Se o título não parece muito ortodoxo, devo a John Stott a ousadia. Ao escrever sobre as aparições de Jesus depois da ressurreição, o autor de A Bíblia Toda, O Ano Todo dá a Tomé o título de “padroeiro desta era de dúvida”. E cita também Salman Rushdie, o conhecido autor de “Versos Satânicos”: “A dúvida é condição central do ser humano no século 20”.

Ler as meditações da semana 33 do devocionário do teólogo inglês, além de nos aproximar do calendário cristão, revela um pouco mais daqueles dias que se seguiram à celebração da Páscoa. O caso de Tomé é clássico. Primeiro, Stott apresenta-o como “ausente”, por ter perdido a aparição de Jesus exatamente na Páscoa, encontrando-o uma semana depois. Em seguida, Tomé é chamado de “cético”, porque não acreditara no que disseram os discípulos (“vimos o Senhor”, Jo 20.25). E, finalmente, Tomé é apresentado como “crente”, cuja frase está longe de ser apenas retórica: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20.28).

Para Stott, “o fundamento da fé cristã ainda é o testemunho ocular dos apóstolos. Cremos em Jesus Cristo hoje não porque o vimos, mas porque eles viram”. Em Como Lidar com a Dúvida, Alister McGrath mostra como nossas desconfianças, perguntas e dúvidas podem e são como uma trilha para conhecer melhor a Deus. Para ele, “fé não é acreditar sem provas, mas confiar sem reservas — confiança em um Deus que se mostrou digno dessa confiança”. Tomé sabia disso.

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Marcos Bontempo, diretor-editorial da Ultimato.

 

  1. “E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais.
    E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras que com elas estavam, as que diziam estas coisas aos apóstolos.
    E as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.” Lucas 24:9-11
    Portanto, não as creram, mas Tomé disse o salmo que todo crente deve saber na ponta da ligua, “Direi do SENHOR: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.” Salmos 91:2.

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