O Leão, A Feiticeira e O Guarda-roupas: um musical
Porque a adaptação da obra de C. S. Lewis para o teatro continua atual neste Natal
Aurora Sophie Vieira De Matos*
Marcus Vinicius Matos**
Priscila Veira e Souza***

Em mais uma passagem por Londres, a montagem da peça O Leão, A Feiticeira e O Guarda-roupas, baseada no livro de C. S. Lewis, continua sendo um sucesso em West End. Com ingressos esgotados por meses em 2025, o musical segue impressionando diferentes gerações e movimentando a crítica no Reino Unido. Neste ano, em que celebramos os 75 anos da publicação dessa já clássica obra de Lewis, a peça esteve no teatro Sadler´s Wells, e a montagem contou com patrocínio do Arts Council of England. Esta versão da peça, dirigida por Mike Fentiman, mistura “a arte de marionetes, com uma narrativa encantadora, e um talentoso elenco de atores-músicos”, de acordo com os Diretores Executivos e de Arte, Britannia Morton e Sir Alistair Spalding CBE. O elenco contou com artistas novos e outros já consagrados no teatro e no cinema, como Joanna Adaran (Susan), Kudzai Mangombe (Lucy), Shane Antony-Whitely (que faz tanto Maugrim, quanto Edmund) e Katy Stephens (Feiticeira Branca).
Para Marcus Vinicius Matos, chama atenção, na peça, a escolha estética utilizada para a caracterização das personagens que habitam Nárnia. Tanto os animais falantes – castores, raposas, lebres, pássaros –, quanto seus adversários, os servos da Feiticeira Branca – minotauros, anões, lobos, etc, parecem usar uma alternativa estética bastante interessante. Os animais são todos antropomórficos: os atores não utilizam roupas de animais, mas apenas referências sutis. Por exemplo, o rabo dos castores é algo semelhante a uma raquete de tênis que, somada às orelhas e maquiagem, caracterizam o casal de castores. Da mesma maneira, o Lobo Maugrim, chefe da polícia secreta da Feiticeira, é caracterizado por um ator usando uma máscara de Lobo, calças de couro pretas, e muletas nas patas dianteiras – o que dá um aspecto sinistro para sua movimentação, principalmente na luta contra Pedro.
Essa opção estética é bastante coerente com a proposta do musical, que já se inicia com um soldado tocando piano, solitário no centro do palco, enquanto a plateia se acalma para o espetáculo começar. Agora, é preciso destacar o uso dos uniformes militares. Os animais falantes de Nárnia tem no figurino algo que lembra os uniformes das forças Aliadas nas Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, lembram também um pouco a estética popular da Aliança Rebelde, de Star Wars – com verde oliva, cáqui e camuflados diversos. Por outro lado, os servos da Feiticeira Branca utilizam uniformes militares que assemelham àqueles das forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, com ênfases em preto e cinza. Até os óculos de pilotos de carros de combate lembram o exército da Alemanha que, por sua vez, também inspirou a caracterização dos Storm Troopers e do próprio Darth Vader em Star Wars.
Essas opções parecem ter sido escolhidas cuidadosamente para o contexto deste ano. Em particular, no dia em que assistimos a esta peça, o governo Britânico testou o envio de uma mensagem de emergência para todos as pessoas residindo no país. Por acaso, o horário da mensagem de emergência coincidia com o do musical, o que levou a produção a solicitar não apenas que a plateia colocasse os celulares no modo silencioso, mas que os deligassem – porque o alerta de emergência do governo britânico, mesmo em teste, soaria no teatro. Mesmo com a maioria dos celulares desligados, alguns espectadores ainda tiveram o som de emergência sendo testado, justamente na cena em que as crianças estão na casa dos castores – e os atores fizeram piadas como “ouço algo…precisamos estar em alerta em Nárnia, nesses tempos sombrios”, levando a plateia aos risos com a situação.

No entanto, Aurora destaca o fato de que várias das escolhas artísticas e estéticas da peça, para além dos uniformes e figurino, se parecem com outros musicais de sucesso em West End, Londres. Há muitas semelhanças com a Ópera infantil “Wolf, Witch, Giant, Fairy” (Lobo, Bruxa, Gigante, Fada). Esta obra, que esteve em cartaz por seguidas temporadas, dividindo a audiência com peças clássicas como O Quebra Nozes e O Cisne Negro, em prestigiosos espaços de arte, como a Royal Opera House, se destacou pela inovação, pela beleza e pela comédia. As semelhanças entre o musical baseado na obra de Lewis, e a ópera infantil são enormes. Embora os gêneros sejam diferentes, ambos empregam uma gama de artistas capazes de interpretar, cantar e tocar instrumentos – às vezes, ao mesmo tempo.
Em especial, diz Aurora, são semelhantes as formas de montar personagems não humanos, como o Gigante em Wolf, Witch, Giant, Fairy, e Aslam, em O Leão A Feiticeira e o Guarda Roupa. Ambos utilizam estruturas de madeira que permitem a visualização dos artistas que fazem sua voz. A opção foi manter visivel os atores e prestigiar sua interpretação – ao invés, por exemplo, da utilização de robôs ou vídeos para representar estes personagens. Essa também é uma escolha artística que aparece em Frozen, da Disney, na maneira como foi montado o personagem Olaf, o boneco de neve falante – que é movimentado quase inteiramente como uma marionete, pelo ator que o interpreta.
O Natal, em O Leão, A Feiticeira e o Guarda Roupas, tem duas peculiaridades. Em primeiro lugar, ele chega no verão, e não no inverno. Essa primeira carateristica é importante, porque traz identidade com toda a população do Sul Global. Essa é a experiência de todos que celebram a data no hemisfério sul, onde está a maior parte da população mundial que também experimenta algum tipo de opressão: a pobreza, as ditaduras, a morte precoce e violenta. O Natal, tanto na peça quanto no livro, trás a libertação de Nárnia. É no Natal que Noel – personagem alegoricamente cristianizado na obra de Lewis, que aparece como sendo um servidor de Aslam – entrega as armas para as personagens principais. Com exceção de Edmundo, que havia traído sua família e servia à Feiticeira Branca, todos recebem presentes que os capacitam a lutar contra a tirania da Feiticeira. Pedro recebe sua espada e escudo – com os quais derrota Mulgrim, posteriormente; Suzana recebe seu arco e flechas; e Lúcia recebe o precioso frasco com o elixir capaz de curar qualquer ferimento antes da morte.
A coragem que as personagens principais encontram no Natal em Nárnia é a mesma que precisamos hoje, para enfrentar as lutas globais contra os pecados do racismo, da xenofobia e da ganância. Quando vemos líderes “nacionalistas cristãos” fazerem discursos políticos, tentando se apropriar do Natal no Reino Unido; ou buscando usar as Boas Novas do Evangelho para justificar os pecados do racismo através de uma teologia de domínio e poder; é nesse contexto, que a obra O Leão, A Feiticeira e o Guarda Roupa encontra nova relevância. Lewis nos lembra, logo no início de seu livro, e da peça de teatro que aqui comentamos, que todas as crianças em Londres ja foram refugiadas. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando vários destes valores nefastos mobilizavam a política e a economia na Europa, o Reino Unido acolheu crianças de Londres e de vários países que tinham sido invadidos pelo Eixo. Novamente, hoje, quando estes valores assolam o mundo e a Igreja, precisamos nos lembrar daquelas famílias inglesas que acolheram crianças refugiadas de guerras e regimes autoritários.
Que neste Natal, possamos receber também nossas armas, que o Espírito Santo nos dá, as quais esse musical nos lembra. O amor ao próximo, inspirado no amor de Deus, que é capaz de se colocar na situação do outro, do vizinho, do pobre, do refugiado, do oprimido. Que recebamos a paciência e temperança, capazes de acolher todo e qualquer pecador, incluindo aqueles mais odiosos, os criminosos, os corruptos, os preconceituosos. Que tenhamos também um espírito leve, capaz de rir e nos alegrar, e de não nos achar mais importantes do que somos. Essa capacidade, de sorrir, de amar, e de ouvir, é o que falta a personagens como a Feiticeira Branca e a muitos líderes políticos históricos e também atuais que, inspirados no Inimigo, querem resgatar uma suposta grandeza nacional ou pureza racial à qual se julgam dignos e merecedores. O inverno que eles causam, nos ensina Lewis, pode ser longo, mas termina no Natal.
Nota editorial: As opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade exclusiva dos autores.
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*Aurora Sophie é estudante do sexto ano do primário (KS2) na John Locke Academy, em Londres. Ela é membra da Igreja Anglicana de St Margaret, em Uxbridge, e fã de C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien e Jaqueline Wilson. Ela tem 10 anos e gosta de livros, piano, futebol feminino e de escrever textos.
**Marcus Vinicius Matos é professor efetivo (Senior Lecturer) de Direito Público em Brunel University of London, no Reino Unido. É doutor em Direito pelo Birkbeck College, mestre e bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro honorário do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB); membro da Diretoria Nacional da Aliança Bílbica Universitária do Brasil (ABUB); e membro fundador da Rede Cristã de Advocacia Popular, a RECAP. É pai de Aurora e torcedor do Flamengo. Siga no Instagram, Bluesky e Twitter: @mvdematos. Siga também a página do Blog Dignidade, no Facebook.
***Priscila Vieira e Souza é jornalista formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, mestre e doutora em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ). É também Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul-America (FTSA). Foi fundadora do grupo da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) em Ponta Grossa, e coordenadora da ABU Editora. Junto com Marcus Vinicius Matos, é autora do premiado livro Imagens da América Latina: Mídia, Cultura e Direitos Humanos, vencedor do prêmio ABEU na categoria de melhor obra em ciências sociais aplicadas.
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Antonia Leonora van der Meer
Que texto muito interessante, abre o apetite para ver esse teatro sobre a obra prima de C.S. Lewis, quem sabe um dia aparecerá em vídeo online? Não só o teatro deve valer muito a pena, como a maneira como cada membro da família faz sua análise é rica em detalhes e profunda em sua visão e perspectiva..
Equipe do Blog Dignidade!
Muito obrigado pela leitura e pelo comentário, Tonica! 🫶❤️🙏🏽