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“Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” (Provérbios 22:6)

Refletir sobre o processo rápido de envelhecimento da população brasileira sob uma perspectiva bíblica é convite instigante no Brasil do século XXI. O envelhecimento envolve muito mais de que mudar o que pensamos sobre a velhice e os scripts culturais construídos acerca dessa etapa no curso da vida, mas especialmente pensar as mudanças necessárias nos arranjos familiares, nas igrejas e instituições societárias que prestam serviços relacionados ao bem comum e ao cuidado humano, bem como nas cidades e nos espaços agrícolas em decorrência do aumento da longevidade.  A estimativa da Organização Mundial de Saúde para o ano 2050 é de teremos dois bilhões de pessoas idosas compondo a população mundial, uma em cada quarto pessoas serão idosas. No Brasil, a cada ano, um milhão de pessoas completam sessenta anos.

Costumamos pensar teologicamente sobre esse versículo de provérbios e aplicá-lo na dimensão de um caminho que conduz a uma plenitude de vida que se concretiza no céu. Não negamos essa dimensão, porém gostaríamos de propor uma hermenêutica de profundidade (Thompson) para descrever uma perspectiva sócio-histórica do desenvolvimento humano ao longo da vida, utilizando uma abordagem intergeracional na interpretação do versículo.

Evidências explicam que os processos de envelhecimento nas sociedades contemporâneas refletem as trajetórias de vidas marcadas pelas iniquidades sociais, pelo estresse laboral e a precariedade das ocupações, pela insegurança alimentar – seja pela escassez de alimentos ou pelo excesso de consumo de alimentos inadequados -, pelos níveis de escolaridade, pelas doenças crônicas não transmissíveis e os determinantes sociais da saúde, pelas relações etnico-raciais e assimetrias de gênero, pelas ocupações sócio-espaciais nos territórios de alta e baixa renda, pela ausência ou presença do lazer e do prazer, pela espiritualidade desfrutada ou recusada e pelas vivências de relacionamentos baseados na dignidade humana ou nas violências nos diversos ciclos da família.

A pergunta que precisamos fazer é: Considerando que vamos viver mais anos, o que seria educar para conseguir mais qualidade de vida nesses anos? A longevidade vai produzir ou apenas irá refletir a inteligência emocional acumulada na trajetória de vida de mulheres e homens? Qual o legado para as gerações do presente e do futuro? Não pretendemos apresentar respostas, mas desenhar temáticas que devem ser cogitadas pelas pessoas, famílias e grupos societários.

Utilizando o texto bíblico proposto passamos a algumas dessas categorias  temáticas organizadas segundo as palavras chaves do versículo:

 

Educar a criança equivale a estabelecer pactos e responsabilidades individuais, parentais e familiares, comunitárias, institucionais e societárias com a qualidade de vida dessa criança que se refletirá no corpo senescente do porvir na velhice. Educar transcende a ensinar, requer evocar um modo de vida baseado num processo contínuo de emancipação e responsabilização humana, mas na perspectiva do lúdico e da dignidade. Educar é matriz curricular para a vida, na vida e ao longo da vida. Em relação, em comunhão, em convivência somos educados. Mesmo diante do intenso processo de redução dos níveis de fecundidade, com diminuição do crescimento da população infantil brasileira ainda teremos muitas crianças nascendo e precisamos educa-las educando-nos.

 

Caminho aborda a multidimensionalidade da dupla cidadania cristã. O caminho da fé, o caminho da integridade, o caminho do dom e da gratuidade, o caminho do amor, mas também o caminho do Tratado do Decrescimento Sereno (Latouche), da Não-Violência, da Pedagogia da Esperança (Freire) e do prazer (Alves). Enfim, a combinação de caminho, verdade e vida que o evangelho oferece e a ciência quase sempre esquece. Caminho que se constrói na caminhada, mas que já foi demarcado e delimitado pelo nazareno que caminhava de cidade em cidade, com comida-comunhão-oração temperada com compaixão.

 

Que deve andar. Andar dá ideia de mobilidade. Temos enfrentado sérios problemas com a mobilidade urbana, intra e inter–urbana, com as mobilidades migratórias nacionais e internacionais, com os desafios da mobilidade acadêmica, mas acima de tudo com os avanços e retrocessos da mobilidade na posição social.  Andar é uma ação dialeticamente oposta à possibilidade de estagnar.  O direito à mobilidade deve ser exercitado em todas as suas dimensões pela criança ao longo do curso da vida. Andar é construir capacidades e desfrutar de estruturas de oportunidades geradas pelo Estado, pelo mercado vigiado pela função social da propriedade e pelo controle social da comunidade. Andar é construir renovação do pensamento, não conformação com a imobilidade intelectual, indignação pela imobilidade afetiva, clamor por uma teologia caminhante que procura andar em caminhos que Jesus andou.

Vale ressaltar outra dimensão do andar. Recordo-me de uma frase do meu pai – um idoso paraplégico de 82 anos que luta para andar nos espaços urbanos onde os projetos arquitetônicos não foram planejados para incluir –: “Mais do que as ausência das rampas nos edifícios nós enfrentamos mesmo é a escassez de rampas nas mentes e corações humanos que não se sensibilizam em promover o andar dos deficientes físicos nos consultórios e serviços de saúde, nas escolas, nos transportes públicos, nas igrejas, na cidade. O deficiente é suficiente, a sociedade é que é deficiente”.

 

Até quando envelhecer traduz a ideia de processo, de permanência e troca intergeracional, de promessa de que desfrutaremos desse tempo de longevidade e repartiremos as conquistas com familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos.  Até quando não se trata de um advérbio interrogativo, mas de uma compreensão interna e profunda da passagem do tempo e da alegria em desfrutar a vida, da participação na qualidade da vida do “Outro” do qual me torno “Próximo”. Até quando é grito de liberdade, é encontro da alma com o self e a celebração da solitude. É uma atitude de espera silenciosa, madura e resiliente. É saber que é possível ser saudável mesmo lidando com a doença. É o acolhimento do auto-cuidado apoiado (eu me cuido apoiado pela família, amigos, irmãos na fé, comunidade e profissionais do cuidado). Até quando é exercício para manter a capacidade funcional e a paciência para enfrentar as disfuncionalidades físicas e funcionalidades limitadas da memória. É a saudação do encontro com a morte e com a finitude da vida sem as correntes paralizadoras do medo e da desesperança. É a celebração da gerotranscendência, do contentamento e da espiritualidade dos gestos simples e secretos. Até quando o Senhor conceder “vida aos nossos anos e anos às nossas vidas”.

 

Baseado nesse exercício hermenêutico no provérbio bíblico é possível discernir que envelhecimento precisa ser cada vez mais ser compreendido como resultado de uma trajetória biológica, mas principalmente social, cultural e espiritual. Trajetória baseada em conquistas e violações de direitos na fase pré-natal, infância, adolescência, juventude e adulta. Os processos de senescência serão tão diferenciados na população idosa quanto foram as trajetórias de vida marcadas pela injustiça social e escolhas equivocadas de comportamentos de risco à saúde física, psicológica e espiritual.

O descompasso entre transição demográfica e instituições de apoio aos processos de envelhecimento já demanda uma ampliação de consciência muito rápida por parte de cada pessoa, família e grupo social.

Estamos envelhecendo e a ditosa velhice é uma conquista de todos. É preciso construir um senso de comunidade, uma gestão urbana e agrícola, um novo modelo de desenvolvimento nacional para além da lógica do capital, uma nova ordem global pautada na qualidade de vida e respeito à dignidade da pessoa idosa. Fomos chamados para não nos desviarmos do caminho. Que seja Assim!!

 

“Quando era novo tinha esperança

De encontrar um velho que se deixasse educar,

Quando for velho espero

Que se encontre um moço e eu

Me deixe educar” (Bertolt Brecht)

 

Valter e Leides Barroso Azevedo Moura

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