pluralidade, a transformar nossa sociedade em uma espécie de supermercado, em cujas prateleiras competem inúmeras opções para tudo o que você quiser consumir. Desde marcas de sabonete até, novidade, opções de gênero.

A pluralidade “horizontaliza” as escolhas nas prateleiras. Isso quer dizer que nenhuma é melhor que a outra; depende de você. Nenhuma pode julgar a outra, embora as propagandas de diversidade sexual, de bancos ou de sabão em pó tentem fazer isso, com o artifício da sedução.

Nunca houve tanta informação disponível. Acessível a quem quiser; atropelando os livros e os mestres; destronando a televisão e o cinema. Ela está na ponta dos dedos de qualquer criança. E na crista dessa onda vem também uma espuma de garrafas pet, sacos plásticos e detritos urbanos de toda natureza; uma metáfora para o lado maléfico da produção cultural humana. Mas, nesse supermercado, quem se arrisca a dizer o que é lixo?

Entretanto, essa onda de informação, como as tsunamis, não tem profundidade. É impossível saber de tudo, sentir tudo, experimentar tudo. Muitos chegam a duvidar se sabem alguma coisa. Porque informação sem formação é apenas acúmulo de dados. E os dados são, por natureza, burros. Além de mutáveis. Líquidos!

Essa tsunami vem transformando o nosso modo de viver. Na verdade, está se transformando em um modo de viver! Ela nos propõe as prateleiras abarrotadas e nos diz que podemos escolher. “Você decide!” E como ela mesma tornou as águas rasas, optamos sem critérios, sem profundidade, sem perspectiva de tempo. Fazemos escolhas impulsivas, imediatistas e tolas, seja na escolha de um sapato, seja de um casamento.

Resultado, vivemos sob o império dos desejos, carinhosamente chamados de sonhos. “Realize seu sonho — agora!”, diz a mídia. Se precisar de crédito, parcelamos em 10 vezes no cartão.

Esse modo de ser e de viver chegou à igreja, claro. E ali também cresce, educadamente, a falta de consenso sobre antigas bases de fé. Ali, a “prateleira” é tão real quanto sutil. A propósito, ele chegou e saiu da igreja: o antigo evangelho, transformado em produto, passou a ser oferecido como “know-howde vida” no mercado. Um mercado de gente perdida, frustrada, desesperada, deprimida e rica.

E o velho presbítero sentiu-se obsoleto. “Até que entrou no santuário de Deus” (Sl 73:7) e viu que ainda havia gente desejosa de aprender sobre a verdadeira vida. E viver sob a luz e a autoridade do evangelho, “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16).

“Vocês têm certeza? Não se trata de um workshop; não é uma ferramenta, não é um caminho fácil”, disse-lhes o presbítero. “Ao contrário, é uma estrada estreita, longa e nem sempre glamorosa!”

E quase desmaiou de alegria quando os ouviu pedir: “podemos caminhar com você?”.

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Este texto foi publicado no Ponto Final da edição 369