Graça que serve
A unidade da igreja é fascinante em sua diversidade
E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo. Por isso é que foi dito: “Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”. [Que significa “ele subiu”, senão que também havia descido às profundezas da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas] (Efésios 4.7-10).
O contraste entre os versículos 6 e 7 é impressionante. Paulo volta-se do Pai de todos nós para os dons dados a cada um de nós, da unidade para a diversidade da igreja. Ele está, na verdade, qualificando intencionalmente o que acabou de escrever sobre a unidade da igreja. Embora haja um só corpo, uma só fé e uma só família, essa unidade não deve ser mal-interpretada como uma uniformidade sem vida ou sem cor. Em vez disso, a unidade da igreja é fascinante em sua diversidade.
O que Paulo diz sobre esses dons? A graça salvífica é dada a todos os pecadores que creem. No versículo 7, o apóstolo fala do que poderia ser chamado de graça que serve, a graça que capacita o povo de Deus para o ministério. Usamos a palavra carismático, que vem do grego charismata. Alguns grupos usam deliberadamente o termo carismático para se descreverem, mas de acordo com o Novo Testamento, toda a igreja é uma comunidade carismática. Cada membro tem um dom (charisma) para exercer ou uma função para desempenhar.
No versículo 8, Paulo diz mais sobre dons espirituais ao citar Salmos 68.18. O salmo é um clamor a Deus para resgatar e recuperar seu povo mais uma vez, como nos tempos antigos. Após cada conquista, o tributo era recebido e dádivas eram distribuídas. O que tomavam de seus cativos, os conquistadores davam para seu próprio povo. Os espólios eram divididos; a pilhagem era compartilhada.
Paulo usa essa imagem para a ascensão de Cristo. Jesus ascendeu como conquistador à destra do Pai, sendo seu grupo de cativos os principados e potestades que havia derrotado, destronado e desarmado.
Após a citação de Salmos 68.18, o apóstolo acrescenta que a ascensão de Cristo implica que Jesus “havia descido às profundezas da terra” (v. 9). Os primeiros pais entenderam isso como uma referência à sua descida ao Hades, como sugerido em 1 Pedro 3.19. Calvino argumentou que a descida de Cristo se refere à sua encarnação. A Nova Versão Internacional também parece entender que Jesus desceu do céu “às profundezas da terra”. Talvez, no entanto, a referência seja ainda mais geral, ou seja, que Cristo desceu às profundezas da humilhação quando veio à terra.
À luz dessa ênfase no Cristo que ascendeu, foi exaltado, encheu todas as coisas, governa a igreja e concede dons, seria um erro pensar em charismata como sendo exclusivamente dons do Espírito e associá-los ao Espírito Santo ou às experiências com ele. Aqui estão os dons de Cristo, enquanto que em Romanos 12 estão os dons de Deus Pai. Separar as três pessoas da Trindade induz ao erro. Juntas, elas estão envolvidas em todos os aspectos do bem-estar da igreja.
Artigo publicado originalmente em Lendo Efésios com John Stott (Ultimato).