A música na construção da Igreja
“O Senhor Deus é a minha fortaleza; ele faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. Ao mestre de canto. Para instrumentos de cordas.” (Hc 3:19)
Começo com esta inscrição de Habacuque porque ela me soa como uma dedicatória antiga, uma rubrica sagrada, um bilhete deixado na partitura da fé: “Ao mestre de canto. Para instrumentos de cordas.” É como se a própria Escritura reconhecesse que, no caminho de Deus com o seu povo, a música não é ornamento: é direção.
Dom de música?, alguém poderia perguntar, como quem vacila diante de algo tão comum e, ao mesmo tempo, tão misterioso. Comecemos pelo princípio.
“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3:16)
Se a Palavra de Cristo deve habitar ricamente em nós, a música não é apenas um meio de expressão; é uma casa, uma acústica onde a Palavra ressoa, se fixa, nos forma. Ando às voltas com a ideia de construção, e, refletindo sobre a Carta aos Efésios, penso na igreja como o grande sonho arquitetônico do apóstolo Paulo: um edifício vivo, uma comunidade de pedras que respiram, concebido pela Trindade para Jesus, antes da fundação do mundo. Deus nos predestina para esse projeto; resgata-nos; adota-nos como filhos; reúne-nos das dispersões de Babel; e, por meio de seu Filho, faz dele a cabeça de um corpo espiritual. Pela boca do apóstolo, ele nos revela o segredo do canteiro de obras: uma comunidade em que a Palavra habita com abundância; em que nos instruímos e aconselhamos mutuamente, com sabedoria; em que louvamos a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais; tudo permeado de gratidão no coração.
Para erguer tal casa, Deus convoca artesãos. Como no Êxodo, quando “chamou pelo nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o encheu do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo artifício; e lhe deu por companheiro Aoliabe” (Êx 31:1–6). Deus chama pelo nome, dá o Espírito, concede habilidade e, generosamente, junta companheiros. Entre nós, não é difícil ver essa cena se repetindo: o músico-ministro, chamado pelo nome; ao seu lado, amigos de ofício, parceiros de jornada — gente como instrumentistas, técnicos de som e vídeo e tantos irmãos e irmãs habilidosos da igreja —, todos mobilizados para “fazer tudo o que o Senhor ordenou” no cuidado do lugar de sua habitação. Porque, afinal, a Igreja é o tabernáculo de Deus entre os homens, e a música participa desse erguer, desse aparafusar de alma com alma, desse assentamento de verdades sobre o coração.
Recordo aqui a frase de um pregador, que nos falava sobre as nossas “gavetas mentais”: essas caixinhas onde tentamos, em vão, acomodar Deus e seus pensamentos. Há, porém, recursos que Deus mesmo usa — e que nós imitamos com humildade — para dizer o indizível, para tocar o que nos escapa pelas bordas da lógica: um desses recursos é a música. Quando a música veste as palavras como um manto, ela lhes empresta calor, densidade e memória. Faz o que a palavra, sozinha, raramente consegue: atravessa as gavetas e encontra o coração.
Pensemos numa cena conhecida, passada em Varsóvia, durante a guerra: um pianista, escondido, faminto, mãos geladas, é surpreendido por um oficial alemão. A mando do oficial, ele precisará provar que é um inofensivo músico, como alegara. Então ele se senta ao piano e toca, com a vida inteira, uma peça de Chopin — o Noturno em dó sustenido menor (op. póstuma). Naquele instante, não há argumento, não há doutrina, não há discurso. Há apenas a verdade condensada num timbre, numa cadência, numa ferida que canta. A música alcança o oficial. E, ali, em poucos minutos, a história inflexiona. É um retrato forte do que a música pode fazer: abrir portas que a força não abre, dar hospitalidade à palavra quando o coração está gelado.
Na edificação do povo de Deus, a música cumpre funções preciosas. Ela prepara o coração para o culto, como quem ajusta um instrumento antes da primeira nota. Predispõe-nos a nos expor aos atos do culto, desalojando as distrações que nos tornam espectadores de nós mesmos. Ensina e confirma doxologias — essas certezas confessadas que não cabem apenas na cabeça, mas pedem corpo, respiração e pulsação; por isso os hinos sobrevivem às estações, como colunas de memória. Aliás, quantos de nós não nos lembramos de letras inteiras muito depois de esquecermos o esboço de um sermão ou a frase de um livro? A música grava a verdade nos sulcos da lembrança. E, sobretudo, os Salmos nos educam na “modulação” do coração diante de Deus e dos outros — amigos, irmãos, inimigos. Neles aprendemos a chorar sem cinismo, a celebrar sem ingenuidade, a pedir sem disfarce, a esperar sem dureza. Os Salmos ensinam a alma a ter cores e tons.
É nesse canteiro que o músico trabalha. Seu ministério não é apenas conduzir melodias; é estabelecer ritmos de fé, encarnar doutrinas em canto congregacional, criar ambientes de acolhimento para a Palavra, ajudá-la a habitar ricamente em nós. Quando ele levanta a mão, quando escolhe um tom que abraça a assembleia, quando costura um salmo a um hino e a um cântico, ele cumpre uma vocação antiga: a do “mestre de canto”. Não se trata de estrelismo ou de técnica pela técnica — embora haja arte, estudo, suor e responsabilidade —, mas de serviço: serviço às almas, à memória da comunidade, ao edifício que juntos levantamos.
Gosto de imaginar Deus dizendo, numa linguagem emprestada à poesia popular: “Devias vir para ver os meus olhos tristonhos e, quem sabe, sonhavas meus sonhos, por fim.” (Cartola) É como se o Senhor convidasse o músico — e, nele, a todos nós — a sonhar seus sonhos: o sonho da Igreja, o sonho de uma casa comum, de um povo reunido, de um corpo que canta uma só esperança, um templo feito de gente. Que os sonhos de Deus sejam os nossos; que a sua música seja a nossa pauta; que o seu Espírito seja o sopro que dá vida a cada nota e sustém cada silêncio.
Por isso, pedimos ao Senhor que renove em cada músico que serve a Igreja o passo leve da corça, a firmeza de quem pisa nas alturas, a alegria de quem sabe que a música, quando serva da Palavra, é martelo e bálsamo, coluna e janela. Que seus companheiros de ofício sejam muitos e fiéis; que a Igreja aprenda com eles a cantar melhor para crer melhor, a crer melhor para amar melhor.
E que esta antiga dedicatória continue aparecendo no rodapé da nossa adoração, como quem sela a pauta e abençoa os instrumentos: “Ao mestre de canto. Para instrumentos de cordas.” (Hc 3:19b)
A cada músico-ministro agradeço por colaborar na construção — com fidelidade, beleza e esperança —da casa onde Deus habita.