Versão ampliada de artigo publicado na edição 383 da revista Ultimato.

Recentemente me associei ao movimento Parole O_Stili (Palavras Hostis) surgido em Trieste, na Itália, em 2016.

Trata-se de uma associação civil, sem fins lucrativos, que tem como objetivo “capacitar e educar os usuários da Internet a escolher formas de comunicação não hostis”. Promove os valores expressos no Manifesto da comunicação não hostil[1]. O slogan que me cativou foi o seguinte: “Se você acredita que as palavras têm peso e valor, então Parole O_Stili também é você.”

Esse movimento é dirigido a todos os cidadãos conscientes do fato de que “o virtual é real” e de que a hostilidade nas redes sociais tem consequências concretas, graves e permanentes na vida das pessoas.

Há muito material já traduzido para outras línguas no site deles. Trabalham com escolas, universidades, empresas, associações e instituições nacionais e territoriais “para difundir práticas virtuosas de comunicação na Rede e promover uma ampla conscientização sobre as responsabilidades individuais”.

Para me associar foi-me requerido subscrever o Manifesto da comunicação não hostil, em formato de decálogo, já traduzido para o português[2].

1. Virtual é real

Na Internet, só falo ou escrevo o que eu teria coragem de dizer pessoalmente.

2. Nossas palavras refletem o que somos

As palavras que escolho dizem a pessoa que sou; elas me representam.

3. As palavras dão forma ao pensamento

Tomo todo o tempo necessário para expressar o que penso da melhor forma possível.

4. É preciso ouvir antes de falar

Ninguém está certo o tempo todo, nem eu. Ouço de forma sincera e receptiva.

5. As palavras são pontes

Cuido das palavras para entender, me fazer entender e me aproximar das pessoas.

6. As palavras têm consequências

Sei que minhas palavras podem ter consequências, sejam elas grandes ou pequenas.

7. Somos responsáveis pelo que compartilhamos

Só compartilho textos e imagens após ler, avaliar e entender seu conteúdo.

8. Ideias podem ser discutidas; pessoas devem ser respeitadas.

Pessoas com opiniões diferentes das minhas não são inimigos a serem aniquilados.

9. Insultos não são argumentos

Não aceito insultos ou agressividade, nem mesmo se forem a favor do meu ponto de vista.

10. O silêncio também comunica

Quando a melhor opção é não dizer nada, eu me calo.

Surpreso com a proposta, procurei me inteirar sobre quem está por trás dessa associação. E encontrei um pequeno memorial sob o título As pessoas e a comunidade: “Parole O_Stili nasceu do entusiasmo de cerca de 300 profissionais, da comunicação empresarial e da comunicação política, influenciadores e blogueiros, aos quais muitos professores, estudantes, empresários e profissionais posteriormente se associaram… São pessoas diferentes, unidas pelo desejo de tornar a Rede um lugar menos violento, mais respeitoso e civilizado. Todos estão comprometidos com o combate à linguagem de ódio na Internet e o fazem aderindo ao Manifesto da comunicação não hostil“.

Meu pensamento é que se torna cada vez mais importante a consciência de que as redes sociais não são um espaço eticamente neutro, onde posso dizer o que não diria pessoalmente a uma pessoa que, muitas vezes, não conheço. O Facebook, o Twitter, o Instagram ou mesmo o YouTube não deveriam sofrer a “síndrome do carnaval”, onde, por quatro dias, se suspendem muitas regras morais, de etiqueta, de urbanidade e educação. Ao contrário, são um espaço virtual, onde a vida permanece real, para promover encontros, de toda sorte (daí o termo redes sociais). A única diferença é que não usamos tanto a boca para dizer o que queremos; usamos mais os dedos. No WhatsApp já se começa a enviar pequenos recados em forma de áudio. Mas o texto ainda predomina, associado ao compartilhamento de imagens e mensagens de outras pessoas.

Muitos irmãos, por não compreender bem a tecnologia por trás daquela caixinha de texto, pensam que estão encobertas pelo manto do anonimato. Entretanto, mesmo que estivessem perfeitamente escondidas, será que deixariam de revelar (a Deus, ao próximo e, em especial, a si mesmas) quem são, ao insultar ou difamar alguém? Ao agir ou reagir com hostilidade?

Quero crer que essa dimensão dos relacionamentos humanos também precisa das recomendações bíblicas sobre o caráter do cristão, sobre o discipulado de Cristo e sobre a busca de santidade. Porque, na mesma dimensão da vida natural, a vida virtual é contaminada pela tentação do pecado. E o mandamento de amar a Deus acima de todas as coisas, e ao nosso próximo como a nós mesmos tem plena aplicação aos relacionamentos estabelecidos e mantidos na grande Rede.

Termino parafraseando Tiago:

Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear os dedos, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã (Tg 1:26).

Se alguém não tropeça ao postar nas redes sociais é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo (Tg 3:2).

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Notas
[1] https://paroleostili.it/chi-siamo/
[2] https://paroleostili.it/wp-content/uploads/2018/11/manifesto_a4_PORBRvert.pdf

 

SOMOS TODOS NARCISO | REVISTA ULTIMATO

Narciso é aquele que “acha feio o que não é espelho”, que insiste em agarrar-se a si mesmo e não abre mão de viver por si mesmo. O narcisismo é a versão moderna do orgulho, para C. S. Lewis, o pior de todos os vícios.

É disso que trata a matéria de capa da edição de maio-junho da revista Ultimato, em breve na casa dos nossos assinantes. Para assinar, clique aqui.

  1. Dalva Regina Ribeiro Barbosa

    Muito bom e pertinente. Gostei do texto e da reflexão.
    Acrescentaria a ideia de que o ser humano tem pouca habilidade de análise e abstração e muita tendência em fazer julgamentos. Julgar leva a condenar ou inocentar. Um juiz o faz de acordo com as leis de seu local. Um pessoa julga de acordo com as suas particulares leis internas, seu conjunto particular de crenças. Isso facilita a disseminação de textos e imagens – as chamadas fake news. A pressa com que alguns postam é impressionante.
    Então me espanto com muitos textos advindos de pessoas que se dizem cristãs. Começo a refletir: será que o fim justifica os meios? Com certeza não.

    abraço

    Dalva R. R. Barbosa
    Dalva R. R. Barbosa

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