O que é o ser humano?
Pode parecer-nos incrível que o grande Deus do universo tome qualquer conhecimento de nossa existência, ainda mais se preocupar conosco. No entanto, ele se preocupa
“Este poema lírico breve e primoroso”, como foi descrito por C. S. Lewis,1 começa e termina com o refrão: Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra (v. 1,9). Aqui está um reconhecimento da majestade do nome ou da natureza de Deus, que suas obras, tanto na terra como no céu, revelam. Os inimigos de Deus, que estão cegos por causa de sua orgulhosa rebelião, não veem a glória de Deus; antes, são confundidos por crianças e recém-nascidos (v. 2).
Jesus citou essas palavras quando as crianças o aclamaram no templo com “hosanas”, enquanto os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei se opunham com indignação (Mt 21.15-16). Deus ainda é glorificado na fé simples das crianças e na humildade, típica de uma criança, dos que creem nele (veja Mt 11.25-26; 1Co 1.26-29).
1 Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra! Tu, cuja glória é cantada nos céus. 2 Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos firmaste o teu nome como fortaleza, por causa dos teus adversários, para silenciar o inimigo que busca vingança. 3 Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, 4 pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? 5 Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. 6 Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: 7 todos os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, 8 as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares. 9 Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra!
O que particularmente evoca a admirável adoração do salmista é a condescendência de Deus para com os seres humanos (v. 3-4) e a posição de domínio que ele lhes concedeu sobre a terra (v. 5-8).
Vistas em relação uma à outra, essas duas verdades nos permitem ter um julgamento equilibrado da humanidade e dar uma resposta apropriada à pergunta retórica do salmista: Que é o homem…? (v. 4), isto é, o que significa ser um ser humano?
A pequenez dos seres humanos (v. 3-4)
A pergunta [do salmista] foi motivada pela sua contemplação do céu noturno. Se Davi for o autor desse salmo, é possível que restem poucas dúvidas de que ele se referia à experiência de sua juventude. Em seus dias como pastor, cuidando dos rebanhos do pai nas colinas perto de Belém, Davi muitas vezes dormia sob as estrelas. Deitado sobre as costas, ele examinava a imensidão insondável acima dele, procurando penetrar as profundezas claras do céu oriental. Ele reconhecia que os céus, com a lua e as estrelas, eram obra dos dedos de Deus (v. 3); assim, ao contemplar a grandeza e o mistério deles, o salmista clama: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? (v. 4).
Se essa foi a reação de Davi, há quase três mil anos, quanto mais deveria ser a nossa, que vivemos nos dias da astrofísica e da conquista do espaço!
À medida que consideramos os planetas em órbita de nosso sistema solar, tão infinitesimalmente pequenos em comparação com inúmeras galáxias a milhões de anos-luz de distância [de nós, na terra], pode parecer-nos incrível que o grande Deus do universo tome qualquer conhecimento de nossa existência, ainda mais se preocupar conosco. No entanto, ele se preocupa; e Jesus nos assegurou que até mesmo os fios de cabelo de nossa cabeça estão todos contados (Lc 12.7).
A grandiosidade dos seres humanos (v. 5-8)
O salmista passa da pequenez de um ser humano, em comparação com a vastidão do universo, para a grandiosidade que Deus deu ao homem sobre a terra: Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos (v. 5-6).
A posição que temos de ser apenas um pouco inferiores aos seres celestiais, ou mesmo ao próprio Deus, é supremamente vista em nosso domínio. Deus revestiu os seres humanos de soberania real, coroando-nos de glória e de honra (v. 5), e delegando-nos o controle de suas obras. O texto até afirma que, sob os seus pés (os do homem), Deus pôs tudo (v. 6).
O salmista está se referindo sobretudo à criação animal – animais domesticados e selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e a todas as outras criaturas que habitam as profundezas do oceano (v. 7-8). Não se trata de ficção poética. À medida que o universo revela cada vez mais os seus segredos à pesquisa científica, nosso domínio aumenta. Contudo, mesmo agora o homem não é de fato Senhor da criação, com tudo sob seus pés, como é reconhecido em três citações desses versículos no Novo Testamento.
De acordo com Hebreus 2.8 (e os versículos que seguem), “…agora, porém, ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas”. No entanto, o texto imediatamente acrescenta: “Vemos, todavia, aquele que por um pouco foi feito menor do que os anjos, Jesus, coroado de honra e de glória…” (v. 9).
A humanidade pecou e caiu, e, como consequência, perdeu parte do domínio que Deus lhe tinha dado; mas, em Jesus, o último Adão (1Co 15.45), esse domínio foi restaurado. É nele, e não em nós, que o domínio da humanidade se revela. Por meio de sua morte, Jesus derrotou até o diabo e libertou os escravizados pelo diabo (Hb 2.14-15). Jesus foi, então, coroado e exaltado à destra de Deus (v. 9).
Embora a descrição neste salmo acerca do domínio da humanidade se aplique mais ao homem Cristo Jesus do que a nós, ela se aplica a nós também se viermos, pela fé, a compartilhar a exaltação de Cristo.
O apóstolo Paulo escreveu que a incomparável grandeza do poder de Deus, que exaltou Jesus e “colocou todas as coisas debaixo de seus pés”, está disponível para nós, os que cremos (Ef 1.19-22). De fato, nós a experimentamos, pois ela nos ressuscitou da morte do pecado, exaltou-nos com Cristo e fez-nos assentar com ele nos lugares celestiais, onde somos participantes de sua vitória e de seu domínio (Ef 2.5-6).
Ainda assim, este não é o fim. Embora Cristo tenha sido exaltado muito acima de todo domínio e autoridade, e todas as coisas estejam debaixo de seus pés, nem todos os seus inimigos ainda admitiram que estão derrotados e renderam-se a ele. Somente quando Jesus aparecer em glória, e os mortos ressuscitarem, é que ele destruirá “todo domínio, autoridade e poder. Pois é necessário que ele reine até que todos os seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. Porque ele ‘tudo sujeitou debaixo de seus pés’” (1Co 15.24-26).
Artigo publicado originalmente em Salmos Favoritos – Inspiração e sabedoria nos Salmos (Ultimato).