Se o Espírito Santo é o nosso primeiro e mais importante mestre, há certo sentido em que devamos, dentro mesmo de nossa dependência do Espírito Santo, ensinar também a nós mesmos. Quer dizer, no processo divino de educação não somos inteiramente passivos: é esperado de nós que utilizemos nossa razão de maneira responsável. Pois na leitura da Escritura a iluminação divina não substitui o empenho humano. Tampouco, é a humildade na busca de luz da parte de Deus incompatível com a mais disciplinada aplicação no estudo.

A própria Escritura dá grande ênfase ao consciencioso uso cristão da mente, não, é claro, a fim de julgar a Palavra de Deus, mas antes para submeter-se a ela, lutar com ela, compreendê-la e relacioná-la ao cenário contemporâneo. De fato, há frequentes críticas na Escritura ao fato de ficarmos esquecendo nossa racionalidade básica de seres humanos feitos à imagem de Deus e nos comportarmos “como o cavalo ou a mula, sem entendimento” (Sl 32.9).

Pois Jesus repreende a falta de entendimento dos apóstolos e o insucesso deles em fazer uso do senso comum (p. ex., Mc 8.17-21). Ele repreendeu as multidões de forma similar:

E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?

— Lucas 12.57

Esse mandamento, “julguem por vocês mesmos”, é proeminente em especial na primeira epístola de Paulo aos coríntios. Aqui está uma igreja que alardeava grande sabedoria, mas fracassava em exibi-la. Vez após outra Paulo pergunta incredulamente: “Não sabeis?” (1Co 3.16; 5.6; 6.2-3, 9, 15-16, 19) e introduz sua instrução apostólica com fórmulas como: “Não quero que ignoreis” (p. ex., 1Co 10.1; 12.1). Ele deixa claro que, se a pessoa natural ou não regenerada é incapaz de compreender a verdade de Deus, a pessoa espiritual ou regenerada “julga todas as coisas”. Quer dizer, o que a pessoa natural não é capaz de discernir a pessoa espiritual pode e discerne, porque ela é habitada e governada pelo Espírito Santo e tem assim “a mente de Cristo” (1Co 2.14-16).

Essa convicção leva Paulo, na mesma epístola aos coríntios, a apelar para a razão de seus leitores. Ele escreve:

Falo como a criteriosos; julgai vós mesmos o que digo.

— 1 Coríntios 10.15

Em outras cartas do Novo Testamento, exortações similares aparecem. Os cristãos devem “testar os espíritos” (isto é, mestres humanos que alegam inspiração divina) e devem de fato testar tudo o que ouvem (1Jo 4.1). Igualmente, quando diante de decisões éticas difíceis, devem dedicar suas mentes ao problema, até que “cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente” (Rm 14.5). É marca da maturidade cristã ter nossas faculdades exercitadas “pela prática […] para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5.14).

Devemos, portanto, levar a sério essa prescrição bíblica de colocar em uso nossas faculdades racionais e críticas. Não devemos enxergar a oração e o uso da razão como meios opostos e alternativos para nossa compreensão da Escritura: devemos combiná-los. Daniel no Antigo Testamento e Paulo no Novo são dois bons exemplos desse equilíbrio:

Não temas, Daniel, porque, desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras.

— Daniel 10.12

Pondera o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas.

— 2 Timóteo 2.7

Não basta nos humilharmos diante de Deus e esperar dele compreensão; devemos também dedicar nossa mente a compreender a Escritura e ponderar sobre o que está escrito nela. Como diz Charles Simeon:

Tendo em vista a obtenção de conhecimento divino, somos instruídos a combinar a dependência do Espírito de Deus com nossas próprias pesquisas. O que Deus uniu dessa forma, portanto, não tentemos separar[1].

Algumas vezes nosso crescimento na compreensão é inibido por uma autoconfiança orgulhosa e distante da oração, mas outras vezes por pura preguiça e indisciplina. Aqueles que desejam crescer no conhecimento de Deus devem humilhar-se diante do Espírito da verdade e empenhar-se a uma vida inteira de estudo.

[1] Sermão 975 em Horae Homileticae (1819)

Foto: Freeimages

*Trecho do livro Para entender a Bíblia, de John Stott (p.181 – 183).

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