Ao reconhecer que a glória é somente de Tupana, e que no silêncio ele está trabalhando, meus olhos se enchem de grande esperança

 Por Dulce Arehum

A Bíblia está cheia de verdades e é nela que me apego sempre. Nós, indígenas da etnia Satere-Mawé, costumamos, em nossa aldeia fazer o ritual do sapó. Sapó é a bebida não-fermentada feita do fruto do guaraná. E o ritual é a socialização dessa bebida entre todos da roda.

O jeito como é ralado o guaraná é delicado, não é de qualquer jeito. Numa pedra específica esse bastão é ralado, sempre em movimentos circulares. Dele começa a sair um líquido grosso, o qual vai se misturando na água, dando a cor perfeita para se beber.

A mulher sábia, vai escrevendo silenciosamente, na alma palavras de gratidão e de sabedoria. Depois de pronto, a cuia com a bebida é dada a todos da roda.

Ralar o guaraná é uma atitude muito honrosa, e beber do Wara (guaraná ralado) é dar honra para quem ralou, além de ingerir do “wara”, que significa conhecimento.

Eu vejo a nossa vida cristã assim; como o guaraná sendo ralado na pedra. Todos nós somos tão ralados e mergulhados nas circunstâncias que parece que vamos morrer e pior, parece que estamos mesmo morrendo numa batalha, sem ajuda, nem habilidades.

Mas…Tupana tem habilidades certas e nos torna aptos para enfrentar situações.

Ele nos rala, nos fere para depois nos tornar fortes para ajudar os nossos irmãos na fé. Ele dá entendimento para seguir com prudência no dia-a-dia e move as situações com intenção de aumentar nossa fé nele.

Ele aumenta nossa coragem e tira nosso medo de morrer dentro dos conflitos das trevas. Ele nunca permitirá que nossa vida, já ancorada nele, morra nas trevas ou se afogue nela.

Tupana em sua Palavra nos fortifica e nos traz confiança de que mesmo perdendo a nossa vida vamos ganhar!

Por que nele nos movemos e existimos. (At 17.28)

A glória sempre é de Tupana e por isso que o apóstolo Paulo, na carta aos Coríntios, compara nossa vida a um vaso de barro, no entanto, carregamos o tesouro que é o evangelho para que Cristo em nossa fragilidade seja glorificado.

E ele continua o versículo 16 dizendo que: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia” .

A glória sempre é de Tupana. E por isso Tupana me pede que eu confie nele. A minha esperança está nele.

Paulo continua dizendo que “a nossa leve e momentanea tribulação produz para nós eterno peso de Glória, que acima de toda comparação”, então eu não preciso temer nada!

As contendas, as lutas, as dores e até as injustiças aqui na terra são como o processo de “ralamento do sapó”, são passageiras, por isso que ao reconhecer que a glória é somente de Tupana, e que no silêncio ele está trabalhando, meus olhos se enchem de grande esperança.

Por isso, embora eu seja ralada e mergulhada nas adversidades eu estarei sendo preparada para uma grande recompensa com Cristo. As nossas experiências trazem pra nós uma boa memória de como Ele sempre é o nosso bom Pai.

E através desse “ralamento” podemos abençoar muitas nações e famílias da Terra.

Ele, nosso Tupana, tem o jeito certo de nos ralar.

Escrito em 27/07/2020.

Dulce Arehum,

 

Artigo publicado originalmente no livro Poesia por uma jovem indígena: haryporia tapy’ yia miwan, Dulce Arehum Sateré-Maué (Editora Farlands).
Imagem: Unsplash.
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