Recemente recebi diversos comentários a respeito de uma publicação anterior: “10 nomes de Deus e 18 de Jesus“. O nome próprio mesmo (todos os outros mencionados em referida publicação são ou nomes genêricos ou títulos), geralmente representado sem as vogais como YHWH ou YHVH, é o que dá mais confusão e causa mais polêmica. Por isto, resolvi publicar abaixo parte da introdução que escrevi para A Torá Bilingue, uma publicação da Abba Press de 2010. Um vídeo sobre os recursos da Torá Bilingue se encontra aqui:

E o texto reproduzido se segue…

Uma nota sobre a tradução do nome de Deus.

Esta tradução da Bíblia em português, a King James Atualizada, adota uma estratégia diferente do comum, para a tradução do nome próprio de Deus. Traduz o nome próprio, yhvh (יהוה), como “Yahweh”[1]. Esta estratégia precisa ser explicada. No texto hebraico original da Torá, a palavra genérica usada pelos judeus e pelos seus vizinhos para se referir à divindade era el (singular) ou elohim (plural) e os dois termnew2os são comumente traduzidos como “Deus”. Mas em Êxodo 3.13-14, lemos que este Deus tem um nome “próprio” que foi revelado para Moisés por meio duma sarça ardente. Nos manuscritos hebraicos este nome consta como yhvh, sem as vogais, mas é quase certo que a pronúncia original era “javé”. Porque consideravam que o nome próprio de Deus era sagrado demais para ser pronunciado, escribas que conservavam e copiaram estes manuscritos, conhecidos como os massoretas, acrescentaram às consoantes yhvh as vogais da palavra adonay que significa “o Senhor” (ou elohim que significa “Deus”) para indicar que esta palavra (o Senhor) deverá ser lida no lugar de yhvh. E tanto os tradutores para grego (kyrios) quanto os tradutores para latim (dominus) seguiram o mesmo costume de traduzir yhvh por “Senhor”. Também os tradutores para português de modo geral[2], traduzem este nome como “SENHOR”, tudo em maiúsculo, para se distinguir da palavra hebraica, adon, para “Senhor”. No período medieval, a palavra jeová era usada para traduzir yhvh, aproveitando das consoantes deste último e as vogais que os massoretas acrescentaram. Entretanto, a palavra jeová jamais foi usada no hebraico e por isso, raramente é adotada hoje.

Não se sabe exatamente quando ou porque os escribas antigos proibiram a pronúncia do nome de Deus. Presume-se que consideravam o nome sagrado demais para pronunciar. Ou, porque no conceito hebraico o nome era frequentemente associado com o poder de algo, a substituição do nome por “Senhor” ou “Deus” visava evitar o uso do nome na magia. O fato das traduções antigas seguirem o mesmo princípio de substituir o nome indica que a reserva era comum vários séculos antes da era. Entretanto, esta relutância não aparece no Antigo Testamento em si mas somente na perspectiva dos seus leitores muito depois. Isto se evidencia pelo uso frequente yhvh ou pelos prefixos yeho– e yo– ou os sufixos –yahu e –yah[3] em vários nomes judaicos e na elevada frequência do nome em si, bem mais que 6.000 vezes. Também, o texto que relata a revelação do nome, Êxodo 3.13-16, advoga claramente a divulgação do nome. Veja a tradução da Bíblia King James Atualizada:

(v.13) Porém Moisés acrescentou: “Quando eu for aos filhos de Israel e comunicar: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’ e me questionarem: ‘Qual é o seu Nome’, que deverei dizer?”

(v.14) Então afirmou Deus a Moisés: “Eu Sou o que Sou (ehyeh esher ehyeh). E deveis dizer aos filhos de Israel: Eu Sou (ehyeh) me enviou a vós outros!”

(v.15) Disse Deus ainda mais a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Yahweh (yhvh), o Deus de vossos antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó me enviou até vós. Esse, pois, é o meu Nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração!

(v.16) Vai, reúne os anciãos, as autoridades de Israel e anuncia-lhes: ‘Yahweh, o SENHOR, (yhvh) Deus de vossos antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó me apareceu e me revelou: ‘Em verdade vos tenho visitado e contemplado o que vos é feito no Egito.

Nesta passagem, Deus revela o seu nome como uma construção do verbo “ser”. A expressão no versículo 14, “’ehyeh ’esher ’ehyeh” geralmente é entendido como “eu sou o que sou” ou como “eu serei o que serei”[4]. A segunda expressão, “’ehyeh” é traduzida simplesmente como “eu sou”, como se fosse apelido da primeira expressão. Nos versículos 15 e 16, yhvh, é traduzido corretamente como Yahweh[5] como a terceira pessoa, plural e no tempo do verbo ’ehyeh (sou). Finalmente, o versículo 17 afirma que Yahweh é o mesmo Deus dos ancestrais de Moisés, de Abraão e dos patriarcas, e efetivamente reafirma as promessas de Deus feitas para eles.

Jesus se identificou com Yahweh no Evangelho de João quando aplicou as palavras, “eu sou”, repetidamente para si.[6] Assim, Jesus se apresenta como o cumprimento das promessas de Deus para Abraão e para todos os seus descendentes. Em Filipenses 2.9-11, Paulo também fez esta associação do nome Yahweh com Jesus, ao citar Isaías 45.21-24. E faz a mesma coisa em Romanos 10.13 quando cita Joel 2.32. Em Atos 2.21, Pedro também citou Joel 2.32 para afirmar a salvação para aquele que invoca o nome de Jesus (Yahweh).

Conclusão. Enfim, a Torá é um preciosíssimo escrito sagrado especialmente para judeus e cristãos, e a base para a auto-identidade e conduta de ambos. Nele aprendemos da obra e do amor criador de Deus em relação a toda a criação. Também aprendemos que Ele havia chamado um povo específico com a finalidade de abençoar toda a criação e todas as famílias da terra. Nisto tudo, a Torá especifica princípios e valores de conduta humana que até hoje formam a base para os mais nobres conceitos de piedade, justiça, misericórdia e responsabilidade em todo lugar onde a sua influência se divulgou, que é cada vez mais a abrangência do mundo todo.

É com muita alegria que apresentamos a Torá na língua hebraica e com tradução em português para os caros leitores. Que Deus abençoe a sua leitura e os guie por meio das Suas palavras como Ele tem feito desde a revelação deste Livro da Lei.

[1] A Bíblia de Jerusalém (Paulus Editora, 1981, revisão em 2002) também traduz como “Yahweh” enquanto a Biblia LEB (Edições Loyola, 1989) traduz como “Javé”, ambas as palavras de pronúncia igual com a única variação na maneira de transliterar a pronúncia para português.

[2] Às vezes, a Bíblia King James Atualizada (KJA) também adota esta estratégia.

[3] O monossílabo “Yah”, uma redução de “Yahweh” e não o sufixo –yah, aparece 25 vezes em todo o Antigo Testamento.

[4] Só que a forma imperfeito do qal em hebraico não expressa tanto uma existência futura quanto uma promessa de permanência.

[5] O acréscimo, “o SENHOR”, depois de “Yahweh” é desnecessário. Yahweh era escrito no hebraico com quatro consoantes e sem vogais: iode (י), he (ה), vav (ו) e he (ה). A diferença de ortografia decorre das regras de transliteração para português onde a letra iode se torna frequentemente “j” ao invés de “y”, a letra vav se torna “v” ao invés de “w” e o hei se torna mudo. Assim surgem as diversas variações que se encontram em português: Yahweh, Iahweh, Yahveh e Javé.

[6] Veja João 4.26; 6.20, 35, 41, 48, 51; 8.12, 28, 58; 10.7, 9, 11, 14; 11.25; 13.19; 14.6; 15.1.

 

Mais um detalhe: ao pesquisar a internet para fazer esta publicação, percebi que a Abba Press está fazendo uma excelente promoção da Torá Bilingue. Para mais detalhes veja o site deles AQUI.

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