POR JOHN STOTT

Trecho retirado do livro “A Vida Em Cristo”, de John Stott (páginas 131-134)

 

Conde Zinzendorf. Fonte: britannica.com/biography/Nikolaus-Ludwig-Graf-von-Zinzendorf

Nikolaus Ludwig von Zinzendorf nasceu em Dresden em 1.700, na nobreza austríaca. Depois de estudar direito na Universidade de Wittenberg e começar a trabalhar no serviço público, ele se aposentou aos 27 anos para se dedicar a Herrnhut, a comunidade cristã que ele havia fundado cinco anos antes para fugitivos religiosos da Morávia.

A vida de Zinzendorf foi governada por duas principais preocupações. A primeira era a evangelização mundial. Enquanto ainda estava na escola, ele e cinco outros garotos fundaram o que chamaram de “A Ordem do Grão de Mostarda”, cujo objetivo era levar o evangelho até os confins da terra. Seus membros usavam um anel com as palavras (em grego) “ninguém vive para si mesmo”. Logo, clérigos e estadistas proeminentes estavam incluídos entre os membros da ordem. No devido tempo, os missionários de Herrnhut levaram as boas novas às Índias Ocidentais, Groelândia, América do Norte, África do Sul e América do Sul. Por volta de 1760, o ano de sua morte, Zinzendorf já contava com 226 missionários trabalhando do Ártico aos Trópicos e da América à Ásia. O dr. Gustav Warneck comentou: “A igreja da Morávia fez mais do que todas as outras igrejas protestantes juntas”¹. Zinzendorf é de particular interesse para os metodistas porque John Wesley se converteu graças ao trabalho dos morávios e adquiriu com eles muitas características do início do metodismo, como reuniões de classe, festas do amor e canto de hinos.

A segunda preocupação de Zinzendorf era a unidade da igreja. Ele não queria que luteranos, calvinistas, anglicanos ou outros perdessem a ênfase que os distinguia, mas ansiava ver todos os cristãos que haviam “experimentado a morte de Jesus no coração”² unidos em uma comunhão ou comunidade de igrejas. Ao que parece, ele foi a primeira pessoa a usar a palavra grega oikoumene como referência à “igreja cristã mundial”.³

Era esse, portanto, seu compromisso duplo: o evangelismo mundial e a unidade da igreja. Qual foi a inspiração para essas preocupações? Elas eram “o fruto de uma devoção suprema: a devoção simples, inquestionável, inabalável e abrangente de Zinzendorf ao Cordeiro de Deus […] ‘Eu tenho apenas uma paixão’, declarou, ‘que é ele, apenas ele’”.⁴ Criado por sua avó na tradição do pietismo boêmio, que havia reagido contra a fria ortodoxia luterana, ele amou Jesus Cristo desde a infância e decidiu, antes dos 10 anos de idade, ser um pregador do evangelho. Sua maior ênfase estava na Herzensreligion [religião do coração, em alemão], uma intensa devoção pessoal de coração a Jesus como o Salvador que havia morrido por ele.

Ecce Homo, de Domenico Fetti (1589-1623).

Se houve uma crise espiritual em sua vida, foi quando ele tinha 19 anos. Recém-formado em direito, ele foi enviado para fora do país (como acontecia com todo nobre no século 18) para concluir seus estudos e se tornar “um homem do mundo”, percorrendo cidades europeias, a começar por Paris. “Se ser enviado à França tinha por objetivo fazer de mim um homem do mundo”, escreveu, “afirmo que isso é jogar dinheiro fora; pois Deus, em sua bondade, me preservará no desejo de viver apenas por Jesus Cristo.” Em Düsseldorf, ao visitar uma galeria de arte, ele foi atraído por uma pintura magistral de Jesus Cristo feita por Domenico Fetti, um artista italiano do início do século 17. Era seu Ecce Homo, agora em Munique, retratando Jesus como Pilatos o apresentou à multidão após ser açoitado – vestido de púrpura, amarrado com cordas e coroado com espinhos. Zinzendorf parou diante dele, atônito. Os olhos de Cristo pareciam penetrar seu coração, enquanto as palavras de Cristo escritas em latim acima e abaixo da pintura pareciam ser dirigidas diretamente a ele:

Isso eu fiz por você;

O que você está fazendo por mim?

“Naquele momento”, escreve A. J. Lewis, “o jovem conde pediu ao Cristo crucificado que o atraísse para ‘a comunhão de seus sofrimentos’ e lhe revelasse uma vida de serviço.” ⁵ Na igreja All Souls, em Londres, na parede leste, atrás da mesa da comunhão, está pendurado outro Ecce Homo. Pintado por Richard Westall, foi apresentado à igreja em sua inauguração, em 1824, pelo rei George IV. A pintura retrata Cristo, com as mãos amarradas, coroado de espinhos e com um manto púrpura. Ao redor de sua cabeça estão três mãos, as mãos de sacerdotes e soldados zombadores, que estão olhando e apontando para ele. No entanto, o que eles faziam com desprezo e escárnio, procuramos fazer com fé, amor e adoração. Todo o nosso ministério tem por objetivo ser um testemunho de Jesus Cristo. E, ao longo dos anos, milhares de adoradores se levantaram ou se ajoelharam diante dessa imagem, como fez Zinzendorf diante da dele, e oraram para que, em resposta ao seu grande amor por nós, possamos viver nossa vida para ele.


Notas:

  1. LEWIS, Zinzendorf, p 80.
  2. LEWIS, p 15.
  3. LEWIS, p 13.
  4. LEWIS, p 12.
  5. LEWIS, p 28-29.

Pintura: wga.hu/art/f/feti/eccehomo.jpg


Foi a parceria única entre Billy Graham e John Stott que possibilitou o surgimento do Movimento de Lausanne. O “Pacto de Lausanne” foi fruto direto da liderança de Stott. Sabia mais sobre a participação de John Stott no Movimento Lausanne aqui.

 

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